Como guardar imagens chilenas apropriadamente

Nestes meus quase 34 anos de planeta Terra jamais cogitei a possibilidade de não levar o aparato fotográfico às viagens. Desta vez estou a fazê-lo.

(Ainda não é a viagem, mas o início, o começo despretensioso — prévias [previsões].)

Defender a ideia de que o nosso cérebro também é um mecanismo imprevisível que captura os tais momentos do tempo perdido. Caixa craniana/câmera escura registram, arquivam, revelam mensagens do passado.

Minhas últimas duas viagens: Niterói & Portugal (de Lisboa até Aveiro) — contaminado pela quantidade absurda de gentes a tirar fotografias; a mais delicada de todas as atividades predatórias, como diria Susan Sontag. A culpa, o remorso: eu, com a minha Canon, também fazia parte do grupo voyeurístico.

Ir aos concertos e não conseguir prestar atenção, porque os telemóveis luminosos e as câmeras tomaram conta de tudo.

A lente da máquina e o olho humano precisam de luz. E aqui começo as minhas reflexões propriamente ditas.

Acontece que o universo no qual vivemos possui um limite de velocidade: 299,792 km/s; a chamada velocidade da luz. Habitamos este espaço físico com regras específicas onde nada pode ultrapassar esses 299,792 km/s. 

Estamos constantemente em viagem: as informações do nosso corpo percorrem o espaço até chegar aos outros receptores.

Duas pessoas estão a um metro de distância e conversam sobre, digamos, os negócios de determinada empresa. A título ilustrativo, podemos chamá-las de Marcos e Luana. Por causa do limite de velocidade da luz, Marcos está a ver Luana com um atraso (delay) de 3,3 nanossegundos.* Pode parece um simples bate-papo comercial que supostamente ocorre no presente, mas Marcos e Luana estão sempre um bocadinho no passado. O cérebro a captar fótons espectrais.

*0.000000003 (em segundos).

Tudo o que vemos em redor é como foi, não como é. O agora absoluto, para a luz, não existe. Vivemos a observar atrasos, à espera de um presente que nunca chega.

Os corpos celestes podem esclarecer. A Lua brilhosa que aparece elegante numa noite sem nuvens está a cerca de 380 mil quilômetros de distância — de forma que a luz demora quase dois segundos para chegar até nós. O Sol, a 149.6 milhões de quilômetros, ilumina a nossa atmosfera com oito minutos de atraso.

Ao que tudo indica, mandaremos humanos para Marte — 227.9 milhões de quilômetros da Terra. E aqui o arranjo torna-se um tanto macabro. Se algum astronauta morrer em solo marciano, os terráqueos só saberiam 14 minutos depois.

Agora, voltemos às comparações olho-humano/lente-fotográfica; captação de luz, de imagens, das informações que se mostram atrasadas. O fotógrafo que mira a própria câmera a fim de preservar a história, o acontecimento. Viu algo que lhe interessou imenso, apertou o botão. Crê conservar uma cena que de outra forma desapareceria. 

Armazenamento de memórias, falhas. Uma fotografia minha em que estou a brincar no parquinho com os meus irmãos (1988), o papel está a perder a cor, as bordas dilaceram-se. Se imagem digital, a instabilidade dos servidores eletrônicos — hoje, estão a operar, amanhã, não se sabe ao certo (quedas repentinas do sistema de grandes corporações [motivos desconhecidos], dados irrecuperáveis). O cérebro humano que também se deteriora (Alzheimer).

Tudo se perde.

Existir num passado constante e a angústia de não conseguir capturá-lo adequadamente. A fotografia como extensão da incapacidade cerebral de manter-nos ao presente, a fotografia (Sontag, de novo) como criação de um mundo em duplicata, de uma realidade de segundo grau. Uma busca dramática para interceptar a velocidade da luz.

No cenário vertiginoso de um agora ausente, tirar a câmera da mochila e apontá-la outra vez para o que já foi. Eis a sina de quem se apaixona por fantasmas. 

— P. R. Cunha


Processed with RNI Films. Preset 'Agfa Optima 200 Faded'

Metaimagem, constrangimento: câmera apontada para outra.

Realidade paralela

Um coveiro de Niterói que durante mais de quarenta anos enterrou os mortos da cidade e era conhecido por toda a gente como «Raimundo, aquele que enterra os nossos mortos» faleceu de forma súbita na noite passada enquanto lia, segundo testemunhas, o romance Paraquedas – um ensaio filosófico de P. R. Cunha. Certo colega de profissão, que fora escalado pelo cemitério para preparar a cova do notável coveiro apreciador de literaturas, dissera aos repórteres que poucas vezes sentiu-se tão perturbado: amanhã, este coveiro enterrará um amigo coveiro, dor terrível. Autoridades locais investigam o caso e não descartam a possibilidade de proibir as vendas do supracitado romance até que os detalhes sejam devidamente esclarecidos. Raimundo deixa uma viúva inconsolável e duas filhas.

— P. R. Cunha

Período sabático / primeiras impressões sobre o vindouro passeio chileno

O ritual matutino de sempre: acordar às 7h20, tomar o duche gelado, descer para preparar o pão com manteiga, o suco, a chávena de café, ir ao próprio gabinete, dedicar-se às primeiras leituras, aguardar as faíscas, uma frase, uma palavra, a vírgula — escrever, sentir-se poderoso, firme, dizer-se: «Não queria estar em nenhum outro sítio»; sentir-se em casa, absolutamente em casa.

As viagens, assim como a própria fisionomia, modificam-se [aparência/significado/propósito/etc.] no decorrer do tempo: o tal riacho que depois de passar sob a ponte jamais voltará a ser como antes. Entropia (é cedo demais para se falar disto).

Não se trata de uma reflexão sobre a irreversibilidade do tempo, mas sim a respeito do abandonar rituais matutinos de sempre. Ir-se alhures.

A imagem (R. Barthes): o lançamento de foguetes: procedimento feito com abandonos controlados [é tema para todo um livro!] — começa-se com um grande foguete cheio de compartimentos para combustível; à medida que foguete consegue se livrar das garras gravitacionais do planeta, inicia-se o processo de desacoplamento. O aparato gigantesco transformara-se numa cápsula espacial a conter apenas o necessário.

Meter-se em viagem é deixar quase tudo atrás de si, levar na bagagem apenas o imprescindível.

Nos últimos dois ou três anos, a cada partida, a cada nova jornada, pensa-se sobre o período em que vivera na Rússia, naquela época (24 anos de idade) em que a plena juventude permitia os sonhos mais disparatados, mais inatingíveis. Porque, como se sabe, o jovem longe da pátria-mãe é o vencedor — nada lhe parece impossível.

No entretanto:

Viagens atuais (faltam três semanas para o embarque [Chile]): realistas, objetivas, idealizações controladas. Não se sai mais em busca de algo, ou de alguém. Viaja-se atrás de si, movido pelo paradoxal desejo de se perder para, ao dobrar de uma esquina estrangeira, encontrar-se novamente. 

— P. R. Cunha

Há algo de errado, mas não se sabe ao certo o quê

Ele está a lavar a louça. Ela passa, espreguiça-se e diz: bons-dias, Frank. Sem desviar os olhos do conjunto esponja-prato-talheres-detergente, Frank acena com a cabeça. Ela abre a geladeira e pega do fundo um copo de requeijão light. Frank distrai-se, alguma coisa cai na pia e faz aquele barulho metálico de coisas que caem na pia — talvez um garfo, ou uma colher. Ela fecha a geladeira com imensa força e diz com voz infantil: ora, Frank, que tal se tomássemos cuidado com a louça? Os lábios de Frank tremem, mas hoje ele não irá dizer nada.

— P. R. Cunha

Os netos estão a passar as férias com a avó

Fabrício e Miguel estão a passar as férias com a avó, Rosana. A avó insiste em dizer que não tem um neto predileto: gosta dos dois, do mesmo tanto. Certa madrugada, Miguel vai até à cozinha porque está com imensa sede. Ao acender a luz ele escuta um barulho que vem da sala — Rosana a fumar um cigarro. «Quem está aí?, é o Fabrício?», diz a voz rouca da avó. Miguel expira resignado: não, vovó, é o Miguel. «Ah…», balbucia Rosana. A senhora deseja alguma coisa da cozinha?, o neto pergunta. «Achei que fosse o Fabrício. Aliás, tinha a certeza de que era o Fabrício», insiste a avó.

— P. R. Cunha

Uma paz particular

Certo ator brasileiro, depois de ganhar todos os prêmios que a Companhia Internacional de Teatro poderia oferecer, dizem os jornais, voltou ao Brasil com a merecida reputação de um dos maiores atores do mundo. Assim que aterrara em São Paulo, foi recebido por um grupo de empresários que prometera ao talentoso ator brasileiro o que ele desejasse: qualquer coisa, basta pedir — disseram os empresários. Ao que o ator brasileiro, tentando se fazer entender enquanto uma multidão de fãs gritava o seu nome, teria dito que só queria ser deixado em paz. Como mesmo depois de três meses o ator ainda não havia conseguido o tão desejado sossego, contratara um duplo para representá-lo, pagando inclusive quantias consideráveis (praticamente toda a premiação em dinheiro oferecida pela Companhia Internacional de Teatro) para que o sósia se submetesse a uma cirurgia plástica a título de retocar possíveis diferenças comprometedoras. Além de ter que ficar à janela acenando para os curiosos que permaneciam ao portão da casa do ator brasileiro, um talento mundial, repetem os jornais, o dublê também ficara encarregado de se encontrar periodicamente com todo e qualquer grupo de empresários que demonstrasse interesse pela carreira do célebre artista. Os empresários nunca notaram qualquer diferença; são muito estúpidos.

— P. R. Cunha