Partida de xadrez

Fim da tardinha. Luz amena. Um pequeno e simpático tabuleiro de madeira cuidadosamente polida por carpinteiros habilidosos, sessenta e quatro casinhas quadriculadas, trinta e duas peças esculpidas com esmero e capricho, dois jogadores civilizados, um vento brando a bater na testa desses gentis-homens, jogam sentados, ao silêncio, fazem apenas breves e indiferentes movimentos com os dedos — por que diabos, então, saímos de uma partida dessas transpirando, perturbados, decrépitos, como se tivéssemos lutado contra um exército invencível, ou atropelados por manadas de elefantes selvagens?

— P. R. Cunha

Nenhum segredo a ser revelado – palavras de um fotógrafo amador

Recentemente fui convidado para conversar sobre fotografia com escolares. Moças e rapazes entre 12 e 15 anos que cresceram (e ainda estão a crescer) segurando telemóveis, tablets, e-readers, computadores portáteis quase tão finos quanto uma folha de papel. Enviam mensagens para pessoas do mundo inteiro, recebem respostas num átimo de segundo. Enquanto tomam o achocolatado, jogam o Minecraft, assistem séries Netflix, escrevem crítica a respeito da última temporada de Game of Thrones e brigam com os pais — que muitas vezes encontram-se bem ali, sentados à mesma mesa — através do WhatsApp. 

Estou ainda nos primórdios dos meus anos trinta mas senti-me como se andasse por volta dos oitenta quando tive de explicar para esses miúdos que minha primeira câmera fotográfica foi uma Kodak 35mm descartável com filme para vinte e sete poses. Comecei a tirar fotos em 1997 — época em que Bill Clinton ainda era o presidente dos Estados Unidos, e o Gustavo Kuerten, grande Guga, fazia corações nas quadras de saibro de Roland Garros. Não fugia muito do clichê opa!, vejo que me interesso por essa geringonça, agora vou registrar as conquistas de indivíduos tidos como membros da família. 

Nos dias nublados, fotografava natureza-morta, toda a sorte de objetos inanimados. Achava-me grande, um artista pós-moderno.

Desnecessário bancar o virtuose da fotografia, digo aos escolares. Apesar de minhas primeiras câmeras terem sido analógicas, só comecei a aprender a fotografar de fato quando já utilizava uma Sony Cyber-shot com cartão de memória para aproximadamente quinhentos arquivos JPG. E o processo de aprendizagem nada teve a ver com a mudança tecnológica, mas sim com os pormenores culturais que adquiri em viagens (geográficas, musicais, cinematográficas, literárias)*. 

Sou daqueles que acreditam que «ser-fotógrafo» depende de uma longa série de aptidões extracurriculares. Mas não imaginava que esse simples conceito — cujas bases podem ser encontradas na Poética de Aristóteles, um texto mais antigo do que o nosso próprio calendário —, não imaginava, portanto, que transmitir essa descomplicada ideia para jovens da chamada Gen Z** seria uma tarefa tão ardilosa***.

A verdade é que a internet e as tecnologias cada vez mais aprimoradas são sim excelentes formas de produção/divulgação imagética; mas elas também fomentam imediatismos e outras ansiedades que podem ser fatais para a saudável prática fotográfica.

Por exemplo. A primeira pergunta que recebi durante a conversa foi: 

— Tio, tenho um iPhone X com câmera TrueDepth, A11 Bionic, e mesmo assim as minhas fotos são horríveis, o que devo fazer?

Lembrei-me da primeira vez em que tentei desvendar os segredos do Photoshop. Ali estava um programa infinito, com recursos infinitos, possibilidades infinitas e eu não sabia sequer para onde apontar o cursor do rato. Numa palavra: podemos adquirir as melhores ferramentas de edição e captação disponíveis, mas se não possuímos uma ideia, tudo o que conseguiremos serão porcarias mais nítidas.

Compartilho com os escolares algumas fotos dos meus fotógrafos favoritos: Cartier-Bresson, Capa, Diane Arbus, Doisneau, Atget, Octavius Hill, Alfred Stieglitz, Vivian Maier, Dorothea Lange. São imagens magníficas, os escolares concordam. E nenhum desses artistas utilizava câmera digital, eu digo, e se alguém tentasse explicar-lhes o que era Photoshop talvez esse alguém fosse acusado de bruxaria-voodoo-satanismo. E, convenhamos, com razão

Certo: precisamos agora procurar tema interessante e digno de se fotografar, e depois manter-se fiel ao plano. Essa sugestão não é minha, mas justamente desses fotógrafos que citei acima. 

Hoje em dia toda a gente carrega consigo um telemóvel com surpreendentes captações de imagem. Ótimo. Mas a grande maioria continua a utilizar esse tipo de ferramenta apenas para confirmar experiências****. Fotografias como provas de que determinado evento se realizou, de que a tarefa foi cumprida, isto é: saí de casa, houve diversão, experimentei comidas diferentes, vejam a minha desenvoltura financeira, estou a viver e por aí adiante.

Existe, contudo, um lado positivo nas banalizações. Podemos tirar fotos sem nos preocuparmos (tanto) com o enquadramento, saturação, contraste, com o número de poses do filme. Afinal, se alguém fechou os olhos, ou não sorriu, ou ficou com cara de psicopata, ou um pássaro decidiu fazer caquinha nos ombros do vovô Fred, bom, podemos resolver isso com um dedinho. 

Assim como acontece na literatura, o papel da seleção se torna preponderante para a fotografia. Num texto literário escrevemos numa tacada só, como se diz, e depois nos vemos diante de um amontoado de palavras desnecessárias. O escritor respira fundo e corta, corta, corta, corta. Até chegar ao menor denominador comum, àquilo que alguns chamam de essencial*****. 

Acontece que esse exercício seletivo também depende da nossa cultura, da nossa formação, das nossas atividades extracurriculares. Esse aperfeiçoamento leva tempo. E, como sabemos, a Gen Z não tem tempo a perder. O círculo começa a se fechar.

Os aparatos tecnológicos prometem muitos «agoras». Tire a foto agora, publique a foto agora, edite a foto agora. E com isso talvez estejamos a modificar alguns aspectos do ato de fotografar em si (escrevo isto sem qualquer tipo de juízo de valor [nem melhor, nem pior: apenas diferente]). Tudo o que posso fazer é compartilhar as minhas experiências. Cada um, no fim de contas, percorre/constrói a própria estrada.

A mim a fotografia sempre foi uma grande compilação de fatores, de percepções, múltiplos canais, referências diversas. Por vezes, inclusive, gosto de sair com a minha câmera enquanto escuto algum artista específico******. A música se transforma na trilha sonora das imagens, é bonito de ver. Noutras tantas vezes leio determinado trecho de um livrinho agradável e aquelas palavras me servem de gatilho. Nem precisaria comentar que os enquadramentos cinematográficos mexem deveras com a minha imaginação — inclusive, ainda considero Dziga Viértov******* um dos melhores professores de fotografia do mundo.

Despeço-me deste apressado ensaio com as mesmas palavrinhas com as quais finalizei a conversa com os escolares: leiam muito, façam muitas viagens, copiem descaradamente outros fotógrafos talentosos, escutem canções inspiradoras, tirem muitas fotos, muitas mesmo, centenas de fotos, milhares de fotos, identifiquem as ruins (98% do total), procurem aperfeiçoar as que ficaram boas — e assim procedam, ad infinitum.

P. R. Cunha


*Tive vontades de acrescentar a famigerada «viagem ilícita» (i.e.: alucinógenos), mas preferi evitar reprimendas dos professores e do próprio diretor da escola — além de uma eventual visita à delegacia mais próxima.

**iGeneration, Homeland Generation, Plurais, Centennials, Post-Millennials, Smartphone Generation (o anglicismo despudorado sugere, naturalmente, a onisciência da língua inglesa no vocabulário da juventude contemporânea [quer queira quer não]).

***Talvez fosse o caso de esclarecer de uma vez por todas que estou a generalizar. E, como se diz, toda regra possui exceções. Clarisse, menina muito tímida, veio conversar comigo depois da apresentação e mostrou-me algumas fotografias que, segundo ela, foram tiradas despretensiosamente durante o velório de uma tia distante. Não creio que eu tenha exagerado quando lhe disse que tinha um potencial enorme para se tornar uma espécie de nova (e melhorada) Julia Margaret Cameron.

****As enxurradas de selfies (que, pelos vistos, parecem ter dado uma [breve?] trégua) confirmariam esses modi operandi.

*****Diz a lenda que certa vez perguntaram ao Michelangelo como ele havia feito a escultura de Davi. Michelangelo teria coçado a têmpora e respondido: fiquei a observar o mármore durante algum tempo; depois, simplesmente peguei o martelo e eliminei tudo o que não era o Davi.

******The Verve é ótimo para fotografias noturnas e/ou p&b.

*******Vide Um homem com uma câmera (1929).

Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Agora você tem ataques de ansiedade, você tem pesadelos. O medo de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, intranquilidade, senso/certeza da própria finitude, desesperança, falta de propósito, incapacidade de desfrutar aquilo que antes lhe dava um bocado de prazer, resignação: tudo acaba, tudo está a acabar, não há mais volta. Ir ao cinema é um tormento, ler as notícias é um tormento, observar as pessoas levando-se à vida é um tormento, acordar todos os dias e perguntar-se: por quê? São esses os tipos de ameaças & incertezas & dores.

Quando não perguntam ao Escritor sobre a morte, ele sabe o que a morte é. Quando lhe perguntam…, já não sabe mais.

Qual, afinal, a natureza deste mundo em que vivo, indaga-se o Escritor, no que acredito, no que deixei de acreditar nesses últimos anos? Livrar-me da televisão, livrar-me do telemóvel, escutar mais Peter Broderick & Machinefabriek (Session III [Angelige Noatern]), ir ao parque (fins de semana), reler Gonçalo M. Tavares, parar de imitar o Enrique Vila-Matas — encontrar a própria voz? — Todo um vocabulário diferente.

Escritor independente de grupos ou escolas, Escritor difícil de classificar, Escritor amante de música, desde sempre leitor voraz, Escritor interessado por canetas, papéis, mesas, Escritor perdido entre aqueles que se encontra, que se entendem, todos parecem se entender, e o Escritor, não, o Escritor não entende.

Escritor de espaços vazios.

Fosse tocando bateria, desenhando figuras abstratas numa folha de papel 160 g/m² (210mm x 297mm) textura de favo de mel ideal para grafite, carvão, etcétera, devorando Melville, Oswald de Andrade, Foster Wallace em leituras alucinadas, fosse como fosse, fazia tudo com a obsessão cega e urgente de uma criança. 

— P. R. Cunha

Esteroides anabólicos androgênicos (EAAs), fatores de liberação

Estratégias de jogo — sugestões de profissionais gabaritados, sérios, com muitos diplomas pregados na parede, talvez uma série de livros impressos por editoras universitárias com a nobre, porém pouco eficaz, finalidade de divulgar o conhecimento médico às pessoas comuns: divertir-se nas quadras, beber água durante os treinamentos, não levar as competições tão a sério, desenvolver um hobby agradável, sair com amigos, praticar o intercurso com parceiros confiáveis (deixar propositalmente o adjetivo confiável em aberto). Carlos Mourinha, um experiente jogador de badminton que perdera a capacidade de ser calmo e descontraído, abre a porta do apartamento e deita para o chão uma sacola com aquele tipo de papel com o qual fazem embalagens de pães (tipo francês); a sacola contém: 1) petecas; 2) três raquetes Yonex 85g, 67cm, empunhadura 9cm, etiquetas da loja de departamento ainda grudadas nos cabos das raquetes com colinha irritante que demora para sair; 3) cushion, grips e over-grips para maior firmeza e conforto às mãos, também dedos, ao segurar a raquete durante o jogo, aquilo a que costumam chamar de «pegada». Vê-se logo que é uma sacola sólida, firme, duradoura, de fato ideal para carregar toda a sorte de equipamentos badmintons. Experiente jogador, bandana UA (Under Armor) na cabeça, cabelos encaracolados, camisa polo azul com golas levemente desgastadas, um número maior do que aquilo que os inspetores de moda julgariam ideal, óculos com armações arredondadas, parece um bocadinho com o David Foster Wallace, e/ou com o James Joyce, uma espécie de acidente genético, como se DFW e o próprio Joyce decidissem de repente ter um filho juntos: Carlos Mourinha, que senta na cama e fala em voz alta, sinal de que as coisas não andam bem, falar consigo é mau presságio — tudo o que faço, ele diz, tudo o que faço é jogar badminton, preciso de um descanso. Boa classificação no ranking mas sem aquela desenvoltura de outrora. Quinze a vinte minutos em quadra, com a cabeça em outra dimensão (palavras do treinador), demora para entrar no ritmo, comete muitos erros etc. Carlos Mourinha, frustrado, já cogita seriamente a possibilidade de estimulantes ilegais.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte III) – hipermodernismos

A vida começa então a acontecer quando o Escritor se compromete a escrever o livro. Ele se torna um aspirador de ideias. E a própria vida é nada mais do que um repositório de situações as quais o Escritor deve remanejar para colocá-las no romance. Quando o Escritor está escrevendo, ele está a viver. Ele quer que o livro dure para a vida inteira. É o seu propósito.

Em criança o Escritor debruçava-se sobre a janela do quarto dos pais e observava um andarilho que sempre fazia caminhadas depois do almoço. A certeza daqueles passeios acalmava o coração do jovem Escritor. Uma rotina estabelecida: almoçar, quarto dos pais, janela, caminhadas do andarilho. Mas um dia o andarilho não apareceu, o andarilho foi descansar, explica a mãe ao menino, o andarilho está morto. Receio de mudanças e assim por diante.

As tragédias do presente abastecem os temores do amanhã. Conviver com a imprevisibilidade. Antes, controlava-se tudo; hoje — nada se controla. Admissão de impotência: eu, diz o Escritor consigo mesmo, eu nunca poderei saber o suficiente para ser capaz de prever o que quer que seja, muito menos controlar o que quer que seja. Passageiro, és um reles passageiro de um comboio que vai descarrilhar a qualquer momento. Ver hipermodernismos. 

A necessidade, porém, do Escritor de se ter uma previsão a respeito do futuro, profundo desejo de controlar, ou melhor, domesticar esse futuro. E grande relutância: não, não aceito os altos níveis de imprevisibilidade, não foi assim que fui criado etcétera.

Mas antes ele tem de saber se o leitor o quer. E quando olhamos com maior atenção, damo-nos conta que o Escritor segura um copinho de uísque na mão esquerda.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte I)

Damas & cavalheiros,

A partir de hoje começo a publicar trechos de uma narrativa que escrevi especialmente para este electro-sítio — Fragmentos de um romance inacabável. Despeço-me com aquela curiosa sensação de que tudo o que se passou ficará lá para sempre. E isto, como se diz, é confuso demais.

Mil saudações do teu,

P.


Aquele que busca se aproximar do próprio passado enterrado deve comportar-se como um homem que escava. Acima de tudo, não deve ter medo de retornar mais de uma vez à mesma questão, espraiá-la como se espraia a terra, revirá-la como se revira o solo.
Walter Benjamin

O Escritor que se senta à escrivaninha a cada manhã e discorre sobre todos os tipos de temas, de todos os ângulos possíveis, de todas as maneiras etcétera. Diz coisas que precisam ser ditas. Não espera por uma grande inspiração, frases corretas — sabe que isso raramente acontece. Durante um tempo indeterminado, o Escritor acumula pequenas situações, breves cenas, enunciados, um diálogo na livraria, o choro de um bebezinho. Acumula palavras. Até que o baú transborda e é tempo de esvaziá-lo.

Escrivaninha, canetas, papéis, estantes, livros, chávenas de café, desenho de um cão (raça desconhecida), desenho de uma sereia a se afogar nas profundezas de um oceano roxo, coleção de postais soviéticos grudados nas paredes.

Na meninice nada parece acontecer sem causa, nada é inexplicável. O menino sabe que existe um mundo à parte, mundo regido por adultos — e compreende aos poucos que alguns adultos são felizes, outros são tristes. Ali tudo se mostra previsível. O pai garante a segurança e o progresso do menino: vais estudar nas melhores escolas, viver para o estrangeiro, vais aprender o russo, serás um sujeito diferente; este é o pai dizendo. O menino tem a certeza de que o pai é eterno, que o pai é capaz de explicar-lhe o Universo. Até que certo dia paira sobre a cabeça do menino uma nuvem cinza, carregada, e de súbito o otimismo dá lugar a uma lúgubre atmosfera; sombras a dizer-lhe que talvez a realidade não seja tão calma e segura quanto ele desejava acreditar. O menino sente-se vulnerável, enganado. O menino sente medo.

Um Escritor à Van Gogh, ardoroso e irrequieto, mas também cheio de brincadeiras animadas, uma enorme afinidade e uma infinita capacidade de admiração. Guia aventureiro, que transmite inspirações e passa reprimendas, um entusiasta enciclopédico, crítico engraçado, companheiro divertido, um olhar que atravessa tudo. Vítima do próprio coração, um coração de literatura. Tem algo na maneira como ele escreve que leva as pessoas a amá-lo ou odiá-lo. Não poupa nada nem ninguém.

Tudo começa por algum lugar. O Escritor leva consigo uma chávena de café, acomoda-se à frente do próprio computador portátil, cujos avisos de «a memória está para o fim» começam a lhe dar nos nervos. Acomoda-se no gélido apartamento que fica relativamente perto daquilo a que chamam de centro da cidade. Ele então entrelaça os dedos e inicia o processo de manipulação de realidades.

— P. R. Cunha

Sob o efeito de John Cage — cinco ou sete doses de Baileys

Depois de uma noite de bebedeiras ao botequim [na Lopes Trovão, perto do Campo de São Bento] — estamos de ressaca: o mar & eu.

Influenciado pelos escritores do caótico e especialmente pelo azedume dos Ex.{mos} srs. Bernhard e Oswald de Andrade e H. de Campos (Eurico Browne) e A. de Campos (IRMÃOS) este outro-eu-autor/actor (escrevente brasileiro sempre a pensar nas coisas mais essenciais do país tropical &tc [porta-voz]) eu-autor/actor/outro-eu a escrever um sem-número de conto-macchina portanto em Niterói 496.696 habitantes alguns felizes outros nem tanto eu-autor/actor/eu descrevendo entre outros 1) bêbados 2) jogadores de xadrez 3) baristas que não tomam café porque Niterói é quente 4) artistas do teatro 5) boêmios em geral.

conto-macchina — é a recepcionista da pousada que me confundira com o fantasma de Dylan (Dylan não morreu, eu lhe disse; Dylan está morto, ela disse, hospeda-se o fantasma de Dylan nesta nossa pousada, Niterói [inútil insistir quando nos tomam por fantasma de Dylan] desisto). conto-macchina estilo mecânico como o próprio nome sugere ———— industrial sirenes de ambulâncias experimental: o afiador de facas da rua Otávio Carneiro, liberdades & gramaticais & estilísticas (não definir o que é estilo [?]), pontua-se como/e onde/e quando (se) quiser, os fogos de artifício que iluminam o Morro do Cavalão, conto-macchina, não se preocupar com rimas (n’outros termos: tudo bem se rimar as palavras afinal ou rimam ou não rimam), 50% porcento percentagem, o vendedor de picolé queimou o pé nas areias de Camboinhas/Sossego, bolhas no pé do vendedor de picolé, conto-macchina, museu de arte contemporânea ——————— o.Niemeyer, disco, voador, ARQUItecto de um futuro que ultra|passado. conto-macchina, um pouco de tudo.


Texto e fotografia: P. R. Cunha