Há algo de errado, mas não se sabe ao certo o quê

Ele está a lavar a louça. Ela passa, espreguiça-se e diz: bons-dias, Frank. Sem desviar os olhos do conjunto esponja-prato-talheres-detergente, Frank acena com a cabeça. Ela abre a geladeira e pega do fundo um copo de requeijão light. Frank distrai-se, alguma coisa cai na pia e faz aquele barulho metálico de coisas que caem na pia — talvez um garfo, ou uma colher. Ela fecha a geladeira com imensa força e diz com voz infantil: ora, Frank, que tal se tomássemos cuidado com a louça? Os lábios de Frank tremem, mas hoje ele não irá dizer nada.

— P. R. Cunha

Contrair matrimônios

O primeiro casamento de Rita foi um desastre. O segundo, também.

Rita conhecera Tim Larsson em um isolado vilarejo nepalês depois de ambos terem assistido às palestras do mestre budista Yongey Mingyour Rinpotché. Esbarraram-se enquanto saíam do templo, conversaram e resolveram se encontrar na manhã seguinte num pequeno refeitório com vistas para os Himalaias. Rita confessara que estava à procura de alguém tranquilo, um parceiro para meditações, «levar uma vida serena, sabes?, um equilíbrio». Tim Larsson sorriu e disse: eu trabalho num transatlântico, sou DJ. Duas semanas depois, casaram-se no Tibete.

Após violentas crises de ciúmes de Rita, que não suportava mais a rotina desvairada do DJ sueco, ambos decidiram que já chegava, precisavam de se separar. Larsson voltou para Estocolmo. Rita, à guisa de vingança, resolveu fazer cruzeiro para as Bahamas a bordo de um navio três vezes maior do que o transatlântico em que o ex-marido trabalhava. Durante uma barulhenta festa no convés ao som da música techno 1990, conheceu Gustav de Staël — francês tranquilo, introspectivo, que praticava meditações regularmente, desejoso de uma existência equilibrada, sem conflitos.

Casaram-se, alugaram uma casa com jardim no subúrbio de Paris, tentaram ter um filho, não deu certo. Depois do divórcio, Rita confidenciou para uma amiga de juventude que já não aguentava mais a passividade daquele monge civil, sempre inabalável, de perninhas cruzadas sobre o tapete felpudo da sala de estar.

— P. R. Cunha

Angustiada, uma tragédia moderna

Personagens

Angustiada, mulher na casa dos trinta com agorafobia
Zélia, amiga de Angustiada, dona de uma loja de sapatos 

A ação passa-se em Brasília em frente do Seu Patrício Querido Café. 

Ato Único

É tarde, por volta das quinze horas. Angustiada e Zélia estão sentadinhas. Num volume ameno, confortável, toca Lágrimas, de Kelton Gomes. 

ANGUSTIADA
Há qualquer coisa no meu marido
que me dá vontade de
cortar os pulsos

(Ela faz o dedo indicador da mão direita de serra, tenta cortar o pulso da mão esquerda com o indicador direito. Zélia arregala os olhos.)

ZÉLIA
Às vezes assustas-me

ANGUSTIADA
Homem terrível
com uma família igualmente
terrível
mãe irmã primos irmão
gente terrível

(Pausa.)

ANGUSTIADA
Percebes bem
o que estou eu a dizer

(Zélia levanta o cardápio, discretamente.)

ANGUSTIADA
Um pavor
ou melhor
um ódio mortal
gostava de vê-los mortos
ele claro
ele principalmente
e a irmã
sim
os dois
principalmente ele e ela
cunhada e marido
(Acentua a palavra marido, divide-a em sílabas.)
ma-ri-do
(Pausa.)
odiáveis
(Pausa.)
monstros

(Garçom aproxima-se. Angustiada pede macchiato, Zélia o cappuccino.)

ANGUSTIADA
Vamos para o nosso
oitavo ano de casados
bodas de lã
ou bodas de algodão
nunca sei

ZÉLIA
Barro

ANGUSTIADA
Como é

ZÉLIA
Oito anos de casamento
bodas de barro

ANGUSTIADA
Bodas de merda
vai lá

(Garçom coloca macchiato e cappuccino sobre a mesa.)

ANGUSTIADA
Ronca
não ajuda em nada
pede-me para lavar as ceroulas
aquelas ceroulas horrorosas
roupa interior
molha a casa de banho
joga a toalha no chão
arranha as panelas com
a esponja de aço
(Pausa.)
Eu lhe falo
cacete
usa a parte amarelinha da esponja
ele usa a parte verde
arranha destrói
faz de propósito

(Zélia dá um gole no próprio cappuccino.)

ANGUSTIADA
Volta tarde
meia-noite
uma hora da manhã
três horas da manhã
bêbado
obviamente
muito bêbado
com aquele cheiro
conhaque
Dreher
Jägermeister
monstro

(Zélia mastiga o biscoito de natas que veio com o cappuccino.)

ANGUSTIADA
(Faz que vai se levantar, não levanta.)
Xinga-me
diz que estou acabada
que não sirvo
que envelheci
ele diz
estás velha
caduca
estás a perder os dentes
(Mostra os dentes para a amiga.)
tenho-os cá todos
todos os dentes
os sisos inclusive
trinta e dois dentes
(Mostra os dentes para a amiga novamente.)
meus dentes
(Sorri, orgulhosa dos próprios dentes.)

(Passa uma senhora a vender panos de prato — Angustiada e Zélia não precisam dos panos de prato.)

ANGUSTIADA
Tédio
pavor
desprezo
este gênero de sentimento
repete-se incessantemente
ser humano lastimável
eu penso
onde fui me meter
eu penso
(Pausa.)
Até que me traz flores
o maldito
trouxe-te flores
amorzinho pra lá
dependência
amorzinho pra cá
ódio
como está o cheiro das flores
ele me pergunta
estão cheirosas as florzinhas
ele me pergunta
necessidade
e de ali estamos na cama
um horror

(Zélia acende o cigarro. Garçom diz que ali não pode fumar. Zélia apaga o cigarro.)

ANGUSTIADA
Amanhece
e volta a ser como antes
esquece-se
caio em desuso
sou ruína
de novo
pergunta-me se lavei-lhe as ceroulas
pergunta-me o que teremos para o jantar
e volta às três da manhã
com cheiro de Campari
Vermouth
Bitters
Aperol
e não só

(Zélia respira profundamente, como se estivesse a praticar a vipassanā meditation. As luzes escurecem.)

FIM

— P. R. Cunha

Bento fica

Bento acorda com o barulho da televisão na sala e agora está esparramado na cama a escutar a esposa conversando com algum manager importante de alguma multinacional com sede alhures. Ele não consegue vê-la, mas pelo cheiro imagina que ela esteja impecável a tomar o pequeno-almoço, segurando a chávena de café com uma mão e o telemóvel com a outra. A cacofonia televisão-alta-voz-estridente-da-esposa faz o Bento levar o travesseiro aos ouvidos — monta uma concha amorfa que abafa com eficiência mediana os sons que vêm de fora. Ele finalmente decide se levantar e vestido apenas com a calça do pijama arrasta-se até à sala. A esposa o observa com os mesmos olhos reprovadores de sempre: você precisa dar um jeito na merda da sua vida, ela diz, não pode ficar por aqui vagabundeando a tempo inteiro. Bento coça as pálpebras, pega uma torrada esquecida sobre a mesa, mastiga a torrada, coloca leite numa caneca com o rosto do Stanley Kubrick, mexe o achocolatado, mastiga novamente a torrada, toma um melancólico gole do leite. A esposa sai. Bento fica.

— P. R. Cunha