O blogue «Ludo e Vico» está a falar do meu paraquedas

Quando fui receber o Prémio Aldónio Gomes à Universidade de Aveiro e depois entregaram-me um par de caixas pesadas com exemplares de Paraquedas – um ensaio filosófico comentei com mamã que aqueles livrinhos não me seriam fonte de renda, mas um meio para alcançar novos leitores. Não me importo de vender três ou trezentas unidades, disse eu à mamã, trata-se de uma empreitada qualitativa. E, felizmente, posso dizer-vos que aos poucos o meu objetivo tem se concretizado. Hoje de manhã, o blogue Ludo e Vico – livros, passeios, e brincadeiras de bolso também publicou a respeito da minha criatura. É deveras gratificante saber que este paraquedas abre-se em casa de gentes tão admiráveis.

— P. R. Cunha


Paraquedas em si mesmo
Mãe do Ludo e do Vico

Cair em si é uma expressão idiomática que significa tomar consciência.

Existem membros respeitados da sociedade que não têm consciência da sua ignorância; parentes que se julgam bons ao criticar em vez de amar; pessoas que vivem para impressionar e não se impressionam com os outros…

Há dois dias encontrei na caixa do correio o livro que encomendei: Paraquedas – um ensaio filosófico do escritor P. R.Cunha, com delicada dedicatória e uma história surpreendente.

Comprei o livro porque adoro os posts do autor, mas não sabia o que esperar até começar a leitura.

Em alguns momentos pensei no personagem esquizofrênico da série Maniac, desagregado de uma família artificial e cruel.

O personagem de Paraquedas – um ensaio filosófico não é esquizofrênico, mas a família o trata como se fosse o louco inconveniente.

Ele foge dessa dolorosa realidade para a realidade de outros livros, de outros personagens, de outros escritores, de outras formas de arte, enquanto constrói a própria história, com coragem para seguir seus instintos e amor pela fazenda literária.

Em outros momentos, eu parei a leitura para compartilhar com meu marido, que se viu em certas agruras do personagem, assim como compartilho a indicação do livro do P. R. Cunha a quem ainda não conhece esse talentoso e premiado escritor.

Boa Semana e Boas Leituras!

Como sentir saudades do cérebro literário

No início deste semestre, uma das minhas alunas de escrita criativa veio conversar comigo e ela estava tão angustiada que eu precisei de dizer: acho melhor sentar-se e tomar um copo d’água, está a ter um burnout. Ela bebeu o copo d’água num só gole e contou-me que há tempos que não conseguia terminar um livro, qualquer que fosse o tamanho do livro, que distraía-se com facilidade, perdia o foco, que o cérebro dela parecia ter se acostumado completamente com o imediatismo das informações eletrônicas, e mesmo as notícias mastigadas da Internet por vezes se tornavam tão maçantes que chegar até ao ponto final era um fardo quase insuportável.

A primeira coisa que perguntei foi se estava cadastrada em alguma rede social, ao que ela me respondeu que sim: Facebook, Instagram e Twitter. Contou-me também que havia tentado manter um microblogue nas plataformas tumblr, mas que a tarefa não lograra êxito, pois o excesso de outros microblogues tirava-lhe o tempo necessário para escrever os próprios textos, e que o acúmulo de fotografias, relatos egotistas a respeito de política, as fofocas do entretenimento, cenas de barbáries nas grandes cidades faziam-na ter ânsia de vômito e deixavam-na com a cabeça à roda.

Acho curioso perceber que, via de regra, quando converso com alguém a respeito daquilo a que costumam chamar de incapacidade moderna de concentrar-se numa tarefa durante muito tempo, é a própria pessoa que acaba a revelar os prognósticos: são as redes sociais que consomem, as notícias fáceis e costuradas que empobrecem a experiência da leitura, o envolvimento desnecessário com usuários intransigentes que acham que estão a mudar o mundo coçando o traseiro enquanto gritam impropérios atrás do ecrã do computador… e por aí adiante.

Apesar de estar escondido dentro de uma caixa craniana e dar a impressão de inacessibilidade, o cérebro é um músculo que também precisa de exercícios, que atrofia se for neglicenciado. Trocando em miúdos: se durante anos os seus braços acostumaram-se a carregar apenas o peso da caneca do café até aos lábios, não adianta ir a um ginásio desportivo para tentar levantar uma barra de 150 kg (spoiler alert: vai se arrepender enormemente). O mesmo parece acontecer com a capacidade cerebral: os neurônios não têm juízo de valor; se condicionarmos o cérebro a receber informações rápidas e superficiais, é assim que ele vai querer mastigar os próximos alimentos.

A minha aluna, que na primeira juventude orgulhava-se imenso pois devorava sem grandes dificuldades livros como Guerra e paz do Tolstói, ou mesmo o calhamaço de A piada infinita do David Foster Wallace, agora sentia-se fatigada diante do livrinho de bolso A alma encantadora das ruas, do João do Rio. Acontece que passou quase uma década a manusear constantemente o próprio telemóvel, a buscar os atalhos mais fáceis, a distrair-se com a inutilidade alheia, ao que o cérebro — que antes se mostrava uma excelente máquina literária — entregou os pontos, como se dissesse: ok, se é isto o que tu queres, vamos lá ser rasos também.

A boa notícia é que o período de desintoxicação digital mostra-se relativamente curto. Se você numa altura da vida leu bastante até ser fisgado pelos imediatismos da Internet, não precisa de se desesperar (tanto). É reversível.

Minha aluna decidiu utilizar o próprio telefone apenas para aquela função que quase ninguém mais se importa e que deveria ser a principal tarefa de qualquer telemóvel, isto é: fazer chamadas. Ela desativou as redes sociais, viu-se de súbito com cerca de cinco horas livres por dia, horas que antes eram gastas a ler comentários disparatados, a assistir aos vídeos de gatinhos a fazer coisas que os gatinhos fazem. Hoje aproveita esse tempo para exercitar o cérebro como costumava fazer: leu João do Rio, depois os contos de Raymond Carver, os primeiros textos do Lima Barreto e escreveu uma das estórias mais interessantes do nosso curso. 

Na última aula, ela veio me agradecer. Tinha os olhos repletos de lágrimas e segurava os dois volumes da biografia do Frank Sinatra escrita pelo James Kaplan (quase duas mil páginas). Dissera-me que leria tudo nas férias e que, depois, dedicar-se-ia à obra do Scott Fitzgerald.

Esta minha breve e enriquecedora experiência como «professor» demonstrou-me que não existe nada mais gratificante do que devolver a vontade de literatura a alguém.

— P. R. Cunha


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Felizmente, ainda é possível escolher entre o ecrã e a folha do livro / ©Event Horizon

Tentativas de compreender o funcionamento das rodas da minha bicicleta

Enquanto pedalo
a minha bicicleta
fico a pensar que ela
e eu estamos suspensos
sobre duas rodas
com raios de alumínio
a convergir para
um círculo central.
O círculo central da roda
suporta o peso da bicicleta
e de quem está montado nela
— no caso: eu.
Quando olhamos
a uma distância adequada
percebemos com clareza
que a roda da bicicleta
é feita majoritariamente
de espaços vazios.
Mas qualquer um que procure
sentido nisto, só pode se decepcionar.

— P. R. Cunha

Desafios literários diante das velocidades da comunicação eletrônica — «isto não é atual, portanto não me interessa»

Muito se fala sobre o avanço exponencial das tecnologias modernas. Algo que se mostrava imprescindível poucos anos atrás, hoje é descartado como uma bugiganga inútil e ultrapassada (pensem, por exemplo, nos aparelhos tipo telefax [telefacsimile/telecópia], ou nos pagers Bip que eram a última moda nos 1990…).

James Joyce demorou quase uma década para escrever Ulysses; Proust precisou de 14 anos para acertar as contas com o passado e mesmo assim não ficou completamente satisfeito com a série de Em busca do tempo perdido. Se os aparatos eletrônicos tornam-se descartáveis depois de alguns invernos, o que dizer das obras artísticas (livros, dramas, filmes, pinturas etc.)?

Os livros oitocentistas de Tolstói permaneceram mais ou menos modernos durante toda a vida do autor — numa altura em que os ponteiros dos relógios pareciam andar com menos pressa.

Temo que os livros escritos neste século digital estejam a ficar lentos demais para serem relevantes ou eficazes. O assunto tratado no romance pode se revelar desatualizado antes mesmo de a obra chegar às prateleiras das livrarias.

Levei cerca de três anos para escrever o meu segundo livro — 26 meses de árduas e edificantes pesquisas, mais quatro meses de escrita propriamente dita. Alguém abrirá meu livro e poderá dizer: estas coisa já aconteceram há tanto tempo (três anos é quase uma eternidade hoje em dia), por que hei-de me interessar por questões irrelevantes?

Romance continuum (cenário plausível) — um romance instantâneo, escrito por algoritmos, atualizado minuto-a-minuto; romance compartilhado, constantemente substituído por outras informações ainda mais novas/atuais; o estilo não será tão importante quanto o conteúdo; um romance que começa de um jeito, modifica-se de outro jeito, sem final específico, cenas abertas, cenas feitas justamente para serem alteradas de acordo com os caprichos dos avanços tecnológicos. Romance-Wikipédia.

(…)

Brasília, Livraria Cultura, início de maio. Um casal está a folhear livros e escuto o rapaz dizer: não conseguiria ler este aqui, é muito extenso. Olho indiscretamente para o livro que ele está segurando, um livrinho que não deve ter mais do que duzentas páginas.

— P. R. Cunha

Período de gestação (é hora de diminuir a temperatura do forno, o bolo literário [pelos vistos] formou-se)

Ambíguas sensações invadem-me nesta altura em que posso, finalmente, pronunciar a frase que costuma inquietar 200 em cada dez escritores: terminei de escrever o livro.

Se por um lado o alívio e as inúmeras possibilidades deixam-me extasiado (e [para ser sincero] muito orgulhoso/vaidoso)… fica também um vazio difícil de preencher — como quando temos que dizer adeus a quem amamos imenso, ou, mais especificamente, aquilo que os pais devem sentir ao olhar nos olhos dos filhos que irão estudar algures por tempo indeterminado (talvez para sempre).

A senhora Madison reclamava com toda a gente sobre o facto de não suportar mais os caprichos do senhor Madison, que o velho e rabugento Madison causava-lhe uma ojeriza incontornável. Porém, quando o senhor Madison morreu, a senhora Madison caíra numa profunda depressão, chorava de saudades todas as noites antes de dormir, ao virar-se para o lado da cama em que o senhor Madison deveria estar.

De uma forma grotesca, insensível, metaforicamente preguiçosa: o escritor é bem a senhora Madison, e o livro que ele escreve é o senhor Madison.

Tarefa absurda, que numa altura parece nos consumir (ah!, o doce ardil da terceira pessoa do plural), que nos coloca diante de neuroses, tira o nosso sono, mas insistimos, e lá estamos novamente debruçados sobre o caderninho, ou sobre o teclado do computador, a escrever o nosso maldito/bendito livrinho.

Num rito de passagem que já se tornou hábito, compartilho convosco o que esta segunda batalha literária ensinou-me, ou simplesmente os desafios que ela veio a reforçar ainda mais. Eis:

• Seu livro nunca será escrito se você fugir dele;

• Não seja cobarde, assuma as responsabilidades da empreitada livresca (dedicação, disciplina, comprometimentos, sacrifícios etc.) de boa-vontade. Cada dia é uma incógnita, uma luta contra as mazelas da preguiça e da insegurança (a obra é boa?, estou a perder o meu tempo com este troço?, alguém além de mamã vai ler isto aqui?, e assim por diante…);

• Trabalhar sem amaldiçoar excessivamente a literatura é vital para a continuidade do livro;

• Os livros que mais valem a pena (penso por alto: Moby Dick [Melville]; Ulysses [James Joyce]; Extinção [Bernhard]; Os anéis de Saturno [Sebald]; A piada infinita [DFW]; Os ensaios [Montaigne]; A vida e opiniões de Tristram Shandy [Sterne]) são também os livros mais difíceis de escrever, obras trabalhosas que precisam de tempo. Portanto, tenha paciência;

• Lembre-se de que as diversas espécies de pessoas escritoras que habitam este planeta também estão à procura de editoras, também querem ganhar os prêmios literários, também querem ser lidas. A melhor arma contra o desânimo editorial é ser um bocado persistente;

• Comece a escrever o livro hoje. Agora. Se calhar, pare de ler imediatamente este texto disparatado e vá (ou melhor, corra!) até à escrivaninha; escreva!;

• Pare de viver em um mundo de sonhos, romantizações, fantasias, deslumbramentos. Não sei se ficou claro: mas o seu livro não se escreverá sozinho. Enquanto você fica por aí gabando-se, a dizer que é um escritor talentoso e promissor, enquanto você ilude a si mesmo, o livro encontra-se hibernado e inutilizado. Fale menos (de preferência, não fale nada), escreva mais;

• Estabeleça para si um cronograma saudável e realista. Trabalho, leituras, pesquisas apropriadas, atividade física, alimente as necessidades do seu coração (isto é: não negligencie cônjuges, familiares, amigos);

• Em excesso, você se torna «bêbado» pela literatura — acúmulo de substâncias fatigantes. Com um adequado descanso as toxinas são eliminadas, tornando-o (kudos!) sóbrio outra vez;

• A procrastinação já derrotou muitos escritores magníficos, escritores que acreditaram ingenuamente que a Providência (chame-a como preferir) estaria à disposição a tempo inteiro, bastaria uma tarde soalheira, quando desse na telha do escritor, para simplesmente escrever o maior romance de todos os tempos. É chato dizê-lo, mas, a despeito dos mitos que enaltecem escritores iluminados, isto nunca acontece. Não seja um dependente de astros, cartomantes, alienígenas, horóscopo chinês, ferraduras da sorte, figas, amuletos egípcios ou coisas desta natureza mística. Não deixe para depois o que você pode escrever imediatamente;

• Um certo sentimento de urgência, quando bem dosado, pode fazer maravilhas;

• Afinal, a vida é curta — curtíssima.

— P. R. Cunha

Notas do aeródromo — voltar para casa meio que olhando em todas as direções [seleção de trechos aleatórios]

Os aeroportos — assim como os hotéis — estão cada vez mais iguais. Galeão (Rio de Janeiro) = Humberto Delgado (Lisboa); praticamente idênticos. As mesmas lojas, as mesmas roupas, as mesmas «pessoas».

Não sei quem disse isto: o Rio de Janeiro não é mais uma cidade bonita, mas um lugar bonito para uma cidade. Baía de Guanabara tem um cheiro esquisito (benzina, gasóleo, dejetos humanos, peixes em decomposição [haverá peixe de duas cabeças nas profundezas da baía, pergunto ao taxista, que rir-se sem saber a resposta]).

Niterói não tem aeroporto.

Starbucks ao portão B 34 (embarque doméstico) — o café da aldeia global (McLuhan/Fiore); é tudo tão estrangeiro que quase me assusto quando a funcionária à moda teen fala-me em português.

A sala de espera para as pessoas que têm muito mais dinheiro do que todos nós chama-se PREMIUM LOUNGE. (Observo um homem com fato Armani que entra e desaparece no LOUNGE e fico com a impressão de que a mala de ouro dele vale tanto ou quanto um Learjet de médio porte.)

As famílias numerosas do século XXI (pai, mãe, menino[a] de colo, outras duas crianças que ficam a puxar papá-e-mamã porque querem a meia Puket com cisne bordado), o desespero dos pais, a pressa, um certo arrependimento — tipo: o que fizemos de nossas próprias vidas etc. Para onde vão?

Fila para o embarque. Um padre idoso (devidamente vestido de padre, roupa eclesiástica [batina toda preta, colarinho branco, crucifixo]) a enviar mensagens pelo WhatsApp, numa altura leva o telemóvel à boca e manda um áudio com voz desaforada: valha-me!, estamos embarcando, graças a Deus. Parece que só eu acho a cena curiosa/absurda/um bocadinho perturbadora.

Pensamentos inquietantes, descolagem-aterragem, sentado, poltrona perto da janelinha. Olhar para os passageiros à volta e dizer comigo mesmo: então estas podem ser as últimas pessoas que verei. Sentir-se um pouco desapontado (i.e.: talvez eu preferisse morrer com outras pessoas).

Não sou católico, mas preciso de confessar que o facto de termos 3 (três) padres a bordo me tranquiliza à beça — mais do que eu estaria disposto a admitir noutras circunstâncias.

— P. R. Cunha


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Literature only: enfim uma aeronave que compreende a minha filosofia de vida

Lentes de contato: Niterói ontem e amanhã

1.

Há um ano anotei neste blogue que Niterói nunca seria a minha cidade. Niterói é-e-sempre-será o sítio dos meus pais. Trata-se, no entanto, da localização geográfica em que mais permaneci depois de Brasília — o meu berço de cimento. Niterói é aquela prima com quem passamos tempo de mais ao ponto de quase podermos chamá-la de irmã. 

Nos últimos outonos, venho até aqui para ajudar/cuidar/resolver miudezas diversas da minha avó Eva, mãe de papai. Mas nunca saio de Niterói com as mãos abanando, como se diz. Meu primeiro livro a solo, Paraquedas – um ensaio filosófico, nasceu durante minhas incontáveis perambulagens niteroienses*, encorpou-se na Rua Mariz e Barros, a primeira parte fôra praticamente toda escrita no «Icaraí Café», que é onde estou sentado agora, a escrever estas linhas descompromissadas.

Trata-se de um café absurdo, café dentro de shopping mall, mas — por algum motivo que foge das minhas capacidades interpretativas — este lugarejo traz-me as inspirações mais interessantes de sempre. Alguns dirão que é o excesso de cafeína, o açúcar. Não é (só) isso. É outra coisa. Talvez um sentimento nostálgico, e bobo, e romantizado, uma ilusão, expectativa de que aqueles bons tempos da meninice possam de alguma forma retornar. Ou aquela impressão de desconectividade que por vezes sentimos quando assistimos aos filmes do David Lynch. Uma experiência metafísica (não à Kardec, mas à Borges & Bioy), como se aqui eu conseguisse finalmente escutar os sussurros fantasmagóricos dos meus antepassados.

É por isto que volto constantemente a este café: porque se não me sento aqui para ler, rabiscar as minhas anotações e ter os delírios da praxe, é como se minha visita a Niterói nunca tivesse acontecido.

2.

Caminhar de facto em Niterói: o andarilho se depara com uma cidade acolhedora, simpática, moradores sorridentes e prestativos, pessoas que se cumprimentam enquanto passeiam nenhures sobre a calçada com pedrinhas portuguesas.

Ler/ouvir/ver notícias a respeito de Niterói: um pode se perguntar se não errara de endereço — é aqui a Terceira Guerra Mundial? Não lhe apetece sair de casa e levar um tiro de bazuca no coração.

O retrato de Niterói a variar de acordo com a lente que o sujeito escolher.

As notícias podem por vezes deixar mudo o receptor, paralisá-lo — mas há tempos que os noticiários não retratam realidade alguma (vide interesses políticos e comerciais, publicidade grotesca, egotismos diversos, sensacionalismos etc. etc. etc.).

Sair e ver com os próprios olhos — um adágio atual, necessário. Noutros termos: não enxergar o mundo através das lentes dos outros.

— P. R. Cunha


*Sempre com o Lippolis (Viagem aos confins da cidade) dentro da sacola com a silhueta do MAC de Niterói estampada.