Mar morto

Por vezes cai-se numa estranha cilada nostálgica, a tal busca da repetição daquilo que já se passou. Uma viagem ao estrangeiro deixa-lhe marcas, o tipo regressa para casa com a certeza de dever cumprido. Ou encontrar-se com uma pessoa adorável e têm lá aos Andes chilenos um fim de semana revigorante. Pouco a pouco essas satisfações desvanecem, o cérebro busca recompensas, quer passar pelo mesmo, para sentir-se o mesmo. Daí volta-se ao estrangeiro e a jornada não é nada parecida com a anterior, a mala foi extraviada no aeroporto, a recepcionista do hotel pede desculpas porque a reserva não fora devidamente registrada no sistema, o passeio ao parque no centro da cidade — que há cinco anos tinha-lhe sido um dos mais encantadores — é um terrível desastre, chove o tempo inteiro. Algo análogo se passa quando voltam aos Andes, ela não é mais a mesma, ele tampouco, a neve bloqueia a estrada e ambos ficam horas dentro de um automóvel miúdo à espera de resgate. Não seria de todo estranho perguntar-se os porquês dessa obsessão pelo retorno. Como se a memória apenas hibernasse num cantinho algures, a bastar uma simples pesquisa aos arquivos neurológicos para sentir qualquer coisa parecida com o que se sentiu numa altura da vida em que as coisas estavam a andar direitinho. A realidade, contudo, insiste em mostrar que navegamos através de um gélido oceano do esquecimento, da indiferença e, principalmente, das mudanças. Porque as ondas nunca batem à praia com o mesmo formato. Não raro, quando o sujeito se depara com essas inquietações percebe que um dia os momentos agradáveis pelos quais passou modificar-se-ão, eventualmente desaparecem. Resigna-se: vou-me embora com as minhas experiências e logo ninguém dará por isso.

— P. R. Cunha

Homem-máquina

Há um prédio de escritórios onde os robôs começam a substituir os humanos e está a correr bem. Menos para o Martins, um vendedor de seguros acima do peso que come muito e fora orientado a caminhar até o trabalho à guisa de melhor saúde. Mas como se viu demitido por um gerador de algoritmo que consegue prever os riscos de taquicardia com bastante precisão, o Martins engordara mais um bocado e dizem que só sai do pequeno apartamento para comprar a torta de amora que tanto aprecia.

— P. R. Cunha

Lírios alaranjados

O avô do Monte era um cara incrível, foi com ele que aprendi a beber. Certa vez estávamos sentados na varanda da casa do Monte, e o avô dele chegou com quatro garrafas de cerveja, abriu uma para si e nos entregou as outras. Nós tínhamos doze, treze anos. O avô do Monte desabou-se na rede e ficara olhando para nós três. Podem beber, ele disse. Demos um gole curto. O Lídio cuspiu tudo fora, o Monte mostrava-se tranquilo, despreocupado, fez até pose na hora de levantar a garrafa. De certo que o avô já lhe havia iniciado no universo etílico. O grisalho ancião levantou-se, enxugou a boca com as costas das mãos, perdeu um pouco o equilíbrio e ficou parado perto de um jarro de flores laranjas: aprendi isto com o meu pai e gostava de transmiti-lo a vocês também. Ele então ensaiou um sorriso debochado e disse: se for o caso de se embebedar pela manhã, mantenham-se perto dos lírios alaranjados. A verdade é que jamais consegui compreender o significado desse conselho estranho. Mas o avô do Monte era sem dúvida um cara incrível.

— P. R. Cunha