Relacionamento de longo prazo

Por não possuir televisão os livros se tornaram minhas fontes primordiais de informações e entretenimentos. Pois, sim, eu cá misturo lazer e trabalho sem qualquer tipo de pudor. Leio para aprender, leio para me distrair, leio para lembrar, leio para esquecer. Mas talvez isso não seja justo com as brochuras, já que os livros ficam sobrecarregados diante das demandas deste bípede insaciável que vos escreve. Por vezes cansamos da cara um do outro, saturados. Daí fico um bom tempo sem pegar num livro, e como não sei fazer muita coisa nesta vida além de ler, os meus dias se tornam tão vazios quanto um desfiladeiro lunar (estou a pensar na bacia do Polo Sul-Aitken, no lado obscuro da Lua, uma enorme cratera com aproximadamente 13 quilômetros de profundidade). Até que aos pouquinhos os livros e eu acertamos as contas, sentimos as saudades, assinamos os acordos de cessar-fogo, perdoamo-nos, prometemos ter mais prudência desta vez… e o ciclo recomeça.

— P. R. Cunha

Carta eletrônica a mim mesmo

De: P. R. Cunha
Para: P. R. Cunha
Data: 8 de maio de 2020, às 9:54
Assunto: Carta eletrônica a mim mesmo


Querido Eu,

Há tempos que não nos correspondíamos desta maneira. Lembras quando tu dizias que era coisa de maluco, de quem perdera os botões? Pois cá estamos novamente. Mas preciso explicar de uma vez por todas que se recorro a estes métodos esquizofrênicos é por nobre causa. Para o teu bem, para o meu bem… (pausa dramática) para o nosso bem.

Gostava de avaliar o que se passa contigo. Nós dois sabemos que não és a pessoa mais inteligente que existe, porém tampouco és um tolo. Longe disso. Tens aí na tua massa encefálica conteúdo o bastante para tomares as decisões sensatas. 

Então por que diabos não tomas as decisões sensatas?

Por exemplo, já lá se vão quase doze meses de árduas pesquisas para o teu, como tu gostas de chamá-lo?, «projetinho». Escolheste o tema adequado, a personagem principal está pronta, a linha narrativa se mostra impecável, sabes para onde ir, como ir, quando ir.

E o que estou a ver? Estou a ver um gajo à deriva escrevendo digressões sem rumo num sítio web, ou a tocar instrumentos exóticos em músicas exóticas que nunca dão em nada, ou a fumar o cigarrinho de palha à tarde enquanto entorna um qualquer líquido etílico, ou a jogar o xadrez contra o computador a ver até que altura consegue competir com a máquina sem perder as estribeiras (chegaste ao nível 15, uau, muitos parabéns, que feito, hein?).

Vejo tudo isso e vejo as pastas com todas aquelas centenas, milhares de folhas do teu próximo livro, à espera do autor, à espera de serem devidamente colocadas em prática.

Falo a sério, gostava mesmo de avaliar o que se passa contigo.

Dizes para toda a gente: sou escritor, estou a trabalhar numa obra edificante, o livro mais significativo que alguma vez sonhei em escrever. Dizes essas lorotas todas enquanto o tal projetinho sufoca nas tuas gavetas. Achas isso bonito? Sentes orgulho do circo que estás a montar?

Que tal tomares um bocadinho de vergonha na cara?

Tem foco, tem linearidade no teu ofício, não te esqueças de que és um tipo que escreve, esta é a tua atividade primordial, é por ela que tu respiras, faz tudo pela escrita, não te percas em procrastinações sem pé nem cabeça.

Faz-nos este favor: levanta e termina o livro.

Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha

Por um distanciamento literário

Não há — ou pelo menos não deveria haver — receita de como se apreciar livros.

Alguns preferem a leitura inspecional, outros demoram meses em determinado capítulo, alguns tomam notas, outros só querem se distrair. Os estudiosos, os que estão à procura de lazer, os que leem para se descrever depois. Mistério, romance, suspense, ficção científica, filosofia, variedades, banda desenhada, biografia, história. Na praia, na aeronave, em casa, na biblioteca, no chacoalhar do autocarro, enquanto se espera o metropolitano na estação.

Numa saudável metamorfose esses hábitos se misturam e se multiplicam e se contradizem e se adequam a contextos específicos.

Neste processo adaptativo parece-me essencial o respeito pela inteligência do leitor. A leitura é lá uma atividade dinâmica, ativa. Quem lê participa, destrói, constrói, recria, nega, confirma. 

Ler como forma de entretenimento/aprendizagem que envolve o imaginário (i.e.: fantasia) de quem está diante das palavras.

Uma das grandes satisfações da leitura parece ser aquela sensação de posse que o leitor por vezes sente enquanto domina determinada obra. Certos trechos nos fazem pensar: céus!, gostava tanto de ter escrito isso.

E talvez essa posse seja mais provável se existir discrição durante o ato da leitura. O autor (e, principalmente, o tradutor) como que se retira do palco, o teatro de possibilidades pertence agora aos leitores, que adequarão as cenas a seu, como se diz, bel-prazer.

Em 2005, quando pela primeira vez me deparei com a obra de W. G. Sebald — o meu escritor favorito — ele já estava morto há quatro anos. As páginas com voz fantasmagórica ofereciam-me uma experiência paradoxalmente revigorante. 

Era mais do que um simples diálogo, era uma espécie de psicografia agnóstica.

Algo parecido me ocorre ao ler Carver, Maupassant, Lima Barreto, Orwell, Sérgio Porto, Calvino, Montaigne, Bernhard, Lovecraft, Burton, Sterne, Cervantes… São conversas secretas, fazemos parte de uma confraria metafísica, longe do escrutínio de toda a gente.

Nesta altura poderiam me perguntar se só consigo ler escritores que já morreram.

Minha maior dificuldade com a literatura contemporânea é o culto à exposição. Isto, aliás, valeria para qualquer outro tipo de atividade criativa.

Meu avô costumava dizer que gostava imenso de Pink Floyd porque não fazia a ideia de como era a vida íntima dos integrantes da banda. Havia qualquer coisa de misterioso nisso. Para o meu avô, as letras, os acordes, a atmosfera onírica dos Floyds eram elementos quase mágicos que surgiam após longos invernos introspectivos. Os álbuns eram o produto dessa fuga (vide Atom heart mother).

Diante das exigências mercadológicas, os escritores precisam de vender. Precisam de estar em toda a parte, fazer palestras, realizar aquelas enfadonhas e disparatadas leituras públicas, e, alas!, precisam de se manifestar em redes sociais.

As redes sociais cibernéticas são a ceifa da literatura, isso é certinho.

Observar escritores no Twitter, no Facebook, no Instagram, brigando, babando, xingando, discutindo, ignorando e sendo ignorados é como assistir a um freak show sem pé nem cabeça.

Restam os autores discretos que não atenderam ao imediatismo das participações digitais, os resistentes. Ou os mortos, que não têm Twitter.

Sim, não deveria haver receita de como se apreciar livros. Mas a privacidade, as idealizações fantásticas, a reserva, a ausência de ruídos externos, o distanciamento saudável são ingredientes dos quais muitos ainda sentem falta ao degustar um pedacinho da torta literária.

— P. R. Cunha

O romance

A paciência nos dá livros, diz um antigo provérbio. Eu ainda não sei realmente o que é um livro. É sobretudo uma coisa com páginas, e palavras, coisa que é como é e que depois já são duas, três quatro coisas. Julga-se um livro pelo tamanho?, pela complexidade?, gênero?, relevância? Quando cada um procura descrever o livro, explica-se, exemplifica-se, defende-se, propaga-se — cada um acredita estar a explicar o que é um livro «de verdade». Só que nunca lá se encontra nenhuma verdade absoluta. Um livro que começamos a ler e não o terminamos, pode/deve ser considerado um livro? Certo dia sento-me à escrivaninha e escrevo um capítulo, noutra semana escrevo mais dois capítulos, depois oito, quinze capítulos. O livro se encorpa, digo a mim mesmo. Até que, numa determinada ocasião, dou-me conta de que: sim, concluí o romance, um romance devastador, algo de muito genioso saíra da minha cabeça. Que prodígio. Bem verdade que o honesto manuscrito necessita de alguns retoques, mas, no geral, está pronto para ser embrulhado e despachado alhures. Ontem à noite, por exemplo, comprei canetas novas. Chegar-me-ão pelos correios.

— P. R. Cunha

A fortaleza

Para J. B.

O hominis intellectualis constrói para si fortalezas — formas solitárias de se sentir confortável. Ele se aloja ao centro, dentro do castelo, e por vezes arrisca-se à janela para se certificar de que ainda estão lá fora, do outro lado do muro, a invejá-lo. Porque, como sabemos, o glamour do hominis intellectualis é a felicidade de ser invejado, à distância. Para manter-se vivo, qual vampiro em busca de sangue, precisa de ser observado com bastante interesse. Ele não pode partilhar a própria experiência com aqueles que o invejam, isto seria fatal. Quanto mais impessoal for o hominis intellectualis, maior a ilusão do seu poder. O mistério faz a pessoa ser múltipla — quando não se diz quem é, abre-se a possibilidade de diversas conclusões individuais e cada um é livre para criar quantas mitologias desejar. O hominis intellectualis sabe disso. Sabe que a imaginação alheia é ferramenta mais adequada para torná-lo ainda mais interessante. A realidade é crua, é direta, monótona. A realidade ceifa, simplifica, empobrece. Está agora o hominis intellectualis sentado à mesa do seu gabinete. Atrás de si uma biblioteca. A biblioteca como símbolo, a dizer que o dono/proprietário é um tipo culto, vivido, tipo que compreende as mazelas existenciais. Não que o hominis intellectualis tenha lido aqueles livros todos, imagina, isso seria absurdo. Certa vez, li em um artigo acadêmico que Bram Stoker teria criado Drácula depois de uma severa crise de ansiedade que tivera diante das prateleiras repletas de livros, muitos, e muitos, e muitos livros, impossíveis de serem lidos numa única vida. Só um diabo imortal conseguiria ler tantos livros, etc. Daí o Conde Drácula. A atitude do hominis intellectualis no próprio gabinete, entretanto, difere um bocadinho: ele adota pose dir-se-ia artificial, pouco à vontade, postura física que sugere antes riqueza, virilidade, distanciamento (de novo a distância). Noutras alturas o hominis intellectualis debruça sobre a balaustrada da varanda, a fingir que não está sendo observado. Ele espreguiça-se, veste-se com primor, com aquela alegada felicidade dos nobres, que estão sempre satisfeitos. A imagem é a do «Exclusive Club» — poucos, pouquíssimos podem se debruçar sobre a balaustrada de um castelo, enquanto lá fora, para além dos limites do muro, a multidão grita, inveja-no. Espreguiçar-se com vestimentas sofisticadas denota prestígio, sedução, autoridade, nem no conforto do próprio castelo o hominis intellectualis quer deixar de ser venerado como hominis intellectualis. Compreensível. Na necessidade de se fazer discurso — afinal, o que seria do acúmulo de conhecimentos sem o compartilhamento —, o hominis intellectualis recorre a vagas referências históricas, algum ou outro trecho poético, talvez a uma anedota moral, nada de muito aprofundado: discurso impreciso, sem sentido, vazio. O hominis intellectualis não pode dar todas as respostas, a multidão dispersar-se-ia. Ele é tão ambíguo quanto uma peça publicitária precisa de ser.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #43)

ler livros — livros no navio enquanto alguém reclama de enjoos, livros na fila da padaria, em casa, ao escritório, na sala de espera do oftalmologista, livros no autocarro, no trem, no intervalo dos jogos de futebol americano, & também em lugares mais óbvios tais quais: bibliotecas, livrarias, cafés, praias, parques, livros enquanto o filho sai da escola, livros enquanto a esposa lhe passa um sermão indecoroso, livros para fugir das garras da tv, ao leito de morte de um amigo, na cozinha enquanto o guisado não fica pronto, livros na quinta, livros na sexta, livros para esquecer de alguém, livros para esquecer de si.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #42)

robert gould estava em pé a mexer nos papéis sobre a mesa de estudos. a esposa saiu do banho enrolada na toalha: o que estás a fazer, robbie? o marido ajeitou os óculos de leitura enquanto segurava uma espécie de lista: li noventa & oito livros este ano. helen vestia a roupa de dormir: ora, muitos parabéns, robbie. não, não, não, ele disse, não é disso que se trata. helen abraçou o marido como se abraçasse uma criança perdida, deu-lhe um beijo na testa: então, do que é que se trata? ele tirou os óculos, esfregou os olhos, deu um peteleco na lista: noventa & oito livros & me sinto vazio como os diabos, como se não tivesse realizado coisa alguma. oh, robbie, ela sussurrou, oh, robbie, vamos deitar. os dois se ajeitaram na cama. robert gould apagou a luz do abajur: te contei que ontem sonhei com o meu pai? helen virou a cabeça na direção do marido: com o teu pai? sim, com o meu pai. permaneceram em silêncio. helen estava prestes a fechar os olhos quando lembrou-se da última vez em que deixara o marido a falar sozinho & no dia seguinte ele se mostrava absolutamente intratável: como… foi, o sonho? robert gould ligou a luz do abajur, colocou o travesseiro na cabeceira da cama para encostar-se: estou sentado na areia, é bem cedo, sei lá, sete, oito horas, no máximo, meu pai nos acordava muito cedo para irmos à praia, & a praia estava praticamente vazia quando chegávamos, talvez um aposentado a praticar o running, ou uma moça com trajes new wave a fazer yoga, de forma que papai pegava o melhor lugar, a melhor mesa, & logo fazia amizade com o dono da barraquinha diante da qual arrumávamos as nossas trouxas, & o resultado era que todos adoravam as conversas do meu pai, o jeito extrovertido do meu pai, & chamavam-no de chefe, sempre traziam as nossas comidas primeiro, serviam-nos o peixe frito, perguntavam para o meu pai se «tudo certinho por aqui, chefe», & meu pai dizia que sim, tudo certinho, &tc, daí lá estou eu sentado na areia, pequeno, branco, loiro, desengonçado, sunga com motivos ducktales, tio patinhas, emburrado porque eram sete horas da manhã, sonolento, colérico, enquanto papai era tratado como um rei & perguntava-me com uma voz leve, brincalhona, descompromissada, sem entender nada do meu azedume, papai perguntava-me se eu queria milho verde com manteiga, ou um potinho de salada de frutas com leite condensado, enquanto estou a observar as ondas, & não me viro para o meu pai, não viro, quero continuar a mostrar a ele que estou zangado, muito zangado, que não faz sentido acordar tão cedo para ir à praia, & no fundo eu adoraria um milho verde com manteiga, um potinho de salada de frutas com leite condensado, mas não pretendo ceder, & de birra, sem tirar os olhos do mar, apenas digo não!, não quero nada!, & consigo sentir o ar expelindo dos pulmões do meu pai, o desapontamento do meu pai, a melancolia que invade o coração dele por ser tratado com tamanha indiferença pelo próprio filho, o príncipe… helen não aguentara ouvir tudo — decidiu que lidaria com os complexos do marido no dia seguinte, ao pequeno-almoço, depois de uma noite de sono mais ou menos revigorante.

— p. r. cunha