Efeito(s) óptico(s)

¶ Havia na cabana um escritor que, dizia-se, também conversava com Musa imaginária, e sempre que lhe surgia qualquer ideia de literatura ele gritava: tu és a minha galinha dos ovos de ouro! Como que por coincidência, certo dia passava perto dessa mesma cabana um ladrão de galinhas que escutara os gritos do escritor — e sem pensar duas vezes correu até ao galinheiro para tomar posse dos tais ovos de ouro. Escusado dizer que a empreitada do ladrão de galinhas não lograra êxito. 

¶ Falamos sobre «a luz tão característica da Lua» quando, em verdade, deveríamos tratá-la da maneira que lhe convém: um espelho, ou reflexo lunático. Mas nunca é romântico dizer que a bola noturna só se faz prateada por conta dos raios emitidos pela estrela solar. E que, assim, os poetas têm de lidar com miragens celestiais.

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¶ Até mesmo o melancólico notívago — cuja mente está sombreada pelas nuvens de anedonia — perde parte da própria amargura quando os pensamentos retornam à calda de um cometa, este fugidio visitante de pedra e gelo.

— P. R. Cunha

Mesmo a saber que o tempo dos tabuleiros já passou

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O jogador de xadrez é sem sombra de dúvida um indivíduo muito solitário.

Quando sente vontade de jogar xadrez ele telefona para os amigos.

O jogador de xadrez não tem muitos amigos.

Ele pergunta: gostarias de jogar uma partidinha de xadrez?

Vale lembrar que um dos amigos do jogador de xadrez é um conhecido filósofo existencialista.

Entretanto, nenhum dos amigos do jogador de xadrez — nem mesmo o filósofo existencialista — parece lá muito interessado pelo jogo de xadrez. Isto é: não querem jogar xadrez, nem com o jogador de xadrez, nem com ninguém.

Não é nada pessoal, percebes…

Os amigos dão de ombros, dizem-se ocupados, precisam de cuidar disto e daquilo etc.

O problema é que justamente essa total indiferença, indiferença que se repete, e se repete, e se repete, essas recusas constantes, justamente isso que estimula ainda mais o jogador de xadrez a querer se dedicar ao xadrez.

Resignado, ele repete para si mesmo: feliz aquele que não precisa de jogar xadrez para criar propósitos.

— P. R. Cunha

 

Divagações de um planeta

Numa noite em que as condições meteorológicas mostram-se amenas e o astrônomo pode apontar o próprio telescópio à imensidão sideral.

As luzes se dispersam no conjunto de lentes do telescópio, adentram a retina do astrônomo a formar contornos amorfos — estrelas que há muito deixaram de existir, mas permanecem.

Quando olhamos para o céu, estamos a ver túmulos cósmicos. O passado vem até nós: só precisamos de levantar a cabeça, perceber.

O astrônomo sabe que nas sombras desses fantasmas luminosos escondem-se também os rogue planets (planetas nômades, planetas órfãos, planetas que não orbitam sol nenhum).

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Planetas solitários que divagam sem rumo, a nenhures.

Não seria exagero dizer que o astrônomo por vezes se sente como esses planetas.

Como se estivesse a nadar na lagoa sinfônica de Peer Gynt, por Edvard Grieg.

Nessas alturas, surgem outras imagens à contemplação do astrônomo: o retrato de um homem que vacila nas bordas do precipício, homem que compreende o próprio (não-)lugar neste universo, como diria Pascal, repleto de silêncios e espaços infinitos.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 14

Não há objetivo, diz o sr. Anselmo, nem propósito, tu não estás em jornada nenhuma. Há travesseiros, confortos artificiais, buscas pelo entretenimento sintético. Há fugas, explica o sr. Anselmo. E cada organização antropocêntrica criou/cria/criará para si ilusões de estabilidade, fantasias de permanência: Sócrates, Pedro I da Rússia, o Iluminismo, as bombas, Alexandre, Platão, o terremoto de Lisboa, o Muro de Berlim, Nero, as Torres Gêmeas, os incas, Sêneca, os maias, toda a filosofia grega, toda a filosofia romana, os sumérios, a astronomia grega, o Império Romano, a biblioteca de Alexandria, Napoleão, os Habsburgo, a queda de Constantinopla, os Romanov, o Império Austro-Húngaro, Schopenhauer, a Revolução Francesa, Sputnik, Hitler, os invernos, Newton, Homero, a Revolução Russa, o Albert Camus, Mussolini, Apollo 13, Lênin, Tutancâmon, os medievais, o Sebald, Gutenberg, Galileu Galilei, Thomas Bernhard, os babilônicos, Cioran, os outonos, Einstein, as grandes guerras mundiais, Montaigne, o Enuma Elish, o Gavrilo Princip, a Dinastia Sung, Nietzsche, o Canato Turco Ocidental, os verões, Gilgamesh, o Império Otomano, a Dinastia Yuan, o Califado Omíada, o Império do Grande Qing, a peste bubônica, a gripe espanhola, o Salazar, o Francisco Franco, o Hermann Göring, a Comuna de Paris, o arquiduque Francisco Ferdinando. Todos passaram, insiste o sr. Anselmo, tudo ruínas, miragens. Tudo desaparece.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #39)

martin & a namorada decidiram ir nadar no lago. ela ficou de ligar para uma amiga & martin convidou o ignacio, que conta anedotas de um jeito tosco & teatral o que sempre arranca boas gargalhadas de toda a gente. encontrar-se-iam à orla por volta das 10h. algumas nuvens se amotinavam no céu matutino & a impressão era de que a tempestade desabaria a qualquer momento. o trajeto até ao lago, no entanto, é absolutamente tranquilo. fernanda estava ao volante — martin ainda não aprendeu a dirigir. ele abrira toda a janela do passageiro & por vezes colocava a cabeça para fora & sentia a brisa enquanto contava o número de vacas que pastavam despreocupadas. martin sentiu inveja do sossego das vacas. numa altura, precisaram de parar o carro no estacionamento de terra improvisado & seguir o resto do caminho a pé. fernanda ficava a levantar o próprio telemóvel bem alto a ver se encontrava sinal. a amiga dela respondera pelo whatsapp que não podia ir ao lago hoje, alguma coisa a respeito de um almoço com os pais. martin sentiu a primeira gota de chuva cair no ombro. ele andava na frente para abrir espaço entre as matas. quando chegaram à orla deserta, fernanda estendeu a toalha & martin colocou a mochila em cima de uma rocha ao lado. ela se afastou para analisar a superfície verde do lago. martin aproximou-se & segurou-a pela cintura. fernanda encostou a cabeça no tórax dele & percebeu que uma espécie de pé estava a boiar não muito longe de onde eles estavam. «merda, martin, diz que aquilo ali não é o que estou pensando», ela apontou para o corpo de bruços. não parecia real, não mesmo. parecia um objeto sintético, um daqueles robôs que recebem pele artificial para simular a aparência humana. martin riu-se contidamente: «deve ser coisa do ignacio». daí ele gritou & bateu palmas: «haha!, pronto, ignacio, essa foi boa, muita boa, agora chega de tretas», mas nada de ignacio. o corpo pálido, adiposo, continuava a boiar: jeans, camisa social branca, sapato desportivo nike desamarrado. fernanda pegou uma pedra da orla & jogou-a no cadáver. a pedra foi amortecida pela epiderme hipotônica & fez um barulho como se tivesse atingido um saco de batatas. «chega mais perto dele, martin», ela pediu. martin notou um rótulo de coca-cola grudado no braço esquerdo & percebeu também que havia um ferimento, ou melhor, uma grande abertura no dorso do cadáver, mas nenhuma mosca, nenhum cheiro. parecia um banhista distraído, talvez um pouco bêbado, que resolvera tirar uma pestana onde não devia. martin endireitou-se & fez uma varredura-trezentos-&-sessenta-graus no local. uma parte dele ainda tinha esperança de ver ignacio saindo de trás de alguma árvore, com aquele sorriso debochado & senil: é tudo brincadeira, seus idiotas. mas essa possibilidade se mostrava cada vez menos razoável. martin chegou ainda mais perto do cadáver & começou a dar uns chutes, bem de leve. depois, com força, sacudiu o morto, que desvirou-se na água feito um boneco de pano encharcado. fernanda soltou um rangido de susto & cobriu a boca com as mãos, não podia acreditar no que estava acontecendo. o rosto do homem lembrava uma gelatina derretida, o nariz torto, os globos oculares deslocados, a pele avermelhada. martin pediu para ela correr, pegar o telemóvel, ligar para a polícia. a chuva agora começara a cair com força. fernanda tentava desesperadamente levantar o aparelho para o céu, à procura de sinal, qualquer sinal.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #23)

A CENA DO BAR

a cena do bar envolve sons/barulhos de bar (copos de cerveja, música com guitarra acústica aos altifalantes, o cozinheiro a fazer as mãos de megafone tentando confirmar algum pedido, a cacofonia de homens & mulheres rindo-se, o bêbado solitário que tira um pigarro invisível da garganta antes de recolher o próprio boné & sair a nenhures). a fumaça dos cigarros suspende-se na baixa atmosfera do estabelecimento. as pessoas sentadas ao balcão estão vestidas como se fossem figurantes de um filme mudo da década de 1920. certa dama flerta com um sujeito vestido de cowboy — jaqueta esfarrapada feita com pelúcia de ovelha, jeans azul, botas. a dama usa vestido preto, longo, pernas insinuantes que se mostram apenas ligeiramente entre os cortes da roupa quando ela se move no banco giratório. o cowboy levanta o copinho de uísque & sorri para a dama. sabe-se que uma das funcionárias de mesa (madalena em solteiro) começou a fazer o curso para ser hospedeira de bordo (aeronaves comerciais). ela é alta & jovem. dentro do bar está escuro, mas é um escuro que diz pouca coisa. não se tem a certeza se lá fora cai a noite ou se são apenas as nuvens carregadas de tempestade a cobrir a luz do sol. a verdade é que o tempo dentro dos bares nunca passa da mesma maneira, nunca passa.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #15)

PEQUENO PEDAÇO DE TORTA COM SABOR DO DIA-A-DIA / ESCRITORES NÃO ENLOUQUECEM, JOGADORES DE XADREZ ENLOUQUECEM

ontem levei a minha olivetti lettera para tomar sol ao terraço & a campainha tocou. vejam bem, não gosto de ser incomodado enquanto escrevo, muito menos enquanto escrevo ao terraço com a minha olivetti — ambos a ingerir as chamadas «doses diárias de vitamina d». (sou mesmo um daqueles intratáveis com tendência para lidar com as mais simples tarefas [atender à campainha, por exemplo] de forma tão rancorosa & descomedida que a coisa toda ganha proporções hercúleas, torna-se absurdamente cansativa, irrealizável.) então me arrasto até ao interfone, que possui pequeno ecrã através do qual posso observar quem está lá fora. percebo um sujeito taciturno, por volta dos quarenta, mordiscando palito, boné com a marca da transportadora estampada. retiro o interfone do gancho & digo com voz ressentida: pois não… o rosto do sujeito se aproxima da câmera do interfone: é da transportadora. encomenda para quem?, insisto. para a senhora ([pausa] aqui ele tira um papelzinho do bolso), para a senhora flávia. não há flávia nesta casa, eu digo. ele faz cara de quem comeu pastel estragado: nenhuma flávia?, tem certeza? ora, eu digo, é claro que tenho a certeza, moro aqui há mais de quinze anos &, garanto, nunca vi nenhuma flávia. o funcionário da transportadora olha em redor, coça as têmporas, relê o papelzinho que tirara do bolso: é que está escrito flávia, compreende? compreendo. & ela não mora mesmo aí? não, não mora. certo, diz o funcionário num tom hostil, certo, certo, certo. depois, com desprezo, cospe o palito no meu jardim — toda a cena devidamente enquadrada pelo ecrã do interfone.

— p. r. cunha

Descobertas incompletas

Sento-me à mesa da cafeteria, peço um expresso médio, acendo o Marlboro:

Nos primórdios do século 20, em contexto de guerras-que-se-alastravam, Max Horkheimer alegou que o cerne da vida é atormentar-se e morrer. Clara pitada de azedume schopenhaueriano, cuja filosofia do pessimismo norteara diversos outros pensadores da chamada Escola de Frankfurt — universidade do abismo. As primas Culpa e Contradição também estariam à espreita, escondidas atrás do arbusto, prontas a atazanar o vivente pedestre, de preferência em circunstâncias melancólicas. Haveria um esforço honesto para manter distância dessas mazelas taciturnas, e a essa tentativa Bertrand Russell (outro filósofo pouco inclinado ao sorriso) chamara de «a parcela da felicidade à qual todos nós, ao que parece, temos direito». Seres angustiados em busca de antídotos para amenizar sofrimentos, como já se escreveu em demasia. Almas errantes à mercê de um universo que não é bom, nem mau, e tampouco se importa em nos fazer felizes ou infelizes. Mas dentro desse teatro de indiferenças — ainda a ecoar as palavras de Russell* — cada um teria a possibilidade de construir para si uma série de valores e desejos. Caberia a nós, portanto, estabelecer uma vida satisfatoriamente plena. Mesmo que em boa parte do tempo tal plenitude se mostre inalcançável.

— P. R. Cunha


*Sugestão de leitura: Bertrand Russell, No que acredito (L&PM Pocket, 2010).

Pasternak: notas provisórias

Personagem chamado Pasternak — como o poeta/novelista/tradutor russo; motivo: o pai vivera para a União Soviética nos anos 1960. As cinco etapas do luto (luto que por vezes é desencadeado por: morte de parente/amigo, decepção amorosa, inadequações sociais [a definir]): negação, raiva, barganha, período melancólico, aceitação. Pasternak não admite, Pasternak furioso, controla-se, tenta mudar de ideia («e se eu [Pasternak] pudesse consertar as coisas» etc.), tristeza de Pasternak, depois de tantas batalhas, eis a resignação, o cansaço. Frase a martelar a cabeça deste excêntrico personagem: História se repete; a primeira vez como tragédia e depois como farsa. A frase, muito atual diga-se de passagem, é do Karl Marx. Tentativa de fuga, mas as pernas de Pasternak não se movem (figurativo/paralisia/eterno exilado/assim por diante). Pois observai o mundo e vereis que na mor parte os humanos não têm para onde ir. Manter a linguagem rebuscada numa espécie de jaula, aterrada; Pasternak não é 1) pedante; 2) estimado por seus bens; 3) muito menos julga a própria felicidade na medida da riqueza. Período antes do luto/melancolia, características gerais — até àquele momento Pasternak fora senhor de seus demônios, capaz de direcioná-los de acordo com seus caprichos, mas lá no fundo, como já escreveram numa importante obra filosófica, no mais recôndito de seu coração (a figura romântica do coração como casa dos nossos sentimentos), havia um poço infinito (bonita imagem: poço infinito, poço profundo), poço que reagia completamente alheio às vontades de Pasternak, fora de seu controle, e a tampa desse poço acabara de ser aberta. Pasternak não se reconhece.

— P. R. Cunha