Passeios habituais por entre as montanhas

Os dois já estavam a caminhar há mais de três horas. Um dia bastante soalheiro castigava-os sem piedade. Carregavam pesadas mochilas às costas e utilizavam bastões para se equilibrarem entre as incontáveis pedras multicolores que encontravam pela trilha. Kozinski levara o cantil até à boca. Enquanto enxugava os lábios com a manga da camisa disse ao amigo: tu sabes melhor do que ninguém que sou dado a fazer estas longas caminhadas, David, que é da minha natureza sumir… mas quando vou muito algures as pessoas me chamam de louco. Sem diminuir o passo, Kozinski guardou o cantil dentro da mochila e continuou: vê lá, o que é natural e agradável para alguns sendo para outros algo de imoderado, de loucura mesmo. Prosseguiram em silêncio sob um céu sem nuvens. David então parou subitamente, como se se sentisse ameaçado. Notou que havia alguma coisa estranha no horizonte, perto das montanhas. Pegou o binóculo para perceber melhor e estupefato, suando em bica, passou-o para Kozinski: olha isto! Kozinski ajeitou o binóculo perto do nariz e não conseguia acreditar no que estava a ver, aquilo era simplesmente impossível.

— P. R. Cunha

Quem é que está a rir agora

SALA DE INTERROGATÓRIO, 21H54

O polícia Ionesco fecha a porta atrás de si. Joga a pasta com os documentos de investigação sobre a mesa. A mesa de metal range e balança como se fosse uma velha locomotiva soviética. A mulher sentada assusta-se imenso com o barulho, recua. Os dedos nodosos dela movem uma madeixa de cabelos que está a cobrir-lhe o olho direito (especificamente o olho direito). A mulher parece embriagada, ou sob efeito de soníferos (calm caps).

IONESCO: dama, vou precisar que repita… [breve pausa, Ionesco fita a câmera de segurança, prossegue], por obséquio, preciso que repita o seu nome.

[Sem olhar para o polícia, a mulher diz: Marta.]

IONESCO: de quê?

MARTA: isto é mesmo necessário?

IONESCO [toma notas, levanta a manga do paletó, olha para o próprio relógio, depois compara-o com as horas do relógio de parede da sala de interrogatório]: sim, dama, completamente necessário.

MARTA: Marta, Marta de Albuquerque, senhor. [Um senhor que soa teatral, jocoso, como um soldado rebelde que responde sem vontade aos superiores.]

IONESCO: gostava que a senhora Marta de Albuquerque contasse-me o que realmente aconteceu na noite de ontem.

MARTA [olha para as mãos de Ionesco, sem anel]: já foste casado?

IONESCO: como é?

MARTA: não sejas um idiota, a pergunta é simples. Já foste casado?

IONESCO: não compreendo como isso pode nos ajudar aqui, senhora Marta de Albuquerque.

MARTA: briga entre marido e mulher, foi isso, uma simples briga entre marido e mulher. Se tivesses sido casado, compreenderias.

IONESCO [sem esboçar qualquer tipo de reação abre um dos envelopes e tira uma pilha de fotografias. As imagens mostram um homem roxo com inúmeras facadas no peito, o pescoço aberto, os olhos vidrados e sem vida parecem antever um encontro com o próprio diabo. Ionesco organiza metodicamente as fotos sobre a mesa, tal qual psicólogo durante aqueles estranhos testes de sanidade]: simples briga entre marido e mulher.

MARTA [solta um desdenhoso humn]: francamente… [pausa]. Estávamos no quarto. A minha irmã tinha acabado de ligar. E ela tem um daqueles casamentos perfeitinhos, sabes?, o marido perfeitinho, os filhos perfeitinhos que tiram notas perfeitinhas, e passam as férias a ler Gontcharóv, Tchekhov, escutando Claude Debussy, e escrevem resenhas a explicar os porquês de acharem que o niilismo de Sartre faz mais sentido do que o niilismo de Nietzsche. Eu desligo o telemóvel e digo: Francisco, quero o divórcio, do jeito que está não pode. Mas o Francisco nem me olha, fica a ler o jornal, como se, sei lá, como se eu estivesse a fazer a previsão do tempo, se chuva, se sol, essas coisas. Então eu decido insistir, porque, sabes, quero mesmo resolver tudo de uma vez por todas. O Francisco continua lendo o jornal: Francisco, estou a falar a sério, quero o divórcio. Devo ter repetido isso umas cinquenta vezes, percebes? E estava a aturar o silêncio do Francisco da melhor maneira possível, eu inspirava e expirava e dizia para mim mesma: tem calma, mulher, tem calma. Até que numa altura eu disse: Francisco, estamos a nos divorciar, amanhã vem aqui uma advogada, vamos nos divorciar, e o Francisco ri-se, um daqueles risos que duram apenas alguns segundos, riso de escárnio, prepotente, riso imbecil, de uma superioridade desprezível. [Marta olha para a mesa, dá duas batidinhas com o indicador na superfície lisa de uma das fotografias do homem mutilado]: pois bem, garanhão, quem é que está a rir agora?

— P. R. Cunha