Carta aos leitores

(PENSAMENTO INTRODUTÓRIO: se tu tomas o café enquanto escreves é bom saberes que eventualmente o café cairá na superfície da tua mesa, causando grande transtorno.)

Damas e cavalheiros,

Há momentos na vida do animal humano em que tudo parece acontecer/surgir no mesmo período, mesma época, mesmo mês, mesmo dia. Mas não falo isto com aquele já tradicional azedume do funcionário contemporâneo (vide estereótipo) que reclama do excesso de afazeres da firma, da casa, da sociedade, de tudo, sente-se claustrofóbico, inútil, desesperançoso. Consigo compreender com cada vez mais clareza que o facto de eu ter passado por, como se diz, poucas-e-boas na última década ajudou-me a consolidar a casquinha que me isola das feridas da procrastinação. Os Cure têm uma música que resume bem a coisa toda; chama-se Sleep when I’m dead. Organizo o próprio cronograma com parcimônia e procuro cumprir a próxima tarefa depois de ter terminado a atividade anterior.

Um passo de cada vez, diria um antigo.

Hoje tentarei responder aos leitores que me enviaram mensagens nas páginas deste blogue e também àqueles que preferiram a comodidade dos emails. Infelizmente, é com certo pesar que vos digo que o número de cartas de papel que recebi neste ínterim foi zero.

Eis:

Coitada da Flávia, é culpa da Flávia… mas pensemos também naquele que precisa de responder que «não há Flávias por aqui». Sobre virar o pobre do besouro amarelo e o orientar para a janela: não posso fazê-lo, pois são personagens (e besouros) de celulose. A coisa toda ganharia ares de origami. Em vida real, porém, teria virado o besouro amarelo, com certeza. Outra: falam connosco como se tivéssemos culpa. As pessoas retratadas nos textos de ficção: tudo de mentirinha, não (necessariamente) condizem com a realidade do autor. Sim, nada é para sempre. Era uma fábula em 64 trechos, na verdade. Estou a caminhar algures, inclusive pelas vias do suspense. O menino também aprecia a geleia de morango, plausível. Obrigado por gostares (sabes que estou a falar contigo). Pode parecer travessura de minha parte, mas acho que o Superman das bancas de jornais tem um bocado a ver com o Übermensch de Also sprach Zarathustra — ambos possivelmente impossíveis. Não há mais botões de curtir nas páginas do blogue. Mas parece que não consigo retirar essa funções da plataforma WordPress (página interna dos utilizadores, por exemplo). Então, tecnicamente, a estrelinha das curtidas ainda existe. Também acharia muito giro transformar os devaneios em banda desenhada. Quem sabe? Ainda sobre os likes: a vossa leitura me interessa imenso, são as estrelinhas que me parecem um bocadinho supérfluas, não acham? Respeito/cultivo/encorajo a diversidade de modos na chamada blogosfera (o que quer que isto signifique), apenas calhou de a minha natureza criar certa aversão às trocas: lê o meu textinho que daí leio o teu textinho. É capaz de funcionar para outras pessoas, a mim, pelo menos, não funciona. Também prefiro o «show, don’t tell», é bem o segredo da empreitada, aliás. Há muitas distrações, aqui, ali, acolá, distrações para todos os lados. Não saberia lhe dizer o que significa «receber notificação no email de resposta ao comentário». Eu sempre desativo todas essas mensagens automatizadas. Nadamos em mares profundos, pois não. Alguns se afogam. A tua descrição de pós-modernidade pareceu-me um bocado moderna — principalmente a parte do «ninguém se importa, nada importa». Apesar de achar que era assim também em tempos remotos, o que muda é a quantidade de meios para compartilhar certas nulidades (reverberação, eco, amplificadores sociais etc. etc.). A máquina de escrever nunca está estressada; o piloto da máquina de escrever, bom, talvez, às vezes. Pedantismo à parte, gosto de compartilhar perguntas importantes para épocas importantes. A simples dicotomia sim/não: é tudo o que se precisa dizer em determinadas alturas.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #28)

[máquina de escrever / laboratório de ficção / barulho metálico das hélices do ventilador — {rrrriiiiiimmm} ruído branco / coisas mundanas &tc. {para p. p., uma certa homenagem em língua portuguesa}]

você se sente ameaçado? você gosta de assistir ao nascer do sol? você já passou férias nas caraíbas? o seu pai já lhe perguntou se você prefere o papai ou a mamãe? você oferece trocados para um mendigo por pena ou por culpa? ao pequeno-almoço você toma café puro? você por um acaso tem intolerância à lactose? qual a sua opinião a respeito do novo gerente da techmotors? a função telefone do seu aparelho celular funciona de maneira apropriada? você controla as suas emoções? você dirige o automóvel com destreza? quantas garrafas de cerveja você tomou nas últimas vinte & quatro horas? o sexo para si ainda é prazeroso? você conseguiria dormir numa caverna australiana? os farelos de biscoito lhe irritam? você declarou o imposto de renda este ano? você já disse eu te amo sem amar a pessoa a quem você disse eu te amo? você tem medo da morte? você gostaria que o rio de janeiro voltasse a ser a capital federal? você come animais mortos ou consome produtos orgânicos das companhias que são contra as pessoas que comem animais mortos? o suposto fim dos livros de papel lhe incomoda? flamengo ou botafogo? você também acredita que ter ensino superior é apenas um detalhe supervalorizado? uma dama solitária a andar numa rua solitária corre algum tipo de perigo? você se considera «carbonfree»? numa competição de quem come mais hambúrgueres, quantos hambúrgueres você conseguiria comer? a quantidade de estrelas no céu lhe tira o sono? você cita autores que nunca leu? você, hipoteticamente falando, mataria o seu professor de sociologia? você sabe que velocidade o foguete precisa de alcançar para livrar-se da força gravitacional da terra? você está satisfeito com a sua renda mensal/anual? você saberia diferenciar uma mentira-branca de uma mentira-de-outra-cor-qualquer? você cria um patológico complexo de inferioridade quando perto de pessoas muito altas? os cachorros & os lobos têm a mesma raiz evolutiva? messi ou cristiano ronaldo? pelé ou diego armando maradona? você voaria de asa delta sem instrutor de asa delta? se você desmontasse o seu telemóvel, você conseguiria montá-lo novamente? o rádio é uma mídia antiquada? a atual configuração jurídica lhe parece justa? a morte de membros do povo assurinis do xingu (brasil) lhe incomoda? se lhe incomoda, você saberia dizer o nome de algum membro do povo assurinis do xingu que morreu, sei lá, nos últimos cinco anos? se não lhe incomoda, você saberia dizer por quê? numa luta de boxe com regras devidamente adaptadas, quem venceria: james joyce ou oswald de andrade? você é contra toda a forma de corrupção mas imprime o projeto de ciências do filho utilizando as folhas da empresa onde trabalha? numa escala de um a dez, que nota você daria para a carreira de rubens barrichello? na argentina tudo termina em tango? eu deveria lhe deixar em paz? as minhas perguntas lhe incomodam? se você possuísse uma arma de fogo, você atiraria na minha cabeça ou no meu coração? você é feliz?

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #27)

levo a máquina de escrever para o apartamento da minha namorada. ela abre a porta & diz: que troço é este? eu digo: olivetti lettera 82, máquina de escrever. ela ri-se, faz aquela cara engraçada que as mulheres sensatas costumam fazer quando lidam com homens insensatos em apuros. nesta altura um só pode agradecer «aos caprichos do universo» por ter encontrado alguém que se depara com o seu perfil mais desengonçado & mesmo assim permanece, não foge algures, nem lhe manda para o olho da rua. trinta & quatro anos de planeta terra me mostram que muito provavelmente esse seja o tipo mais honesto de amor. a astronauta que se arrisca ao lado escuro da lua, àquelas profundezas cósmicas, mas não se assusta, pois sabe que na outra face há luz, compreende que não é só de sombras que vive um aluado &tc.

[quartinho de estudos, a ler wylie sypher / um estilo nasce devagar, depois de muitos esforços, falsos inícios & erros.] concordo quando wylie sypher diz que a história da arte é uma interpretação que não pode ser final, um assunto fechado. certo clube do livro formado por cinco leitoras é mais que o suficiente para percebermos que a mesma obra será lida com várias, digamos, lentes. leitora X achará o texto distópico; leitora Y insistirá na versão romance à moda antiga; uma outra leitora discordará de X/Y/Z/W & dirá que não é nada disso: a narrativa era um sonho hedonista com influências estoicas. pensemos naquele velho adágio que diz que «a partir do momento em que mostramos nossas criaturas ao público, elas deixam de ser só-nossas»; passam a navegar oceanos subjetivos cujas ondas imprevisíveis não deveriam tirar o sono do marujo criador. pensemos também nos pais que dizem: crio meus filhos para o mundo. mas dizem-no com o coração intranquilo, pois têm medo de serem abandonados. sugere-se portanto que o artesão apenas observe (à uma distância segura) o afastamento da jangada. isto é: não se intrometa. permita que os outros desvendem livremente os códigos da embarcação. pois um dos maiores prazeres de qualquer obra de arte talvez seja o livre diálogo entre remetentes & destinatários, diálogo em que todos participam, imaginam, perdem, ganham, acertam, equivocam-se. é chegar ao ponto final da jornada & gratificar-se: sou um ser humano melhor, modifiquei-me.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #26)

estou com esta frase que não me sai da cabeça: ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO. não me lembro quem disse isso. ou melhor: quem escreveu. porque, como se sabe, a minha interação com a chamada (abre aspas) realidade exterior (fecha aspas) é basicamente pautada pelos livros, palavras impressas. daí eu penso com os meus botões: kafka escreveria que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO? absolutamente. mcewan, também. swift, defoe, joyce, proust… é coisa que todos eles escreveriam. mas sinto cá uma culpa indecorosa. [«indecorosa» talvez seja a palavra mais sofisticada que vocês irão ouvir da minha boca. a verdade é que depois de um tempo a gente meio que aprende muitas palavras sofisticadas & o desafio é segurar a língua para não utilizá-las.] mas estava a explicar a respeito da culpa indecorosa, que vem do facto de eu apenas citar os estrangeiros: musil, kierkegaard, mann, handke, auster, essa gente. incomodar-me-ia ser visto pelos meus conterrâneos como um desses mimados-classe-média-que-leram-algumas-coisinhas-algumas-dezenas-de-livros-&-agora-se-metem-a-citar-os-gringos-apenas-os-gringos-nada-mais-que-os-gringos-pois-sentem-que-não-pertencem-ao-contexto-latino-americano &tc. &tc. &tc. acontece que também aqui, regionalmente (brasil & não só), pretendo fazer boa figura. então editamo-nos. acrescentamos nomes locais à laia de aprovação. é terrível. haroldo de campos diria que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO? diria. sérgio porto? sim. lima barreto? sim. borges, alan pauls, neruda, ricardo piglia, sabato, guillermo rosales (nuestros/mis hermanos), todos escreveriam que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO. o meu cachorro está neste exato momento a pular feito um maluco porque uns pássaros atrevidos querem comer a ração dele. por incrível que pareça, o cão se mostra mais sereno hoje. é que ontem ele tentou morder o filho do vizinho. o vizinho veio reclamar & eu disse: o seu filho fica a jogar pedras no meu cachorro & você espera que o meu cachorro faça o quê? acontece que é o terceiro filho de vizinho que o meu cachorro (um boxer caramelo absolutamente inofensivo quando ninguém joga pedras nele) tentou morder. o prefeito da rua recebeu as devidas reclamações & passou aqui para falar comigo. ele saiu do próprio hyundai reluzente, ajeitou os cabelos (automóvel & cabelos com coloração idêntica), o prefeito teve de bater palmas, pois a campainha não está funcionando. conversamos ali mesmo, à entrada. ele acredita que a melhor solução é castrar o animal. eu disse a ele que de forma alguma, essa medida está fora de cogitação, ninguém mexe nas bolas do meu canino, & perguntei ainda como ele se sentiria se tentassem tirar as bolas dele (dele = prefeito da rua), se o colocassem numa maca de ferro gelada & abaixassem as calças dele (prefeito da rua) & mostrassem um bisturi afiado & arrancassem fora as bolas dele (prefeito da rua). o prefeito da rua disse ai!, que isso seria terrível, sente dor no saco escrotal só de imaginar. pois é, então ninguém mexe nas bolas do meu cachorro.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #25)

porcaria, frank!, este rio está mesmo uma espelunca, & que fedor, nossa, não faz sentido pescarmos neste lixo, frank, não há peixes, frank! [frank está sentado à proa do barco, mordisca um caule de trigo, abraça distraidamente a vara de pescar enquanto dedilha o device eletrônico]: tu tinhas que dar uma olhada nisto aqui, diego, é mesmo qualquer coisa alienígena. [diego hesita. levanta os braços para o céu, faz que vai pedir ajuda a alguma divindade invisível. contorce o rosto enrugado. continua observando a superfície oleosa do rio, as pequenas marolas produzidas pelo sacolejar do barco, depois limpa o suor da testa com as mãos, solta uns grunhidos rancorosos]: aos diabos, deixa eu ver logo isto aí. [frank sorri sem tirar os olhos do ecrã & inclina o device para procurar um ângulo mais adequado, obstrui a luz do sol com o próprio boné]: sítio web de armazenamento de dados, tu colocas todas as tuas informações, sei lá, emails, cartas, tudo o que já publicaste nas redes sociais, as conversas, as tuas preferências, os filmes que mais gostas, as músicas que mais escutas, os livros que leras, enfim, colocas a tua vida aqui dentro, upload, & daí o algoritmo faz o resto, o algoritmo vai encontrar outros seres humanos com as mesmas preferências, inclusive as mulheres, diego, sim, as mulheres, as mulheres com as mesmas preferências, percebes o alcance deste troço? [diego coça a têmpora]: não sei não, frank. [como se falasse com um interlocutor invisível, frank dá de ombros]: & depois de morrermos, vê lá, depois de morrermos, o sítio web ainda mantém os nossos dados, impressionante, como uma espécie de sarcófago digital, ou [pensativo]… um mausoléu cibernético, tipo lênin-ciborgue, & as pessoas poderão acessar esse sarcófago, & nos fazer perguntas, quero dizer, fazer perguntas aos nossos dados acumulados, obviamente, & o algoritmo formularia as respostas. [diego se afasta do device. adota uma postura taciturna. oscila a vara de pescar. ao longe, a silhueta de uma lancha se aproxima.]

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #24)

[ontem, meu pai completaria sessenta & seis anos anos. dedico estas palavras rabugentas a ele, que sempre me incentivou a buscar refúgio nos livros.]

não é tanto uma questão de inteligência, mas sim de experiência. quero dizer: continuidade. antes de mais nada, mostra-se necessário livrar-se das distrações, dos supérfluos. dedicar-se àquilo que realmente importa. (i.e.): o marceneiro reclama que não tem tempo para terminar as mesas que foram encomendadas; o marceneiro passa cerca de oito horas por dia assistindo à televisão; a televisão, percebe-se, é o supérfluo do marceneiro. oito horas desperdiçadas numa atividade passiva, morosa, unidirecional. não à toa as pessoas que passam muito tempo assistindo à televisão costumam reclamar de «um certo vazio». o cérebro distrai-se com aquelas imagens sedutoras, cria-se um falso vestígio de troca, de convivência (barra) conveniência (barra) pertencimento. até que se aperta o botão «off», surge o silêncio, a ressaca — o que estou a fazer da minha vida?, &tc. o certo vazio nada mais é do que isto, o atestado de óbito do tempo, a constatação de tudo o que poderia ter sido feito durante aquelas oito horas em que a pessoa passara esparramada diante da tv como se, sei lá, meio-morta-meio-viva. de forma que a frase «fui/estou a ser enganado» é quase inevitável.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #23)

A CENA DO BAR

a cena do bar envolve sons/barulhos de bar (copos de cerveja, música com guitarra acústica aos altifalantes, o cozinheiro a fazer as mãos de megafone tentando confirmar algum pedido, a cacofonia de homens & mulheres rindo-se, o bêbado solitário que tira um pigarro invisível da garganta antes de recolher o próprio boné & sair a nenhures). a fumaça dos cigarros suspende-se na baixa atmosfera do estabelecimento. as pessoas sentadas ao balcão estão vestidas como se fossem figurantes de um filme mudo da década de 1920. certa dama flerta com um sujeito vestido de cowboy — jaqueta esfarrapada feita com pelúcia de ovelha, jeans azul, botas. a dama usa vestido preto, longo, pernas insinuantes que se mostram apenas ligeiramente entre os cortes da roupa quando ela se move no banco giratório. o cowboy levanta o copinho de uísque & sorri para a dama. sabe-se que uma das funcionárias de mesa (madalena em solteiro) começou a fazer o curso para ser hospedeira de bordo (aeronaves comerciais). ela é alta & jovem. dentro do bar está escuro, mas é um escuro que diz pouca coisa. não se tem a certeza se lá fora cai a noite ou se são apenas as nuvens carregadas de tempestade a cobrir a luz do sol. a verdade é que o tempo dentro dos bares nunca passa da mesma maneira, nunca passa.

— p. r. cunha