O cabelo

De todos aqueles elementos que — como se costuma dizer — mexem com os brios da vaidade do homem, muito provavelmente o cabelo seja o mais imprescindível. As mulheres acabam por desenvolver outras obsessões relacionadas (a cor das unhas, o intelecto, os vestidos, os sapatos, a sabedoria, os cílios, a profundidade da alma etc.), mas, com os homens, via de regra, é o cabelo. Rodrigo inclina-se para pegar a chávena de café e um amigo fere-lhe o ego: vejo que o Rodrigo está a ficar careca aí na parte de trás da cabeça. Rodrigo esfrega o cocuruto com as mãos. Show de rock, insiste o amigo, tens aí já o palco e as duas entradas. Rodrigo agora passa boa parte do tempo livre a levar um pequeno espelho ao topo do próprio crânio a ver se a calvice consumira-lhe a outrora expansiva cabeleira.

— P. R. Cunha

O mosquito

O mosquito fica a observar o animal humano a agir feito um louco. O mosquito não tem pressa, poder-se-ia dizer que o espetáculo (i.e.: ver o animal humano em busca de objetivos supostamente grandiosos, dos segredos do Universo em expansão, de status, de fama, de dinheiros, de entretenimentos, de analgésicos contra os absurdos existenciais [livros, cursos profissionalizantes, futebol, cinema, séries Netflix, comida]), poder-se-ia dizer, portanto, que o espetáculo agrada aos sentidos do inseto, mas daí já seria extrapolar os limites do bom senso; afinal, o mosquito é apenas um mosquito. A verdade é que numa altura o animal humano está de pé a realizar todas essas tarefas, e numa outra o insignificante mosquito decide-se ir até ao animal humano para lhe transmitir dengue, zika, malária, febre oropouche e não só. Daí o animal humano não fica mais de pé, não mesmo.

— P. R. Cunha

O shopping mall

Tancredo sentia-se desolado, de forma que desligou a televisão e foi dar um passeio no shopping mall a ver se preenchia o vazio que lhe perturbava imenso. Tancredo compra roupas, entrega-se às gulodices na praça de alimentação, irrita-se com o ar viciado do shopping mall e depois volta para o próprio apartamento. Agora ele é um vazio de ressaca moral, com barriga cheia e vestimentas novas.

— P. R. Cunha

A febre

A febre nos transforma em meros espectadores. Marionetes arrastadas para lá e para cá pelas cordas do sistema imunológico. A cabeça pesa uns trezentos quilos, as palpitações vacilam, o corpo não corresponde. São dores que vêm como de um inferno longínquo. E se antes andávamos com imensa desenvoltura sobre a superfície rochosa deste planeta atmosférico, agora somos nós o espaço geográfico — o palco de uma guerra sanguinária entre os exércitos do gelo e do fogo.

— P. R. Cunha

A colmeia

O pai e a mãe estão conversando na cozinha. Enquanto o pai prepara o café, a mãe lê o jornal e diz: é mesmo um sistema econômico predatório, inútil, onde já se viu?, telemóvel com ecrã dobrável, quem precisa de um troço desse? O pai fica a observar o fluxo constante do café a cair do coador: dizem que o Franklin lá da firma tem um desses — ele fecha a garrafa térmica —, qualquer dia o planeta não suporta mais esse tipo de capricho. Lá em cima o menino está dormindo. Abre os olhos. Faz uma espécie de cabana com o próprio cobertor. Espera até que alguém vá chamá-lo para se arrumar e ir à escola. O menino regozija-se com aqueles minutinhos extras de sono, os melhores minutinhos de preguiça de sempre, ele pensa. Mas ninguém aparece. O menino se dá conta de que é sábado e a soneca transgressora perde todo o sentido. Ficar deitado sem ter que fugir de compromissos não possui o mesmo sabor. O menino se levanta e vai até ao quintal. O pai e a mãe ainda estão a conversar na cozinha. A mãe está a comer as torradas com manteiga enquanto observa pela janela embaçada o filho a brincar no quintal. O menino fica parado embaixo da árvore. Ele tenta jogar pedras na colmeia. As três primeiras pedras não atingem a colmeia, a quarta, sim. Daí as abelhas assustadas voam em todas direções, inclusive na direção do menino, que começa a ficar com a pele empolada — é alérgico. Mas não há nenhuma moral realmente relevante nesta história.

— P. R. Cunha

O jantar

Os dois estavam dentro do automóvel, ainda muito impressionados com o que acabara de acontecer durante o jantar. Ela talvez um pouco mais do que ele. Ele já tinha visto qualquer coisa parecida na internet, num sítio web pornográfico, relacionamentos ciborgues, ou algo assim. É claro que nunca é a mesma coisa quando acontece com alguém próximo, um amigo de juventude, por exemplo, um tipo que sempre fora admirado — e invejado — por muitos, e que era considerado uma espécie de sedutor congênito, sedutor de moças finas, elegantes, não de bonecas, bonecas com aquela aparência assustadoramente humana, com aquele jeito estranho de mexer o «corpo», um amontoado mecânico com pele sintética. Como diz a música dos Smiths: it’s too close to home. Situações bizarras costumam acontecer longe, nos programas de televisão, naquelas séries extravagantes da National Geographic, Discovery Channel. Mas daí que acontece com um amigo de juventude, um sujeito sério, sem nenhum vestígio de insanidade, um homem saudável, portanto, que resolve casar-se com uma robô sexual e fica-se sem saber ao certo como agir. O dedo indicador dela tocava os lábios, ela olhava pela janela, incrédula, balançava a cabeça de forma irônica, um lado para o outro. Ele às vezes tentava passar a marcha, esquecendo-se de que o automóvel dela tinha câmbio automático. E quando ele fazia isso, não conseguia deixar de perceber brevemente o decote da saia dela. Ele ria-se por dentro. Mesmo depois dos maiores absurdos, a libido humana ainda dava lá um jeito de se intrometer. Que coisa mais esquisita, ela disse para o nada. Ele fez um leve movimento com os braços, rendendo-se, como se quisesse concordar mas sem encontrar palavras para fazê-lo. Eu bem podia esperar isso do Harry, ou do Kevin, mas do George!, ela disse enquanto as luzes dos postes apareciam e desapareciam, justo o George…

— P. R. Cunha

Contra dicções

Em tempos de colégio tínhamos um treinador de futebol muito rigoroso — era o Mr. Bryan. Nunca se mostrava satisfeito. O Mr. Bryan era do Canadá, Québec. Vocês precisam de treinar mais, ele dizia. E mais. E mais. Numa altura chegamos a vencer quatro dos cinco torneios escolares disputados, e o Mr. Bryan ficou possesso porque não vencemos os cinco. Éramos para ter vencido os cinco, ele disse. Anos depois, encontrei-me com o Mr. Bryan num café arborizado. Os cabelos grisalhos, as rugas marcavam vales no rosto do canadiano. Contou-me que pouca gente o visitava em casa, pois onde ele morava havia uma quantidade absurda de mosquitos.

[…]

Imersão em trabalhos criativos, preocupar-se mais com os outros (com os estranhos, especialmente), tirar sarro da condição humana (ri-se na cara do absurdo, como se diz), escrever a respeito das próprias crises, procriar (ter filhos, adotá-los), cuidar da saúde, evitar os comportamentos obsessivos, viver melhor, viver mais, o marinheiro que ganha «uma noite ao bordel do vilarejo» antes de ser enforcado pelos outros marinheiros, viver melhor do que os pais, superar os pais, fazer parte de algum clube (group membership), ser menos intolerante com as religiões, resgatar o álbum de fotografias da família esquecido ao sótão, praticar desportes radicais/perigosos (paraquedismo, escalada em montanhas íngremes [sem o equipamento adequado]), experimentar drogas exóticas, cair ao abismo do álcool, cultivar múltiplas personalidades, negar a morte.

— P. R. Cunha