Teoria do holofote (apontamentos desconexos)

Os reencontros de turma são sempre organizados pelos alunos mais bem-sucedidos.

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Capitalismo-mágico faz crer que as commodities consumidas pela sociedade simplesmente surgem, aparecem, materializam-se, como num sonho, contos de fada.

Ir ao supermercado, ao shopping mall e deparar-se com quantidades vertiginosas de produtos coloridos; ou, num contexto mais imediatista, comprar pela internet, no infinito abstrato acessado com um simples movimento do mouse, e a mercadoria chega à porta de casa.

Passe de mágica.

Fácil de esquecer que, a despeito do acelerado desenvolvimento robótico, as coisas ainda são majoritariamente produzidas por pessoas (isto é: dependem da supervisão e do esforço de seres humanos).

Se outros humanos não produzem, não embalam, não transportam, não fiscalizam, não entregam, de aí a magia perde todo o sentido.

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Um vírus que realmente causasse pânico/histeria/desespero — não um vírus biológico, mas virtual. Visto que a fuga da «realidade» é feita através da janela computadorizada, os pixels ganham novas dimensões. A falta de conexão com a internet, colapso do sistema streaming (Netflix, YouTube & associados), redes sociais em espera; difícil de prever como essa abstinência afetaria o psicológico de certos usuários.

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Estádio de futebol repleto de torcedores feitos de papelão — Pinocchios com rostos (fotografias) de torcedores de verdade. O barulho da torcida viria de altifalantes estrategicamente posicionados às laterais do campo. Ecos, gravações e reverberações garantiriam a atmosfera grotesca do espetáculo. 

— P. R. Cunha

Quarta nota #7 — vende-se

Caminhada na floresta
o cheiro da relva
sinistro presságio.

§ Se o propósito da vida humana for mesmo a tal busca da felicidade, acúmulos de experiências alhures, receber reconhecimento enquanto ainda se está vivo… então, dedicar-se à atividade literária a tempo inteiro é provavelmente a aposta mais absurda, mais incrível, mais gratificante, mais perturbadora e mais contraditória que tu poderias fazer.

§ Fulano escreveu um livro muito bonito, cujas linhas ninguém entendera. Só foram compreendê-las duzentos e cinquenta e cinco anos depois; quando Fulano há muito já servira de banquete às minhocas.

§ Ainda assim, Fulano permanece horas a devorar o Beckett, o Adorno, o Jünger, o Genet e outros. Depois, anota a respeito do Beckett, do Adorno, do Jünger, do Genet…

§ O perigo de se lidar com o absurdo diariamente: o absurdo se torna hábito, o absurdo cria moradas, o absurdo fica. Entra-se num ciclo em que sentes sempre um abismo.

§ Elefante na biblioteca: a literatura e todas as possibilidades criadas por ela não passam de commodities, mercadorias (Leandro compra livros, Marta os vende — livros custam dinheiros). Vamos às lojas adquirir esses trocinhos de papel, pagamos por eles. A dinâmica é bem esta: há um produto, as pessoas perdem o interesse pelo produto, o produto começa a desaparecer.

§ «As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. […] Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise» — trecho da carta aos leitores escrita por Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.

§ Livraria Saraiva pede recuperação judicial para reestruturar dívida de R$ 675 milhões. O pedido foi aceito. A empresa agora precisa de apresentar um plano econômico viável nos próximos sessenta dias.

— P. R. Cunha