devaneios da própria máquina de escrever (episódio #49)

[da importância de se manter um diário.] certo, você está a esperar o autocarro, ou dentro de um anfiteatro durante o intervalo do espetáculo, ou na fila da cafeteria, ou a ler os jornais no saguão do hotel — quando alguém diz algo realmente interessante, uma faísca de ideia, aquela frase de certeza é a semente de uma narrativa (um romance, se calhar). você agora apalpa todos os bolsos da calça & não encontra nada. sem caneta, sem bloco-notas. a frase, como costuma acontecer com todas as frase, desvanece, torna-se opaca, fantasmagórica, até se mostrar apenas um rastro amorfo, como um lençol após incêndio doméstico. alas! depois de ter passado por incontáveis ocasiões desse gênero, resolvi finalmente comprar um diário. um diário portátil, pode-se dizê-lo, já que sempre me dei muito bem com os cadernos que costumo preencher de maneira um bocadinho neurótica durante as leituras da praxe. mas precisava de algo que eu pudesse levar para todos os lados. não é nenhum moleskine, não tem capa de couro, não é item de colecionador. trata-se de uma cadernetinha 11 x 16 cm fabricada pela tilibra que me custara doze dinheiros em papelaria popular no centro de taguatinga, distrito federal. a primeira medida que tomei foi garantir a mim mesmo que nunca, em hipótese alguma, mostraria o diário para vivalma. pois sei que quando quero mostrar algo a alguém acabo invariavelmente me policiando: importo-me com a tipologia, deixo de escrever termos inadequados (férteis adubos do fluxo de consciência), fico com medo de rabiscar & de repente arruinar a estética da página &tc. DIÁRIO SECRETO, escrevo na primeira página, sentindo-me um ingênuo miúdo do primário. mas que assim seja. por vezes, pego-me distraído, estou debruçado para diante do bloquinho com papel cor de creme, meu banco de dados às proliferações de possibilidades, discorro a respeito do baloiço moroso dos galhos de uma sibipiruna («caesalpinia peltophoroides»), sobre a importância de se manter um diário. estou feliz.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #45)

«vive-se de modo tão apressado, tão expansivo & fragmentário, tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que não dou conta de tudo.»

por estranho que possa parecer, essa frase foi escrita por hofmannsthal numa carta para o amigo edgar karg… em 1892.

sim, 1892.

hofmannsthal comentava sobre as miudezas do dia a dia, pouco interessantes, dos pequenos projetos insignificantes & mais isso, & mais aquilo outro. tudo que uma pessoa é obrigada a fazer quando não tem diante de si o azul do mar cristalino, belo, puro, livre, filosófico.

o que pensar, então, destes «tempos vertiginosos» do século vinte & um? se hofmannsthal andasse por aqui talvez parasse na primeira esquina de viena, atordoado diante de tanta balbúrdia, diante da velocidade dos transeuntes com os seus dispositivos móveis, colocaria as mãos no peito, cairia no chão a sofrer de enfarte agudo do miocárdio.

é uma anedota. 

precisa-se tomar o devido cuidado para não escorregar no looping apocalíptico. pois cada época parece ter ouvidos aguçados à espera das sete trombetas tocadas pelos tais anjos que trazem mui péssimas notícias aos habitantes da terra.

em adaptação livre das palavras de tom stoppard: todos os períodos acham que são o fim dos tempos, mas o nosso é de verdade.

o fim dos livros, o fim da cultura, da música, do teatro, de tudo. 

é claro que em algum momento a previsão pode concretizar-se. como naquela fábula dos irmãos grimm em que o pastor entediado queria se divertir & durante muitos dias tirou com a cara dos aldeões gritando: lá vem o lobo!, lá vem o lobo! tudo de brincadeirinha. até que numa altura o lobo realmente sai da floresta, o pastor grita por ajuda, implora, esperneia. os camponeses, cansados de tantas ladainhas, não dão a mínima. & o lobo, de barriga cheia, agradece.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #44)

há escritores muito supersticiosos. acreditam em fantasmas, bruxas & nesse tipo de coisas. andaram a escrever uns livros magníficos, mas continuam a acreditar em tretas estranhas.

batalhar em duas frentes literárias ao mesmo tempo, ou «efeito borboleta». pequenas causas — o simples bater de uma borboleta no brasil a gerar (através de intricada cadeia de eventos) um tornado no texas. medidas/escolhas insignificantes, digamos: virar à esquerda & não à direita, podem ter consequências devastadoras na vida de quem decide virar à esquerda & não à direita. (à direita, não sabemos, poderia estar um amor perdido, uma nota de cem dinheiros, um livro do baudelaire fora de catálogo).

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diagrama da trajetória do sistema de (edward) lorenz/strange attractor, dependência sensível às condições iniciais; somatórios de erros & incertezas. dois projetos literários podem seguir o mesmo caminho até determinada altura — altura em que pequenas perturbações (i.e. um dia soalheiro dedicado aos prazeres carnais) desviam a dupla & cada um passa a seguir estradas distintas. assim:

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curiosamente, o fractal representado pela trajetória do sistema lorenz/strange attractor/dois projetos literários lembra o formato de uma borboleta. porém, nada premeditado. obra do acaso.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #40)

ela colocou a chávena de café sobre a mesa. respirou fundo. ajeitou-se no sofá & disse: bom…, a imagem que ainda me arranca lágrimas, você quer saber, a imagem que ainda parte o meu coração em pedacinhos é o david a sair de casa com o nosso filho no colo, a abrir a porta do carro para levá-lo até à escola. eu aguardo na calçada, naquele modo «estou-ali-mas-não-estou-ali». com todo o cuidado do mundo o david aperta o nosso filho na cadeirinha vermelha que minha mãe nos dera de natal. ele fecha a porta do carro & olha na minha direção: sorri da forma mais encantadora que se possa imaginar, um sorriso simples, mágico. & eu continuo parada na calçada, sem mover-me um centímetro. certa de que não amava mais o david.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #39)

martin & a namorada decidiram ir nadar no lago. ela ficou de ligar para uma amiga & martin convidou o ignacio, que conta anedotas de um jeito tosco & teatral o que sempre arranca boas gargalhadas de toda a gente. encontrar-se-iam à orla por volta das 10h. algumas nuvens se amotinavam no céu matutino & a impressão era de que a tempestade desabaria a qualquer momento. o trajeto até ao lago, no entanto, é absolutamente tranquilo. fernanda estava ao volante — martin ainda não aprendeu a dirigir. ele abrira toda a janela do passageiro & por vezes colocava a cabeça para fora & sentia a brisa enquanto contava o número de vacas que pastavam despreocupadas. martin sentiu inveja do sossego das vacas. numa altura, precisaram de parar o carro no estacionamento de terra improvisado & seguir o resto do caminho a pé. fernanda ficava a levantar o próprio telemóvel bem alto a ver se encontrava sinal. a amiga dela respondera pelo whatsapp que não podia ir ao lago hoje, alguma coisa a respeito de um almoço com os pais. martin sentiu a primeira gota de chuva cair no ombro. ele andava na frente para abrir espaço entre as matas. quando chegaram à orla deserta, fernanda estendeu a toalha & martin colocou a mochila em cima de uma rocha ao lado. ela se afastou para analisar a superfície verde do lago. martin aproximou-se & segurou-a pela cintura. fernanda encostou a cabeça no tórax dele & percebeu que uma espécie de pé estava a boiar não muito longe de onde eles estavam. «merda, martin, diz que aquilo ali não é o que estou pensando», ela apontou para o corpo de bruços. não parecia real, não mesmo. parecia um objeto sintético, um daqueles robôs que recebem pele artificial para simular a aparência humana. martin riu-se contidamente: «deve ser coisa do ignacio». daí ele gritou & bateu palmas: «haha!, pronto, ignacio, essa foi boa, muita boa, agora chega de tretas», mas nada de ignacio. o corpo pálido, adiposo, continuava a boiar: jeans, camisa social branca, sapato desportivo nike desamarrado. fernanda pegou uma pedra da orla & jogou-a no cadáver. a pedra foi amortecida pela epiderme hipotônica & fez um barulho como se tivesse atingido um saco de batatas. «chega mais perto dele, martin», ela pediu. martin notou um rótulo de coca-cola grudado no braço esquerdo & percebeu também que havia um ferimento, ou melhor, uma grande abertura no dorso do cadáver, mas nenhuma mosca, nenhum cheiro. parecia um banhista distraído, talvez um pouco bêbado, que resolvera tirar uma pestana onde não devia. martin endireitou-se & fez uma varredura-trezentos-&-sessenta-graus no local. uma parte dele ainda tinha esperança de ver ignacio saindo de trás de alguma árvore, com aquele sorriso debochado & senil: é tudo brincadeira, seus idiotas. mas essa possibilidade se mostrava cada vez menos razoável. martin chegou ainda mais perto do cadáver & começou a dar uns chutes, bem de leve. depois, com força, sacudiu o morto, que desvirou-se na água feito um boneco de pano encharcado. fernanda soltou um rangido de susto & cobriu a boca com as mãos, não podia acreditar no que estava acontecendo. o rosto do homem lembrava uma gelatina derretida, o nariz torto, os globos oculares deslocados, a pele avermelhada. martin pediu para ela correr, pegar o telemóvel, ligar para a polícia. a chuva agora começara a cair com força. fernanda tentava desesperadamente levantar o aparelho para o céu, à procura de sinal, qualquer sinal.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #33)

hoje de manhãzinha aconteceu a primeira partida do torneio de xadrez (modo blitz [10 minutos]) do qual estou a participar nas plataformas chess.com. meu adversário foi vujasinvujke, da sérvia. com pontuação de 1425 (mais de 1800 vitórias), vujasinvujke ganhou fama de ser um enxadrista ousado & agressivo. de forma que precisei de alterar/adequar o meu estilo de jogo — que costuma ser voltado às trincheiras defensivas.

prcunha (brasil): peças brancas
vujasinvujke (sérvia): peças pretas

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minha abertura foi propositadamente simples (uma variação minimalista do paulsen attack) — de certeza que o sr. vujasinvujke não me conhecia, ao que a pegadinha parece ter funcionado. numa partida de xadrez, sabemos, brinca-se muito com os processos mentais do adversário. se enfrento um oponente bem mais capacitado do que eu, cometo erros bobos à laia de me fazer de desentendido. & se a isca é mordida, as chances de vitória aumentam consideravelmente (como se verá a seguir).

o meu primeiro «erro bobo» foi cometido cedo, antes de o relógio ultrapassar o minuto nove. vujasinvujke, como era esperado, atacava-me com insistência maquiavélica — (nb4) o cavalo dele já às portas da minha família real, a ameaçar ao mesmo tempo rei-torre-&-rainha, num xeque que me seria devastador (vide nc2).

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em vez de defender a minha posição com a rainha (sei lá, qb3), retribuí o ataque de vujasinvujke com o bispo (repito: sou basicamente um zagueiro de várzea a dar botinadas no adversário, atacar nunca foi o meu forte): xeque.

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o ruim das partidas online é que não podemos ver a fisionomia do adversário. eu basicamente «dei» um bispo para vujasinvujke chamar de seu. ele aceitou o presente de bom grado, pescou a minha peça com o próprio rei.

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agora sim, rainha branca em b3 (xeque). os xadrezistas não têm papas na língua, então digo-vos sem falsa modéstia que depois dessa jogada a partida estava ganha (o duelo inteiro pode ser visto no gif a seguir). preciso de confessar, no entanto, que muito provavelmente tudo só se passou dessa forma porque o sr. vujasinvujke não conhecia o meu estilo de jogo — enquanto eu já o vira trucidar inúmeros adversários. & são esses pequenos detalhes que podem decidir as batalhas ao tabuleiro.

board

— p. r. cunha