Trânsitos

Mulher maia do século doze
contempla a imponente escadaria
da Pirâmide de Kukulkán
«El Castillo»
ela sorri
sente-se orgulhosa do próprio povo
que construção magnífica
não percebe que quase
novecentos anos depois
homem holandês
tira fotografias
do mesmo templo
de Yucatã
& o que antes impunha respeito
poder & adoração
agora se faz ruína
paisagem para o álbum
de lembranças digitais

Cada dia
cada nuvem
cada chuva
cada neve
cada lua
cada noite
— a estranha renovação
a certeza de que
os impérios não perduram

Nem os maias
nem os incas
nem os gigantes
de pedra vulcânica
da Isla de Pascua

Um estado confuso entre
realidade & maravilhamento

Aceitar o facto
como diria um antigo
de que todas as coisas
são passageiras
eles também
ou melhor
nós também
em quedas

Mundo transitório
mudança ininterrupta
&tc.
algo havia
mudado
para sempre

Não respires a poeira lunar

Começas com uma imagem
um plano à cabeça
mas escreves com rapidez
de acordo com os teus impulsos

Causa & efeito
evento (A) no passado
gera evento (B) no presente
que afeta o evento (C) no futuro

A –> B –> C

O tempo segue
numa linha estreita
de (A) para (C)
o futuro incerto
depende das ações
do passado/presente

Como aquele casal
taciturno
sentado no banco do parque
enquanto na superfície da lagoa
vê-se uma mão
a chacoalhar.

— P. R. Cunha

Inconclusão das reticências

A ideia deste conto surgiu-me depois de revisar os estudos machadianos do amigo e professor Paulo Paniago.


Guillermo Jiménez e Suzana Bonnefoy casaram-se faz pouco. Eles estão agora na sala do novo apartamento: dois quartos, cozinha, varanda tamanho médio, área de lazer no térreo. Os cômodos ainda se mostram parcamente mobiliados. O restante das coisas deve chegar aos poucos, nas próximas semanas. Guillermo e a esposa estão sentados no tapete da sala a folhear álbum de fotografias. Muitos retratos do Guillermo em adolescente, com os familiares, a antiga casa na Ciudad de México, a piscina, os jantares, as férias em Oaxaca. Guillermo começa a se dar conta de que a grande maioria das pessoas que habitam aquele álbum de fotografias já morreu. Sem que a esposa perceba, ele solta um suspiro breve, melancólico — o suspiro, como se diz, de um homem momentaneamente abatido. Suzana, ao passar a página e deparar-se com o sorriso da irmã do Guillermo depois de um banho de mar em Acapulco, reflete, também em absoluto silêncio, se ela conseguiria sorrir daquela maneira, se ela é de fato sincera, se ela é quem deveria ser ou se apenas tornara-se o manequim que a mãe, a senhora Bonnefoy, tanto exigira que ela fosse. Suzana nunca se imaginara a contrair matrimônio, por exemplo. Lembrou-se de quando estava a cuidar do pai, o quase centenário Hubert. Eles passaram a morar juntos depois que a senhora Bonnefoy fugiu para Antuérpia com um russo que se dizia dono da equipe automobilística McLaren F1. Há este vestígio de memória em que Suzana tenta esconder que está a chorar. Não era um choro de tristeza, era aquele outro tipo de lágrima, que vem do desespero seco da culpa, do remorso. Acontece que numa madrugada ao levantar-se para o corriqueiro xixi noturno Suzana injuriou-se e pensara sentada na latrina como lhe seria um alívio ver-se livre do pai de uma vez por todas, que não aguentava mais, que precisava de respirar, e o sr. Hubert não a deixava respirar, etc. De aí, na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço, o velho Hubert engasgara-se com o caroço da tangerina, e a cena foi qualquer coisa de filme de terror, Hubert a segurar o pescoço com os dedos de Drácula, Suzana a pressioná-lo de todos os jeitos, tapas nas costas, soco nas costas do velho, o rosto vermelho do velho, os olhos que tentavam sair de órbita, a língua roxa do velho, o caroço da tangerina a escapulir da boca juntamente com a dentadura, o Hubert sentando-se à mesa com as mãos no coração a dizer: ufa!, essa foi por pouco. Guillermo coça a parte inferior da coxa direita, o tecido felpudo do tapete começa a incomodá-lo. Ele conjectura de que forma o casamento vai lhe afetar os processos criativos, a rotina literária, como ele vai encontrar tempo e disposição para escrever o próximo livro, a grande obra, magnum opus, um livro-prefácio, prefácio tão grande que o leitor morreria antes de chegar ao texto propriamente dito, à moda Macedonio Fernández, bajula-se Guillermo, Museu do romance da Eterna, que nunca encontra sítio algum, antologia de prólogos, sim, livro-prefácio que jamais seria alcançado, introdução com quatro mil páginas, enquanto a narrativa per se teria apenas duas laudas, para não cansar as vistas do leitor, fantasia Guillermo, que prometera «colocar a caneta à obra assim que a escrivaninha chegasse». Suzana agora encosta a cabeça nos ombros do Guillermo, comentam miudezas despretensiosas sobre o álbum de fotografias da família Jiménez, ambos tentam agir como se nada estivesse acontecendo, não querem levantar suspeitas, não agora, recém-casados, muito cedo. Em cima do fogão, cujo gás ainda não fôra instalado, permanece imóvel a brochura de O amor acaba, coletânea de crônicas líricas e existenciais do Paulo Mendes Campos, composta em tipologia Electra, impressa em ofsete pela Geográfica sobre papel pólen soft para a editora Companhia das Letras, março de 2013.

— P. R. Cunha

A memória

Os pais do Charles fizeram muita besteira em criança. Mas naquela época toda a gente esquecia e os pais do Charles seguiram em frente sem consequências. O mesmo não se pode dizer do Charles. Hoje o Charles faz besteira e toda a gente lembra, porque está tudo guardado dentro da memória do computador, que nunca, nunca esqueceria.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #50)

aqui terminam-se os devaneios da própria máquina de escrever. ao quinquagésimo ato, o ponto final, o recomeço, as repartidas. os «adeuses».

[…]

a casa onde os teus pais moravam
em niterói não existe mais
é apenas um terreno com entulhos
& restos & sobras & bichos rasteiros &
quem passa pelo terreno não consegue perceber
que numa altura
ali existira um lar
ao passo que hoje tu estás sentadinho à mesa
n’outra construção
no teu escritório
tu observas as paredes
as prateleiras
os teus livros em pé
sim as tuas coisas
a tua morada
estão ainda em pé
quando a memória te escapa
& não consegues mais imaginar como era a casa
de niterói
dos teus pais
a fachada é nebulosa
não te lembras dos quartos
da cozinha
se às traseiras havia jardim
começas então a dar pancadas na cabeça
a ver se a geringonça
recupera a estabilidade
porque às vezes só há mesmo ruínas
do passado
do futuro.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #1)

a vida do animal humano reivindicada pelos ciclos: o dia, a noite, as quatro estações, os períodos reprodutivos, o calendário, o relógio — o tempo. em ocidente, todas as promessas feitas durante a transição 31 de dezembro/1º de janeiro. «prometo praticar exercício físico, tratar melhor amigos & familiares, comer menos, falar menos, fazer mais» &tc. &tc.

o meu ciclo -> o meu ano novo: aniversário, 14 de outubro. o que fiz ou deixei de fazer durante a minha volta ao redor do sol. às vésperas da nova idade, sentindo-me como um soldado francês que retornava das trincheiras em 1918, ferido & com frio (metáfora completamente disparatada e insensível — escrever não é uma guerra, ou, pelo menos, não deveria de ser). chego à conclusão, porém, de que estou cansado. não exausto, aborrecido, nem de saco cheio: apenas cansado.

o atleta corredor de fundo que cruza a linha de chegada, verdadeiro deleite pelo grande feito conquistado (i.e. terminar a corrida), & que, no entanto, agora precisa de descansar, não quer saber de correr. se maratona longa, é provável que o período de convalescência também se alastre um bocadinho para além.

escrevi praticamente todos os dias (entre 14 de outubro de 2018 & 11 de outubro de 2019 [hoje]): para algumas revistas, para outros jornais, terminei meu segundo livro, o excesso (por vezes com qualidade duvidosa) que ia parar à lata do blogue. todos os dias, menos domingo. domingo era a altura de estar aluado, longe.

de forma que havia decidido dar-me um merecido sossego. é facto que as ideias por vezes desaparecem. precisamos de nos afastar do epicentro, relaxar os sentidos, ter paciência, desacelerar — coisa & tal.

esta manhã, pequeno-almoço, por volta das 7h04: minha mãe me telefona para dizer que leu qualquer coisa que escrevi a respeito de paulo mendes campos. ela comenta: não sabia que gostavas do paulinho. paulinho? é, paulinho, estudei medicina com a filha dele, gabriela mendes campos, rio de janeiro, tomávamos o chá, todos, inclusive com a joan abercrombie, mãe da gabi, mulher inglesa. vê: nem sou (muito) supersticioso, mas se isso não é um tremendo sinal dos astros, então não faço a ideia do que seja essa coisa de sinal dos astros.

apesar da notícia sobrenatural (minha mãe conhecera meu escritor brasileiro favorito de todos os tempos, tomou chazinho com ele), mostrava-me ainda inclinado a, como se diz vulgarmente, dar-me uma trégua. porque a escassez cria o valor. é altura de eu me dedicar às vagarosas partidas de tabuleiro, assistir aos patriots, pedalar a bicicleta, ir ao parque com a jéssica… numa palavra: férias. pensava nisso tudo enquanto abria a porta do armário & me deparava com a minha velha & surrada máquina de escrever.

evidentemente, as máquinas de escrever não possuem olhos, mas elas conseguem fitar-nos, sim, de um jeito perturbador, incisivo, como se nos chamassem para um serviço inadiável. 

acontece que cá estou agora, depois das menores férias de sempre, a tomar notas neste aparato barulhento & confuso, a começar este novo projeto, novo ciclo: devaneios da própria máquina de escrever.

— p. r. cunha

Como guardar imagens chilenas apropriadamente

Nestes meus quase 34 anos de planeta Terra jamais cogitei a possibilidade de não levar o aparato fotográfico às viagens. Desta vez estou a fazê-lo.

(Ainda não é a viagem, mas o início, o começo despretensioso — prévias [previsões].)

Defender a ideia de que o nosso cérebro também é um mecanismo imprevisível que captura os tais momentos do tempo perdido. Caixa craniana/câmera escura registram, arquivam, revelam mensagens do passado.

Minhas últimas duas viagens: Niterói & Portugal (de Lisboa até Aveiro) — contaminado pela quantidade absurda de gentes a tirar fotografias; a mais delicada de todas as atividades predatórias, como diria Susan Sontag. A culpa, o remorso: eu, com a minha Canon, também fazia parte do grupo voyeurístico.

Ir aos concertos e não conseguir prestar atenção, porque os telemóveis luminosos e as câmeras tomaram conta de tudo.

A lente da máquina e o olho humano precisam de luz. E aqui começo as minhas reflexões propriamente ditas.

Acontece que o universo no qual vivemos possui um limite de velocidade: 299,792 km/s; a chamada velocidade da luz. Habitamos este espaço físico com regras específicas onde nada pode ultrapassar esses 299,792 km/s. 

Estamos constantemente em viagem: as informações do nosso corpo percorrem o espaço até chegar aos outros receptores.

Duas pessoas estão a um metro de distância e conversam sobre, digamos, os negócios de determinada empresa. A título ilustrativo, podemos chamá-las de Marcos e Luana. Por causa do limite de velocidade da luz, Marcos está a ver Luana com um atraso (delay) de 3,3 nanossegundos.* Pode parece um simples bate-papo comercial que supostamente ocorre no presente, mas Marcos e Luana estão sempre um bocadinho no passado. O cérebro a captar fótons espectrais.

*0.000000003 (em segundos).

Tudo o que vemos em redor é como foi, não como é. O agora absoluto, para a luz, não existe. Vivemos a observar atrasos, à espera de um presente que nunca chega.

Os corpos celestes podem esclarecer. A Lua brilhosa que aparece elegante numa noite sem nuvens está a cerca de 380 mil quilômetros de distância — de forma que a luz demora quase dois segundos para chegar até nós. O Sol, a 149.6 milhões de quilômetros, ilumina a nossa atmosfera com oito minutos de atraso.

Ao que tudo indica, mandaremos humanos para Marte — 227.9 milhões de quilômetros da Terra. E aqui o arranjo torna-se um tanto macabro. Se algum astronauta morrer em solo marciano, os terráqueos só saberiam 14 minutos depois.

Agora, voltemos às comparações olho-humano/lente-fotográfica; captação de luz, de imagens, das informações que se mostram atrasadas. O fotógrafo que mira a própria câmera a fim de preservar a história, o acontecimento. Viu algo que lhe interessou imenso, apertou o botão. Crê conservar uma cena que de outra forma desapareceria. 

Armazenamento de memórias, falhas. Uma fotografia minha em que estou a brincar no parquinho com os meus irmãos (1988), o papel está a perder a cor, as bordas dilaceram-se. Se imagem digital, a instabilidade dos servidores eletrônicos — hoje, estão a operar, amanhã, não se sabe ao certo (quedas repentinas do sistema de grandes corporações [motivos desconhecidos], dados irrecuperáveis). O cérebro humano que também se deteriora (Alzheimer).

Tudo se perde.

Existir num passado constante e a angústia de não conseguir capturá-lo adequadamente. A fotografia como extensão da incapacidade cerebral de manter-nos ao presente, a fotografia (Sontag, de novo) como criação de um mundo em duplicata, de uma realidade de segundo grau. Uma busca dramática para interceptar a velocidade da luz.

No cenário vertiginoso de um agora ausente, tirar a câmera da mochila e apontá-la outra vez para o que já foi. Eis a sina de quem se apaixona por fantasmas. 

— P. R. Cunha


Processed with RNI Films. Preset 'Agfa Optima 200 Faded'

Metaimagem, constrangimento: câmera apontada para outra.

Turma de filosofia

Para Aguarela de Viagens

7h42 da manhã. Max entra na sala de aula. Com passos inquietos dirige-se ao quadro de ardósia e coloca sobre a mesa a própria maleta marrom que poderia ter pertencido a um qualquer espião búlgaro durante a Guerra Fria. Sem dizer bons-dias aos alunos e com os olhos fixos num horizonte invisível, o professor parafraseia Irvin D. Yalom: porque não podemos viver congelados pelo medo, criamos subterfúgios para amenizar o terror da morte. 

Os alunos permanecem em silêncio. Max continua:

Um curioso exercício filosófico consiste em nomear ao menos cinco pessoas que viveram durante o século XVI. Obviamente, o propósito da empreitada perderá todo o sentido se algum espertinho utilizar-se dos recursos Google e que tais relacionados. 

Vamos… Cinco nomes de pessoas que viveram no século XVI, assim, de cabeça.

A ironia, continua Max, é que estamos a viver na era das tecnologias midiáticas, numa altura em que raramente ficamos alguns minutos sem receber notícias de alguém ou de alguma coisa, e, mesmo assim, muitos não conseguem se lembrar de cinco, apenas cinco dos milhares de humanos que viveram há cerca de quinhentos anos.

É de se pensar nisto, diz Max, será que as pessoas de 2500 lembrar-se-ão de nós? Ou, num tom menos egotista, mais abrangente (aqui Max adota certa postura teatral, distante, está a desempenhar o papel dramático que tanto lhe apetece): qual será o legado desta época de abundâncias, de quantidades, dos planos de saúde, mas também de negligências memoráveis?

Um aluno tosse, outra aluna leva o dedo em riste aos lábios e faz shhhh!

Talvez até lá, prossegue Max, seres humanos e robôs tenham se fundido, transformaram-se num organismo inclassificável. Ciborgue que não dá a mínima para as instabilidades cronológicas e psicológicas do ultrapassado e emotivo Homo sapiens. O próprio interesse em fazer perguntas perderia um bocadinho o sentido, pois as respostas, se levarmos o Elon Musk a sério, estariam embutidas na programação da «placa-mãe» (Max faz as aspas aéreas), o famigerado cérebro de silício atualizável.

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte IV

O Paul Auster certa vez escreveu que mais do que ver o caixão ser baixado na terra, foi o ato de jogar fora as gravatas do pai que personificou a ideia do sepultamento. Auster livra-se de utensílios do guarda-roupa paterno e afinal compreende que o dono daquele vestuário não voltará a vesti-lo jamais. De minha parte, acreditei que visitar papai ao cemitério após oito anos de negação pudesse ser esta oportunidade simbólica cujo significado permite o processo de luto na consciência humana. Enquanto seguia pelo largo caminho que me levava de volta para o estacionamento, detive-me algumas vezes para observar as nuvens que desde a minha chegada se acumulavam preguiçosamente no horizonte e que agora pareciam prontas para chover.

Abertura

Esse silêncio que antecede a tempestade, a respeito do qual muito já se escreveu, me fez refletir que não seria má ideia montar um escritório ali no meio do Campo da Esperança, onde eu pudesse finalmente reaver meus estudos das narrativas de W. G. Sebald e Robert Walser, tarefa interrompida várias vezes ao longo dos últimos anos por motivos, reconheço, os mais parvos. Há muito eu havia desistido de escrever romances e tinha decidido me devotar em período integral, como se diz, às análises minuciosas desses escritores que influenciaram diretamente a construção do meu caráter, mas pelas mais diversas razões que se possa conceber boicotei cada etapa desse processo.

O facto é que o cenário ideal para criar e/ou pensar literatura não pode ser completamente adaptado aos critérios da realidade, ponderei olhando para as nuvens que se aproximavam. Há sempre qualquer coisa. Mesmo que se tenha muito dinheiro, uma cabana isolada de toda a gente, uma vasta coleção de «livros canônicos», mesmo assim o sujeito ainda será perturbado por vários temores, pensamentos inquietantes: é um empréstimo que ainda não foi pago ao banco, um sócio que tenta lhe enganar, cresce o mato no jardim, a criminalidade assusta, instabilidades políticas, terrorismos, a economia do país está em ruínas, alguém da família está doente, outro morreu, aquele suicidou-se. Pode-se citar como exemplo figurativo o semblante do escritor que tenta se concentrar na fazenda do próprio livro mas se vê incapaz de escrever uma única frase porque o mundo é injusto consigo: as olheiras; o cabelo ralo; o aspecto de um pugilista nocauteado; a roupa desalinhada, que de início fora escolhida de modo a disfarçar a precária situação deste pobre-diabo. Confiantemente aceitam-se esses clichês pré-fabricados da alma atormentada que decide se dedicar à arte, embora «ninguém valorize nem arte, nem artista».

Começou a chover e procurei abrigo embaixo da cobertura de zinco que cobria a pequena entrada da recepção do cemitério, à qual encontrava-se um homem de idade indefinível a pelejar com o chapéu-de-chuva que insistia em não abrir. Sr. Dionísio, como em breve fiquei sabendo, era funcionário do Campo da Esperança desde 1996 e já fazia planos para a aposentadoria, sublinhando particularmente o transtorno que era lidar não com os mortos, como se imaginaria numa situação dessas, mas com os sobreviventes, aqueles que, segundo ele mesmo, tinham o rosto transtornado pelos esforços das perdas. A certa altura, fitou o portão de saída do cemitério de um modo que a mim me pareceu um bocado teatral, completamente absorto, como se julgasse que aquela estrutura gradeada não fosse inteiramente segura, e confessara que também sentia falta de uma pessoa querida, uma amiga a quem em tempos estivera muito ligado, uma amante, ele acrescentara, e que nunca mais na vida se sentiu tão confortável como na companhia dessa enigmática mulher. Quando Joana morreu, disse o Sr. Dionísio, fui até a casa em que ela trabalhava como cozinheira, aliás, invadi a casa, sim, invadi seria o termo adequado, invadi e consumi todas as garrafas de uísque que o patrão dela mantinha num barzinho de mogno. Esvaziei aqueles recipientes cor de caramelo e transformei esse estúpido delito num ritual fúnebre, dá para acreditar?, ele murmurou para si próprio. Enquanto entornava essa quantidade absurda de bebida, continuou o Sr. Dionísio, enquanto eu me embebedava feito um cão raivoso, pensei na influência paralisadora que determinadas pessoas, mesmo depois de mortas, ainda conseguem exercer naqueles que permaneceram. Espiava dentro do gargalo da garrafa vazia e compreendia a idiotice que é estar vivo, correr atrás de tanta coisa sem cabimento. Bom, ele disse após um breve silêncio, pelo menos foi esse o meu caso, e o chapéu-de-chuba, veja você, resolveu cooperar.

Sr. Dionísio despediu-se com uma discreta cortesia, atravessou o portão do cemitério e aos poucos se transformara numa imagem difusa no meio da forte tempestade, estranho prelúdio ao próprio desaparecimento e ao daqueles que ele momentaneamente deixava para trás.

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte III

Tenciona-lhe deitar-se cedo

Então estou parado diante da placa setenta centímetros de largura por quinze centímetros de altura na qual foram gravados em tipologia serifada nome, data de nascimento e dia da morte do meu pai. Fora um ou outro adereço — fotografias desgastadas pelas intempéries do tempo, um santo de argila decapitado, buquês de flores apodrecendo —, as pedras de todas as sepulturas vizinhas são idênticas. Filas e filas de mármores retangulares que me lembraram as maquetas de antigas cidades soviéticas que vi expostas em alguns museus quando estudei em São Petersburgo.

Sou tomado por uma incontrolável compaixão perante estas réplicas monótonas e penso no que disse Kaspar Hauser: tenho vergonha de tudo o que se repete. Se os valores da sociedade moderna buscam a padronização de nossas ações e de nossos interesses, eis aqui os mesmos princípios adaptados ao modo como lidamos com a memória daqueles com quem não podemos mais contar.

As promessas de liberdade, de plenitude, de sermos indivíduos únicos e heróicos não passam de parvoíces retóricas. Vive-se em constante perigo, a felicidade é passageira, as entranhas econômicas exigem que pensemos da mesma forma. A única maneira de se proteger é no isolamento, recolher-se aos abrigos. Os raios solares querem lhe matar, os asteroides querem lhe matar, os gases poluidores querem lhe matar, os animais selvagens querem lhe matar, os seres humanos querem lhe matar e daí vivermos em caixas desde sempre. Em criança, somos empacotados pela mãe, a casa é uma caixa, a escola, o trabalho, a sala de cinema, tudo caixa, o automóvel, o restaurante — caixas. Sabemos que sem elas estaríamos absolutamente perdidos, apesar de algumas vezes nos sentirmos incomodados com a claustrofobia, mas é o preço que se paga pelo tumultuoso passeio da vida. Até que o ciclo se fecha e nos colocam finalmente na derradeira caixa, como aconteceu com papai, como aconteceu, e ainda acontecerá, com tantos outros, como vai acontecer comigo. 

O corpo do meu pai agora se decompõe, tem a companhia de milhares de falecidos que enquanto vivos também procuraram se diferenciar, achavam-se especiais, também acreditaram que aquilo que acontecia ao redor deles lhes dizia respeito, mas a morte não dá a mínima para essas coisas.   

* * *

Durante boa parte da vida o meu pai guardara consigo apenas um retrato. Era, em verdade, um velho cartão-postal desgastado com uma imagem produzida pelo fotógrafo amador William Mumler.

Li numa brochura especializada em figuras paranormais que, na segunda metade do século dezenove, Mumler ganhara certa notoriedade nos Estados Unidos por supostamente conseguir captar espíritos de conterrâneos mortos. Diz a brochura que bastava ir ao estúdio do sr. Mumler no centro de Boston, Massachusetts, você então descrevia o parente falecido, o fotógrafo manuseava a «câmera mediúnica» e depois aguardava-se com ansiedade que alma do além esvoaçasse nas revelações fotográficas. O facto de ter sido julgado, hostilizado e condenado por fraude não prejudicou a fortuna póstuma de Mumler, que se tornaria referência entre os chamados «adeptos do sobrenatural» — e tudo isso só demonstra como o distanciamento cronológico é capaz de absolver qualquer vileza.

O postal que papai mantinha numa gaveta perto da cama mostra um senhor com vastas costeletas, talvez um chefe de família que perdera a filha num acidente rural, ou quem sabe um marido amoroso cuja esposa fora vencida pela tuberculose. O queixo do homem está encostado no nó da gravata, parece dormir, ou em transe, como se obedecesse às ordens de Mumler para ter paciência, pois não se trata de procedimento simples, este de capturar os mortos.

Mumler signature

Às costas do triste sujeito surge uma figura feminina diáfana; a dama encara de forma despreocupada o obturador e, com as mãos como que flutuando nos ombros do fotografado, tenta consolar o vivente que de certo sofre das dores da saudade. Atrás do cartão já bastante carcomido ficamos a saber o nome do angustiado: Bronson Murray with female spirit (ca. 1862-75) by William Mumler.

Como este estranho postal veio parar no Brasil e se meu pai tinha secretas predisposições místicas são perguntas que não tenho condição de responder; porém, notava-se que papai sentia um genuíno pavor de ser fotografado e que sempre preferiu as linhas do diário quando acreditava necessário registrar as próprias reminiscências.

Fotografia e escrita, portanto, como procedimentos de lembranças fantasmagóricas. Seria mesmo supérfluo mencionar a quantidade de artigos acadêmicos e publicações de caráter crítico-literário que apresentam dados comparativos a investigar qual das duas técnicas, se imagem ou prosa, teve, tem, terá maior sucesso no resgate da memória.

Sabemos que na falta de um imperativo canalizador para, como se diz, transformar em verbo os resquícios da experiência, recorre-se muitas vezes às possibilidades da fotografia. E se um observa os pontos turísticos das grandes metrópoles amontoados de estrangeiros com câmeras de telemóveis apontadas para este ou aquele monumento (ou até para si mesmos), chega-se facilmente à conclusão de que a conveniência imagética vencera a batalha no campo de nossas contínuas tentativas de arquivar cada detalhe deste planeta e dos seres que o habitam.

Por outro lado, uma das defesas dos prosadores, digamos, ortodoxos consiste em descrever nostalgicamente o tempo em que ainda era possível apreciar o tipo contemplativo à escrivaninha — ele toma notas a respeito das minúcias de determinada expedição cujos caminhos não só o levaram aos confins geográficos de algum território desconhecido como também apaziguaram os seus demônios em busca de alívios. Vai, explora, volta, conta o que viu. O fidalgo à procura de si mesmo e que não se esquecera de caprichar nos recursos estilísticos da própria narrativa, já a pensar nos potenciais leitores que de bom-grado poderiam se inclinar sobre o texto deste excêntrico aventureiro.

Em última análise, se, como nos advertem determinadas vertentes da sociologia moderna, o excesso de imagens que hoje tornou-se regra favorece não o ritual sistemático de recordações, mas o esquecimento coletivo, é crucial então refletir sobre o papel dos escritores numa cultura que parece cada vez mais indiferente aos cuidados da memorabilia por escrito. Refletir se haverá espaço, ou melhor, incentivo para a sobrevivência desse espécime introspectivo que pretende fazer-se compreender pela literatura — essa teimosa forma de expressão que, e isso sabemos bem, não se entrega facilmente.

William Mumler

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

O tema é perigoso, não lhe posso dizer nada com precisão. Aconselho-o somente trancar a coisa num baú, mantê-la ali dentro por um ano e depois reler. Daí verá com mais clareza. 

Anton Tchékhov


Em meados de maio de 2017, depois de uma noite muito agitada, acordei com aquela estranha sensação de vertigem que às vezes me assalta quando acredito ser observado por alguém escondido atrás da porta. Essa impressão fantasmagórica tenho-na desde pequeno. Ao que parece, reminiscência de caçadores ancestrais, sempre atentos aos perigos da floresta e que precisavam de responder às exigências de uma realidade dominada pela fuga. Característica que, em situações de crise, poderia levar à estabilização dos pensamentos dos meus semelhantes primitivos responsáveis pela vigília noturna da tribo, mas herança genética pouco necessária ao indivíduo contemporâneo que apenas almeja algumas horas de sono sem angústia.

Um amigo que largara os estudos de literatura de língua alemã — justamente na época em que comecei a escrever minhas análises sobre as obras de W. G. Sebald e Robert Walser — para cuidar da quinta de animais que pertencera ao avô Dănuț, nome romeno que sempre me intrigou muitíssimo, disse-me certa vez que essas perturbações poderiam ser reflexos de abandonos na minha infância. Acontece que os meus pais escolheram a medicina e, como se sabe, o médico está sempre fora. Pobre criatura que se apercebe desamparada, disse esse amigo, e passa então a criar substitutos espectrais para suprir a ausência daqueles que, supõem-se, deveriam estar por ali cuidando do produto de suas obras, mas vestem o jaleco branco e partem algures para tratar de outras gentes. Esses «doppelgängers» oníricos comportar-se-iam tal e qual o papá e a mamã, meu amigo explicou-me enquanto limpava uma mancha de terra no braço esquerdo, mas nessas aparições estariam em trajes civis, como que idealizados pela cabeça da criança, de acordo com aquilo que ela gostaria que fosse, mas nunca é. Acrescentara ainda, o meu amigo, à guisa de alerta, que sentir-se perseguido por sombras escondidas atrás da porta geralmente é sinal de um mau presságio. 

Foi, portanto, com essa sensação vertiginosa que despertei depois da supracitada noite de maio e dei comigo que nos quase oito anos de morte do meu pai nunca voltei ao cemitério a prestar, como se diz, minhas homenagens. Oito anos e era como se eu ainda o esperasse chegar de longe, de algum plantão na clínica, ele ficaria um pouco, talvez jantasse, e então sairia para outra jornada misteriosa a respeito da qual jamais daria grandes detalhes. Quando meu pai se afastava, telefonava a cada três horas para saber «como estavam as coisas», mas as ligações raramente duravam mais do que um minuto. De aí, quando ele voltava para casa, exausto, parecia uma falésia insuperável. A previsibilidade desse pêndulo fez com que eu me acostumasse com as distâncias (ausências) e aprendesse a lidar com elas. Compreendia que meu pai se esforçava para estar presente, ser família, e compreendia também que ele nunca daria conta dessas tarefas. 

Ainda de pijamas, sento-me à mesa da cozinha e fecho os olhos enquanto tomo o pequeno-almoço. Negrume. Lá está meu pai deitado no caixão, usa um fato muito parecido com o que vestiu no próprio casamento, não se move, e a mim isso não importa, porque papai volta, depois de alguns meses, mas volta. Pergunto se afinal ele não terá escutado tudo o que se falou no velório, as mentiras, as condolências vazias, os votos daqueles que o abandonaram. Pergunto se papai só parece, mas não está morto. Nós nos habituamos a determinadas rotinas, determinadas condições, certezas que nunca são certezas, e quando tudo isso se rompe demoramos a nos adaptar aos novos termos, às perdas — sentimos ainda incômodos no membro-fantasma, como um soldado mutilado no campo de batalha.

Saí, então, do meu apartamento em meados de maio do ano passado por volta das 9h da manhã carregado de uma branda melancolia e com vontade de conversar com o túmulo do meu pai. Soprava um vento forte, o céu coberto de nuvens espessas, mas quando cheguei ao cemitério o tempo estava formidável.

No extremo sul do segmentado projeto arquitetônico de Brasília, como se escondido de propósito, está o cemitério Campo da Esperança. Meu pai foi enterrado ali. Estacionei meu automóvel enquanto alimentava ingênua expectativa de que teria uns momentos completamente solitários com a memória paterna, esquecendo-me de que as pessoas morrem todos os dias, ao passo que Campo da Esperança não está vazio, mas repleto de transeuntes com vestuários escuros, familiares e amigos que choram a morte de alguém que «se foi cedo demais», outros senhores errantes que perambulam em busca da, e aqui conjecturo, sepultura da mulher amada. 

Caminho até à recepção do cemitério e pergunto pelo endereço do jazigo do meu pai. A moça ao computador, que com toda a certeza notara minha inexperiência com esse tipo de arranjo, pediu-me data de falecimento e nome completo do falecido. Ela então pegou um pedaço de papel com o mapa do cemitério e circulou com caneta esferográfica o local exato em que papai fora enterrado. Depois, por curiosidade, eu quis saber também do lote do meu avô materno, e disse logo dia/mês/ano, nome completo dele, antecipando-me, portanto, aos questionamentos ensaiados da recepcionista, que já entreabria a boca para repetir as mesmas perguntas da praxe. Acreditei que com essa atitude, nada ousada, hoje compreendo com clareza, acreditei que pudesse fazer melhor figura, que assim eu me passasse por sujeito que entende de cemitérios, que sabe do que fala quando se trata de visitar os mortos, e a recepcionista me enxergaria com outros olhos, de repente até se repreenderia por ter me julgado um novato, um desconhecedor mórbido. A recepcionista diria para consigo: finalmente alguém que entende de cemitérios. Mas, posso falar isto sem culpa, as coisas não ocorrem como imaginamos. Ela manteve a mesma fisionomia desinteressada de antes e, como se fosse uma vendedora de supermercado que explica ao cliente a falta de determinado produto, disse que: seu pai morreu em 2010, então temos os dados dele no nosso sistema, mas seu avô morreu em 2002, já dele não temos nada, e teria, ela continuou, teria que dar uma olhadinha nos arquivos de papel que estão guardados naquela sala, ela então apontou para a sala. Como fiquei parado a esperar que ela se levantasse e fizesse o próprio trabalho — ou seja, abrir a sala, procurar o endereço do túmulo do meu avô, entregar-me o endereço — ela acrescentara ainda que a sala estava trancada há muito e ninguém sabia ao certo onde estava a chave.

Procura da mulher amada

A verdade é que entregamos a memória de toda a gente aos computadores; agora também os mortos devem desaparecer se não se adaptarem aos sistemas binários. No caso de pane geral na rede algorítmica, quem se recordará de quem?, tais abordagens são de tremer. Os túmulos que ocupam, ou melhor, que abarrotam a superfície dos cemitérios de certa forma estão ali para um derradeiro lembrete aos ouvidos dos vivos antes da computadorização de tudo, parecem dizer que a última morte é aquela que acompanha o esquecimento do nome de quem já morreu, independentemente da natureza desse esquecimento, se analógico ou digital. Talvez seja por isso que muitos se mostrem tão inquietos quando se deparam com lápides abandonadas, a erva daninha passa a decretar que essas nomenclaturas de pedra já não servem mais, não têm propósito, e a pessoa sente o gosto amargo da completa finitude, quando nem mesmo o agrupamento de letras que outrora lhe chamava num som tão familiar é capaz de resgatá-la do anonimato irreversível. 

Quero dizer que a despeito das esperanças em contrário e das tentativas de digitalizar a morte todos caem na vala desse esquecimento, uns despencam depressa, outros se demoram um pouquinho mais porque deixaram marcas significativas na topografia da vida. O vazio chega, cedo ou tarde; nossa sepultura se deteriora, os dados não foram devidamente colocados nos computadores, já não trazem flores, já não choram mais em cima das nossas rochas. E por mera questão de conforto evita-se pensar nessas perversidades. Até que numa manhã de outono o sujeito tenta se lembrar do nome de um amigo que morrera há anos e não consegue, o amigo se tornara uma pequena mancha na memória, mancha que aos poucos se dilui, vira um borrão lacônico e finalmente se extingue — os sítios web nada podem contra isso. O sujeito tem assim certeza de que também ele, depois de morrer, será apenas uma mancha desfigurada na lembrança de outra pessoa, esvanecerá ao ponto de não ser mais reconhecível, como ocorre com as películas de filme antigo que apodrecem no porão de algum estúdio abandonado.

Campo da Esperança

Procuramos, assim, adiar o extermínio inevitável dos que já se foram, criamos tumbas na internet, nos iludimos, não queremos admitir que este projeto também fracassará, apenas seguimos em frente, sem rumo definido, registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos, até que nós também morremos e é como se nada tivesse acontecido: este é o ponto que estou tentando demonstrar.

— P. R. Cunha