Sob o efeito de John Cage — cinco ou sete doses de Baileys

Depois de uma noite de bebedeiras ao botequim [na Lopes Trovão, perto do Campo de São Bento] — estamos de ressaca: o mar & eu.

Influenciado pelos escritores do caótico e especialmente pelo azedume dos Ex.{mos} srs. Bernhard e Oswald de Andrade e H. de Campos (Eurico Browne) e A. de Campos (IRMÃOS) este outro-eu-autor/actor (escrevente brasileiro sempre a pensar nas coisas mais essenciais do país tropical &tc [porta-voz]) eu-autor/actor/outro-eu a escrever um sem-número de conto-macchina portanto em Niterói 496.696 habitantes alguns felizes outros nem tanto eu-autor/actor/eu descrevendo entre outros 1) bêbados 2) jogadores de xadrez 3) baristas que não tomam café porque Niterói é quente 4) artistas do teatro 5) boêmios em geral.

conto-macchina — é a recepcionista da pousada que me confundira com o fantasma de Dylan (Dylan não morreu, eu lhe disse; Dylan está morto, ela disse, hospeda-se o fantasma de Dylan nesta nossa pousada, Niterói [inútil insistir quando nos tomam por fantasma de Dylan] desisto). conto-macchina estilo mecânico como o próprio nome sugere ———— industrial sirenes de ambulâncias experimental: o afiador de facas da rua Otávio Carneiro, liberdades & gramaticais & estilísticas (não definir o que é estilo [?]), pontua-se como/e onde/e quando (se) quiser, os fogos de artifício que iluminam o Morro do Cavalão, conto-macchina, não se preocupar com rimas (n’outros termos: tudo bem se rimar as palavras afinal ou rimam ou não rimam), 50% porcento percentagem, o vendedor de picolé queimou o pé nas areias de Camboinhas/Sossego, bolhas no pé do vendedor de picolé, conto-macchina, museu de arte contemporânea ——————— o.Niemeyer, disco, voador, ARQUItecto de um futuro que ultra|passado. conto-macchina, um pouco de tudo.


Texto e fotografia: P. R. Cunha (instagram.com/pierre_cunha)

Pergunta # 4 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] Percebe-se de imediato que a sua escrita navega naquele vasto oceano a que costumam chamar de autoficção. Como você lida com a expectativa dos leitores em relação a isso?

[P. R.] Outro dia a minha avó leu trechos dum manuscrito em que estou a trabalhar e ficou assustadíssima: não sabia que meu neto era lá um rapaz tão sorumbático; céus!, quanto pessimismo. Ou mesmo este amigo com quem mantenho pouco contato. Mandou-me um e-correio repleto de azedume que falava mais ou menos o seguinte: não me lembro de você me pedir autorização para escrever sobre a minha vida privada num livro filosófico tão ruim. Ilusório aspecto documental. Meu gênero sempre foi a mentira. Eu reinvento tudo. Por isso tive de largar o jornalismo, aquela postura terrível de imparcialidade diante dos fatos. Veja bem: largo o jornalismo para finalmente poder contar as minhas mentiras em paz e toda a gente a ler-me como se eu fosse um repórter de economia… Há qualquer coisa de irônico nisso. Mas me parece inevitável que seja assim, uma vez que esses seres humanos me conhecem, e costumo escrever em primeira pessoa, o capcioso «eu». Não estou com isto a sugerir que não há nada de autobiográfico. Mas achar que tudo é um espelho da vida real (o que quer que isso signifique) é de uma tremenda ingenuidade. Percebi também que de pouco adianta dizer que são narrativas ficcionais. O sujeito sorri com ares de conspiração, como se dissesse: ah, meu amigo, a mim você não engana. Desconfio que nunca mudarão de ideia. E isso já não me dá cabo da cabeça. Há muito que deixei de me inquietar com esses pormenores — era o que eu estava querendo dizer desde o princípio, mas não o disse porque se o fizesse você teria ficado um bocado aborrecido com a brevidade da resposta.

Tábuas de salvação, mesmo com desespero

Seguem-se ainda alguns períodos melindrosos em que o jovem escritor se põe a imitar o estilo dos autores favoritos (como Kafka fizera com Walser, como tantos fizeram com Kafka, e como quase todos têm feito [direta ou indiretamente] com Sterne desde A vida e opiniões de Tristram Shandy). Até que o jovem escritor reconhece que precisa de uma outra forma de expressão para tudo o que tem a dizer. Daí descreve-se com as próprias penas — e condena-se, finalmente, a uma vida errante, repleta de azedumes.

— P. R. Cunha

Para-choques

Depois de cinco anos a trabalhar numa empresa detestável, Casimiro conseguiu finalmente comprar o próprio sedan. Não chega a ser um automóvel conservado: dois donos, para-choque dianteiro desigual, uma das lanternas traseiras parou de funcionar e a porta do motorista possui um arranhão visível a uns bons metros de distância. Casimiro está sentado ao volante. O cheiro no interior do veículo é um pouco enjoativo, ele tem de confessar. Como se alguma perfumaria desleixada tivesse jogado ali uma qualquer fragrância à base de petróleo que ainda não passara pelo departamento de qualidade. Segundo o vendedor, o carro pode ir de zero a sessenta quilómetros em dez segundos, velocidade máxima de cento e oitenta, sem direção hidráulica. Está a comprar um automóvel forte, robusto — dissera o vendedor cuja gravata possuía resquícios de bolo de chocolate —, não vai se arrepender. Casimiro liga o sedan e fica a escutar o barulho desengonçado do motor a benzina. Algumas peças desencaixadas trepidam, ele se sente dentro de uma discoteca dos 1970. Desliga o carro. Tira a chave da ignição. O sedan que Casimiro comprou é verde.

— P. R. Cunha