Crenças equivocadas produzidas por cérebros em exageradas tentativas de estabelecer conexões — ou as demandas de um qualquer relacionamento

Para Mauro Belmiro

Talvez devêssemos confiar no
testemunho de muitas gentes,
gentes da literatura,
vocês sabem,
dos fazedores de livros.
Que lá dizem ser raro,
encontrarmos alguém.
Alguém com quem estejamos
bem-dispostos a nos relacionar.
Bem como ela
conosco.
Ou como dissera
certo filósofo
do pessimismo:
que observava homem feio
estúpido,
rude.
Passar à frente de rapaz
talentoso, dos melhores modos.
Afável.
Por quê:
Excessivo poder mental,
ele diz,
ou até genialidade,
podem agir desfavoravelmente.

— P. R. Cunha

Mar morto

Por vezes cai-se numa estranha cilada nostálgica, a tal busca da repetição daquilo que já se passou. Uma viagem ao estrangeiro deixa-lhe marcas, o tipo regressa para casa com a certeza de dever cumprido. Ou encontrar-se com uma pessoa adorável e têm lá aos Andes chilenos um fim de semana revigorante. Pouco a pouco essas satisfações desvanecem, o cérebro busca recompensas, quer passar pelo mesmo, para sentir-se o mesmo. Daí volta-se ao estrangeiro e a jornada não é nada parecida com a anterior, a mala foi extraviada no aeroporto, a recepcionista do hotel pede desculpas porque a reserva não fora devidamente registrada no sistema, o passeio ao parque no centro da cidade — que há cinco anos tinha-lhe sido um dos mais encantadores — é um terrível desastre, chove o tempo inteiro. Algo análogo se passa quando voltam aos Andes, ela não é mais a mesma, ele tampouco, a neve bloqueia a estrada e ambos ficam horas dentro de um automóvel miúdo à espera de resgate. Não seria de todo estranho perguntar-se os porquês dessa obsessão pelo retorno. Como se a memória apenas hibernasse num cantinho algures, a bastar uma simples pesquisa aos arquivos neurológicos para sentir qualquer coisa parecida com o que se sentiu numa altura da vida em que as coisas estavam a andar direitinho. A realidade, contudo, insiste em mostrar que navegamos através de um gélido oceano do esquecimento, da indiferença e, principalmente, das mudanças. Porque as ondas nunca batem à praia com o mesmo formato. Não raro, quando o sujeito se depara com essas inquietações percebe que um dia os momentos agradáveis pelos quais passou modificar-se-ão, eventualmente desaparecem. Resigna-se: vou-me embora com as minhas experiências e logo ninguém dará por isso.

— P. R. Cunha

Homem-máquina

Há um prédio de escritórios onde os robôs começam a substituir os humanos e está a correr bem. Menos para o Martins, um vendedor de seguros acima do peso que come muito e fora orientado a caminhar até o trabalho à guisa de melhor saúde. Mas como se viu demitido por um gerador de algoritmo que consegue prever os riscos de taquicardia com bastante precisão, o Martins engordara mais um bocado e dizem que só sai do pequeno apartamento para comprar a torta de amora que tanto aprecia.

— P. R. Cunha

Lírios alaranjados

O avô do Monte era um cara incrível, foi com ele que aprendi a beber. Certa vez estávamos sentados na varanda da casa do Monte, e o avô dele chegou com quatro garrafas de cerveja, abriu uma para si e nos entregou as outras. Nós tínhamos doze, treze anos. O avô do Monte desabou-se na rede e ficara olhando para nós três. Podem beber, ele disse. Demos um gole curto. O Lídio cuspiu tudo fora, o Monte mostrava-se tranquilo, despreocupado, fez até pose na hora de levantar a garrafa. De certo que o avô já lhe havia iniciado no universo etílico. O grisalho ancião levantou-se, enxugou a boca com as costas das mãos, perdeu um pouco o equilíbrio e ficou parado perto de um jarro de flores laranjas: aprendi isto com o meu pai e gostava de transmiti-lo a vocês também. Ele então ensaiou um sorriso debochado e disse: se for o caso de se embebedar pela manhã, mantenham-se perto dos lírios alaranjados. A verdade é que jamais consegui compreender o significado desse conselho estranho. Mas o avô do Monte era sem dúvida um cara incrível.

— P. R. Cunha