Versos satíricos (uma réplica)

Num determinado encontro de escritores brasilienses — que ocorrera no Setor Comercial Sul e ao qual (felizmente?) não compareci — fui, segundo fontes críveis, citado por um dos participantes que utilizara de tais palavras para descrever a minha postura literária: «P. R. Cunha é um tipo completamente alheado do mundo, que não consegue compreender que o Brasil está a passar por um momento de exceção, e que não trata, pelo menos no seu blogue, das coisas que realmente importam» etc.

Não sou um sujeito belicoso. Poderia apenas desculpar-me e dizer ao supracitado vivente que há vários sítios mais calorosos do que este em que costumo me expressar sem pretensões homéricas, e que se as coisas que realmente importam estão alhures, pois fique então com alhures. Mas talvez seja altura de, como se diz, colocar os pingos nos is.

Quais são as intenções deste espaço eletrônico, o que o autor pretende com o blogue?

Como já comentei inúmeras vezes: um médico pratica a medicina, um professor ensina, um pesquisador pesquisa, e um escritor… bem, um escritor escreve. E se o escritor levar a sério a empreitada, ele vai escrever praticamente todos os dias. Mesmo que não escreva no papel, pode estar a fazê-lo mentalmente — enquanto passeia com uma adorável companhia, está também a tomar notas abstratas dentro da própria cabeça para uma breve posteridade.

Há os livros que precisam de ser escritos, e revisados, e editados, e enviados aos prêmios literários. E há aquela descompromissada produção que acontece nos interlúdios da fazenda livresca; tudo aquilo que não é aproveitado no livro, ou que não tem nada que ver com o tema do livro. É esse material que costumo publicar aqui no blogue.

Nunca sei se realmente valerá a pena disponibilizá-lo. Faço-o, porém, para que o excedente não se perca dentro das gavetas da minha escrivaninha. E, afinal, mostro-me aqui sem os filtros da praxe, sem ambições, vivendo num brando isolamento, liberto de sugestões e influências selváticas. Em tais medidas, corro o risco de não ser lido, ou mesmo de ser acusado de «não tratar das coisas que realmente importam».

No entanto, como diria um antigo, se este raciocínio intimidasse a todos, imaginem o que se teria perdido. Porque por vezes acontece de voltarmos com as melhores experiências justamente daquelas caminhadas para as quais não dávamos a mínima.

A verdade é que a World Wide Web é lá uma feira onde se encontra mesmo de tudo. Se as maçãs desta tenda estão podres, o ilustre leitor pode (e deve) procurar mercadorias mais apetitosas noutras barraquinhas. Porque nunca lhe faltará sumo mais intrigante, ou vendedores com verve à manifesto. 

— P. R. Cunha

Carta para a J.

Minha adorável criatura,

Eis que há pouco completei as trinta e três voltas ao redor do Sol e sinto-me cá como se estivesse para fazer os noventa anos. Não foi uma jornada perfeita, longe imenso disso. Quando olho para trás, vejo também um rastro de decepções, promessas quebradas, lágrimas, palavras hostis, abandonos, mentiras e não só. Mas de aí você me apareceu, como uma nova chance, uma luz, uma vela — um norte. Minha oportunidade de, finalmente, fazer o certo, sem lembranças aterradoras, já com o meu coração calejado, maduro, depois de chumbar em incontáveis disciplinas na chamada escola da vida. A primeira vez em que nos encontramos percebi o tanto que você é bela e graciosa e você não usava um pingo de maquiagem. Conversamos durante um par de horas, você a falar sobre os números, sobre as estatísticas, os enormes olhos castanhos que brilhavam a cada equação. Logo me vi completamente apaixonado pelo seu computador orgânico (i.e.: cérebro). Você me entusiasma, você colore as paredes brancas e enfadonhas da minha existência retrátil. Você tem o melhor cheiro do mundo, você se veste muito bem, você me faz rir, você é muito paciente comigo. Você é linda. Você é perspicaz. Vamos envelhecer juntos, ser vovô e vovó — de mãos dadas.

Hoje eu só precisava de lhe dizer essas coisas.

— P. R. Cunha

Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

Síndrome das pernas inquietas (restless legs)

Escrever é estar escrevendo, não é uma coisa — é gerúndio, processo. Eu hesito e ando atento enquanto descrevo, porque não sei o que vai acontecer. Há várias esquinas, precipícios, inúmeras possibilidades; preciso de decidir a cada momento. Sempre uma surpresa.

Quem diz: eu entendo o que é escrever, entendo perfeitamente do que se trata; quem diz isso, na verdade não entende patavinas. Por outro lado, aquele que não diz que compreende o ato de escrever, que não pensa que o entende, que não finge entendê-lo e nem mesmo quer entendê-lo — voilà, este sim sabe do que se trata.

Perguntamos a outro escritor como devemos escrever e logo percebemos que a pergunta não faz sentido, é perda de tempo, pergunta absurda, pois o escritor só pode falar sobre a sua própria escrita. E nunca, nunca dois escritores são iguais.

O que os outros dizem sobre literatura não tem importância.*

Alguém pode muito bem escrever livros sobre literatura, crítica do romance, e nunca ter passado pelo estágio de angústia — aquela angústia inquietante antes de criar narrativas aparentemente do nada, angústia de brincar de deus. Alguém pode tornar-se muito eficiente, muito esperto em argumentações intelectuais de toda a natureza, perito em apontar os escandalosos defeitos da obra alheia, e esquecer-se completamente de que é incapaz de construir um parágrafo decente, um personagem sequer, esquecer-se de que esse tempo em que esteve absorto em atividades pedantes e autodestrutivas, de que esse tempo foi um tremendo desperdício de energia, papel, dinheiro, matou árvores à toa.**

Podia estar lá fora, esse alguém, de repente pedalar uma bicicleta, alimentar patos num lago qualquer. Podia. Mas tranca-se num gabinete escuro e poeirento, mete-se a falar sobre o romance de Fulano, pensa que conhece todas as teorias literárias, todas as escolas da literatura mundial, embora esse alguém saiba que jamais conseguirá escrever um romance, um continho, um aforismo. É isso o que está acontecendo.

Entra numa livraria e vê a quantidade absurda de livros que tratam de outros livros. O apanhador no campo de centeio segundo Sicrano; Grandes esperanças de acordo com Beltrano etc. Muita argumentação, muita disputa, muito debate — conflitos desnecessários.***

— P. R. Escritor


*Que a literatura esteja difamada como um produto bastardo; que sua forma esteja desgastada e careça de inovações (i.e., revoluções); que seu passado tem sido negligenciado, tudo isso já foi dito e repreendido o bastante — vide Adorno (apropriar [ensaio = e ≠ notas de literatura]).

**Romancista de gêneses é um guerreiro muito corajoso. Os críticos (com raras exceções [James Wood, Susan Sontag {as páginas sobrevivem}, Roland Barthes {as páginas sobrevivem²}]) — criaturas à Leviatã.

***O leitor inicia determinado texto no ponto X; ao final, precisa de estar algures, longe. Do contrário, o escriba não exercera a própria função com dignidade.

Autoestrada

O automóvel está a trepidar como se tivesse a doença de Parkinson. É o pneu, ela diz. Ele segura o aro do volante com força. O pneu, ela repete. Ele para o carro no acostamento, aperta o botão do pisca-alerta. A estrada está vazia, é início de tarde, talvez 14h. Com as costas das mãos ele enxuga o suor que desliza sobre a testa. O pneu furou, tenho a certeza disso — ela diz. Ele abre a porta, sai e dá uns pontapés no pneu dianteiro esquerdo. Furou, ela diz, imóvel no banco do passageiro. Uma camioneta amarela passa em alta velocidade; ele limpa as mãos na bermuda e acompanha a camioneta até ela desaparecer no horizonte da estrada. O pneu furou mesmo, ela insiste e depois cospe um pouco de tabaco mascado com evidente desdém. Ele então começa a rir, uma risada ruidosa, uma risada de louco.

— P. R. Cunha

A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Então você investiu dinheiros numa obra literária — chegou em casa, sentou-se à escrivaninha e começara a folhear o livro. Alas!, trata-se de uma narrativa horrorosa, ilegível. Você, naturalmente, está agora a se sentir um bocado lesado e diz para consigo mesmo: que assim não fica, preciso de reclamar com o autor, gângster, salafrário, bandido etc.

Mas como fazê-lo?

A verdade é que quando o escritor escreve algo ruim ele acaba descobrindo de um modo ou de outro. Percebe quando se dá mudança de atenção, descobre pelo jeito diferente que dele se afastam, por se evitar comentário, pelo rosto choroso da mamã que arranca os cabelos a pensar: e o gajo largara tudo para escrever e ainda me escreve isso —, ou mesmo pelo modo indiferente da suposta pessoa amada que não consegue esconder ojeriza.

Noutros termos, quer se diga claramente ao escritor ou não, ele tomará conhecimento de alguma forma. Ao passo que saber compartilhar uma crítica com um literato (i.e.: o senhor vai me desculpar, mas o seu livro é terrível, odiei-o) é sem dúvida uma verdadeira arte.

Respire fundo, acalme-se: comunicar a notícia de maneira branda e gentil faz com que o escritor continue depositando esforços para quem sabe um dia aprender o próprio ofício adequadamente.

Quanto mais simples o modo de se expressar, mais fácil é para ele ponderar depois. Alguns apreciam quando recebem a crítica na intimidade do próprio gabinete, através de carta convencional e/ou electro-carta. Mostre que você possui um coração e evite, portanto, recorrer de imediato às redes sociais ou aos tabloides irascíveis — isso magoaria imenso o sentimento alheio. 


Post scriptum: não se surpreenda, no entanto, se mesmo depois de tanto zelo receber respostas belicosas do escriba, tais como: Tu que não compreendes patavina de literatura; Eu cá sou o melhor escritor do mundo, não te devo um vintém; Nunca escrevi para leitores d’esta geração, minha obra é para aqueles do futuro; e assim por diante.

— P. R. Cunha

Teatro Nacional

Uma semana antes daquela que seria muito provavelmente a apresentação mais importante da história da Orquestra Sinfônica de Brasília, o maestro Zaleski comentou com os músicos durante o ensaio que não pretendia, de forma alguma, participar do evento, atitude que gerara uma série de boas gargalhadas e comentários divertidos, afinal todos tinham a certeza de que o renomado maestro Zaleski estava apenas a brincar. Na noite da apresentação, à qual estiveram presentes diversos líderes mundiais, o maestro Zaleski de fato desapareceu, e como nunca chegasse ao Teatro Nacional, o espetáculo teve mesmo de ser adiado por não ter sido encontrado substituto a tempo. A polícia investiga a respeito e não descarta nenhuma possibilidade.

— P. R. Cunha