Preparação literária em hipóteses (considerações finais)

Como é que mostro a minha admiração em relação a um texto? Principalmente ao lê-lo muitas vezes, ao gostar imenso dele enquanto o aprecio, ao citá-lo, remodelá-lo, possuí-lo, etc.

Peguemos emprestada esta ideia: ao lermos um livro que nos agrada fazemos gestos e expressões faciais que seriam aquilo a que se chama de gestos de aprovação. Aprende-se a artimanha, disse Wittgenstein, adquiri-se um juízo cada vez mais refinado. Filtramos.

O público-leitor, podemos repetir quantas vezes quisermos, é, antes de qualquer outro, o próprio-escritor. Escritor que escreve para aproveitar o presente — pois a posteridade, dói admitir, pode não vos dar a mínima. Além disso, estaremos com terra na boca, dentro de um caixão.

«Escrevo para visitar-me: pintar, compôr, escrever, sim, visitar-me», disse Henri Michaux, que se queria nenhures.

Schöpferische Indifferenz, não eram esses os termos que os germanófanos (pensemos em Schnitzler, Jünger, Kleist, Tieck, Kafka) gostavam de utilizar? «Indiferença criadora.»

Se ninguém me leu…, paciência.

Como aquelas mensagens que, no leito de morte, com respiração ofegante, o moribundo ainda teve tempo e forças para exprimir.

Não é propriamente literatura, mas compartilho convosco as últimas palavras de Beethoven, adequadas ao contexto: e a comédia, enfim, acabou. 

Escrever como se a comédia pudesse acabar a qualquer momento.

E nesta cidade do acaso, neste emaranhado de ruas da sorte com que a literatura por vezes se assemelha, talvez alguém decida abrir as páginas da vossa morada, visitar o vosso livro, permanecer um bocadinho aos vossos verbos. Fascinantes possibilidades.

— P. R. Cunha

Por um distanciamento literário

Não há — ou pelo menos não deveria haver — receita de como se apreciar livros.

Alguns preferem a leitura inspecional, outros demoram meses em determinado capítulo, alguns tomam notas, outros só querem se distrair. Os estudiosos, os que estão à procura de lazer, os que leem para se descrever depois. Mistério, romance, suspense, ficção científica, filosofia, variedades, banda desenhada, biografia, história. Na praia, na aeronave, em casa, na biblioteca, no chacoalhar do autocarro, enquanto se espera o metropolitano na estação.

Numa saudável metamorfose esses hábitos se misturam e se multiplicam e se contradizem e se adequam a contextos específicos.

Neste processo adaptativo parece-me essencial o respeito pela inteligência do leitor. A leitura é lá uma atividade dinâmica, ativa. Quem lê participa, destrói, constrói, recria, nega, confirma. 

Ler como forma de entretenimento/aprendizagem que envolve o imaginário (i.e.: fantasia) de quem está diante das palavras.

Uma das grandes satisfações da leitura parece ser aquela sensação de posse que o leitor por vezes sente enquanto domina determinada obra. Certos trechos nos fazem pensar: céus!, gostava tanto de ter escrito isso.

E talvez essa posse seja mais provável se existir discrição durante o ato da leitura. O autor (e, principalmente, o tradutor) como que se retira do palco, o teatro de possibilidades pertence agora aos leitores, que adequarão as cenas a seu, como se diz, bel-prazer.

Em 2005, quando pela primeira vez me deparei com a obra de W. G. Sebald — o meu escritor favorito — ele já estava morto há quatro anos. As páginas com voz fantasmagórica ofereciam-me uma experiência paradoxalmente revigorante. 

Era mais do que um simples diálogo, era uma espécie de psicografia agnóstica.

Algo parecido me ocorre ao ler Carver, Maupassant, Lima Barreto, Orwell, Sérgio Porto, Calvino, Montaigne, Bernhard, Lovecraft, Burton, Sterne, Cervantes… São conversas secretas, fazemos parte de uma confraria metafísica, longe do escrutínio de toda a gente.

Nesta altura poderiam me perguntar se só consigo ler escritores que já morreram.

Minha maior dificuldade com a literatura contemporânea é o culto à exposição. Isto, aliás, valeria para qualquer outro tipo de atividade criativa.

Meu avô costumava dizer que gostava imenso de Pink Floyd porque não fazia a ideia de como era a vida íntima dos integrantes da banda. Havia qualquer coisa de misterioso nisso. Para o meu avô, as letras, os acordes, a atmosfera onírica dos Floyds eram elementos quase mágicos que surgiam após longos invernos introspectivos. Os álbuns eram o produto dessa fuga (vide Atom heart mother).

Diante das exigências mercadológicas, os escritores precisam de vender. Precisam de estar em toda a parte, fazer palestras, realizar aquelas enfadonhas e disparatadas leituras públicas, e, alas!, precisam de se manifestar em redes sociais.

As redes sociais cibernéticas são a ceifa da literatura, isso é certinho.

Observar escritores no Twitter, no Facebook, no Instagram, brigando, babando, xingando, discutindo, ignorando e sendo ignorados é como assistir a um freak show sem pé nem cabeça.

Restam os autores discretos que não atenderam ao imediatismo das participações digitais, os resistentes. Ou os mortos, que não têm Twitter.

Sim, não deveria haver receita de como se apreciar livros. Mas a privacidade, as idealizações fantásticas, a reserva, a ausência de ruídos externos, o distanciamento saudável são ingredientes dos quais muitos ainda sentem falta ao degustar um pedacinho da torta literária.

— P. R. Cunha

Sobre a indústria dos «likes» e não só

Foi-se o tempo em que o escritor podia ficar em casa a escrever sossegado, a receber os cheques da editora, depois lançava o livro, comparecia a um par de eventos promocionais, dava algumas entrevistas, voltava ao próprio escritório para que o ciclo recomeçasse.

Vive-se hoje na era da participação, do compartilhamento, do gostei-não-gostei. Era dos likes — os onipresentes botões (coração vermelho, sinal de joinha, estrela etc. etc.) que por vezes se transformam em símbolos superestimados. Comparo-os com a tecnologia nuclear, que pode gerir imensa quantidade de energia (estímulos positivos), mas também constrói bombas devastadoras.

Há pouco tempo um blogueiro enviara-me a seguinte mensagem: percebo que você não dá likes nas minhas publicações, então vou deixar de dar likes nos seus textos. Assim, curto e grosso. 

O que está acontecendo aqui?

Compreendo que muitos leitores utilizam essa ferramenta (na falta de melhor termo) para mostrar ao autor que leram, que apreciaram de verdade o que estava escrito. A valsa, no entanto, costuma ser um bocadinho mais fúnebre.

Comecei a notar que alguns utilizadores da Romênia e da Turquia apertavam constantemente o botão de curtir das minhas publicações. A parte vaidosa do meu cérebro dizia: que barato!, romenos e turcos a ler os meus devaneios. Enquanto a parte racional aterrava-me sem piedade: por que cargas romenos e turcos leriam as coisas que tu escreves, cidadão? 

Daí acessava o sítio web deles, e não entendia nada, e obviamente não dava like nenhum. Com o tempo, os likes das minhas publicações também sumiam. Alas!, romenos, e turcos, e gregos, e paquistaneses de súbito perderam o interesse pela minha literatura trópico-experimental.

Repito: o que está acontecendo aqui?

Estamos atrás de leitores ou de recompensas? (Fico a pensar se a resposta explicaria fenômenos recentes como o jogo de caçar Pokemón.) Fulano pode ter ao rodapé do próprio blogue uma infinidade de likes, gentes de toda a parte do planeta, gentes que só estão a dar likes para receber likes de volta. Não pretendem ler, muitas vezes não fazem a ideia do que se trata, querem apenas a troca, a premiação, os diplomas na parede eletrônica. «Vê, mamã, quantas pessoas gostaram da minha receita de musse de maracujá que publiquei em sânscrito.»

Egotismo à parte e em termos evolutivos, minhas rotinas literárias talvez se aproximem mais dos modos de escritores de um passado recente — não é Montaigne, é DeLillo; nem Platão, é Wittgenstein. Ao mesmo tempo, procuro estudar sobre o que significa ser humano nos dias atuais, no século vinte e um, 11 de novembro de 2019, por isso tento manter este recanto cibernético abastecido.

É uma válvula, não um jogo de trocas. Uma busca — muito provavelmente, uma busca eterna.

O desafio seria sobreviver aos bytes-and-bites sem ser abatido pelos caçadores de recompensa. Pois, como diria David Foster Wallace, os escritores de ficção tendem a ser mirones ávidos, tendem a espreitar e a fitar, são observadores natos, espectadores, são as pessoas que vão no metropolitano e que têm qualquer coisa de certa forma sinistra no olhar desprendido. Porém, continua o sr. Wallace, os escritores de ficção tendem a ser extremamente autoconscientes. Tal como dedicam imenso tempo produtivo a analisar a impressão que as outras pessoas lhes causam, também dedicam imenso tempo produtivo a interrogar-se nervosamente sobre a impressão que causam às outras pessoas.

A consequência, conclui o sr. Wallace, é que por norma a maioria dos escritores de ficção não gosta de ser objeto da atenção das outras pessoas. Muito menos de se sentir o objeto das outras pessoas. Contudo, pelos vistos, é justamente isso que os meios de comunicação modernos estão a fazer connosco: meros replicantes descartáveis a apertar likes com a falsa promessa de que isso significa participar.

— P. R. Cunha