O poema

Não se sabe ao certo o motivo, mas desconfia-se que Poeta tenha procurado abrigo ao oceano depois de algumas decepções verdadeiramente desestimulantes com as quais tivera de lidar nos últimos tempos. Dir-se-ia que a vista desimpedida, as ondas espumosas, os eventuais navios que cortam de forma breve e sutil a linha do horizonte mostraram-se antídotos mais que eficientes ao outrora agitado temperamento de Poeta. Agora, segundo a população local, o criador de versos é figura notável pelos seus hábitos tranquilos, rumina permanentemente nas praias junto ao mar, como um farol orgânico com a cabeça iluminada. Durante o ocaso, Poeta na areia vibra as cordas do próprio violino, e os vizinhos que porventura deixarem as janelas abertas escutarão a lacrimosa melodia — serão levados a interrogar-se se Poeta estaria a escrever algum outro poema introspectivo àquela altura.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #30)

a fábula dos três porquinhos narra a trajetória de três irmãos suínos que numa altura dizem para a mãe: é isto!, vamos embora & cada um vai construir a própria casa. (a depender de idioma/região/didatismo/&tc., o início pode sofrer algumas variações específicas [como aquela em que a mãe está {implícita &/ou explicitamente} de saco cheio dos porquinhos & meio que os expulsa para enfim entregar-se ao merecido momento de sossego]. o irmão mais novo — onde ele estava com a cabeça? — constrói casa de palha; o lobo vai, assopra, a palha cai. o irmão do meio, constrói casa de madeira; o lobo vai, assopra, a madeira cai. o irmão mais velho é arisco & ousado, constrói casa de tijolo, o lobo vai assopra, assopra, assopra, assopra, a casa permanece. via de regra, os porquinhos vivem felizes para sempre dentro da casa de tijolo.

essa estória costuma me oferecer interessantes gatilhos filosóficos.

um professor de biologia do ensino médio me dissera certa vez que as árvores com raízes mais seguras são aquelas que precisam de resistir constantemente a ventos devastadores. as árvores frágeis seriam as que crescem nos vales calmos & ensolarados.

«assim como as árvores», conta-nos um antigo estoico, «as pessoas também podem se beneficiar das tempestades & dos ventos fortes — pois as intempéries ensinam a manter a calma, a disciplina; trazem resiliência.»

em novembro de 2009, pouco depois da minha temporada na rússia, estava esparramado na cama a ouvir mikhail glinka & tive aquilo a que costumam chamar de sonho lúcido. vi-me sentado à escrivaninha de uma casa perto do oceano, chávena de café, tabuleiro de xadrez, calhamaço do dostoiévski jogado despretensiosamente numa poltrona felpuda. ao fundo no horizonte, um borrão de nuvens cinzas carregadas de chuva & eletricidade se aproximava. foi quando tive a certeza de que não queria ser jornalista, não fazia sentido ser jornalista, ser jornalista estava mesmo fora de questão. largaria tudo para me dedicar à literatura, aos livros.

estou a completar, portanto, dez anos de atividades literárias — de madrugadas intranquilas, manhãs absolutamente adoráveis, tardes duvidosas, sonos esperançosos, ciclos inconstantes, ventos fortes, tornados, tempestades tropicais, achados & perdidos, sempre a lembrar daquela frase de epiteto: «antes de mais nada, diga para si mesmo o que deseja ser, daí faça o que precisa de ser feito para sê-lo».

sim, ainda estou a fazer o que precisa de ser feito para sê-lo. estou a exercitar-me, dia-após-dia, a cair, a subir, a descer — a colocar em prática tudo o que vejo & aprendo & descubro & escuto durante a jornada. (evoco, a título de parêntese, o surfista que necessita de encarar ondas gigantescas até finalmente aprender a domá-las.)

a boa notícia é que já consigo enxergar a tal casa perto do oceano. ela está ali, não muito longe, sobre as falésias, com uma escrivaninha à varanda. & quando o desânimo ameaça fechar as pálpebras, o barulho dos trovões mantém a caminhada nas trilhas.

— p. r. cunha

Ilhéus

O apego de certos escritores pelo mar, admiração que por vezes raia o doentio, incontrolável desejo de perder-se na vasta superfície oceânica em busca de um sítio onde consigam acertar as contas com as próprias desilusões, querem se sentir em paz. 

Escritores que numa altura dedicaram esta ou aquela obra a determinados marinheiros de longo curso — tipos maioritariamente insondáveis — cujos corpos jazem algures no fundo do oceano. 

Escritores em busca de uma ilha.*

Virginia Woolf, Jorge Amado, Stevenson, Melville, Kipling, Camões, Conrad, Vinícius de Moraes, Joyce, Walcott…

Novalis, depois de caminhar pelos territórios britânicos em meados do século dezoito, escrevera: não só a Inglaterra, mas também o inglês é uma ilha. E também os poetas, os românticos, os solitários que dão-se bem com a solitude: todos ilhas.

Quando estou a passar por apuros, como se diz, quando percebo-me a lidar com situações irreversíveis, e vejo-me assombrado pela realidade, e simplesmente não dou conta, e a chuva cai em finas gotas que espetam a pele como agulhas, e uma sensação de esmagadora asfixia invade as minhas entranhas, procuro da mesma forma o conforto do exilado náutico.

Como se meus pensamentos fossem amparados pelas ondas, de súbito visualizo-me sentado à escrivaninha — o meu refúgio, ilha de madeira com livros a fazer as vezes de árvores, árvores que possuem literaturas em suas folhas, dezenas, centenas, milhares de folhas retangulares oferecendo sombra para a minha cabeça, a refrescar o incêndio interno que me arde e devora sem moderação.

Fujo para a minha zona de areia cercada de água por todos os lados, talvez o último fragmento de sanidade que consigo avistar antes de perder-me em devaneios paralelos. E espero. Vem a ressaca. A maré recua. O marujo coloca-se novamente a caminho de terra. Volta um outro, momentaneamente curado.

— P. R. Cunha


*Não confundir com a anestésica busca por um porto seguro, não é disso que se trata.

Forças Armadas

prcunhaoffice

Poeta escondido escrevia sinceros poemas sobre todas as coisas. Sentia-se à vontade para enaltecer o mar, o padrão amarelo e preto de uma abelha ligeiramente zangada, ou perceber o despretensioso movimento das asas da cotovia matinal. Mas um dia comentaram por alto que o comandante das Forças Armadas estava obcecado pela poesia de Poeta — o que, naturalmente, restringiu sobremaneira a sua capacidade de escrever poemas.

— P. R. Cunha

Alguns trechos sinuosos e (talvez) paradoxais

Tive o privilégio de participar das aulas do dramaturgo David Mamet e jamais esquecerei das dicas que ele dera ao final do curso: todos os dias, faça sempre algo para a sua arte e algo para divulgá-la, a pouco e pouco; escreva sempre, vá até aos lugares que você acha importante para o projeto no qual está a trabalhar, entre em contato com outros artistas, incremente o texto com atividades relacionadas tais como fotografia, pintura, literatura, cinema; e lembre-se sempre de que um escritor que guarda tudo dentro da gavetinha e espera que alguém o descubra não é um escritor, mas um aluado. 

Dizem que ao anotar um poema o poeta mutila-se — deixa sobre a folha de papel um bocadinho de si. E se há qualquer coisa que se mostre inexplicável para os versos, o poeta meio que enlouquece, ou sai para uma longa caminhada; um passeio pelo oceano durante o entardecer, caso more perto das areias. O importante aqui é ficar com a impressão de que o mundo pode ser capturado, ou melhor, adestrado pelos olhos algo indolentes do poeta, mesmo que ele saiba que o mundo não pode ser nem capturado nem adestrado. Esse engano permite-o sobreviver.

[Relutâncias]

Sentado numa cadeira de praia
as próprias pernas brancas confundem-se
com as armações cor de neve
da cadeira de praia

Nebulosidade matinal
cobre o mar com lençóis
acinzentados
— não vê as ondas

Invade-lhe um pequeno entusiasmo
pela apropriação marítima
sente, de forma prazenteira, sem esforço
que é o dono do mundo.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: escrever e viajar — ofícios da mesma prática*

Juan Carlos Onetti dizia que o criador/artista precisa de ter a força para viver solitário. Um tipo específico de animal humano que tem a coragem de olhar para dentro de si mesmo, que compreende que não há trilhas para seguir — constrói o caminho à medida que o percorre (como já tivemos oportunidade de ver neste caderno [vide figura do comboio]).

Escrever e viajar: duas viagens.

As odisseias de Homero, as andanças de Ulisses, as raízes da própria literatura vêm dessa vontade, desse desejo… ou melhor, dessa necessidade (sublinhar necessidade) de estar noutro sítio.

O viajante então torna-se filósofo à maneira Nigel Warburton: não se limita a expressar as suas crenças, ele raciocina, define, classifica; uma tentativa constante de ir além das aparências, quer ser desafiado, criticado, sabe que a maioria dos trajetos aparentemente simples não tem uma direção simples.

Quantos romances sobre o mar, sobre as chegadas e partidas em docas atingidas por ondas irascíveis, sobre o faroleiro que avista no horizonte marujos completamente fatigados, mas que a despeito do sopro da morte nunca param. Ahab encontra o cachalote — símbolo marítimo das obsessões do homem. Moby Dick, Herman Melville, acerto de contas com os próprios demônios. 

O oceano: destino dos aventureiros, dos rebeldes, dos insatisfeitos, daqueles que buscavam outra coisa, noutras costas.

A própria jornada narrativa (arco narrativo [para os catedráticos]) — apresentação do protagonista no mundo dos comuns, o chamado para a resolução de alguma dificuldade (desafio), aventura, lidar com algum impasse (algo ou alguém que está a impedir o protagonista de realizar o que pretende), ter de resolver o impasse, buscar a ajuda de algo (porção mágica/armamento/poderes/etc.) ou de alguém (ajudante/tutor[a]/companheiro[a]/justiceiro[a]/sábio[a]/etc.) para resolver o impasse, os objetivos que precisam ser alcançados, o sucesso, o fracasso, as transformações do protagonista no desenrolar da missão, o retorno à casa.

Se lemos, vemos, ouvimos, escrevemos uma história… estamos a viajar.

— P. R. Cunha


*Ironicamente, o autor tem de interromper temporariamente a publicação do Caderno de viagem por motivo de viagem. Feliz 2019!