Prelúdios

Brasília, abril de 2018. O Viajante está sentado à mesa do Clandestino Café e Música, escreve uma peça de teatro para a amiga galega Marina López Fernández. Há tempos que ele está preparado para uma grande viagem, mas ainda não havia chegado a altura de ir-se. O Viajante leva a chávena até aos lábios e sopra a superfície do café — a bebida ondulada o faz lembrar do oceano, da sua paixão pelo Atlântico. Aos poucos o efeito da cafeína enche os abismos do Viajante, os abismos entre aquilo que ele é e o que ele ainda gostava de ser. O Viajante poisa a chávena sobre a mesa e, como agora sabemos, decide que chegara a altura de ir-se. Vai viajar, portanto, o Viajante.

*

Brasília, maio de 2018. A viagem inicia-se num aeroporto. O Viajante contempla demoradamente os transeuntes que vão-e-vêm; pressente de certo modo o seu próprio destino — afinal, também ele está a ir-e-vir. Observa os passageiros desembarcarem, cumprimentam os familiares com grande euforia, como se chegassem de outro planeta e tivessem sobrevivido a grandes atentados terroristas. O Viajante olha então para o ecrã com os horários dos voos e percebe que esses mesmos passageiros acabaram de chegar de Goiânia — ou seja, estavam a meros 200 km de distância, 43 minutos de viagem. Perante tal cena, reflete-se sobre o que costuma acontecer nos aeroportos: a pessoa, ele diz consigo mesmo, a pessoa está a viver a própria vida alhures, decide que quer viajar, vai para o aeroporto e viaja. Dias depois, continua o Viajante para consigo, dias depois ela volta para casa sem saber por que diabos viajou, e continua a viver a própria existência, e a esperar. Estamos sempre esperando, no aeroporto, noutros cantos, na vida. Umas viagens a mais, umas viagens a menos, não fazem qualquer diferença para algumas pessoas, pensa o Viajante. Desta vez, sem sussurrar palavra.

» Versos à janelinha

1.
Brasília —
avião de concreto
vista de um avião de aço

2.
Passageiro desafinado
a cantarolar Jobim
vontade de bater no passageiro.

3.
Aqui do alto
as nuvens tão pesadas
— quanto o meu coração

4.
Adeus
Brasília
você nem liga.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

 

Dois embarques

Em maio de 2016, eu partira de Brasília com destino a Niterói na esperança de superar ao oceano marítimo um desassossego particularmente perturbador: mistura de ansiedade, com saudade, com aflição por achar que nunca terminaria o meu livrinho (Paraquedas, um estudo filosófico), que já há tempos estava a escrever. Indizível melancolia por flertar com a minha finitude, com o meu, como se diz, «eterno processo de dissolução extremamente lento».

— Brasília, para escapar daqui só indo para Saturno; ou para Niterói.

De manhãzinha, antes de sair para as caminhadas aparentemente sem destino, sentava-me à máquina de escrever que pertencera ao meu papá e datilografava:

Regresso a Niterói, que me é agora tão estranha como antes me fora familiar. O apartamento da minha avó fica no 24º piso. Daqui se vê até muito longe a toda a volta. Inclusive o desengonçado morro com formato de cavalo, atrás do qual dissipam-se as lacrimosas ondas do Atlântico. Ali está um oceano onde começa a viagem para Portugal — ou para a morada dos náufragos. 

Poder deixar a vista espraiar-se até tão longínquas paragens, sem dúvida, liberta o coração.

Há dias
em que
não percebo
nada de mim.

Maio de 2018 — muito cansado, ralado e estropiado, voltarei novamente a Niterói a ver se encontro uma tranquila noite de sono, com a certeza de que a minha juventude, ou melhor, de que aquele tempo maravilhoso em que tudo ainda era possível, já começa a se despedir definitivamente deste desventuroso narrador.

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O manipulador de vidas

Vladimir Nabokov está a observar uma antiga fotografia de família e percebe que para um canto escuro encontra-se um carrinho de bebê vazio. O ano é 1899 e o carrinho foi um presente de alguma tia para o bebê Nabokov, que nascerá em abril. A presença daquele carrinho o inquieta muitíssimo. As outras pessoas retratadas sorriem de maneira despreocupada, não ligam para o carrinho vazio, não se importam com a ausência de Nabokov. Perturba-o não a morte — os milhares e milhares de anos em que tudo se passará sem ele —, mas sim os invernos em que a família viveu sem se dar conta do fato de que um dia ele iria existir. É de se perder os parafusos, dizia o Nabokov, cuja obra está repleta de memória e de como utilizá-la para alastrar-se no tempo. Estudamos o Império Romano e de súbito somos transportados para o longe, não estamos mais presos a estes setenta/oitenta anos de planeta. Regressamos aos gregos porque os filósofos de Atenas nos confortam ao mostrar que é possível desacelerar o comboio cronológico se dedicarmo-nos à contemplação, aos pensamentos, às intempéries que guardamos, como se diz, no lado esquerdo do peito. Fugir, portanto, desta cadeia temporária dentro da qual a nossa existência orgânica se mostra enjaulada até chegar a hora do suspiro derradeiro. Nabokov e tantos outros escritores que já lá pensaram um bom bocado, entraram em contato com a falta de sentido de todas as coisas e à laia de autodefesa (re)criaram para si outras possibilidades. Tentativa de multiplicar-se, sem dúvida — porque uma só vida nunca bastou. Veja o caso do rapazote contemporâneo que está sentado ao ecrã a perder-se num qualquer videojogo e quando se morre há sempre uma nova chance, reinícios. Capcioso, o videojogo. Sabemos muito bem que nada se passa dessa maneira quando nos deparamos com a realidade. O automóvel despenca do desfiladeiro, ninguém sobrevive, não há segunda chance. Mas de alguma forma conforta pensar que pelo menos preencheram o carrinho de bebê, o bebê cresceu, cá se distraiu, o bebê morreu.

— P. R. Cunha

Mar morto

Por vezes cai-se numa estranha cilada nostálgica, a tal busca da repetição daquilo que já se passou. Uma viagem ao estrangeiro deixa-lhe marcas, o tipo regressa para casa com a certeza de dever cumprido. Ou encontrar-se com uma pessoa adorável e têm lá aos Andes chilenos um fim de semana revigorante. Pouco a pouco essas satisfações desvanecem, o cérebro busca recompensas, quer passar pelo mesmo, para sentir-se o mesmo. Daí volta-se ao estrangeiro e a jornada não é nada parecida com a anterior, a mala foi extraviada no aeroporto, a recepcionista do hotel pede desculpas porque a reserva não fora devidamente registrada no sistema, o passeio ao parque no centro da cidade — que há cinco anos tinha-lhe sido um dos mais encantadores — é um terrível desastre, chove o tempo inteiro. Algo análogo se passa quando voltam aos Andes, ela não é mais a mesma, ele tampouco, a neve bloqueia a estrada e ambos ficam horas dentro de um automóvel miúdo à espera de resgate. Não seria de todo estranho perguntar-se os porquês dessa obsessão pelo retorno. Como se a memória apenas hibernasse num cantinho algures, a bastar uma simples pesquisa aos arquivos neurológicos para sentir qualquer coisa parecida com o que se sentiu numa altura da vida em que as coisas estavam a andar direitinho. A realidade, contudo, insiste em mostrar que navegamos através de um gélido oceano do esquecimento, da indiferença e, principalmente, das mudanças. Porque as ondas nunca batem à praia com o mesmo formato. Não raro, quando o sujeito se depara com essas inquietações percebe que um dia os momentos agradáveis pelos quais passou modificar-se-ão, eventualmente desaparecem. Resigna-se: vou-me embora com as minhas experiências e logo ninguém dará por isso.

— P. R. Cunha