Sr. Anselmo – parte 7

Depois de certa idade, diz o sr. Anselmo, um velho como eu está autorizado a opinar sobre qualquer coisa. Temos carta branca, ele acrescenta. É claro que costumo oferecer o benefício da dúvida, continua o sr. Anselmo, mas a ideia de um deus a criar este universo assustadoramente gigantesco que não para de inflar parece-me algo indigesto. Entretanto, pensemos com contexto. Se esse deus existisse: ele seria tal e qual aquele pai desnaturado que numa tarde cinzenta de domingo diz aos filhos que só vai ali até ao posto de gasolina comprar cigarros e que nunca mais volta para casa.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 6

Se existe uma característica que amiúde impressiona muitíssimo o sr. Anselmo é o grau de erudição da sociedade moderna: quando há uma crise financeira, todos são economistas; diante de um crime, todos são juízes; ao analisar um gráfico, todos são estatísticos; nas discussões do condomínio, todos são síndicos; numa pandemia, todos são infectologistas; se há falta de energia, todos são eletricistas; nas ruas, todos são democráticos; se assistem ao noticiário, todos são jornalistas; na igreja, todos são santos; na escola, todos são professores; em política, todos são presidentes. Mas o que o sr. Anselmo ainda não consegue compreender (e se calhar nunca compreenderá) é o motivo de, a despeito de contarmos com tantos especialistas vociferais, as coisas continuarem a dar para o torto.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 5

Alguns diriam que o sr. Anselmo pertence àquela classe de humanos azedos. O facto é que diversas comparações feitas por ele acabam por justificar esse tipo de rotulagem. Por exemplo, o sr. Anselmo diz que o amor lembra um disco de vinil. Disco de vinil do qual gostamos imenso, mas que há muito se mostra danificado. De início, ele explica, de início pode-se ter muita vontade de ouvir o disco danificado, a primeira faixa está perfeita, quase se esquece que o disco está danificado, a primeira faixa atinge-lhe com estupor. Mas lá para o meio a coisa acontece, a agulha da vitrola começa a soltar, arranha a superfície errática do vinil, e o que tinha um som agradável, agora é cacofonia ensurdecedora. Eis o amor, insiste o sr. Anselmo.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 4

São histéricas as pessoas preocupadas ou confusas de modo desnecessário ou desarrazoado, são mais infelizes, mais medrosas do que precisariam de ser, diz o sr. Anselmo. O histérico age de maneira ilógica, irracional, imprópria e, muitas vezes, infantil. É emocionalmente perturbado, vulnerável, presa fácil de manipulações impositivas, alimenta um pavor terrível de realizar até mesmo as simples tarefas. Diz sim quando deveria dizer não, diz não quando poderia dizer sim. Clássica a figura do histérico a se consumir de forma frenética numa infinidade de mazelas imaginárias. Por quase sempre acreditar-se em estado de vida-ou-morte, tende a aceitar qualquer sugestão de sobrevivência — mesmo que essa sugestão transforme a própria sobrevivência num paradoxo absolutamente insuportável.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 3

As roupas que o sr. Anselmo utiliza foram todas desenhadas e costuradas por ele mesmo. Necessário que se diga sem papas na língua e sem delongas: são roupas estranhas, desajustadas, um pouco cômicas. Acontece que certa vez o sr. Anselmo entrou numa loja de departamento para comprar roupas e nenhuma lhe agradara e ele pensou: a verdade é que eu, Anselmo, nunca escolho a roupa, são sempre os outros que, antes de mim, escolhem, montam, penduram, selecionam, descartam, dobram, decidem o estilo da roupa que estará nas prateleiras dos estabelecimentos, roupas que, somente então, eu poderei comprar. Numa ingenuidade risível, continua o sr. Anselmo, achamos que escolhemos alguma coisa neste mundo industrioso, mas nunca se passa dessa forma. Essa mesma ilusão de livre-arbítrio atormentara a frágil linha de pensamentos do sr. Anselmo quando ele foi à concessionária adquirir automóvel. Automóveis pré-fabricados, pré-desenhados, pré-pintados, pré-catalogados. Mas como o sr. Anselmo não tem a capacidade de montar o próprio automóvel como faz com as próprias roupas, ele simplesmente decidiu-se não dirigir, agora só anda de ônibus ou vai a pé.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 1

O sr. Anselmo gosta de observar a cabeça das pessoas. Ele matuta consigo mesmo: vejo essas pessoas, e elas têm cabeça, e dentro dessa cabeça há um cérebro — sr. Anselmo aponta o indicador para o próprio crânio, dá duas leves batidinhas —, cérebro. Mas o que realmente inquieta o sr. Anselmo é o facto de que, apesar de toda a gente possuir cérebro, muitos preferem anulá-lo e escravizam-se ao cérebro dos outros. Passividade, costuma dizer o sr. Anselmo, é uma ilha vulcânica. Onde a calmaria e o conforto nada mais são do que presságios de catástrofes.

— P. R. Cunha