Paul

Sala escassamente mobiliada. Parece um esconderijo. Parede de estantes com toda a sorte de objetos antigos. Uma mesa muito grande, inútil. Há duas pessoas. Ricardo e Francis. Ricardo anda de um lado para o outro, parece irrequieto, confuso. Francis está estendido numa velha poltrona a fumar cachimbo e a ler o jornal.

RICARDO
É de suma
importância
esperar pelo
Paul
Sem Paul
nada feito
Sem Paul
sem plano

FRANCIS
(Baforada no cachimbo, ajeita calmamente o jornal, vira o jornal para a luz do abajur, voz mansa.)
Pra já ainda
é muito cedo
Paul vem
sempre vem

RICARDO
Sempre veio
mas
desta vez

FRANCIS
(Baforada no cachimbo.)

RICARDO
Desta vez…

(Toca a campainha, Ricardo olha para Francis; Francis levanta a sobrancelha com ar de triunfo.)

FRANCIS
Não falei

(Ricardo dirige-se para a porta e abre-a.)

RICARDO
Não é Paul

FRANCIS
Não é Paul

(Maria entra.)

MARIA
Cadê Paul

FRANCIS
Não se demora
ainda é muito cedo

MARIA
Sem Paul
impossível

RICARDO
Foi o que
eu disse

FRANCIS
Não
Não foi o que
você disse

RICARDO
Como assim
foi sim
o que eu disse

FRANCIS
(Levanta-se, dobra o jornal.)
Você disse
(Imita a voz de Ricardo, teatralmente.)
Sem Paul
nada feito

RICARDO
(Coça a cabeça.)
A ideia
ora
a ideia é a mesma

FRANCIS
(Ar professoral.)
Para isto aqui
funcionar
precisamos ser
precisos
A ideia não pode ser
a mesma
A ideia precisa
ser idêntica

MARIA
Sem Paul
nada feito

FRANCIS
Exatamente

RICARDO
Desejo de mudar
sempre
a todo o momento

MARIA
(Ri, alto, à moda louca.)
Começou

RICARDO
Rachel Boyd
Bersarin Quartett
uma certa calmaria
(Ricardo dança a valsa consigo mesmo.)

MARIA
Falsa
calmaria

RICARDO
Três minutos de calmaria
pelo menos
até ao fim da música
(Continua a dançar a valsa.)

FRANCIS
Bersarin Quartett
Welche Welt

(Toca a campainha.)

RICARDO
É Paul

MARIA
Deve ser Paul

FRANCIS
Paul

(Ricardo dirige-se para a porta, abre-a, há um homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza

RICARDO
(Volta-se para a sala, confuso.)
Quem pediu
pizza?

FRANCIS
Não como pizza
em verdade
odeio pizza

MARIA
Acabei de chegar
não pedi pizza

RICARDO
Não pedimos pizza

(Homem com capacete averigua nota, lê a nota com voz abafada pelo capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
Pizza para Paul

(Ricardo toma a nota das mãos do homem com capacete, lê a nota.)

RICARDO
Pizza para Paul

(Maria se aproxima, lê a nota.)

MARIA
Pizza para Paul

FRANCIS
Deixem entrar a pizza

HOMEM COM CAPACETE
Vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Como é
vivente?

HOMEM COM CAPACETE
O senhor me deve vinte e cinco e cinquenta

RICARDO
Ah
sim
claro
(Coloca a pizza sobre a mesa muito grande. Tira o dinheiro do bolso.)

HOMEM COM CAPACETE
Faltam cinquenta centavos

(Francis se aproxima, lê a nota.)

FRANCIS
Pizza para Paul

HOMEM COM CAPACETE
Cinquenta
centavos

(Sem tirar os olhos da nota, Francis entrega uma moeda para o homem com capacete.)

HOMEM COM CAPACETE
(Levanta a viseira do capacete.)
Espero que
os senhores
(Pausa, olha para a Maria.)
E a madame
(Inclina-se como faziam os antigos cavalheiros oitocentistas.)
Espero que tenham
um excelente apetite

(Francis, ainda a olhar para a nota, fecha a porta.)

FRANCIS
Pizza para Paul
(Balança a nota como se fosse um bilhete premiado.)
Pizza para Paul

MARIA
Está a enlouquecer

(Ricardo se aproxima, tenta ler a nota novamente.)

FRANCIS
A verdade é que
temos de aguardar
pelo Paul
sem Paul
não podemos

MARIA
Sem Paul
sem sentido

FRANCIS
Tudo é sempre
a mesma coisa
Com Paul
tudo é diferente

MARIA
(Suspira apaixonadamente.)
Se ao menos
Paul estivesse aqui

RICARDO
Ele já vem
antes eu achava que
não viria
mas agora já acho
que vem

FRANCIS
(Balança a cabeça, contrariado, encolhe a língua, a língua toca o céu da boca, depois a língua toca nos dentes da frente e faz um barulho tipo «tsc-tsc».)
Não teria
tanta certeza

RICARDO
Do que está a falar

FRANCIS
Acidentes acontecem

MARIA
(Olha para o Ricardo.)
Odeio admitir
mas Francis
tem um ponto

RICARDO
Uma coisa é certa
sem Paul
nada feito

FRANCIS
Nada feito

MARIA
Acidentes acontecem

RICARDO
Nunca fui muito com
a cara do Paul
sem Paul
sem plano

(Francis se joga novamente na poltrona velha, abre o jornal. Tenta ler. Não consegue.)

FRANCIS
Paul
Paul
Paul
Tudo é Paul

MARIA
Enciumou-se

FRANCIS
(Levanta-se. Joga o jornal para o chão.)
O que estou a dizer é
sei que sem Paul
não conseguiremos
mas tudo é
sempre Paul

RICARDO
Grande dependência
de Paul

MARIA
Deixem lá disso
sabemos bem
que Paul
é imprescindível

(Toca a campainha, os três gritam em uníssono: PAUL! Francis dirige-se para a porta, saltitante feito criança, abre-a.)

FRANCIS
Não é Paul

VIZINHO
Olá

(Ninguém responde.)

VIZINHO
Aqui mora o Paul?

(Ninguém responde, todos desapontados. O vizinho entra sem cerimônia. Abre a caixa de pizza sobre a mesa muito grande, come um pedaço de pizza.)

VIZINHO
(Lambe os dedos.)
Não sei se sabem

(Todos olham desconfiados para o vizinho.)

VIZINHO
Esbarrei com o Paul
ontem

RICARDO
(Incrédulo.)
Paul?

VIZINHO
Sim
ontem
à noite

MARIA
(Incrédula.)
Tem a certeza?

VIZINHO
Olha como tu falas
claro que tenho
a certeza
era o Paul
carne e osso
Paul

(Ricardo senta na poltrona velha de Francis, resignado.)

RICARDO
Sem Paul
sem plano

VIZINHO
Preciso de açúcar

(Francis vai até ao armário, tira um pacote de açúcar e entrega para o vizinho.)

FRANCIS
Bolinhos?

VIZINHO
Cookies

MARIA
Sou diabética

VIZINHO
(Faz que vai chorar e nunca chora.)
É uma grande pena

(Toca a campainha. Maria, sem pressa, dirige-se à porta. Abre a porta. Há um policial.)

POLICIAL
Amigos do Paul?

(Apaga a luz. Cai o pano. Fim.)

— P. R. Cunha

O dia em que tomei haxixe — ou quando Clarence Seedorf (ainda) tentava encantar a desconfiada torcida do Botafogo de Futebol e Regatas

Em abril de 2013 fui com um amigo assistir Botafogo e Sobradinho no estádio Bezerrão, Gama — a aproximadamente 30 km de Brasília. A ideia era ver o Seedorf jogar com a camisa alvinegra, mas numa altura a partida estava tão enfadonha que o meu amigo perguntou de forma descompromissada, como quem pede jujuba na farmácia: já escreveu sob efeito de entorpecentes?

Apesar de ter experimentado muitas coisas, digamos, ilícitas confesso que o ofício criativo me é mais proveitoso quando sóbrio. Vejamos… Uma ou outra canção depois de um cigarrinho de maconha e eis basicamente a minha experiência psicodélica no «fazer artístico». 

Sim, sou aquilo a que costumam chamar de careta.

Tenta escrever alguma coisa com haxixe, sugeriu o amigo enquanto o Seedorf errava um lançamento que, como diria um antigo, até a minha avó acertaria.

Dois dias depois do jogo (zero a zero) consegui o haxixe — cuja fonte, obviamente, não pretendo revelar —, tomei a erva e sentei-me para escrever. O relato, que ficara deitado para a gaveta de meias nesses últimos cinco anos, decidiu, enfim, se levantar.


Brasília, 19 de abril de 2013: haxixe

Tomei haxixe às dez da manhã, depois do pequeno-almoço. Estou agora sentado numa rede perto da piscina. O céu azul machuca os meus olhos, ao que preciso tapá-los com as mãos de tempo em tempo. Vejo aquelas sujeirinhas estranhas à moda minhoca navegarem no meu globo ocular. Nunca tomei haxixe. Tenho ao meu lado um bloquinho de notas para escrever a respeito desta experiência. Tudo o que sei sobre os efeitos desse entorpecente li nos livros dos senhores Walter Benjamin & Charles Baudelaire. Vaga sensação de premonição, angústia — ainda não sinto nada disso. Qualquer coisa de estranho, de inevitável que se aproxima — tampouco. Estou relaxado. Bloquinho de notas sobre a minha barriga. Bloquinho de notas sobe e desce de acordo com a minha respiração. Eu respiro de uma forma engraçada. E se eu tivesse uma parada cardiorrespiratória? Surgem imagens, recordações há muito tempo soterradas, às vezes prazer, às vezes dores. Minha infância foi feliz o bastante. Sensação de poder escrever o que eu quiser, qualquer coisa!, pois se algo sair dos trilhos posso sempre colocar a culpa no haxixe. Somos surpreendidos & assaltados por tudo o que acontece — um passarinho está a cantar ao longe, não gosto do canto desse passarinho, gostava que um outro passarinho maior pudesse dizer a esse passarinho menor, na língua dos passarinhos, obviamente, ei, passarinho, diria o passarinho maior, pode parar de cantar, o seu canto me irrita imenso, e eu apenas observaria o diálogo dos passarinhos, não interviria, de forma alguma, assunto de passarinhos. Surgem sensações atmosféricas: névoa, opacidade, pesadez do ar. Pesadez do ar. Pesadez. Do. Ar. A caneta caiu da rede. Grande preguiça para procurar a caneta. A caneta agora parece pesar uns cem quilos. Não consigo tirar a caneta do chão. A caneta é azul, dessas que podemos comprar no supermercado. Uma vez tentei roubar uma dessas canetas, mas não era uma caneta azul (tipo Bic), era caneta preta tipo outra coisa. Havia muita gente por perto e resolvi não roubar a caneta. Fiquei acanhado, percebes? Foi quando descobri que eu não era um criminoso. Um criminoso não daria a mínima para as gentes, para os seguranças, um criminoso de verdade apenas apanharia a caneta, colocaria a caneta para o bolso, mais natural impossível, como fazem os criminosos de verdade, como se nada tivesse acontecido. Caneta. Bolso. Sair do supermercado. Simples assim. Não fui feito para o mundo do crime. Não fui feito para nada. Estou a ser sincero agora. O haxixe me deixou sincero & sem filtros, penso. O haxixe começou a atuar. Sim, estou sob o efeito do haxixe. Escrevo sob o efeito do haxixe. Se sair baboseira, culpa do haxixe. Estou a me repetir. De tudo isso o tomador de haxixe dá conta numa forma que a maior parte das vezes se afasta muito da norma «comum». Dor de cabeça. A rede começa a me abraçar, planta carnívora. Sou um inseto dentro de uma planta carnívora cujos lábios têm formato de rede praiana. Minha mãe comprou essa rede em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Não vou às praias de Cabo Frio há mais de cinco anos. Cabo Frio me faz lembrar de papai. Tudo o que me faz lembrar de papai me causa angústia. Não pensar em papai. Não ir a Cabo Frio. O mais comum é uma mudança ininterrupta entre estados oníricos e de vigília, um vaivém constante. Ondas, portanto. Quase morri afogado numa piscina quando eu tinha cinco, seis anos, a mão grande do meu avô puxa a minha cabeça pequena com cabelos claros. Os olhos e os cabelos dos bebês mudam de cor. Os olhos e os cabelos dos adultos perdem a cor. O cabelo do meu avô era grisalho. A mão dele me salvara de um afogamento precoce. Devo a minha vida ao vovô. O nexo entre as coisas torna-se difícil de estabelecer. Meus pais trabalhavam no hospital; médicos. Vovô ficava em casa com a gente. Vovô dizia que conseguia ver o espírito das pessoas mortas. Ficávamos sentados, vovô, meus irmãos, tenho um irmão e uma irmã, ambos mais velhos, ficávamos sentados, e vovô nos contava alguma história sobre um ou outro espírito, e a luz da sala por vezes começava a piscar, e meu vovô gritava: pare de piscar!, e a luz parava de piscar. Eu olhava para os meus irmãos, e estávamos todos naturalmente assustadíssimos, mas permanecíamos em silêncio, vovô sempre transmitira muita segurança, sabes, era esse tipo de pessoa, muitos espíritos na sala, a luz piscava, eu a me cagar de medo, mas nada de pânico, vovô está ali. O pensamento não ganha forma de palavra. Tudo é irresistivelmente hilariante. Sou um consumidor de haxixe, repito para comigo mesmo. Mundo do crime. «É curioso que a intoxicação com haxixe não tenha até agora sido estudada experimentalmente.» Acho que para quem tomou haxixe, inferno-&-céu — tudo a mesma coisa. Meu avô morreu, meu pai também morreu, eu também vou morrer. Tomo haxixe, escrevo sob efeito do haxixe. Talvez eu morra aqui mesmo, nesta rede carnívora. Estou com sono. Fecho os olhos.

— P. R. Cunha

O que estamos a pensar acerca do Frederico Janikowski

Perceber como funciona a cabeça de um artista, como o artista se move pelo mundo e como o artista explica a si mesmo parece constituir uma necessidade humana básica. Mas acontece que há cada vez menos tempo para esses pormenores.

O pintor Frederico Janikowski está prestes a morrer e sabe disso.

Encontra-se deitado numa grande cama que a esposa pedira ao jardineiro, um sujeito com olhar férreo, colocar no estúdio do artista. Janikowski mostra-se fraco e desassossegado. Com grande dificuldade emite o último desejo:

«Gostava que toda a minha obra fosse jogada para o fogo imediatamente após o meu derradeiro suspiro.»

Janikowski respira então pela última vez — e porque passava por grandes dificuldades financeiras a senhora Janikowski, agora viúva, não jogara as obras do marido para o fogo, mas vendera-as todas para uma famosa casa de leilão cuja nacionalidade ainda não sabemos ao certo.

— P. R. Cunha

Reflexões (aparentemente) desconexas: fim de semana & um brinde ao Bukowski

Acho que foi o Kingsley Amis — pai de Martin Amis — que disse certa vez que a prosa combina com decepções, e o verso com amor. Talvez porque as decepções costumam ser longas, exigem linhas-e-mais-linhas de justificativas; enquanto o amor é curto como as estrofes de uma noite enluarada. Onde é que querias chegar, Sr. Amis?

Tema predileto de aqueles que gostam de problematizar a própria escrita: gangorras literárias. Isto é: saber o momento de se afastar e de se aproximar da fazenda livresca. Passar uma temporada com a narrativa, depois, fugir dela, sentir saudades, voltar revigorado etc. Dizer para consigo: narrativa, não me imagino mais sem ti; para depois contradizer-se: narrativa, tu me devoras sem piedade, precisamos nos distanciar. Escrever de mais, causa dores. Não escrever totalmente; febres.

A romantização de qualquer profissão é um espelho do que se pode chamar de «melhor cenário possível». Você admira os projetos arquitetônicos de Frank Gehry, diz que quer ser um arquiteto tão incrível quanto Frank Gehry e no fim torna-se um arquiteto medíocre. Problemas dos idealizadores, e das idealizações. De aí haver qualquer coisa rancorosa nas palavras de quem tentou (e falhou) em determinada área: a realidade raramente atende às expectativas oníricas. Noutros termos, à Nietzsche — as idealizações tornam pesado o coração do pensador.

Porque, no fim de contas, muitos preferem embelezar a vida com mentiras, castelo de areia. Abro a janela, recebo o vento glaciar da realidade, fecho a janela e me escondo atrás das «cortinas do que poderia ser». Marcel Proust, por exemplo, raramente saía de casa.

Os seres humanos somos defeituosos.

Viajamos longe, às civilizações de um remoto passado, e constatamos que sempre houve grande diferença entre os discursos teóricos (novamente o «melhor cenário possível», condições ideais de temperatura e pressão) e o que de fato a nossa espécie coloca em prática. Como aquele filósofo que discorre sobre o suicídio depois de comer um belo jantar de bife com batatas fritas e salada, acompanhado de uma garrafa do melhor vinho francês.

— P. R. Cunha 

A certeza de que nada será como antes

(Brasília, fevereiro de 2018)

Em miúdo
lá estão papá
e mamã
o sorriso indiscreto
do vovô
a merenda embalada
da vovó

Adolescência
anos de juventude
o primeiro beijo
a primeira música
o primeiro amor
a primeira poesia
as primeiras angústias

Então vêm universidade
mercado de trabalho
temor da morte
fracassos & sucessos
ganhos & perdas
a certeza de que nada
será como antes

Agora os dias
mais lentos
morosos
como um coração anestesiado
que bate por formalidades.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte VII) – algo que sabemos muito bem: a calmaria do Escritor não pode durar para sempre

As cartas que enviara aos amigos e aos familiares transbordam de obscurantismo. As emoções, nas raras ocasiões em que elas timidamente aparecem, estão como que escondidas sob máscaras de formalidades e distanciamentos. Noutros termos: se lemos o que ele escrevera nessas correspondência íntimas, temos quase a certeza de estarmos a lidar não com um homem real, mas com um personagem de literatura. 

Sob a fumaça, o fogo continua a mover-se sem controle, dia após dia. Estopim, gatilho, combustível para escrever. O Escritor está deitado na rede a observar os pássaros: calado, na dele, não incomoda vivalma. Seria uma péssima ideia aborrecê-lo, levá-lo ao limite, colocar mais complicações na sua cabeça. (Não mexer com quem está quieto etc.) Quanto mais você cutuca o Escritor, que — como se disse — está deitado na rede, calado, quanto mais você bagunça a ociosidade do Escritor, mais provável é que ele se torne irascível, imprudente, tristonho, colérico, ardiloso, macambúzio, desajuizado.

As ondas podem parecer calmas e reconfortantes, mas também elas devem quebrar em algum ponto, o processo precisa terminar em alguma praia, em alguma parede rochosa, na madeira de um cais, na proa de um navio. O Escritor não pode se manter deitado na rede a tempo inteiro.

Ter muito o que dizer, e não dizer nada. Ter muito o que construir, e não construir nada. Há séculos o ser humano tem feito isso.

Abre um livro, semblante de quem tem algo de extrema importância para compartilhar, e compartilha: aqui, onde as promessas para as gerações vindouras foram armazenadas. Aponta para o livro, rasga uma página, continua: é isso que acontece com as promessas. Rasga outra página: Palavras que se perdem nos resquícios apodrecidos das obras do passado. Rasga ainda outra página. E outra, e outra, e outra…

— P. R. Cunha

O gosto pela especulação abstrata

Você a conheceu, digamos, num bar, mas ela prefere chamar de pub, vocês então começam uma despretensiosa conversa sobre passado-presente-futuro-onde-você-se-vê-daqui-a-cinco-anos. A verdade é que vocês já fizeram coisas muito boas para outras pessoas e também coisas muito ruins; vocês já foram o motivo da felicidade de alguém, e já foram o motivo da ruína emocional de alguém. Vocês já disseram «eu te amo», vocês já escutaram «suma da minha frente!». Vocês se conheceram num bar/pub e agora criam desculpas engraçadinhas para serem amigos. Vocês prometem para si mesmos: desta vez não vou estragar tudo com a minha intempestividade, desta vez vai ser diferente, passo a passo, não pretendo cometer os mesmos erros, sem pressa, tudo vai ficar bem, sou uma pessoa melhor, mais madura, etcétera. Você percebe uma marquinha no braço dela, acha a marquinha adorável, você então comenta com ela: ei, essa marquinha aí no seu braço, muito adorável. Ela sorri e diz que nunca ninguém havia reparado naquela marquinha, ela conta que se trata de uma marquinha de nascença, que a marquinha sempre existira. Quando vocês não estão juntos, você pensa nela, depois pensa um pouco mais, até que a sua cabeça basicamente se divide em «preocupações do dia-a-dia» e «Ela», com letra maiúscula. Seu relógio biológico começa a se desregular, seu sono é uma bagunça, você agora se esquece de comer, os filmes lhe fazem lembrar dela (principalmente [e um pouco inexplicavelmente] Les Enfants du paradis, de Marcel Carné), as músicas também, você está a esperar o ônibus e um anúncio aleatório sobre «férias no Caribe» também lhe faz pensar nela. Você começa a fazer planos a curto (daí a médio, daí a longo) prazo, já não consegue conceber um futuro sem ela na sua vida, você quer aprender a cozinhar, a fazer massagem, decorar trechos dos poemas favoritos dela, você quer entrar para as aulas de desenho, aprender a tocar violino, piano, você, em suma, quer impressioná-la, mostrar que ela fizera a escolha certa, que ela não vai se arrepender depois. E ela gosta do jeito que você fala, assim, sem filtros, diretamente, isso transmite confiança, ela diz, uma sensação de tranquilidade, sujeito determinado, que sabe o que quer. Você então sorri, um sorriso bobo, sem motivos. Você acha que está apaixonado — justo você, que nos últimos tempos repetira tantas vezes que jamais se apaixonaria novamente.

— P. R. Cunha