Livraria Cultura

Dou continuidade às obsessões geográficas das pessoas que escrevem (vide texto anterior) e sento-me num café de livraria, shopping mall, longe do centro da cidade, transeuntes a observar com ares filosóficos — mão no queixo, cabeça levemente inclinada etc. — as vitrines com móveis de toda a sorte. Se fechamos as pálpebras, o aroma do expresso que acabara de sair da máquina como que ganha outra vida, intensifica-se, e logo passamos a escutar também os cumprimentos de empresários, conversas entre pais e filhos, uma proposta de casamento a sério, o riso confuso da moça que não sabe se quer aceitar a proposta de casamento a sério, o som de um talher que cai ao chão, um cliente a pedir a conta, outro a pedir a torta do dia (massa integral, recheio de morango), o suspiro de uma senhora grisalha que espera, o fechar de um livro, tantos dedos que viram páginas, as batidas graves e amorfas de uma música eletrônica ao fundo, como um réquiem ao silêncio.

— P. R. Cunha

Quarta nota #3 — a casa está a ruir

§ É preciso tocar na ferida de uma vez por todas. O começo do fim foi em 2015, quando Charles Cosac decidiu encerrar as atividades da editora Cosac Naify por conta das graves recessões econômicas que assolavam o país. A Livraria Cultura — que comprou e fechou todas as lojas Fnac no Brasil — há pouco entrara com um pedido de recuperação judicial porque não consegue pagar fornecedores. No início desta semana a rede de livrarias Saraiva decidiu encerrar 20 das suas 104 unidades. Motivo? — dinâmica do varejo. Ontem foi a vez de outra gigante se entregar à pior crise vivida pelo mercado editorial brasileiro desde sempre: a Companhia das Letras, fundada por Luiz Schwarcz em 1986, acaba de ser majoritariamente assumida pela norteamericana Penguin Random House. Apesar de o sr. Schwarcz ter tentado colocar os paninhos quentes e dizer que «do ponto de vista editorial não muda nada» e que só espera alterações nas áreas administrativas e tecnológicas, o fedor já está forte de mais para continuarmos a ignorar o defunto na relva. E diante de um novo governo federal mais preocupado com bombas e metralhadoras do que com as letras, essa marcha fúnebre não deve se alastrar por muito tempo.

§ Cientistas acreditam que o período glacial na Terra costuma ocorrer com frequência de 40 a 100 mil anos. No Brasil, porém, a era do gelo ocorre a cada quatro anos.

§ Chávenas de café, uns livros clássicos, outros livros que ninguém lê, rádio, cinzeiros sujos, duas toalhas azuis, armários divididos, copos de cerveja, chuveiro elétrico que por vezes dá choque quando o banhista gira a torneira sem que os próprios pés estejam sobre o tapetinho de borracha Made in China.

§ NFL aos fins de semana e a vida é basicamente aquilo que acontece entre um jogo e outro, preenchimentos, domingos com uma dúzia de futebol americano e o resto dos dias a seguir trajetórias circunstanciais.

— P. R. Cunha