Escritores aluados

Os norte-americanos chamam de astronauta aquele ser humano que tenta escapar da gravidade terrestre. Os russos preferem cosmonauta. Em 1957, os soviéticos lançaram Sputnik, primeiro satélite artificial da história. Em 1961, Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar pelo espaço — dentro da claustrofóbica Vostok (espaçonave com pouco mais de quatro metros de comprimento e dois metros e meio de diâmetro [basicamente do tamanho de uma casinha de cachorro moderna]). De aí o Kennedy ajeitou o topete numa tarde de ventos em Houston, Texas, mostrou que não estava para brincadeiras e disse, ou melhor, garantiu que os Estados Unidos logo realizariam uma alunagem e, o mais importante, trariam os astronautas de volta para casa sãos e salvos. Em 1969, Neil Armstrong e Edwin ‘Buzz’ Aldrin pisaram na Lua e toda a gente extasiou-se. Feitos inacreditáveis, sem dúvida. Mas a mim a cereja do bolo da chamada Guerra nas Estelas foi o caso da caneta lunática. Não é preciso nenhuma ciência de foguete para saber que as canetas comuns simplesmente não funcionam num cenário sem gravidade. Conta a lenda que a Nasa teria investido milhões e milhões em mecanismos que permitissem a utilização da famigerada tinta dentro dos módulos espaciais. Enquanto isso, os soviéticos optaram por alternativa um bocadinho mais em conta: карандаш (karandash), ou o bom e velho lápis*.

— P. R. Cunha


*Eventualmente a Fisher Pen Company de fato desenvolveria uma caneta com fluídos específicos que permitem escrever em ambientes sem gravidade. O nome da geringonça não poderia ser mais intuitivo: space pen.

Bonatti, astrofísico

Hipótese: à maré
Interferência —
propriedade
das ondas.

Bonatti, nascido a 14 de outubro de 1965, frequentara a Universidade de São Petersburgo e tornara-se um astrofísico de renome. Parece que era uma pessoa verdadeiramente encantadora até, como se diz, perder os botões. Bonatti está agora ao terraço do laboratório doméstico, encosta-se na balaustrada e fica a olhar para o próprio telescópio — está com medo de apontá-lo para a Lua e, com esse simples gesto, iniciar uma irrefreável reação em cadeia. «Se eu apontar o telescópio para a Lua», pensa Bonatti consigo mesmo, «minha esposa fica irritada, com a irritação da minha esposa o vizinho também se aborrece, com o aborrecimento do vizinho as luzes são acesas, por causa da claridade o ladrão se assusta, por causa do susto do ladrão os cachorros latem, os latidos acordam a velha senhora do bairro, a velha senhora tem sede e escorrega da escada, com a morte da velha o neto marceneiro entra num período de luto, por causa do luto do marceneiro a escrivaninha que eu havia encomendado não fica pronta», e assim por diante, até ao infinito. Bonatti ajeita os óculos sobre o nariz pontudo, faz um aceno de cabeça, como que a enfatizar a veracidade de suas observações, e pergunta-se novamente: «Devo mesmo apontar o telescópio para a Lua?».

— P. R. Cunha

Domingo azul — à noite, obscura, é a Lua que decide aquilo que tu podes ver

A mesma cabeça
paralisia/movimento
juventude/velhice
dissolução/composição
fadiga/sossego
liberdade/servidão
peso
leveza
é a mesma cabeça.

— P. R. Cunha