Trégua passageira

Dois primos que durante anos competiram entre si, não só porque tinham lá praticamente a mesma idade, mas também porque eram em tudo muito diferentes — um se mostrava inclinado às contemplações literárias, sábio catedrático, pós-doutorado nisto e naquilo; enquanto o outro era preguiçoso, passava grande parte do tempo em festas duvidosas, jamais frequentara universidade. Numa palavra: um era feio e intelectual, enquanto o outro não tinha nada para a cabeça mas era lá um bocado atraente para as damas. Aconteceu de os primos terem se envolvido na semana passada em um bizarro desastre perto da rodoviária, quando dois autocarros se chocaram depois que os respectivos condutores de súbito, como se costuma dizer, perderam os nervos. De acordo com os noticiários, um dos primos, o intelectual, estaria a caminho de um seminário sobre o papel da morte nas obras de Schubert e Kafka, ao passo que o outro primo, o galanteador, estaria a voltar de uma bebedeira que terminara pouco antes das sete da manhã. Segundo o laudo policial, cujas folhas estou a analisar neste exato momento, os dois primos, assim como outros nove passageiros, foram decapitados pelas ferragens. Não se sabe, no entanto, se ferragens pertencentes ao primeiro o ao segundo autocarro, tamanha a violência da colisão.

— P. R. Cunha