Orquídea-escova-de-mamadeira

Sempre foi meu desejo escrever esta cena em que um dos personagens — vamos chamá-lo de Charles Pacheco, beberrão inveterado, muito nervoso, intransigente, lunático, irascível, isto é: não necessariamente o tipo de pessoa que gostaríamos de ter ao nosso lado numa rua escura — tocasse da forma mais delicada possível as pétalas de um malmequer e andasse a comentar sobre todo o tipo de flores (coroa-de-frade, orquídea-escova-de-mamadeira, magnólia-branca, alamanda-roxa, hibisco, lírio-do-vale, limonium, narciso, mimosa, sempre-viva, tulipa negra [rainha da noite], urze, zinia, anis, boca-de-leão, cornizo, ervilha-de-cheiro, etcétera), com tamanha propriedade que todos pensariam: puxa!, é mesmo um sujeito estranho, lá bebe um bocado, mas também entende do que está a falar quando trata das flores.

— P. R. Cunha

O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.

Silêncio falado

Para a Irina M.

Londres, 18 de abril de 1930. 20h45. Boa parte dos britânicos prepara-se para escutar o boletim noturno da BBC. Famílias inteiras estão reunidas ao redor do rádio enquanto uma voz granulada, grave, porém amistosa, anuncia: «Boa noite. Hoje é uma ótima sexta-feira, não temos notícias». Então a BBC simplesmente preferiu tocar concertos de música clássica. O dia sem notícias. Parece que há 88 anos não era vergonhoso admitir isto, que o mundo por vezes não tem mesmo nada a dizer. E o vazio podia ser preenchido com o tilintar de um piano, com as cordas de um violoncelo, com o sopro de um oboé.

O vazio. Costumo guardar meus livros mais antigos dentro de um baú. Trata-se de uma lustrosa caixa de madeira com 32 centímetros de altura, 42 de comprimento e 50 de largura. Hoje de manhãzinha decidi remover todas essas relíquias a fim de averiguar se as traças alimentavam-se dos meus velhos companheiros de letras. Olhei para o baú e pensei: agora este baú está vazio. Mas, em verdade, o baú nunca esteve vazio — há sempre vestígios de poeira, vapor d’água, moléculas de ar, fótons, eléctrons, partículas elementares. Apenas não conseguimos enxergá-los. 

O vazio absoluto, portanto, não existe; assim como um dia em que nada acontece. Mas, ao fim e ao cabo, pode-se filtrar a poeira, eliminar o máximo de ruído externo. E talvez, quem sabe, consigamos qualquer coisa parecida com os «Quatro Minutos e Trinta e Três Segundos» do sr. John Cage: aquele silêncio permeado pelos movimentos do próprio compositor, o discreto metrônomo de fundo, e um comedido aplauso, se estivermos em público. 

— P. R. Cunha

A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Então você investiu dinheiros numa obra literária — chegou em casa, sentou-se à escrivaninha e começara a folhear o livro. Alas!, trata-se de uma narrativa horrorosa, ilegível. Você, naturalmente, está agora a se sentir um bocado lesado e diz para consigo mesmo: que assim não fica, preciso de reclamar com o autor, gângster, salafrário, bandido etc.

Mas como fazê-lo?

A verdade é que quando o escritor escreve algo ruim ele acaba descobrindo de um modo ou de outro. Percebe quando se dá mudança de atenção, descobre pelo jeito diferente que dele se afastam, por se evitar comentário, pelo rosto choroso da mamã que arranca os cabelos a pensar: e o gajo largara tudo para escrever e ainda me escreve isso —, ou mesmo pelo modo indiferente da suposta pessoa amada que não consegue esconder ojeriza.

Noutros termos, quer se diga claramente ao escritor ou não, ele tomará conhecimento de alguma forma. Ao passo que saber compartilhar uma crítica com um literato (i.e.: o senhor vai me desculpar, mas o seu livro é terrível, odiei-o) é sem dúvida uma verdadeira arte.

Respire fundo, acalme-se: comunicar a notícia de maneira branda e gentil faz com que o escritor continue depositando esforços para quem sabe um dia aprender o próprio ofício adequadamente.

Quanto mais simples o modo de se expressar, mais fácil é para ele ponderar depois. Alguns apreciam quando recebem a crítica na intimidade do próprio gabinete, através de carta convencional e/ou electro-carta. Mostre que você possui um coração e evite, portanto, recorrer de imediato às redes sociais ou aos tabloides irascíveis — isso magoaria imenso o sentimento alheio. 


Post scriptum: não se surpreenda, no entanto, se mesmo depois de tanto zelo receber respostas belicosas do escriba, tais como: Tu que não compreendes patavina de literatura; Eu cá sou o melhor escritor do mundo, não te devo um vintém; Nunca escrevi para leitores d’esta geração, minha obra é para aqueles do futuro; e assim por diante.

— P. R. Cunha

Tu — esperas & notas antes de viajar

» Camus equivocara-se 

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: quais livros levaremos para a viagem. Julgar se colocamos para a bolsa de mão o Sebald ou o Handke ou o Carrión, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto — se vai chover, se escolheremos as camisas vermelhas, se levaremos as bermudas que a tia Rita nos deu — vem depois. Camus, portanto, equivocara-se. O suicídio não é tão absurdo quanto essas seleções literárias. Poucos escolhidos, muitos deixados para trás. Vive-se com esse barulho.

» Discretamente, D. Delgado escreve sobre P. R. Cunha

O pensamento deste narrador, que se diz desventuroso, é um autêntico jogo de xadrez. De um lado do «tabuleiro», o pensamento-ficção; do outro, a realidade. Acho que a ficção podem ser as peças brancas e a realidade as pretas. Ou talvez não. As «peças»… num dos lados são os personagens reais da vida, e no outro, filósofos, autores e pensadores fruto de muitas leituras. Por vezes dão-se todos bem, noutras nem tanto. A estratégia deste «jogo» é o «desventuroso narrador», como se intitula aos trinta e poucos anos de vida, estratégia que entre avanços, recuos, dúvidas e certezas, tem jogadas/pensamentos de mestre. Penso que será um jogo eterno, sem xeque-mate, nem vencedor. Porque cada um sabe que precisa do outro para se sentir vivo e produtivo.


IMG_1532Há muitos livros; e não podemos levá-los todos numa mala


» Gostava de ter o cabelo à Scott Fitzgerald — haikus tropicais

1.

vendedor de pipoca
não aproveita o parque —
um automóvel passou

2.

Para a amiga M. L. F.

jogadores de xadrez
à berma da praia
o rei está louco

3. 

Sturm und drang

sonhador solitário
perseguido pela culpa
poeta sem remorso

— P. R. Cunha

Teatro Nacional

Uma semana antes daquela que seria muito provavelmente a apresentação mais importante da história da Orquestra Sinfônica de Brasília, o maestro Zaleski comentou com os músicos durante o ensaio que não pretendia, de forma alguma, participar do evento, atitude que gerara uma série de boas gargalhadas e comentários divertidos, afinal todos tinham a certeza de que o renomado maestro Zaleski estava apenas a brincar. Na noite da apresentação, à qual estiveram presentes diversos líderes mundiais, o maestro Zaleski de fato desapareceu, e como nunca chegasse ao Teatro Nacional, o espetáculo teve mesmo de ser adiado por não ter sido encontrado substituto a tempo. A polícia investiga a respeito e não descarta nenhuma possibilidade.

— P. R. Cunha

Ser escritor no Brasil, desagradável terreno da realidade — e não sou eu que quero interromper o sr. de Guesclin, é a condessa

(Un breve relato sobre ayer — para mi amiga Cristina, que, como yo, prefiere las ventanas.)

É melhor evitar os afetos
por escritores brasileiros
eles esperneiam muito
e depois é uma tristeza
para o coração.

Dia seguinte, dor de cabeça, ressaca moral. Após lançamento de relativo sucesso, boa vendagem etc. etc., o escritor passa por uma crise. O que sempre pressentira ficou mais do que evidente: ele não sabia por que tinha se tornado escritor. Resultado: as pessoas elogiam o livrinho que ele ajudara a escrever, mas ele nada sente. Está vazio por dentro, o escritor. Ele é talvez um bom romancista, mas agora detesta o que escreve.

Lançar livro de literatura no Brasil é um pouco como voltar para a escola e ter de apresentar trabalho sobre o Pedro Álvares Cabral: a professora presta atenção, a mocinha que está apaixonada por você também presta atenção, alguns cinco ou seis coleguinhas fingem que prestam atenção, mas a grande maioria da turma está ocupada com outras coisas.

A descoberta da solidão do escritor brasileiro, o drama vital do escritor brasileiro, o valor e a intensidade da obra do escritor brasileiro, o perigo da inautenticidade, o refúgio insalubre no geral e no anônimo (estou a citar Unamuno para agradar à Cristina), a deriva para o esteticismo como fuga perante a dificuldade de viver. E assim vai…

Seja claro, escrevinhador.

O Brasil obriga os pobres escritores a tornarem-se palhaços, sob pena de morrerem de fome. Não se despende uma nota de dinheiro em subsidiar uma obra literária, nem em formar uma biblioteca que mereça deveras esse nome. (Duma época mais optimista.)

Dizem que se o Schopenhauer fosse vivo, adotar-me-ia. Mas sobre isso falaremos depois…

— P. R. Cunha


Quando termina (livro)Márcio Tasso aponta para o livro Quando termina, dos escritores P. R. Cunha e Paulo Paniago
(Fotografia: Marcella Souza)