Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – quinta parte (montanhismos)

IMG_6382

Elaborei este pequeno pedaço de literatura ficcional durante jornada de teleférico até ao cimo de uma montanha andina. O autor tentava limpar a neve dos esquis com a pontinha do bastão verde marca Tsl (outdoor compact) e encarava o precipício que se abria para o solo. Estava a pensar nas montanhas, numa narrativa que ocorresse ali — mas as montanhas não estavam a pensar nele, as montanhas não dão a mínima.

SANTIAGO, CHILE

Joaquín Rapiman acordou assustado de um pesadelo e gritou para a esposa: mulher, não fiz nada nesta vida, tenho um emprego odioso, sinto que vou morrer. A esposa ajeitou-se na cama com dificuldade e com aquela indisposição de quem desperta antes do previsto fitou o marido — tinha a certeza de que ele endoidara. Quinze, vinte, trinta anos com a mesma pessoa, acreditando que conhece essa pessoa, que a compreende, mas a realidade é outro bicho: não conhece, muito menos compreende. Quero escalar as montanhas dos Andes, disse Joaquín. Quais?!, a esposa perguntou incrédula, na cordilheira há milhares. Qualquer uma, todas, a primeira que me aparecer, ele respondeu. Então Joaquín Rapiman comprou trajes adequados para escaladas e subiu aos Andes. Escalava uma, duas, às vezes três montanhas por tentativa. À medida que atingia o cimo de uma enorme formação rochosa, a fama do homem se espalhava. Todos queriam saber quem era aquele excêntrico sujeito que largara um estável cargo na prefeitura de Santiago para dedicar-se única e exclusivamente ao montanhismo. Muitos trabalhadores também largaram tudo, pediram demissão, almejavam seguir o exemplo de Joaquín Rapiman; a imprensa começara a chamá-lo de «o grande herói das montanhas», o subordinado que decidira se rebelar contra o sistema. No inverno de 2011, depois de ter obtido sucesso em todas as tentativas que empreendera, Joaquín achou que era altura de encarar o Aconcágua — a montanha mais alta dos Andes, 6.961 metros de altitude. Ele atravessara a fronteira com a Argentina, mirou na direção de Mendoza, seguiu uma sinuosa estrada secundária sobre a qual os flocos de neve caíam como se fossem pedaços de marshmallow. Antes de começar a escalada, Joaquín notou que uma multidão acenava e gritava o seu nome com grande entusiasmo. No céu, um helicóptero de TV acompanhava os movimentos do «herói das montanhas» à guisa de capturar imagens para um futuro documentário. A neve, no entanto, virou nevasca. Joaquín escalava e tornava-se cada vez mais um pontinho difuso no fundo branco do Aconcágua. Até que ele simplesmente sumiu. A multidão não conseguia enxergá-lo, o helicóptero perdera-o de vista. Joaquín Rapiman desaparecera sem deixar vestígio. Mesmo hoje, quase uma década depois do ocorrido, há quem acredite que ele esteja vivo, descansando em algum sítio isolado do Aconcágua, preparando-se para voltar — triunfante.

— P. R. Cunha