Escritor imagina narrativa — mão cria a narrativa — escritor expõe protagonista

Dênis mora numa casa grande com piscina e churrasqueira. Ele gosta de convidar os amigos, jogam conversa fora, querem saber sobre as novidades do mercado automobilístico. Dênis dirige uma BMW nos dias úteis, Ferrari nos fins de semana, tem esposa, dois filhos, uma pistola semi-automática Beretta U22 oxidada na gaveta das meias/cuecas. A família e os amigos do Dênis consideram-no um bom pai-marido-companheiro-confidente-divertido. Dênis é médico (cardiologista), vegetariano, membro honorário do Clube dos Pescadores. Dênis tem também uma outra mulher, uma amante, pode-se dizê-lo. A amante não sabe da existência da família do Dênis; a família do Dênis não sabe da existência da amante — o que não deixa de ser um prodígio, neste mundo inundado de aplicativos investigativos (i.e. «exposições»). Acontece que hoje em dia não podemos ter a certeza de nada, mas quase ninguém possui apenas uma identidade.

— P. R. Cunha

Anuncia-se o lançamento do livro «Quando termina», de P. R. Cunha e Paulo Paniago

Brasília, Distrito Federal

» Não é sem infinita alegria que chegamos ao conhecimento de que os autores P. R. Cunha e Paulo Paniago conseguiram, com enorme trabalho e não poucos sacrifícios de toda a espécie, finalizar um ambicioso projeto literário. Trata-se de Quando termina, livro de contos vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2012. Os escritores convidam para o lançamento dessa simpática obra: esta quinta-feira, a partir das 18h, ao Ernesto Cafés Especiais (115 Sul).

» Ocasião àqueles que sabem dividir com método o seu tempo, deixando algumas horas disponíveis para cuidarem também do espírito, pela leitura de escritores locais.

» Quando termina tem um desenho semelhante ao de um jogo de xadrez, ou mesmo ao mapa de uma cidade com múltiplos meandros, onde situações imprevisíveis se acumulam em toda a parte. Escrito a quatro mãos, um dos autores começa os primeiros parágrafos e passa a vez ao outro — que para, reflete, coça as têmporas, imagina o movimento adequado, toma notas, responde. Por vezes a situação escala, a ponto de se tornar difícil saber quem escreveu o quê. Tanto melhor. As diferenças desapareceram, as suturas se tornam imperceptíveis, ao passo que o leitor pode manter-se sempre atento àquilo que realmente importa numa obra de ficção: o movimento de personagens em tabuleiros que simulam um jogo ainda mais inquietante — o jogo da vida. (Assim o diz a quarta capa.)

» Apesar de avançado em anos, Quando termina ainda conta histórias com grande segurança narrativa e com toda a verve e entusiasmo de outrora. É ainda um livro bastante atual, portanto; de liberdades por vezes arrojadas.

» O livro tem a capa negra como a sombra, revestimento de primeira qualidade, mecanismo de abertura aperfeiçoado. Exterior elegante, boa legibilidade, construção sólida cuidada de forma a resistir a todos os climas. Custa 40 dinheiros.

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