Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – terceira parte (breve história da criação do céu, da terra e da angústia)

Não é bem o estímulo de ser lido que me faz querer escrever — pensei enquanto tentava desenhar os contornos da cordilheira, cicatrizes geológicas que se estendiam ao longe. Obviamente que atingir o sistema neurológico de um outro ser humano, causar reflexões ali dentro (ou pelo menos ter essa pretensão) mostra-se uma importante potência motriz que acaba por manter o movimento da caneta até ao ponto final. 

(Os traços por vezes indecisos em busca de um melhor entendimento de si, das coisas, de tudo… do nada [encore].)

Trata-se mais de uma necessidade, uma psicose, um vício. Sim, sem dúvida que há muito de vício nisto de escrever. O efeito alucinógeno da abstinência, o córtex orbitofrontal a processar lentamente os canais emotivos, decisões tomadas de forma intempestiva, a memória é afetada. Que o leitor experimente ficar dias sem beber água, ou sem ingerir alimentos e de certeza compreenderá fisicamente o que estou tentando dizer.

Agora a bandeira do Chile balança sobre o portal de uma estação de esqui por onde uma torrente mais ou menos contínua de turistas entra e sai. A maioria segura um telemóvel, ou um tablet: jovens e adultos que averiguam no Google Maps se realmente estão onde deveriam estar. É provável que muitos desses turistas não consigam se divertir hoje, pois deixaram problemas demais em casa.

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Acontece muitas vezes de adquirirmos/acumularmos tantas responsabilidades que chegará o momento em que o nosso organismo pedirá clemência, porque não deu conta. Os problemas se multiplicam exponencialmente e a pessoa então se retrai num casulo, move-se pouco, as tarefas mais simples (ir ao mercado, encontrar com os amigos, assistir a um filme) mostram-se inatingíveis. Fica-se como que paralisado, não consegue sair do quarto, é agora uma montanha, uma custosa placa tectônica que só se mexe quando diante de algum cataclismo — ou quando decide se esconder para sempre no mar de magma sob a crosta terrestre.

Eu mesmo sentia-me muito consciente da minha própria solitude, ali sentado a desenhar os Andes. Uma existência à Samuel Beckett: sempre um bocadinho isolado do mundo, a tentar explorar o ardiloso funcionamento da minha cabeça. E toda a vida a girar em torno desta cega obsessão para escrever literatura. 

Beckett percebera que as sombras contra as quais havia lutado para manter longe de si, longe dos amigos, dos familiares, buscando ser agradável, espirituoso, animar o ambiente etc., Beckett percebera que essa escuridão era, de facto, a fonte de suas inspirações criativas. Sempre viverei deprimido, ele contara para um jornalista francês, mas o que conforta é a clareza de que agora posso aceitar esse lado negro como o lado dominante da minha personalidade.

Encarar os demônios que atormentam sobremaneira, fazê-los trabalhar para si, e depois redigir o que se passa consigo num idioma mais acessível e elegante. Numa palavra: transformar depressão em criações.

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É provável que os acumuladores de responsabilidades sociais vejam nesse modus operandi uma rotina melancólica, insuportável, claustrofóbica. Mas para quem se deu conta de que a escrita é a atividade que realmente importa, essa epifania é o último bote salva-vidas a flutuar errante no convés.

— P. R. Cunha

Uma paz particular

Certo ator brasileiro, depois de ganhar todos os prêmios que a Companhia Internacional de Teatro poderia oferecer, dizem os jornais, voltou ao Brasil com a merecida reputação de um dos maiores atores do mundo. Assim que aterrara em São Paulo, foi recebido por um grupo de empresários que prometera ao talentoso ator brasileiro o que ele desejasse: qualquer coisa, basta pedir — disseram os empresários. Ao que o ator brasileiro, tentando se fazer entender enquanto uma multidão de fãs gritava o seu nome, teria dito que só queria ser deixado em paz. Como mesmo depois de três meses o ator ainda não havia conseguido o tão desejado sossego, contratara um duplo para representá-lo, pagando inclusive quantias consideráveis (praticamente toda a premiação em dinheiro oferecida pela Companhia Internacional de Teatro) para que o sósia se submetesse a uma cirurgia plástica a título de retocar possíveis diferenças comprometedoras. Além de ter que ficar à janela acenando para os curiosos que permaneciam ao portão da casa do ator brasileiro, um talento mundial, repetem os jornais, o dublê também ficara encarregado de se encontrar periodicamente com todo e qualquer grupo de empresários que demonstrasse interesse pela carreira do célebre artista. Os empresários nunca notaram qualquer diferença; são muito estúpidos.

— P. R. Cunha

Tintas biográficas

Inverno, Rio de Janeiro, clínica psiquiátrica (sanatório) / Não estou a gostar do meu estado de espírito — escreve García Aspe para a irmã —, sinto um vazio, algo assim. Há dias que não come, apenas trancado, ou melhor, enclausurado dentro de um quarto sombrio, com pequena janela que não dá para sítio algum. Tomar notas todas as manhãs, continua García Aspe, tornou-se de certeza uma obsessão difícil de controlar. Um dos funcionários da clínica percebera a genialidade do paciente e arranjara para o sr. Aspe uma pequena mesa à qual o filósofo dedica os escassos momentos de lucidez para pôr no papel, como se diz, o doloroso processo do próprio pensamento. García Aspe gosta de citar Albert Camus sem, no entanto, cair nas armadilhas da erudição. Pensa que o excesso de leitura, em mãos erradas, só faz alimentar o egotismo do sujeito, que sai por aí afora a contar vantagem só porque leu um ou outro livrinho existencialista. O suicídio, diz García Aspe, um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. Ele pede para a irmã que lhe envie mais livros, para, segundo ele mesmo, distrair-se desses pensamentos autodestrutivos. O suicídio à base de metonímias, porque ainda tabu. A irmã responde que alguma coisa está para chegar. O irmão enche-se das melhores expectativas. Camus questionava, anota García Aspe, sobre os motivos que provocariam uma crise incontrolável e que levariam à chamada morte com as próprias mãos. Há imensas causas para o suicídio. Mas era preciso saber se, nesse próprio dia, um amigo do desesperado não lhe falou num tom indiferente — é ele o culpado. Alguém bate à porta e diz que segura uma encomenda importante para o sr. García Aspe. Ele abre o pacote e se depara com a obra do finlandês Arto Paasilinna: Um aprazível suicídio em grupo. O paciente não sairá do quarto nos próximos três meses porque muitíssimo compenetrado, não lhe apetece largar a prosa de Paasilinna. O tom irônico e por vezes bonachão do romance de facto arrefece as tragédias internas de García Aspe, que não encerra a própria vida de maneira precoce; muito pelo contrário.

— P. R. Cunha

Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.

Outras tentativas (um bocadinho frustradas) de esgotamento de uns locais niteroienses

Ir a um café em Niterói ——
entra no café
faz postura de quem vai
escrever trechos edificantes
de um romance inovador
e não escreve nada
escutar [somente] e fazer postura
de quem vai escrever.

Música aleatória;
Café aleatório;
Cidade aleatória;
Isto não é um poema.

Toda a sorte de ruídos: máquinas de café espresso, o choro de uma bebezinha, dois adolescentes que pretendem ir ao McDonald’s na sexta-feira, a pensionista que faz as palavras cruzadas em voz alta (os lábios da pensionista movem as possíveis respostas), os talheres, os copos, as teclas do computador de um executivo apressado.

Algumas vezes tu escreves num café, noutras ——— não.

Aqui (i.e.: nível do oceano) a manteiga é diferente. MOTIVOS/HIPÓTESES: maresia; as coisas que provamos longe de casa sempre têm outros gostos etcétera.

Use o assento para flutuar (seat bottom cushion [for flotation]): reflexões atmosféricas

Havia época —— penso em 1924 —— em que as pessoas viajavam maioritariamente de navio. Hoje, as pessoas preferem as aeronaves [airbus].

Não se agitam mais os braços de despedida. Viajar tornou-se tão banal quanto o dobrar de uma esquina. Alguém diz: vou viajar ———— e pensa-se na imagem de quem vai ali comprar o pão.

Quem poderia dar nomes às naves aéreas sucateadas do século XXI? Os navios tinham/têm nomes, eram/são batizados por reis e rainhas e gentes notáveis. Se algum afundava/afunda, os jornais escreviam/escrevem: Martha afundara, o Santa Catarina naufragou-se no irascível Atlântico. Os aviões têm números —— são números.

Se o avião cai, há poucos sobreviventes [não é bem o medo de morrer, mas o medo de desesperar-se antes de morrer]. Toda a gente perde a dignidade quando despenca das nuvens. Isto é certinho.

P.S.:

Nomes, cores, e outros aspectos relevantes dos autocarros de Niterói; enquanto sentado à mesa da «Atlântica – padaria & confeitaria» [desde 1957]. Transoceânico, Pendotiba, 2.1.014, Miramar, Jurujuba/Cachoeira, verde-limão, outra linha observável: 2.3.032. Viação 1001, azul-claro e branco (os números [1001] pintados de vermelho, borda branca). Expresso Garcia, suspensão a ar, azul (tons marítimos) e branco. Transnit, Araçatuba/Brasília, três tons de vermelho. Brasolisboa first class, cor de laranja. O que se comeu: misto preparado na hora (pão francês), um cafezinho — carioquinha, obviamente. Acompanhamentos: biscoitinho de natas + copo de água com gás. 16h38. Clima ameno. 

(o que há ao lado da atlântica – padaria & confeitaria uma banca de jornais e revistas tipicamente niteroiense [cinza com faixas amarelas nas laterais] em destaque uma revista sobre o poder do pensamento positivo e a edição vespertina do jornal extra uma motorizada barulhenta buzina ao atravessar o cruzamento.)

— P. R. Cunha

uma forma literária de dizer-vos «até breve» porque à fazenda de um livro que consome-me imenso tempo

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quando sentes a fisgada ácida do ansiolítico a tocar-te a ponta da tua língua sabes direitinho que tudo ficará bem precisas do ansiolítico para sobreviver porque possuis as neuroses os pavores estás rodeado de máquinas basicamente máquinas de sumo e de sandes e de bebidas açucaradas e de chocolates tipo m&m’s e skittles e máquinas de café com chávenas assinadas por algum artista hipster que vive para os himalaias as cápsulas de café com tampa de alumínio a agulha da máquina de café nespresso que perfura essa tampa de alumínio e a nespresso começa a atritar a grasnar a rosnar e a cuspir o café tudo muito techno erótico uma nespresso cor de laranja com as superfícies laterais removíveis ao passo que o dono da nespresso pode lá alterar as superfícies laterais de acordo com o próprio humor e a nespresso da sala de espera do psiquiatra tem a cor de laranja talvez para animar um tanto a digamos assim diretamente sem pudores a clientela cor de laranja para animar a clientela e podes perceber que a terapiacromovisual dá resultados pelo menos se levares em conta a dama que se dirige à nespresso com postura de pessoa normal e por isso mesmo sem parecer absolutamente com uma pessoa normal vai até à nespresso beberica o café com muito apreço como se fosse a lady di princesa de gales com aquele dedinho perturbador dedinho voltado para cima dedinho erguido beberica o café nespresso cápsulas com sabores exóticos e sentes vontade dizer ei lady di aqui somos todos doidinhos não precisa de fazer pose tome o café que nem doida quer enganar a quem máquinas de toda a sorte como tu estavas a falar máquinas de guloseimas máquinas de morte mas também máquinas de literatura como as que serão instaladas em canary wharf londres com histórias curtas que podem ser lidas entre as estações do metropolitano e tratar deste assunto causa-te um certo entusiamo é irresistível o passageiro dirige-se às máquinas de literatura produzidas pela francesa short édition escolhe entre uma trinca de opções que são estas histórias que podem ser lidas em um minuto ou histórias que podem ser lidas em três minutos ou histórias que podem ser lidas em cinco minutos a depender do trajeto percorrido pelo supracitado passageiro pressiona uns botões e voilà sai um papel simpático com contos de nomes consagrados das letras britânicas como virginia woolf charles dickens lewis carroll e nomes mais contemporâneos como anthony horowitz que anda de metropolitano todos os dias e vê toda a gente com o olhar colado às apps aos jogos aos tweets às fotografias no instagram de pessoas que se retratam felizes mas por dentro são terrivelmente solitárias e que a ideia das máquinas de literatura é usar o tempo que se passa dentro do metropolitano em algo que seja entretido e que pode sair em formatos miúdos como a própria literatura e agora para seres franco connosco dizes que estás a sentir uma branda melancolia pois não consegues imaginar uma máquina dessas chegando ao brasil talvez nem nos próximos duzentos anos mas quando tu sentes a fisgadinha do ansiolítico nada importa perguntas o que é arte e perguntas isto porque pintaste um quadro rigorosamente despropositado e ninguém gostara da coisa até que compraste uma moldura e colocaras a pintura dentro do compartimento da moldura e de súbito começaram a elogiar o teu trabalho como ocorrera no caso de mark wallinger que selecionara um cavalo que participou em competições e simplesmente nomeou-o desta forma uma verdadeira obra de arte nomear o cavalo dar a conhecer a sua existência sem mais e o cavalo torna-se uma obra de arte da mesma maneira que a tua pintura sobre colagem de jornais velhos tornara-se um bocado mais arte depois de colocada dentro do compartimento da moldura pois muitos estão acostumados a ir a museus e às galerias famosas e é bem desse jeitinho ou seja dentro de molduras que eles apreciam ou melhor que eles consomem arte o lixo que vira arte se dentro do compartimento da moldura ou se uma galeria de arte diz isto é arte então toda a gente acredita porque afinal é papel da galeria de arte indicar o que é arte e o que não é arte do contrário falaríamos todos um incompreensível idioleto que nada mais é do que a variação de uma língua única a um indivíduo e se quiseres ser ousado podes também adotar neologismos tipo arteoleto artolecto artlecto ou coisa assim mas é hora de prestares atenção ao psiquiatra à ida ao psiquiatra que envolve escutar o barulho do ar condicionado aparelho que faz um barulho mais ou menos assim trrrrrrruuuuuuummmmmmmm envolve esperar à sala de espera esperar mais do que imaginastes suponhamos que tu tenhas uma consulta marcada para as quinze horas então é melhor teres paciência porque serás atendido às 16h não necessariamente em ponto e ficarás sentadinho no sofá de espera e quem sabe tens contigo um livro ou um pedacinho de papel e começas a anotar freneticamente uma caralhada de pensamentos avulsos e anota isto logo anota isto para não esqueceres e tu anotas tudo barulho do ar condicionado trummmsmmsmsmsmmss o outro paciente que espera contigo à sala de espera um homem à volta de 45 idades talvez mais digamos cinquenta e tal homem com cinquenta e tal anos que não aceita a idade que tem e veste-se à moda jovem abandonado por mamã com camisa desabotoada calças de ganga estrategicamente rasgadas nos lugares certos por mãos habilidosas made in taiwan adidas branco com cadarços brancos meias brancas cano soquete também conhecidas como meias invisíveis passa uma série netflix na televisão da sala de espera do psiquiatra uma série sobre pescadores ariscos anota tudo isto anota antes que esqueças truuuuummmmmmss faz o ar condicionado e o psiquiatra abre a porta e chama o teu nome e tu entras ao consultório do psiquiatra e ele cordialmente pede para que tu te sentas e tu sentas direitinho com as mãos guardadas sobre os joelhos e tu não consegues evitar tu olhas para o banco ao lado do teu e a almofada do banco tem ainda o formato da bunda do paciente anterior e aquilo constitui para ti um verdadeiro motivo de risota e começas então a duvidar da tua maturidade se tens mesmo a maturidade para ires falar ao psiquiatra falar que sentes isto sentes aquilo mas fazes tudo para ter contigo o teu ansiolítico de forma que não dás as risadas e sentes a boa expectativa ao estilo oba sairei daqui com a minha receita medicamentosa mais um mês sob controle sem causar danos e ou magoar as pessoas que amo tanto controladinho receita medicamentosa ires à farmácia ires à drogaria ao mercado das drogas lícitas das drogas socialmente permitidas das drogas cujos conteúdos não irão colocar-te dentro de cárceres nem nada dessa natureza drogas que até mesmo as autoridades da lei compram sem serem incomodadas ires à drogaria portanto e comprares o ansiolítico 28 pílulas do ansiolítico que te mantêm à superfície por vinte e oito dias e tu sentes a vontade de perguntar ao teu psiquiatra se ele poderia ser bondoso e receitar de repente como quem não quer nada receitar-te umas tantas cartelas com 52 pílulas 544 pílulas mil pílulas edição deluxe do ansiolítico ao passo que tu terias não 28 dias de superfície mas sim mil dias de superfície mil dias sob controle aproximadamente três anos de bons comportamentos fisgada do ansiolítico na língua na ponta da língua para seres sempre mais exato ponta da língua como um ritual o ritual do ansiolítico consiste em deixá-lo na ponta da língua o máximo de tempo que conseguires justamente para prolongares a fisgada depois bebes a água de maneira normal como sempre fizeste quantidade certa de água à guisa de evitares que a pílula fique presa no meio da tua garganta causando-te preocupações desnecessárias pois podes imaginar como seria morrer engasgado com um comprimido de ansiolítico no meio da garganta assim ó e apontas o dedo para a garganta chegas mesmo a colocar o dedo dentro da garganta sentindo um refluxo enjoativo como se fosses vomitar a sério então tu sais do psiquiatra com a receita habitual à caixa da praxe 28 pílulas e sentes uma fome terrível de forma que agora estás numa praça de alimentação de um shopping mall à espera de um alimento levemente nutritivo e notas que uma funcionária sai da loja de vender móveis dirige-se ao corredor das toaletes dos aposentos sanitários das casas de banho enquanto ela olha fixamente para o relógio de pulso e agora ficas a refletir no que estaria a pensar a funcionária da loja de vender móveis num encontro num amante na filha com problemas na escola ou no horário de chegada do voo da avó que vem de longe e sempre que vem de longe a vovó reclama da falta de espaço destes assentos modernosos das aeronaves modernosas e via de regra a vovó entra numa espiral nostálgica a dizer que nos meus tempos ela diz nos meus tempos as companhias aéreas ofereciam verdadeiras refeições e os talheres eram de metal e as taças eram de vidro de verdade e as hospedeiras de bordo davam os devidos bons-dias e os hospedeiros de bordo davam as devidas boas-noites e que as velhas d’aquele tempo não morriam de tromboembolia pulmonar porque os assentos eram espaçados mas os assentos atuais ela diz são verdadeiros assassinos tão grudados tão absolutamente colados uns nos outros que a impressão diz a vovó para a neta no caso a funcionária da loja que vende móveis a impressão diz a vovó é que as viagens aéreas tornaram-se tão irritantes quanto as viagens rodoviárias talvez ainda mais irritantes porque a pessoa que compra um bilhete de avião acha que está a pagar pelo conforto mas não está a pagar por conforto nenhum diz a vovó talvez até esteja a pagar pela própria morte tromboembólica e que os aviões não seriam outra coisa senão autocarros alados mas são tantas as possibilidades que tu perdes o interesse pela funcionária da loja de vender móveis deixas que ela possa ir sossegadinha à casa de banho e ficas a esperar o teu alimento acontece que tens uma curiosidade insaciável dentro desta tua cabeça estranha e ficas a olhar agora para a moça da mesa ao lado que não tira os olhos do telemóvel nem quando o garçom lhe traz a sande de guacamole e ela meio que come toda inclinada com uma das mãos segurando a sande de guacamole e a outra mão segurando o telemóvel e reclama consigo mesma quando uns bocadinhos de guacamole caem em cima do ecrã do telemóvel e o garçom se ri todo como se dissesse bem feito de aí chega a tua refeição comes a tua refeição utilizando métodos mindfulness total atenção à refeição tomas o sumo de amora e logo estarás preso num engarrafamento muitos carros que quase não saem do mesmo sítio e brasília doesn’t give a goddamn fuck e colocas umas músicas do tempo em que moraste em são petersburgo aproveitas que o trânsito não anda abres a app do spotify e estás escutando o álbum guns tonight da banda superfamily e sentes saudades da rússia sentes saudades dos teus 24 anos quando a mamã e o papá achavam que tu serias enorme mas agora estás preso num engarrafamento e o motorista à direita tira pêlo do nariz uma meleca do nariz e a motorista da esquerda manuseia o próprio telemóvel chorando e tu aumentas o volume e te apetece fechar os olhos apenas escutar superfamily quando chegas a casa vais direto para o banho um merecido banho e de súbito começas a rir parece um louco rindo sem parar enquanto analisas o frasco do shampoo que a tua namorada comprara e não queres fazer má propaganda do shampoo porque a tua namorada tem uns cabelos maravilhosos e acreditas que o shampoo seja um dos responsáveis pelos cabelos maravilhosos da tua namorada mas não consegues manter a seriedade diante do excesso de adjetivos disparatados que a embalagem do shampoo elseve óleo extraordinário da l’oréal paris oferece a começar pelo micro-óleos de flores preciosas o que seriam 1) micro-óleos e 2) flores preciosas e logo abaixo inovação leveza infinita suavidade infinita brilho excepcional vitalidade deslumbrante ao leres estas piadas começas a imaginar uns cabelos com suavidade e leveza infinitas começas a imaginar o fim do cosmos o fim do universo o fim de tudo e mesmo assim uns cabelos que continuam com suavidade e leveza infinitas e agora tu queres ajudar os publicitários de l’oréal tu queres definir a palavra infinito isto elseve-oleo-extraordinario-loreal-paris-kit-D_NQ_NP_677505-MLB25036260328_092016-Fé que não tem nem pode ter limites ou fronteiras no tempo ou no espaço em extensão ou magnitude ilimitado infindável desmesurável e por mais que os cabelos da tua namorada sejam realmente magníficos por mais que sejam cabelos muito muito muito bonitos eles estão longe de terem essas características infinitas e ainda bem porque do contrário acharias o cabelo dela e de outras gentes que utilizassem o shampoo elseve da l’oréal paris algo muito assustador de qualquer forma decides arriscar e passas o shampoo elseve da l’oréal paris no teu próprio couro cabeludo para veres o que acontece sentes uma suavidade porém nada de suavidade infinita e também uma leveza mas não é uma leveza infinita um brilho talvez mas bem longe de excepcional e tudo o que queres e ficar sentadinho ao computador com as tuas neuroses com as tuas manias de grandeza obsessões queres registrar os acontecimentos do teu dia e depois quem sabe dar continuidade à leitura do yukio mishima antes de dormires.

— p. r. cunha

Quarta nota #5 — quarentena galática, ou Calvin a dizer para Hobbes que a maior prova da existência de vida inteligente fora do nosso planeta é o fato de nenhum extraterrestre ter ainda se arriscado a entrar em contato conosco

§ Há muito que este electro-sítio se transformara em espaço indefinido, etéreo, no limite entre fantasia e realidade. Por vezes o próprio autor não sabe ao certo o que é o quê.

§ Franzen diz que a ficção mais puramente autobiográfica exige pura inventividade.

§ Minha resposta predileta ao paradoxo de Enrico Fermi (se o Universo é tão grande, tão velho, possui tantas estrelas e tantos planetas habitáveis… — então cadê os alienígenas?) é a hipótese Zoo. Extraterrestres tecnologicamente avançados já teriam localizado a Terra, mas decidiram não intervir, pois querem manter a nossa sociedade funcionando de maneira autônoma. Desta forma, não seríamos muito diferentes daqueles animais cuja vida acreditamos salvar ao mantê-los em reservas ecológicas específicas. Estão a nos observar e talvez até esbocem um sorriso torto diante das nossas incontáveis parvoíces.

§ «Passeio a minha casa / como leão na jaula», o trechinho é do Ruy Cinatti.

§ Antiga tradição em África: os tambores mensageiros. Percussões cujas batidas não transmitem o simples, o direto — elaboram. Se o caçador sente medo, os tambores não dirão apenas «não sintas medo», pois preferem discurso mais ativo: «Tira o coração da boca, fá-lo descer já daí, deixa de lado a angústia desnecessária, respira com destreza», etc. Os percussionistas africanos, portanto, longevos cronistas da espécie humana, que ao fim jaz de costas sobre montes de terra.

§ Stan Lee: a prova de que os super-heróis também morrem.

§ Sr. Trágico chega ao próprio apartamento para ler aquelas palavras que de tão harmoniosas, ele pensa consigo mesmo, só parecem dignas de olhos flamejantes e entendimentos sublimes. Sr. Trágico percebe que está a escalar a lombada do venerado livrinho uma traça modorrenta, mui gulosa de papel. Dá um peteleco na traça, FFFFUUUPPTTT. Certeiro. Traça voa ao longe, caindo finalmente sobre o jogo de xadrez, em cima da mesa que deveria servir às refeições. A torre branca ameaçada pelo bispo preto. Dois movimentos e xeque-mate. Mas sr. Trágico, agora um bocado distraído pela suavidade das Musas em elogios raros, ainda não percebera a ameaça real. 

§ Terminou a 11 de novembro de 1918 a guerra que supostamente deveria acabar com todas as guerras.

§ Na última segunda-feira, papai teria completado 65 idades.

— P. R. Cunha