As memórias, as sutilezas que fazem de nós o que somos

É um pouco como aquela história do Robson que passava horas & horas conversando pacientemente com a mãe da Karina a sra. Francisca (pois nutria sentimentos sexuais pela Karina) queria fazer boa figura enquanto o próprio pai (o pai do Robson se chamava Alan) vegetava em casa já nos últimos estágios de um tumor no cérebro & cuja companhia nem o Robson nem ninguém nem os irmãos aturavam mais porque há tempos que Alan não falava coisa com coisa &tc. 

* * *

Estaria mentindo se falasse que nunca pensei no que poderia ter-me acontecido se eu não tivesse aceitado a proposta, escreve Ernesto. Pois, assim, em retrospectiva, com o coração a bater como da praxe, tudo parece claro, simples — óbvio até. Mas quando estamos no olho do furacão, quando precisamos de agir sem o luxo de poder olhar pelo retrovisor, cometemos vilezas indizíveis, metemo-nos em ciladas. Depois, à guisa de remorso, tu começas a procurar culpados. E se cavares fundo o bastante, e se fores realmente honesto, encontrarás, enfim, o verdadeiro responsável: o teu reflexo.

* * *

Gallardo completa quarenta anos e a esposa sugere-lhe que faça os exames gerais. Gallardo não vai ao médico há quase uma década, sente-se bem, pratica natação regularmente, alimenta-se com moderações. Está saudável. Mas mesmo assim segue as recomendações da esposa, que sempre lhe tratou com um bocado de esmero, e vai ao médico fazer os tais exames. O médico se demora numa chapa de raio-x que mostra o tórax de Gallardo. O médico coça a barbicha, pensativo, hummmmm, aponta para um local aleatório da chapa de raio-x: está vendo?, não gosto disso, não gosto mesmo… Cabisbaixo, Gallardo volta para o apartamento e agora tem as certezas de que está para morrer.

— P. R. Cunha

Aceleracionismos

Um certo desrespeito aos autores porque começo a ler-ler-ler-ler leio pela manhã leio à tarde leio à noite leio antes de dormir leio na cama leio em pé leio sentado leio à mesa do jantar leio na latrina leio no jardim leio papel leio pixels leio sons e de repente me surge uma ideia um esboço uma faísca e já não sei se isso veio de Camus ou Melville ou Gontcharóv ou Jean Paul se Mark Fisher ou Donna Haraway ou Deleuze se Guattari se Foucault ou Derrida talvez Spinoza quem sabe Baudrillard ou Althusser ou Badiou não sei se Heidegger ou Wittgenstein se Agamben se Barthes talvez Bataille talvez Judith Butler realmente não saberia dizer — sou muitos.

— P. R. Cunha

Comboio-fantasma a nenhures

Acordar dez minutos antes de o sol «nascer», abrir as cortinas, a fresta da janela que deixa entrar a atmosfera matinal. Arrumar a cama (menos de quarenta segundos). Primeira tarefa cumprida. Sente-se bem ao ver o edredom estendido, o travesseiro alinhado. O banho. Passar a bucha nos pés. Não esquecer de lavar atrás das orelhas. Escovar os dentes durante o banho. Fazer o xixi durante o banho. Enxugar-se bem. Depois, os alongamentos. Uma série branda de flexões, polichinelos, exercícios para o pescoço, para os quadris. Descer, preparar o café, a torrada com manteiga, separar a garrafa com um litro de água (beber [aproximadamente] três garrafas durante o dia). Regar as plantas, verificar se tudo certinho com a horta — colher as hortaliças maduras. Sentar-se à escrivaninha antes das 8h, organizar o material de pesquisa, a leitura de descompressão, manter a chávena de café por perto, as canetas (cinco cores diferentes: azul, vermelha, preta, verde, ciano), os blocos de anotações, respirar fundo, escrever:

As comunicações por escrito têm qualquer coisa de fantasmagórico.

Se escrevemos algo para alguém, a pessoa que recebe as nossas palavras lida com aquilo que já não é — mesmo diante dos imediatismos modernos. 

O telemóvel vibra para avisar que há mensagem disponível, o dono do telemóvel mostra-se ocupado. Ao abrir a mensagem antes de dormir, está a ler reverberações. Talvez o remetente tenha até mudado de ideia.

Se a correspondência é feita à moda carta-de-papel, os fantasmas ganham novas intensidades. 

Num exemplo grotesco: poeta apaixonado envia poema para a amante; a moça recebe os versos dias depois; por motivos obscuros, ela demora para responder; a espera enche o coração do poeta de angústias; poeta perde as esperanças, e quando finalmente recebe a carta da moça, ele não a ama mais.

A amante tornara-se um espectro difuso, as palavras carinhosas que ela escrevera são como imagens psicografadas.

Assim como quando olhamos para o céu noturno e observamos a luminosidade de incontáveis estrelas que há séculos deixaram de brilhar. Estrelas moribundas, portanto.

A história do mundo nos mostra que quando uma pessoa é boa (i.e.: correta, dócil, prestativa, amistosa etc.) durante, digamos, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete deslize qualquer, ela será rotulada de falsa/enganadora/hipócrita: a máscara caiu, sabia que tu não eras aquilo tudo, sabia que pisarias na bola.

E se, ao contrário, a pessoa for ruim (i.e.: estúpida, hostil, ignorante, sem caráter, violenta, etc.) durante, digamos novamente, 90% das vezes, mas, numa altura isolada comete um discreto ato de bondade, não faltará quem, com os olhos lacrimejando, garanta: estão a ver?, até que o gajo não é assim tão mau, há esperança.

Expectativas, síndrome de salvação, ninguém nunca é bom o bastante, ou ruim o bastante: eis o tango, a bossa nova.

Bossa_nova_dance_pattern

Se estamos diante de uma fotografia, ou mesmo numa cerimônia fúnebre, estamos a lidar com vulnerabilidades, fantasias.

A mãe segura o retrato do filho, um criminoso terrível que fôra preso na semana anterior. A única voz ativa nessa cena é a perspectiva da mãe. O criminoso da foto não se manifesta. É uma estátua, um espectro de luz. A mãe pode (e irá) reconstrui-lo como quiser.

Do mesmo modo, aquele pai que em vida cometera grandes atrocidades, agira de forma abrupta, irascível e desonesta, recebe homilias enaltecedoras enquanto deitado dentro do caixão, o famigerado paletó de madeira. A figura pacífica, distante, pálida, frágil (os mortos não machucariam vivalma)… numa reviravolta difícil de explicar, os filhos, que antes tiveram de se defender do déspota, agora ajoelham-se diante do cadáver maquiado, o sacro boneco.

Há, enfim, uma característica que as fotografias e os cadáveres compartilham: o silêncio. O fotografado é mudo, o morto nem se fala. E se quisermos aproveitar um pouco das regalias que eles, sem esforço, conquistaram, talvez fosse melhor imitá-los: não dizer mais nada.

— P. R. Cunha

Trânsitos

Mulher maia do século doze
contempla a imponente escadaria
da Pirâmide de Kukulkán
«El Castillo»
ela sorri
sente-se orgulhosa do próprio povo
que construção magnífica
não percebe que quase
novecentos anos depois
homem holandês
tira fotografias
do mesmo templo
de Yucatã
& o que antes impunha respeito
poder & adoração
agora se faz ruína
paisagem para o álbum
de lembranças digitais

Cada dia
cada nuvem
cada chuva
cada neve
cada lua
cada noite
— a estranha renovação
a certeza de que
os impérios não perduram

Nem os maias
nem os incas
nem os gigantes
de pedra vulcânica
da Isla de Pascua

Um estado confuso entre
realidade & maravilhamento

Aceitar o facto
como diria um antigo
de que todas as coisas
são passageiras
eles também
ou melhor
nós também
em quedas

Mundo transitório
mudança ininterrupta
&tc.
algo havia
mudado
para sempre

Não respires a poeira lunar

Começas com uma imagem
um plano à cabeça
mas escreves com rapidez
de acordo com os teus impulsos

Causa & efeito
evento (A) no passado
gera evento (B) no presente
que afeta o evento (C) no futuro

A –> B –> C

O tempo segue
numa linha estreita
de (A) para (C)
o futuro incerto
depende das ações
do passado/presente

Como aquele casal
taciturno
sentado no banco do parque
enquanto na superfície da lagoa
vê-se uma mão
a chacoalhar.

— P. R. Cunha

A obra evolui em direções estranhas e imprevistas

Cansado de ser interrompido durante a fazenda do livro para lidar com sociabilidades, o escritor sonhava em adestrar dromedário para enviá-lo aos eventos que fora convidado em vez de comparecer pessoalmente.

Lançamentos de antologias, almoços familiares, rendez-vous na casa de um ex-colega de escola, leituras poéticas, festas de aniversário, casamentos, bienais, exposições fotográficas a preto e branco — dromedário estaria lá com a elegante corcova representando o escritor.

No alongado pescoço, o mamífero levaria uma plaquinha a dizer que:

«Dromedário frequenta o evento com se fosse o próprio escritor — por gentileza, trocar o uísque da praxe pelo bom e velho copo d’água.»

(Alguém [e o escritor ainda não pensara nisto com a devida seriedade] de certeza estaria por perto para auxiliar dromedário durante os pormenores fisiológicos.)

Em casa e sentindo-se menos culpado, o escritor daria prosseguimento ao próprio livro sem grandes percalços.

— P. R. Cunha

Ode aos cinzeiros

Incapaz de — como diria Stevenson — laborar em alguma atividade lucrativa com um zelo próximo do entusiasmo (a obrigação do acúmulo, etc.), rapaz confessa ao avô que quer escrever literatura.

O avô acende o cigarro, esfrega os olhos, está ficando cego, tem diabetes mellitus.

Há o célebre caso daquele empresário da cidade que queria tanto ser rico que quando percebera o primeiro milhão de US dollar na própria conta bancária não aguentara de entusiasmo e tivera uma taquicardia ventricular. O dinheiro, ao que parece, foi mais que o suficiente para arcar com os custos da funerária. 

Tinha 34 anos, o póstumo milionário.

É sem dúvida doloroso esperar por determinadas conquistas, trabalhar, abdicar-se, anular-se, para ao fim e ao cabo encontrar indiferenças ao próprio êxito, ou pior: a capa escura e reluzente da senhorita Morte.

O avô tateia a mesa à procura de alguma coisa e pergunta ao rapaz: queres mesmo ser escritor? O rapaz balança a cabeça para-cima-e-para-baixo. O avô finalmente encontra o cinzeiro e levanta-o com a mão direita: então escreve um poema para isto aqui, e se a indiferença do cinzeiro, a frieza glaciar do cinzeiro, se a total mudez do cinzeiro não te enlouquecer, saberás que fizeste a escolha apropriada.

— P. R. Cunha

Comboios

Cenário: inverno, 10h48 da manhã, dois amigos jogam pedras na lagoa; árvore retorcida à esquerda — atrás, a fachada de uma pequena estalagem para descansar indo de jornada.

* * *

[…] de início a coisa toda me estimulou muitíssimo, mas fui perdendo o interesse / isto sempre acontece contigo / o quê? / perder o interesse, começas com alvoroço, estás muito animado, e dali a pouco é como se nada te importasse, percebes?, tratas o assunto com aquela odiosa indiferença / [pensativo] pode ser, poder ser… mas a culpa não é minha, digo, não totalmente / e é de quem, então / ora, de vivalma / rá!, «vivalma», estás a falar daquele jeito engraçado de novo / de que jeito? / daquele jeito absurdo, livresco, como se fosses um personagem / [dedo em riste] shhhhhhhhhh!, precisamos de fazer silêncio / silêncio? / é, o poeta está a dormir / a estas horas? / poeta não escolhe hora / [bate o cajado na relva] tem cabimento… / ele acorda é solta uns grunhidos tristes, lamuriosos, ninguém aguenta [aponta para a janela] / e por que diabos aturam-no? / é elegante ter um hóspede poeta, não achas? / não / [furioso] é porque estás ranzinza feito um condutor de comboios! / [levanta-se, faz que vai embora, mas fica] não fazia mesmo a ideia de que condutores de comboios eram ranzinzas / pois nem eu, mas devem ser, ficam lá sentadinhos apenas observando a paisagem, não dirigem o comboio, o comboio apenas segue o carril, deve ser enfadonho / tenho a certeza de que não ficam apenas a observar paisagem / quem? / [suspira de forma impaciente] os condutores de comboios / e fazem mais o quê lá dentro? / diabos, nunca conduzi comboio para sabê-lo / então por que metes as tintas numa atividade que não tens a ideia? / [levanta-se novamente, limpa a grama que se acumulara na parte traseira das calças] disparate!, tu que começaste! / [calmamente] não, não [pausa], não comecei foi nada, estava apenas a explicar que de início a coisa toda me estimulou, e depois perdi o interesse, perdi completamente o interesse, e tu com essas ladainhas de comboio […]

— P. R. Cunha

Inconclusão das reticências

A ideia deste conto surgiu-me depois de revisar os estudos machadianos do amigo e professor Paulo Paniago.


Guillermo Jiménez e Suzana Bonnefoy casaram-se faz pouco. Eles estão agora na sala do novo apartamento: dois quartos, cozinha, varanda tamanho médio, área de lazer no térreo. Os cômodos ainda se mostram parcamente mobiliados. O restante das coisas deve chegar aos poucos, nas próximas semanas. Guillermo e a esposa estão sentados no tapete da sala a folhear álbum de fotografias. Muitos retratos do Guillermo em adolescente, com os familiares, a antiga casa na Ciudad de México, a piscina, os jantares, as férias em Oaxaca. Guillermo começa a se dar conta de que a grande maioria das pessoas que habitam aquele álbum de fotografias já morreu. Sem que a esposa perceba, ele solta um suspiro breve, melancólico — o suspiro, como se diz, de um homem momentaneamente abatido. Suzana, ao passar a página e deparar-se com o sorriso da irmã do Guillermo depois de um banho de mar em Acapulco, reflete, também em absoluto silêncio, se ela conseguiria sorrir daquela maneira, se ela é de fato sincera, se ela é quem deveria ser ou se apenas tornara-se o manequim que a mãe, a senhora Bonnefoy, tanto exigira que ela fosse. Suzana nunca se imaginara a contrair matrimônio, por exemplo. Lembrou-se de quando estava a cuidar do pai, o quase centenário Hubert. Eles passaram a morar juntos depois que a senhora Bonnefoy fugiu para Antuérpia com um russo que se dizia dono da equipe automobilística McLaren F1. Há este vestígio de memória em que Suzana tenta esconder que está a chorar. Não era um choro de tristeza, era aquele outro tipo de lágrima, que vem do desespero seco da culpa, do remorso. Acontece que numa madrugada ao levantar-se para o corriqueiro xixi noturno Suzana injuriou-se e pensara sentada na latrina como lhe seria um alívio ver-se livre do pai de uma vez por todas, que não aguentava mais, que precisava de respirar, e o sr. Hubert não a deixava respirar, etc. De aí, na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço, o velho Hubert engasgara-se com o caroço da tangerina, e a cena foi qualquer coisa de filme de terror, Hubert a segurar o pescoço com os dedos de Drácula, Suzana a pressioná-lo de todos os jeitos, tapas nas costas, soco nas costas do velho, o rosto vermelho do velho, os olhos que tentavam sair de órbita, a língua roxa do velho, o caroço da tangerina a escapulir da boca juntamente com a dentadura, o Hubert sentando-se à mesa com as mãos no coração a dizer: ufa!, essa foi por pouco. Guillermo coça a parte inferior da coxa direita, o tecido felpudo do tapete começa a incomodá-lo. Ele conjectura de que forma o casamento vai lhe afetar os processos criativos, a rotina literária, como ele vai encontrar tempo e disposição para escrever o próximo livro, a grande obra, magnum opus, um livro-prefácio, prefácio tão grande que o leitor morreria antes de chegar ao texto propriamente dito, à moda Macedonio Fernández, bajula-se Guillermo, Museu do romance da Eterna, que nunca encontra sítio algum, antologia de prólogos, sim, livro-prefácio que jamais seria alcançado, introdução com quatro mil páginas, enquanto a narrativa per se teria apenas duas laudas, para não cansar as vistas do leitor, fantasia Guillermo, que prometera «colocar a caneta à obra assim que a escrivaninha chegasse». Suzana agora encosta a cabeça nos ombros do Guillermo, comentam miudezas despretensiosas sobre o álbum de fotografias da família Jiménez, ambos tentam agir como se nada estivesse acontecendo, não querem levantar suspeitas, não agora, recém-casados, muito cedo. Em cima do fogão, cujo gás ainda não fôra instalado, permanece imóvel a brochura de O amor acaba, coletânea de crônicas líricas e existenciais do Paulo Mendes Campos, composta em tipologia Electra, impressa em ofsete pela Geográfica sobre papel pólen soft para a editora Companhia das Letras, março de 2013.

— P. R. Cunha

A estalajadeira

Eu não sou uma assassina nunca fui uma assassina meu pai que deixara esta estalagem a mim e ao meu irmão mais novo costumava dizer ora filha tu não matarias nem uma mosca quiça um ser humano de forma que ainda não consigo explicar completamente o que me aconteceu àquela tarde de domingo quando o homem entrou na nossa estalagem e meu irmão mais novo que aliás se chama Durval e é talvez o rapaz mais singelo e amável e prestativo que já andara neste planeta o Durval deu as boas-vindas ao homem que usava um chapéu tipo cowboy e pediu um quarto cujo sol vespertino não batesse nas janelas e pagara três dias de forma adiantada em dinheiro vivo como se diz lá na cidade e o Durval levou as malas do homem para o quarto com sol nascente e o homem ficara trancadinho no quarto durante dois dias e nem sequer conseguíamos ouvir os passos dele e o Durval meio que comentava aos sussurros que o homem podia ser criminoso desses que surgem do nada e ficam calados à espreita calculistas só esperando o momento certo para agir e ao pensar nessas palavras do Durval sinto gelar-me o sangue fico com os calafrios até que na noite do terceiro dia o homem apareceu ainda com o chapéu cowboy a barba por fazer era um homem bonito com olho verde-claro parecia mesmo um desses viajantes solitários que tantas vezes recebemos e que passam dias inteiros num silêncio ininterrupto e que de certa forma nos agradecem por lhes dirigir a palavra mas este homem não nos agradecia não falava não olhava apenas desceu as escadas da estalagem e sentou-se no pequeno sofá da recepção que deixamos mais à guisa de decoração do que para ser utilizado propriamente e posso contar nos dedos as vezes em que um dos nossos hóspedes de fato sentara-se naquele sofá que segundo a lenda foi montado pelo nosso avô materno mas disto eu não tenho a certeza nunca se pode ter a certeza de nada e agora lá estava o homem com o chapéu de cowboy sentado no sofá montado pelo nosso avô Hofmann a mascar qualquer coisa e eu atrás do balcão a observá-lo enquanto tateava o claviculário para fingir que estava fazendo alguma atividade para não levantar suspeitas e o homem nada e o homem nada e o homem nada apenas mascava até que tudo aconteceu eu abri o pequeno armário que fica em cima do balcão e tirei a pistola que o nosso papai guardava para o caso de algum intruso indesejável se meter nas gracinhas com a gente e apontei a pistola para o chapéu cowboy e o dono do chapéu cowboy não teve nenhuma reação talvez nem tenha se dado conta de que eu estava a segurar a pistola que eu estava a apontar a pistola na cabeça dele sou boa de tiro sou muito boa de tiro costumava treinar em menina e aquela frieza glaciar do homem me deixava ainda mais furiosa e comecei a escutar um barulho forte como pegadas de um gigante era um barulho mesmo grave gravíssimo como se o Durval estivesse no andar de cima a bater uma daquelas bolas de ferro que os construtores utilizam para demolir edifícios um barulho abafado por vezes ensurdecedor e o homem com chapéu de cowboy permanecia inerte sentado no sofá Hofmann mascando e por um momento antes de apertar o gatilho acreditei que o barulho da bola de ferro vinha da boca do homem com chapéu à cowboy até me dar conta de que eram na verdade as batidas do meu coração.

— P. R. Cunha

Armazém intracraniano

O nosso cérebro é uma gaveta. Enchemos a gaveta com toda a espécie de coisas. Podemos chamar essas coisas de «informação».

No armário da casa de alguém há uma gaveta: se abrirmos encontraremos camisas, meias, uma caixa de ferramentas, joias, fotografias, etc. etc.

A gaveta não reclama, apenas recebe. Perguntamos a ela se quer ou não receber umas calças, a coletânea de enciclopédias dos nossos avós, artigos desportivos, computador, cabos. A gaveta nada diz.

Colocamos os ítens lá dentro e isso é tudo.

Claro que podemos levar em consideração as capacidades da gaveta: aguenta muito peso?, é espaçosa?, fácil de abrir?, o material é resistente?

Cérebro, gaveta de informações, eis do que estamos a falar aqui.

Ao sairmos para uma caminhada matinal, observamos os elementos à volta — os automóveis, as árvores, o voo rasante de um pintassilgo, o miúdo a chutar a bola. Estamos a preencher a nossa gaveta.

Gostava de acrescentar isto: nosso sistema encefálico não possui juízo de valor. Podemos assistir ao telejornal, escutar as sinfonias de Haydn, ler Rimbaud, acompanhar uma partida de curling. Para o cérebro-gaveta dá na mesma. Ele armazena.

Imagens: uma esponja que absorve o líquido que se acumulara na pia; o buraco negro a consumir matéria cósmica.

A pessoa que guarda para si informações trágicas, violentas, catastróficas, contraditórias, alarmantes — possivelmente deitar-se-á na cama com pavores. Tem sonhos intranquilos. Acorda com as angústias.

Abrimos novamente a gaveta desse ser humano afoito e dizemos: paletó já muito fora de moda, meias furadas, a bermuda não lhe cabe, o martelo está sem cabeça, etc.

— P. R. Cunha