Sr. Anselmo – parte 6

Se existe uma característica que amiúde impressiona muitíssimo o sr. Anselmo é o grau de erudição da sociedade moderna: quando há uma crise financeira, todos são economistas; diante de um crime, todos são juízes; ao analisar um gráfico, todos são estatísticos; nas discussões do condomínio, todos são síndicos; numa pandemia, todos são infectologistas; se há falta de energia, todos são eletricistas; nas ruas, todos são democráticos; se assistem ao noticiário, todos são jornalistas; na igreja, todos são santos; na escola, todos são professores; em política, todos são presidentes. Mas o que o sr. Anselmo ainda não consegue compreender (e se calhar nunca compreenderá) é o motivo de, a despeito de contarmos com tantos especialistas vociferais, as coisas continuarem a dar para o torto.

— P. R. Cunha

O violoncelo

Para a Marcella Cunha, minha irmã

O violoncelo é um instrumento robusto. Se — a título de entretenimento — colocássemos roupa humana no violoncelo, ele ficaria parecido com uma pessoa de estatura mediana. Inclusive, a forma como o violoncelista toca o violoncelo lembra muito a maneira que duas pessoas se abraçam. O violoncelo parece um contrabaixo, mas não é um contrabaixo, é outra coisa. O violoncelista experimenta sons no violoncelo, aperfeiçoa-se com o tempo. Numa altura, violoncelista-e-violoncelo parecem um só organismo. O violoncelista dedilha as cordas do violoncelo e acredita-se um deus acústico. O prazer que sente o violoncelista ninguém lho tira. Podem jogar maçãs no violoncelista, baldes d’água, terra, lama, podem cuspir no violoncelista que ele continuará tocando. E mesmo que o teatro lhe caia sobre a cabeça, e o aglomerado de pedras, cascalhos e areia comece a lhe sufocar, ele continua tocando.

— P. R. Cunha

A demonstração

O pacato Gerson entra numa loja de armas e munições chamada MIRAGEM. Trata-se de um desses estabelecimentos com sininho na porta. Abre-se a porta, o sininho toca, Gerson entra e Eduardo — dono da MIRAGEM — observa o potencial cliente se aproximando de um fuzil 762 semi-automático. Eduardo vai até lá fazer-se à disposição: vejo que o senhor está em busca de potência, o dono diz enquanto retira o fuzil do mostruário. Gerson dá de ombros, como se tentasse não se impressionar, como se já tivesse visto armas muito mais mortíferas do que aquela, o que não é necessariamente verdade. A título de demonstração, Eduardo aponta o fuzil 762 na direção da cabeça de Gerson e sem saber que a arma havia sido carregada pelo funcionário do turno da manhã aperta o gatilho.

— P. R. Cunha

O currículo

Sérgio Retallack, responsável pelo processo seletivo de funcionários da Info&Cie., ajustou a moldura do certificado UMA DAS 100 MELHORES EMPRESAS PARA SE TRABALHAR – 2019. O candidato ao emprego observara a cena sem mover o pescoço. Retallack sentou-se novamente na cadeira executiva giratória, folheou o currículo do candidato uma última vez e disse: impressionante!, realmente impressionante. O candidato até tentou, mas não conseguiu esconder um vaidoso esboço de sorriso. No entanto, prosseguiu Retallack, sinto dizê-lo que não poderemos contratá-lo, senhor… (aqui o responsável pelo processo seletivo de funcionários da Info&Cie. torna a pegar o currículo do candidato) …senhor Boaventura, isto, senhor Augusto Boaventura. O candidato parece confuso. Você vê, a nossa mais nova política de relacionamento preza, antes de mais nada, pela disponibilidade, disse Retallack, e como não pude deixar de notar (aqui Retallack joga desdenhosamente o currículo do candidato sobre a superfície lisa e lustrosa da mesa feita com madeira de sândalo [uma das madeiras mais caras do mundo]), sim, como não pude deixar de notar, o senhor não possui nenhuma rede social, nem ao menos uma conta no Twitter, senhor Boaventura, ao passo que, bem, ao passo que não poderíamos observá-lo, quero dizer!, avaliá-lo da forma que gostaríamos, o senhor compreende, não compreende?

— P. R. Cunha

O café

Há um café ao qual o sr. Vargas vai todas as manhãs para tomar o pequeno-almoço. E isto assim se passa há mais de trinta anos. O sr. Vargas acorda, banha-se, veste-se, vai ao café, toma lá o pequeno-almoço. O café fica perto do apartamento do sr. Vargas, de modo que ele vai caminhando. Essas caminhadas muito agradam ao médico do sr. Vargas, que estava a ficar preocupado com o sedentarismo do velho paciente. Havia uma altura, reflete o sr. Vargas, havia uma altura em que as pessoas íam aos cafés para olhar outras pessoas a tomar o pequeno-almoço, ou a comer a torta de morango, ou apenas para fingir que liam o jornal enquanto observavam as outras pessoas convivendo às mesas — e assim por diante. Acontece que agora os cafés têm Wi-Fi. E por terem Wi-Fi acabam por receber um dos tipos mais capciosos de clientela: o escritor de café. O perfumado escritor de café com o próprio computador, os auscultadores Bluetooth, a cabeça orgulhosamente erguida, como uma girafa ao público, impossível de não se notar. Por todos os cafés há assim um disparate dessa laia, pensa o sr. Vargas. E isso bole-o com os nervos.

— P. R. Cunha

A marca

Um vento vespertino soprara as cortinas da sala de Charles, que, sem tirar os olhos da TV, levantou-se para fechar as janelas. Sentou-se novamente no sofá e tateou a mesinha de centro à procura da chávena de café. Enquanto levava a chávena aos lábios, Charles percebeu uma pequena mancha escura no metacarpo da mão direita, perto do polegar. Estranho, ele disse, nunca tinha notado isto. Ele foi ao banheiro a ver se a mancha saía com água e sabão. Não logrou êxito, a mancha continuava ali. Foi até ao quarto, desconectou o telemóvel da tomada e digitou números. Senhora com voz de quem fumara a vida inteira atendeu. Mãe, disse Charles, estou com uma mancha escura no meu metacarpo. Depois de um breve silêncio, a voz rouca disse: mão direita? Charles respondeu que sim. Ora, continuou a mãe, é a tua mancha de nascença, nunca tinhas percebido? Trocaram ainda algumas miudezas da praxe e despediram-se sem muita cerimônia. Charles levantou as mãos contra a luz do quarto: estranho, muito estranho, ele disse. Depois jogou-se na cama, a pensar em todas as coisas que nunca percebera em si mesmo, no próprio corpo, na própria pele.

— P. R. Cunha

O arquétipo

Escritor com cabelos desgrenhados, a barba rala que mal consegue cobrir as bochechas avermelhadas pelo frio e cujos olhos estranhamente desorientados parecem incapazes de manter qualquer foco. Pode um homem embebedar-se com tanto afinco de espírito (sublinhado nosso) ao cálice da desconfiada Língua Portuguesa ao ponto de perder, como se diz, os próprios botões? Escreveu em português, amou, odiou, lembrou em português, pesquisou, leu, fora afogado pela publicidade, vendeu, comprou em português, sonhou, chorou, comeu em português até sentir a falta de ar, como se prestes a oferecer o derradeiro suspiro antes que as ondas de letras pudessem levá-lo algures. De modo que, a título de sanidade, o escritor se afasta do idioma materno. Decide-se pelo silêncio, ou pelas entranhas russas. Temporário? Não chega a ser necessariamente um período de desintoxicação, é mais um estágio de descompressão. Reajustes, se preferirdes.

— P. R. Cunha