Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte II

A miragem da felicidade

Os matemáticos gostam de dizer que nossas vidas são reguladas pelo acaso, que aquilo a que muitos chamam de «destino» não passa de um amontoado de coincidências aleatórias. O Universo, em uma palavra, joga o pôquer enquanto cérebros humanos tentam analisar dados, fazer sentido, criar sentidos. Mas sequer compreendemos adequadamente de que material são feitas as cartas do jogo, ou como se abre a fechadura desse gigantesco cassino cósmico que não para de se expandir lá fora. Daí a imagem — adequada, por sinal — do pária em busca do saber: figura desengonçada a tatear no escuro, entregue à frustração de tarefas que, se não se mostram inatingíveis, andam ali bem perto. 

Diante do túmulo do meu pai, imaginando se estava sendo observado ou não, dediquei-me a esses absurdos com certo afinco. Por exemplo. A última vez em que conversamos, ele me disse: ficarei ausente por uns meses. Ausente. Então ele entrou na própria camioneta marca Mitsubishi e partiu para o Rio Grande do Sul. No município de São José dos Ausentes, meu pai perdeu o controle do automóvel e caiu da ponte sobre o rio Silveira — sobrenome do meu avô materno, cuja lápide, como disse, não consegui encontrar no cemitério Campo da Esperança por motivos tecnológicos. Rio Silveira, São José dos Ausentes, coincidências que já bastariam para inquietar coração inclinado ao ocultismo, o que, importante que isso seja esclarecido o quanto antes, não é o meu caso — embora eu tenha me surpreendido sobremaneira com o fato de o veículo do meu pai ter sido registrado com a placa JHU-2407, números que de modo particularmente assustador coincidem com a data exata do desastre fatal (24/07).

Enquanto refletia sobre essas ocorrências caóticas sentia uma espécie de abatimento profundo, perguntando-me se eu mesmo continuava a existir. Lembrei-me que, duas semanas após a cerimônia de sepultamento do meu pai, li na versão inglesa do periódico «Aftenbladet» — cortesia de uma colega que à época trabalhava no consulado da Noruega — reportagem que mostrava através de gráficos estatísticos que boa parte das catástrofes automobilísticas na capital Oslo seria em verdade ato suicida dos motoristas envolvidos. Algumas tentativas, destacava de forma soturna o repórter do «Aftenbladet», eram mais bem encenadas do que outras. 

O médico legista iluminou os pálidos olhos do meu pai com uma pequena lanterna. As pupilas não se contraíram. Depois, verificou a artéria carótida no pescoço. Não pulsava. Aproximou-se do tórax, colocou o estetoscópio sobre o peito do cadáver: o coração, definitivamente, deixara de bater — papai morreu. Ao longo de três décadas meu pai ocupara-se de evitar a morte alheia, e, até onde sei, jamais imaginou a si mesmo deitado em cima da maca gelada do necrotério. Parece ser próprio da condição do médico não pensar nessas coisas. Afinal, médico resgata, não quer ser resgatado.

Das dezenas, centenas de telefonemas que atendi à medida que as pessoas recebiam a notícia do acidente, um deles ainda hoje me desassossega. Minha tia a dizer que aquilo tudo era difícil de engolir. Meu pai, segundo ela, era invencível, imortal. De início, reconheço, estas manifestações de pesar e condolência trouxeram-me certo alívio, mas isso durou pouco. No dia seguinte já me sentia invadido, saturado, aborrecido, cansado, enraivecido, queria que parassem de ligar, de dizer o quanto estavam tristes, enlutados, alguns soluçavam copiosamente, e tive mesmo de consolá-los, explicar-lhes que ficaria tudo bem. Depois eu desligava, tremendo, desejando fugir para nenhures.

Lembro de querer apenas uma cama, dormir durante meses. 

A cerimônia fúnebre é apenas o cimo do icebergue de uma conjuntura infinitamente mais complexa, hoje posso demonstrar isso com propriedade: reconhecimento do cadáver, transferência do corpo, escrever obituário para os jornais, tipo/tamanho do caixão, coroas de flores, cemitério, lidar com os parentes mais sensíveis, inventário, pendências de toda a natureza, herança, dívidas deixadas pelo morto, contas bancárias, advogados etcétera etcétera. 

Há pouco compareci ao funeral do primo de um grande amigo meu e, enquanto observava a família aos prantos perto do defunto, confesso com certa perversidade que a mim aquele choro não era apenas por conta da morte em si, mas também por tudo o que eles ainda teriam de passar depois dessa estranha etapa em que colocamos embaixo da terra um ser humano de nosso mais profundo apreço.

— P. R. Cunha

Quarta nota #10 — ironicamente

§ A máquina de gritar desenvolvida pelo Dr. Ludwig consiste em uma caixa (50 x 60 cm) ajustável a qualquer tipo de crânio humano. A pessoa que porventura esteja zangada com o chefe, enfurecida com o cônjuge, irritada com o desfecho de determinado inventário que há anos se arrasta, coloca a cabeça dentro da máquina de gritar do Dr. Ludwig — cujo interior acolchoado evita o vazamento de toda a sorte de ruídos (graves, agudos etc.) — e grita. Paga-se uma módica quantia para se utilizar o aparato. Máquina de gritar.

§ Tenho um amigo que fizera a faculdade de jornalismo e nunca exercera a profissão. Ao passo que esse amigo jamais disse: sou jornalista. Sabe que para ser jornalista é preciso praticar o jornalismo. Da mesma forma, ele às vezes me alerta: para ser escritor é preciso escrever. Se tu não escreves, não és escritor, és apenas um leitor mascarado.

§ Depois da repercussão positiva do manual Como construir um escritor, eis uma breve reflexão sobre Como construir um texto literário. Antes de mais nada, baixa o aplicativo «Faça-me um Texto Literário» (disponível para Android e iOS). Coloca no campo TEMA o assunto a respeito do qual desejas «escrever». Aguarda uns minutinhos, porque agora o aplicativo está a pensar por ti. Passados os minutinhos, tu terás um texto literário.

§ Pausa prolongada.

§ Fica-se muito triste quando alguém admirável morre. Mas a morte de Mark Hollis, vocalista dos Talk Talk, possui peculiaridades que merecem ser levadas em consideração. Hollis morreu-se (livre e espontânea vontade) em 1992, pouco depois das gravações do álbum Laughing Stock. Na altura, dissera que estava farto das pressões da chamada indústria da música, dos mexericos, das expectativas irreais/surreais dos fãs, da necessidade de sempre estar em todos os lados, e que chegara a hora de dedicar-se à família. Viveu desde então ao lado dos seus, retirado do mundo fonográfico — apesar de um propositadamente discreto trabalho solo em 1998. Já não queria mais saber de mostrar-se, e o facto de poucos falarem dele nos últimos tempos é prova de que lograra êxito na fuga. Ontem, foi o Hollis privado — o pai, o marido — que se despedira. Para os que admiravam a sua genialidade, permanecem ainda os mesmos espólios de um luto que há décadas perdura.

— P. R. Cunha


Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

O tema é perigoso, não lhe posso dizer nada com precisão. Aconselho-o somente trancar a coisa num baú, mantê-la ali dentro por um ano e depois reler. Daí verá com mais clareza. 

Anton Tchékhov


Em meados de maio de 2017, depois de uma noite muito agitada, acordei com aquela estranha sensação de vertigem que às vezes me assalta quando acredito ser observado por alguém escondido atrás da porta. Essa impressão fantasmagórica tenho-na desde pequeno. Ao que parece, reminiscência de caçadores ancestrais, sempre atentos aos perigos da floresta e que precisavam de responder às exigências de uma realidade dominada pela fuga. Característica que, em situações de crise, poderia levar à estabilização dos pensamentos dos meus semelhantes primitivos responsáveis pela vigília noturna da tribo, mas herança genética pouco necessária ao indivíduo contemporâneo que apenas almeja algumas horas de sono sem angústia.

Um amigo que largara os estudos de literatura de língua alemã — justamente na época em que comecei a escrever minhas análises sobre as obras de W. G. Sebald e Robert Walser — para cuidar da quinta de animais que pertencera ao avô Dănuț, nome romeno que sempre me intrigou muitíssimo, disse-me certa vez que essas perturbações poderiam ser reflexos de abandonos na minha infância. Acontece que os meus pais escolheram a medicina e, como se sabe, o médico está sempre fora. Pobre criatura que se apercebe desamparada, disse esse amigo, e passa então a criar substitutos espectrais para suprir a ausência daqueles que, supõem-se, deveriam estar por ali cuidando do produto de suas obras, mas vestem o jaleco branco e partem algures para tratar de outras gentes. Esses «doppelgängers» oníricos comportar-se-iam tal e qual o papá e a mamã, meu amigo explicou-me enquanto limpava uma mancha de terra no braço esquerdo, mas nessas aparições estariam em trajes civis, como que idealizados pela cabeça da criança, de acordo com aquilo que ela gostaria que fosse, mas nunca é. Acrescentara ainda, o meu amigo, à guisa de alerta, que sentir-se perseguido por sombras escondidas atrás da porta geralmente é sinal de um mau presságio. 

Foi, portanto, com essa sensação vertiginosa que despertei depois da supracitada noite de maio e dei comigo que nos quase oito anos de morte do meu pai nunca voltei ao cemitério a prestar, como se diz, minhas homenagens. Oito anos e era como se eu ainda o esperasse chegar de longe, de algum plantão na clínica, ele ficaria um pouco, talvez jantasse, e então sairia para outra jornada misteriosa a respeito da qual jamais daria grandes detalhes. Quando meu pai se afastava, telefonava a cada três horas para saber «como estavam as coisas», mas as ligações raramente duravam mais do que um minuto. De aí, quando ele voltava para casa, exausto, parecia uma falésia insuperável. A previsibilidade desse pêndulo fez com que eu me acostumasse com as distâncias (ausências) e aprendesse a lidar com elas. Compreendia que meu pai se esforçava para estar presente, ser família, e compreendia também que ele nunca daria conta dessas tarefas. 

Ainda de pijamas, sento-me à mesa da cozinha e fecho os olhos enquanto tomo o pequeno-almoço. Negrume. Lá está meu pai deitado no caixão, usa um fato muito parecido com o que vestiu no próprio casamento, não se move, e a mim isso não importa, porque papai volta, depois de alguns meses, mas volta. Pergunto se afinal ele não terá escutado tudo o que se falou no velório, as mentiras, as condolências vazias, os votos daqueles que o abandonaram. Pergunto se papai só parece, mas não está morto. Nós nos habituamos a determinadas rotinas, determinadas condições, certezas que nunca são certezas, e quando tudo isso se rompe demoramos a nos adaptar aos novos termos, às perdas — sentimos ainda incômodos no membro-fantasma, como um soldado mutilado no campo de batalha.

Saí, então, do meu apartamento em meados de maio do ano passado por volta das 9h da manhã carregado de uma branda melancolia e com vontade de conversar com o túmulo do meu pai. Soprava um vento forte, o céu coberto de nuvens espessas, mas quando cheguei ao cemitério o tempo estava formidável.

No extremo sul do segmentado projeto arquitetônico de Brasília, como se escondido de propósito, está o cemitério Campo da Esperança. Meu pai foi enterrado ali. Estacionei meu automóvel enquanto alimentava ingênua expectativa de que teria uns momentos completamente solitários com a memória paterna, esquecendo-me de que as pessoas morrem todos os dias, ao passo que Campo da Esperança não está vazio, mas repleto de transeuntes com vestuários escuros, familiares e amigos que choram a morte de alguém que «se foi cedo demais», outros senhores errantes que perambulam em busca da, e aqui conjecturo, sepultura da mulher amada. 

Caminho até à recepção do cemitério e pergunto pelo endereço do jazigo do meu pai. A moça ao computador, que com toda a certeza notara minha inexperiência com esse tipo de arranjo, pediu-me data de falecimento e nome completo do falecido. Ela então pegou um pedaço de papel com o mapa do cemitério e circulou com caneta esferográfica o local exato em que papai fora enterrado. Depois, por curiosidade, eu quis saber também do lote do meu avô materno, e disse logo dia/mês/ano, nome completo dele, antecipando-me, portanto, aos questionamentos ensaiados da recepcionista, que já entreabria a boca para repetir as mesmas perguntas da praxe. Acreditei que com essa atitude, nada ousada, hoje compreendo com clareza, acreditei que pudesse fazer melhor figura, que assim eu me passasse por sujeito que entende de cemitérios, que sabe do que fala quando se trata de visitar os mortos, e a recepcionista me enxergaria com outros olhos, de repente até se repreenderia por ter me julgado um novato, um desconhecedor mórbido. A recepcionista diria para consigo: finalmente alguém que entende de cemitérios. Mas, posso falar isto sem culpa, as coisas não ocorrem como imaginamos. Ela manteve a mesma fisionomia desinteressada de antes e, como se fosse uma vendedora de supermercado que explica ao cliente a falta de determinado produto, disse que: seu pai morreu em 2010, então temos os dados dele no nosso sistema, mas seu avô morreu em 2002, já dele não temos nada, e teria, ela continuou, teria que dar uma olhadinha nos arquivos de papel que estão guardados naquela sala, ela então apontou para a sala. Como fiquei parado a esperar que ela se levantasse e fizesse o próprio trabalho — ou seja, abrir a sala, procurar o endereço do túmulo do meu avô, entregar-me o endereço — ela acrescentara ainda que a sala estava trancada há muito e ninguém sabia ao certo onde estava a chave.

Procura da mulher amada

A verdade é que entregamos a memória de toda a gente aos computadores; agora também os mortos devem desaparecer se não se adaptarem aos sistemas binários. No caso de pane geral na rede algorítmica, quem se recordará de quem?, tais abordagens são de tremer. Os túmulos que ocupam, ou melhor, que abarrotam a superfície dos cemitérios de certa forma estão ali para um derradeiro lembrete aos ouvidos dos vivos antes da computadorização de tudo, parecem dizer que a última morte é aquela que acompanha o esquecimento do nome de quem já morreu, independentemente da natureza desse esquecimento, se analógico ou digital. Talvez seja por isso que muitos se mostrem tão inquietos quando se deparam com lápides abandonadas, a erva daninha passa a decretar que essas nomenclaturas de pedra já não servem mais, não têm propósito, e a pessoa sente o gosto amargo da completa finitude, quando nem mesmo o agrupamento de letras que outrora lhe chamava num som tão familiar é capaz de resgatá-la do anonimato irreversível. 

Quero dizer que a despeito das esperanças em contrário e das tentativas de digitalizar a morte todos caem na vala desse esquecimento, uns despencam depressa, outros se demoram um pouquinho mais porque deixaram marcas significativas na topografia da vida. O vazio chega, cedo ou tarde; nossa sepultura se deteriora, os dados não foram devidamente colocados nos computadores, já não trazem flores, já não choram mais em cima das nossas rochas. E por mera questão de conforto evita-se pensar nessas perversidades. Até que numa manhã de outono o sujeito tenta se lembrar do nome de um amigo que morrera há anos e não consegue, o amigo se tornara uma pequena mancha na memória, mancha que aos poucos se dilui, vira um borrão lacônico e finalmente se extingue — os sítios web nada podem contra isso. O sujeito tem assim certeza de que também ele, depois de morrer, será apenas uma mancha desfigurada na lembrança de outra pessoa, esvanecerá ao ponto de não ser mais reconhecível, como ocorre com as películas de filme antigo que apodrecem no porão de algum estúdio abandonado.

Campo da Esperança

Procuramos, assim, adiar o extermínio inevitável dos que já se foram, criamos tumbas na internet, nos iludimos, não queremos admitir que este projeto também fracassará, apenas seguimos em frente, sem rumo definido, registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos, até que nós também morremos e é como se nada tivesse acontecido: este é o ponto que estou tentando demonstrar.

— P. R. Cunha

Pasternak: notas provisórias

Personagem chamado Pasternak — como o poeta/novelista/tradutor russo; motivo: o pai vivera para a União Soviética nos anos 1960. As cinco etapas do luto (luto que por vezes é desencadeado por: morte de parente/amigo, decepção amorosa, inadequações sociais [a definir]): negação, raiva, barganha, período melancólico, aceitação. Pasternak não admite, Pasternak furioso, controla-se, tenta mudar de ideia («e se eu [Pasternak] pudesse consertar as coisas» etc.), tristeza de Pasternak, depois de tantas batalhas, eis a resignação, o cansaço. Frase a martelar a cabeça deste excêntrico personagem: História se repete; a primeira vez como tragédia e depois como farsa. A frase, muito atual diga-se de passagem, é do Karl Marx. Tentativa de fuga, mas as pernas de Pasternak não se movem (figurativo/paralisia/eterno exilado/assim por diante). Pois observai o mundo e vereis que na mor parte os humanos não têm para onde ir. Manter a linguagem rebuscada numa espécie de jaula, aterrada; Pasternak não é 1) pedante; 2) estimado por seus bens; 3) muito menos julga a própria felicidade na medida da riqueza. Período antes do luto/melancolia, características gerais — até àquele momento Pasternak fora senhor de seus demônios, capaz de direcioná-los de acordo com seus caprichos, mas lá no fundo, como já escreveram numa importante obra filosófica, no mais recôndito de seu coração (a figura romântica do coração como casa dos nossos sentimentos), havia um poço infinito (bonita imagem: poço infinito, poço profundo), poço que reagia completamente alheio às vontades de Pasternak, fora de seu controle, e a tampa desse poço acabara de ser aberta. Pasternak não se reconhece.

— P. R. Cunha

Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

Domingo azul — à noite, obscura, é a Lua que decide aquilo que tu podes ver

A mesma cabeça
paralisia/movimento
juventude/velhice
dissolução/composição
fadiga/sossego
liberdade/servidão
peso
leveza
é a mesma cabeça.

— P. R. Cunha