As memórias, as sutilezas que fazem de nós o que somos

É um pouco como aquela história do Robson que passava horas & horas conversando pacientemente com a mãe da Karina a sra. Francisca (pois nutria sentimentos sexuais pela Karina) queria fazer boa figura enquanto o próprio pai (o pai do Robson se chamava Alan) vegetava em casa já nos últimos estágios de um tumor no cérebro & cuja companhia nem o Robson nem ninguém nem os irmãos aturavam mais porque há tempos que Alan não falava coisa com coisa &tc. 

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Estaria mentindo se falasse que nunca pensei no que poderia ter-me acontecido se eu não tivesse aceitado a proposta, escreve Ernesto. Pois, assim, em retrospectiva, com o coração a bater como da praxe, tudo parece claro, simples — óbvio até. Mas quando estamos no olho do furacão, quando precisamos de agir sem o luxo de poder olhar pelo retrovisor, cometemos vilezas indizíveis, metemo-nos em ciladas. Depois, à guisa de remorso, tu começas a procurar culpados. E se cavares fundo o bastante, e se fores realmente honesto, encontrarás, enfim, o verdadeiro responsável: o teu reflexo.

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Gallardo completa quarenta anos e a esposa sugere-lhe que faça os exames gerais. Gallardo não vai ao médico há quase uma década, sente-se bem, pratica natação regularmente, alimenta-se com moderações. Está saudável. Mas mesmo assim segue as recomendações da esposa, que sempre lhe tratou com um bocado de esmero, e vai ao médico fazer os tais exames. O médico se demora numa chapa de raio-x que mostra o tórax de Gallardo. O médico coça a barbicha, pensativo, hummmmm, aponta para um local aleatório da chapa de raio-x: está vendo?, não gosto disso, não gosto mesmo… Cabisbaixo, Gallardo volta para o apartamento e agora tem as certezas de que está para morrer.

— P. R. Cunha

Vigas enferrujadas

O bom engenheiro construirá casas e apartamentos que não caem, o médico competente cura doenças, o motorista que não causa avarias nem infringe as leis do trânsito é considerado um ótimo motorista. Atividades objetivas com resultados objetivos. Ótimo. Mas a mesma linha de raciocínio parece não funcionar com as chamadas criações artísticas — que muitas vezes precisam de ser analisadas com lentes individuais. 

O imbróglio torna-se ainda mais problemático quando se coloca dinheiro público sobre a mesa.

Determinado artista é contratado pela prefeitura de certa cidade para montar escultura na orla marítima. Tudo é feito às surdinas. Um dia transeunte está a praticar o cooper à beira do oceano e ali não há nada, no outro dia o mesmo transeunte se depara com vigas de aço cor de barro, uma placa que homenageia artista cujo nome ele nunca ouvira falar. A placa também está assinada pelo senhor prefeito da cidade, ao passo que transeunte pensa: esta coisa aqui foi construída com o meu dinheiro.

Paga-se bem caro para se viver em estruturas que não caem, para ser submetido a cirurgias que salvam vidas, ou mesmo para se viajar de avião sem a angústia da queda. São investimentos com efeitos óbvios. Mas não se quer engolir «obra de arte» sem ser consultado. E se pararmos para pensar, isso até que faz sentido.

Gostava que o leitor pensasse num filme ruim. Então eu lhe digo: abri um cinema onde só passa esse filme ruim, em todas as salas, todas as sessões. Quase duas horas de imagens aborrecidas, enredos que não lhe apetecem, atuações grotescas. Você provavelmente não iria querer frequentar o meu cinema. Direito seu. Agora imagine que você seja obrigado a assistir ao filme ruim, que não tenha mesmo outra escolha — e ainda precisa de pagar pelo bilhete…

Transeunte que praticava o cooper matinal com o oceano ao fundo terá de lidar com as estranhas vigas de aço, com a placa da prefeitura, com o orçamento de 300 mil dinheiros que saíra do bolso de toda a gente. Porque, como se sabe, quando a arte se retira do âmbito privado para flertar com grandezas públicas ela se torna outra coisa: um prédio que cai.

— P. R. Cunha

Domingo paternal

Para Evandro de Oliveira Cunha, meu pai

Os semióticos fazem-no pensar/refletir a respeito das gavetas. Quando jornalista: pavor da palavra «gaveta» (s. f., cada uma das caixas corrediças que se embebem nos móveis e servem para encerrar objetos). O editor a dizer: o teu texto está certinho, ótimo, mas não encaixa nas próximas edições; teremos (e quem além dele teria esse poder?), sim, teremos de colocá-lo na gaveta. À espera, o limbo, purgatório. Depois, já escritor (ou a dizer-se um): a gaveta das acumulações, das empreitadas experimentais, os desencaixados (também uma espécie de purgatório, a antecâmara do lixo — o querer jogar fora, o medo de se arrepender depois). Ou mesmo aquela outra gaveta, mais branda, mais otimista, onde ele coloca o material de pesquisa, as anotações para o próximo romance a ser escrito.

— P. R. Cunha