P. R. Cunha reflete brevemente a respeito do P. R. Cunha / palavra de honra

Sou o louco da família, segundo a minha própria família; sou o estranho, o absurdo, o distante, o engraçado, temperamental, bipolar, tênue, carinhoso, explosivo. Quando não escrevo, pratico o cycling (moderado) e a vipassana meditation (em sânscrito: विपश्यन). Não creio muito nos deuses, já vi fantasma(s), acho que o meu falecido pai está a me observar — não sempre, às vezes, à noite, ou quando a casa mostra-se «vazia». Gosto de me fingir de escritor perturbado, escrevo todos os dias das oito e trinta às onze e trinta da manhã. Gosto de, como se diz, meter o bedelho nas coisas para as quais não dou a mínima. Não sou muito bom em descrever cenários, prefiro mostrar aquilo que se passa dentro da cabeça das personagens. Só no escrito é que me sinto seguro (refugiado! [imagem do exílio]), utilizo as prateleiras da minha biblioteca como muralha para o mundo. Meu escritor favorito é o W. G. Sebald. Sim, W. G. Sebald — para sugerir a imagem do intelectual outsider e pouco compreendido que também pretendo encarnar. Etcétera.

— P. R. Cunha

Praia de Icaraí

«A evasão de P. R. Cunha para dedicar-se algures integralmente ao xadrez causou nesta família uma impressão profundamente desagradável.»
Notas de minha mãe

Foi preso ontem, às onze horas da noite, um enxadrista brasiliense que se achava embriagado, completamente fora de si e provocava desordem em um boteco na rua Mariz e Barros, Niterói. Na ocasião de ser conduzido para a delegacia, tentou surrar o rondante com um chapéu-de-chuva, que trazia consigo. Ninguém se feriu.

O que disse o delegado a respeito do enxadrista brasiliense: o que é certo é que muito raramente aparecem aqui meliantes deste gênero — intelectual, jogador de xadrez, e pelos vistos ainda escreve romances. Não deixa de ser uma pena, posto que são excelentes conversadores.

Como vais?, o delegado perguntou para o jogador de xadrez. Bem, respondeu o jogador de xadrez com uma resignada tristeza. Já não sofres?, perguntou o delegado. No físico, disse o jogador, no físico, passo às mil maravilhas.

O enxadrista brasiliense, que está na 467ª posição do ranking mundial, foi liberado hoje pela manhã. E isso tudo é confuso demais.


» Malas prontas para Niterói

prcunhaniteroiriodejaneiro