Fragmentos de um romance inacabável (parte VIII) – intimidades do Escritor

A casa do Escritor fica situada no meio do Brasil, numa área isolada e pouco acolhedora a que muitos não hesitaram em chamar de «fim do mundo». Se saímos para a traseira dessa longínqua residência damo-nos de cara com uma atmosfera seca, árvores contorcidas, grama rasteira que não tem cor de grama, tem cor de areia, cor de deserto. O Escritor veste calça larga, vive em mangas de camisa e raramente utiliza pisantes. Céu azul e nuvens brancas dão a sensação de estarmos presos numa moldura de Vermeer, trabalho abandonado às pressas, talvez porque o artista se entediara com a coisa toda, ou talvez porque estivesse atrasado para um compromisso de importância mediana.

A fim de transmitir essa espécie de embrutecimento sombrio, surdo e mudo que se apodera de nós quando as ocorrências nos esmagam ultrapassando o que nos é dado suportar, o Escritor descreve. Dor excessiva, um ser excepcional, um cavaleiro lutando contra moinhos de vento, um Quixote, um sublime excêntrico.

Muitos escritores enlouqueceram, mas mesmo assim começaram a produzir verdadeira arte. O gênio perambula por esses caminhos misteriosos.

O Escritor louco, de certa forma, é a única matéria desta narrativa.

— P. R. Cunha

O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.

Autoestrada

O automóvel está a trepidar como se tivesse a doença de Parkinson. É o pneu, ela diz. Ele segura o aro do volante com força. O pneu, ela repete. Ele para o carro no acostamento, aperta o botão do pisca-alerta. A estrada está vazia, é início de tarde, talvez 14h. Com as costas das mãos ele enxuga o suor que desliza sobre a testa. O pneu furou, tenho a certeza disso — ela diz. Ele abre a porta, sai e dá uns pontapés no pneu dianteiro esquerdo. Furou, ela diz, imóvel no banco do passageiro. Uma camioneta amarela passa em alta velocidade; ele limpa as mãos na bermuda e acompanha a camioneta até ela desaparecer no horizonte da estrada. O pneu furou mesmo, ela insiste e depois cospe um pouco de tabaco mascado com evidente desdém. Ele então começa a rir, uma risada ruidosa, uma risada de louco.

— P. R. Cunha

Coração à deriva, a bordo do qual ocorrem os versos a seguir

— Para a Kameni Kuhn

Invente-se poeta
um outro dentro de si
para colocar na pena alheia
o que se sente
intensamente

Poeta louco de verdade
que agita o próprio coração
cujos batimentos
semelhantes às hélices de um navio guerreiro
se ouvem a um oceano de distância

Fala a sós consigo mesmo
não louco a fingir
que vai buscar ao fundo
da alma
as feridas sem razão

Poeta engenhoso
ousado e malévolo
adentro do seu gênero
a espécie mais perigosa
de cometer

— P. R. Cunha

Buraco negro (ou: toda a humanidade vive já há imenso tempo no exílio)

Palco — uma porta à esquerda, fechada. Ao centro, tapete com motivos florais. Pouco mais à direita, sofá, poltrona, luminária de piso, estante abarrotada de livros. Personagens: Pai Psiquiatra está sentado no sofá a ler o vespertino, Mãe Psiquiatra está a bater na porta fechada e ninguém responde.

MÃE PSIQUIATRA
Não abre
estou a bater
e ela não abre

PAI PSIQUIATRA
Deixa a menina
se não quer abrir
que não abra

MÃE PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, fita o marido e cita Schubert)
«Ich bin zu
Ende mit allen
Träumen»

PAI PSIQUIATRA
(Sem baixar o vespertino)
Para os diabos
com o seu alemão
mulher
não me venha
com essa

MÃE PSIQUIATRA
Schubert
Cheguei ao fim
de todos os sonhos
É Schubert

PAI PSIQUIATRA
Gavetas

MÃE PSIQUIATRA
O que têm

PAI PSIQUIATRA
Deitamos tudo
para as gavetas
daí quando abrimos
as gavetas
tudo bagunçado

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ver

PAI PSIQUIATRA
Como não queremos
lidar com a nossa bagunça
deitamos tudo às gavetas
sempre foi assim
esconder-se
do mundo inteiro

MÃE PSIQUIATRA
E os mortos
(Aponta para o chão)
como não queremos
lidar com os mortos
deitamo-los
embaixo da terra
ou viram pó

PAI PSIQUIATRA
Estou a ver

MÃE PSIQUIATRA
(Aproxima-se da porta, bate, ninguém responde)
Não abre
a menina não
abre

PAI PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parado, esquece-se por que levantara-se, cai esgotado no sofá)
Às vezes eu também
jogo tudo para as gavetas
gavetas enormes
sim
não sou mais do que isso
enchedor de gavetas
e também não peço
mais nada

MÃE PSIQUIATRA
(Indignada, bate na porta novamente, ninguém responde)
Absurdo

PAI PSIQUIATRA
(Coloca o vespertino no braço do sofá, tira os óculos, limpa-os com uma flanela que estava no bolso da calça)
A verdade é que
quando se quer sobreviver
quando tudo o que se
consegue pensar é
única e exclusivamente
sobreviver
(Alto)
a verdade é que nessas ocasiões
os livros não nos servem
bulhufas
para absolutamente
nada
(Mais baixo)
De fato toda a gente
que lê
que ama os livros
tenta lá dizer que eles servem
mas eles não servem
o instinto de sobrevivência
não leva em conta
a estupidez
da intelectualidade

MÃE PSIQUIATRA
(Vai até à estante de livros, tira um)
Mais tarde ou mais cedo
todos passam por algo
desse gênero

PAI PSIQUIATRA
Ainda encontramos gentes que
gostam de ler
que compram livros
e assim acham que estão
preparando-se para a vida
quando em boa verdade
as palavras nunca
nos salvaram
de morte nenhuma
(Pega o vespertino, levanta-se, vai bater na porta, ninguém responde)
Absurdo
não abre

MÃE PSIQUIATRA
Pois
eu lhe disse
não abre

PAI PSIQUIATRA
(Aponta o vespertino para a esposa)
Bem sabemos
de quem é a culpa

MÃE PSIQUIATRA
A floresta é grande
a escuridão também

PAI PSIQUIATRA
(Aproxima-se da esposa)
Estou-me nas tintas
para as suas florestas

MÃE PSIQUIATRA
(Bate na porta, ninguém abre)
Não vamos nos
separar querido
além disso
a papelada me aborrece
está a ouvir

PAI PSIQUIATRA
(Leva a mão em formato de pistola à têmpora direita, finge-se que deu um tiro)
Nitidamente

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se no sofá)
Só muito raramente
permitir-me o luxo
de reconhecer o grande
fracasso de tudo isto

PAI PSIQUIATRA
(Bate outra vez na porta, ninguém responde)
Não abre

MÃE PSIQUIATRA
Uma mulher que vive a
personificar o papel
de boa profissional
de boa esposa
e boa mãe
exposta a
evidentes riscos
psicológicos

PAI PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, pega um livro na estante)
Dizem que Balzac
antes de morrer
só conseguia perguntar
sobre as suas personagens
Indagava tal louco
Como está Vautrin
e Eugène de Rastignac
Barbet
os Baudoyer
Pensou naqueles que tinha criado
percebe
não pensou nos vivos
em esposa
filha
nada
largou da realidade
o Balzac
sim
recusara a realidade
Mesmo antes de morrer
(Aproxima-se da porta, bate duas vezes, ninguém responde)
Mesmo antes de morrer
mantera-se fiel
às personagens que
criara
Balzac
O escritor não é dono
do livro
o livro é que é dono
do escritor
Sim
Balzac

(Mãe Psiquiatra leva as mãos à cabeça, dir-se-ia que estava a ficar louca)

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ficar louca
muitas vezes pergunto-me
se estou a enlouquecer

PAI PSIQUIATRA
Acalme-se lá
mulher
não me tenha um piripaque
pois não

MÃE PSIQUIATRA
A papelada me aborrece

PAI PSIQUIATRA
Volte a si
que carnaval
desnecessário

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, vai até à porta, bate, ninguém abre)
Não abre

PAI PSIQUIATRA
(Joga-se novamente no sofá)
Já estou a crer
que a criança não
abre a porta

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se na poltrona)
O que me acontecerá
a mim

PAI PSIQUIATRA
Escute
eu podia mentir-lhe
não é verdade?
dizer que tudo ajeita-se
no próprio tempo
não é verdade?
mas digo-lhe
que não sei
o que acontecerá a si
não sei

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, como se de súbito tivesse lhe ocorrido uma ideia)
E se tentássemos abrir
a porta

PAI PSIQUIATRA
Como assim

MÃE PSIQUIATRA
A maçaneta
abrir a maçaneta
simplesmente girá-la

PAI PSIQUIATRA
Girar a maçaneta
interessante

(Ambos se aproximam da porta; Pai Psiquiatra encosta a orelha na porta para tentar escutar alguma coisa)

MÃE PSIQUIATRA
(Envergonhada)
Não não não
isso não seria justo
é a privacidade da
menina
Não podemos

(Ambos se jogam no sofá, exaustos)

PAI PSIQUIATRA
Vidas amorosas
mexericos
filosofias
a menina só tem
catorze anos
meu deus

MÃE PSIQUIATRA
Nós adorávamos fazer
perguntas
querido
Possuíamos
aquela persistente
curiosidade
lembra-se

PAI PSIQUIATRA
Não faço ideia
do que está a falar
mulher

MÃE PSIQUIATRA
Ler até as pestanas
tinirem de cansaço
Umas poucas frases ditas
em devido tempo

PAI PSIQUIATRA
O mundo é uma
redução gradual da
luz

MÃE PSIQUIATRA
É disso que estou a falar

PAI PSIQUIATRA
(Aponta com o livro para a porta)
Perene sensação de espera
a menina não abre
e tensão por algo
maravilhoso ou terrível
que deve acontecer

MÃE PSIQUIATRA
Podemos sempre tentar
a maçaneta

PAI PSIQUIATRA
Não seria justo com a criança
privacidade
percebe
privacidade
A criança precisa
de privacidade

MÃE PSIQUIATRA
(Aponta para a porta)
Caladinha

PAI PSIQUIATRA
(Acende um Marlboro)
Tinham lá grandes
expectativas
e muitos investiram em mim
e veja bem no que me tornei
nada daquilo que imaginaram

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parada à porta, indecisa)
Um papai tirano
Sol enorme que consome-se
mais rapidamente
É lá um buraco negro

(Encosta na maçaneta, tenta girá-la, a porta não abre)

«FINIS»

— P. R. Cunha