Ruído vermelho

Ele acordou com o barulho das sirenes lá fora. Como que por reflexo, virou-se para o relógio com números digitais verdes: 3:42 AM.

A verdade é que ele nunca conseguia distinguir ao certo se eram sirenes da polícia ou da ambulância médica. 

Às vezes ele voltava a fechar os olhos bem depressa e concentrava-se o máximo que podia para perceber os últimos vestígios do efeito Doppler.

Barulho de sirene a desaparecer…

Ele imaginava perseguição de automóveis, algum criminoso hostil que acabara de fugir da penitenciária juntamente com outro bandido que dirigia uma espécie de carro esportivo retrô, conversível, tipo Lincoln Continental 1961, aquele em que o F. Kennedy fora assassinado. 

Nessa altura ele arriscava-se a pensar que eram sirenes da viatura policial. Só podiam ser.

Noutras vezes ele visualizava uma velha senhora a morar sozinha porque havia sido abandonada pela própria família, e levantara-se de madrugada para preparar sandes de fiambre com queijo, quem sabe também uma chávena de chá de hibisco, e a senhora descia as escadas com todo o cuidado do mundo, como se diz, até escorregar-se no estofo desencaixado do quinto degrau (contando de cima para baixo) e cair de cabeça ao soalhado.

O sangue a escorrer, essas coisas da praxe.

Daí ele dizia para si mesmo que eram as sirenes da ambulância.

Confortava-se ainda com a ideia de que foi imensa sorte os paramédicos terem, de alguma maneira, ido até ao apartamento da velha senhora para resgatá-la. Possui a vaga premissa de que a velha senhora tinha mandado instalar um daqueles dispositivos de segurança cujos comerciais mostram uma debilitada dama grisalha ao chão a dizer em inglês: I’ve fallen, and I can’t get up!

Ele perdera as contas de quantas vezes assistira a esse comercial na altura em que morava para New York City, época 1989/1990.

Intercâmbio estudantil, o estresse era muito.

Curioso notar, inclusive, que a namorada dele a dormir ao lado nunca teve assim um sono tão sensível e não acorda com as sirenes — quer sejam sirenes de polícia ou de ambulância médica.

— P. R. Cunha

Gazeta Comunitária (ANO IV — Nº 28)

Esta quinta-feira, pelas 16 horas, realiza-se no campo local um desafio de futebol. (Regulamento para a disputa em futebol: as equipes precisam de jogar o jogo limpo, sem as falcatruas da praxe. Vamos lá, pelo menos uma vez, jogar o jogo limpo.)

Aconteceu na Rua 4 — o filho d’um vizinho, aproveitando-se da escuridão do crepúsculo, furtou jabuticabas do quintal do sr. Augusto Ayres, que por acaso estava à espreita na varanda dos próprios aposentos. O gatuno precoce, pressentindo o pior, saiu a correr com as jabuticabas dentro da camisola. Por conta do distraído procedimento de fuga, as frutas caíram-se quase todas ao chão. Perguntado depois se a furtadela valera a pena, o traquinas dissera que nem bem nem mal, as jabuticabas precisavam ainda de amadurecer mais um bocadito.

Aproximando-se o período das chuvas, torna-se necessário podar os galhos de árvores que porventura estejam perto dos cabos de eletricidade. Porque em vindo os ventos, e eles sempre vêm, as casas de certeza ficarão sem luz, e a sra. Miranda, como toda a gente sabe, não pode ficar sem assistir à novelinha das oito.

VENDEM-SE
¶ Duas capas de chuva Delta (padrão resgate)
¶ Um trator
¶ Uma impressora HP (avariada)
¶ Um cofre à prova de bala
¶ Três mesas tipo ministro
¶ Um secador de cabelo (em estado de novo)

Faz a venda Marina Almeida, nº 12 — facilita-se o pagamento/entregas em casa dos fregueses.

«Estamos novamente com as torneiras vazias!» No sábado próximo, faltará água nesta comunidade. Tal inconveniente, segundo nos parece, tem-se repetido muitas vezes nos últimos anos. 

A crise se chega a tudo.

Achados & perdidos: um nosso respeitável morador veio entregar-nos relógio de pulso de magnífica qualidade que encontrara ao parquinho dos miúdos. Devolve-se a quem apresentar provas cabíveis (marca do relógio, cor da pulseira, nota fiscal etcétera).

Ainda ontem o patrulheiro da comunidade teve de levar o sr. Miguel Saraiva Nunes, visivelmente embriago, às costas para casa. Feita a devida entrega, o pobre patrulheiro estava como um cacho. Essas e outras imagens podem ser analisadas à guarita, através do sistema CCTV.

Já não era sem tempo… Enfim deu-nos a honra da sua visita o distinto sr. prefeito, que encontrava-se para o estrangeiro a tratar de certos negócios. Ao ilustre desaparecido mais uma vez agradecemos a cortesia de lembrar-se daqueles que o elegeram.

Domingo, pelas 20 horas, realiza-se na praça da Rua 6 a já tradicional Festa de Culturas. O evento será acompanhado de projeções luminosas, marchinhas carnavalescas e outros números interessantes. Todos os moradores, como não podia deixar de ser, estão devidamente convidados.

— P. R. Cunha

A camaradagem nos tempos do WhatsApp

Eles vão querer que você seja criativo, sim, com certeza, criativo…, mas criativo dentro de certos limites, e nada de ultrapassar esses certos limites, por favor, nada de hiperprodutividades, e compartilhar todas as hiperprodutividades, todos os fluxos de consciência, o melhor manuscrito desde aquela história lá com o Holden Caulfield, blá-blá-blá, você e suas manias de grandeza, é muita coisa, sem dúvida, imensa coisa, risco de afogamento, eles não dão conta, definitivamente, não dão conta, muita informação, só querem que você seja criativo, é isso, mastigado, sucinto, vá de mansinho, está a perceber?, e numa altura é provável que eles peçam favores, ah, sim, os favores, as ajudas, os auxílios, as emergências e ao final de ajuda-auxílio-emergência-favor eles irão garantir: puxa!, fico lhe devendo essa, mano/nem sei como lhe agradecer/que grande caráter/conte comigo para o que der e vier/viu, falo a sério, conte comigo mesmo, mesmo, mesmo e é bem capaz de serem palavras, como se diz, «da boca pra fora», boas intenções, nada mais do que boas intenções, existe a probabilidade (71%, 85,4%, 92,33% [complicadíssimo calcular esse tipo de tretas]) de você nunca receber ajuda-emergência-auxílio-favor de volta para si, ilusão, fantasia, como foi cair nessa, onde estava com a cabeça, mas eles podem — afinal, nada é certo nesta vida —, veja lá, eles podem comparecer ao seu casamento, que tal?, bom, não é?, de repente mandar algumas fraldinhas tamanhos P & M quando o seu(sua) filho(a) nascer, eles podem também ir ao velório de algum parente que lhe é caro, ou não ir ao velório de algum parente que lhe é caro, pedem as desculpas, dizem que não estavam na cidade na ocasião do velório, mentem que não estavam na cidade, mentem na cara dura, porque em verdade toda a gente percebe que estavam na cidade, a internet sabe que eles estavam na cidade, mas disseram que não estavam na cidade, que estavam fora, no estrangeiro, longe, pois não queriam lidar com o luto, compreende direitinho?, que chatice encarar a própria finitude, que disparate estragar o fim de semana com esses «rendez-vous dos mortos», e depois eles podem desaparecer, claro, há sempre essa chance, desaparecer, sumir, vão-se embora como se jamais tivessem existido ou algo nesses moldes.

— P. R. Cunha

Waltz

Acontecia muita festa naquele apartamento — valsas de Tchaikovsky, minuetos, recitais de todos os gêneros. Era um casal com repertório variado, percebes? Mas parece que brigavam muito também. Bebiam em demasia, e à noite ouvíamos uns barulhos de vidro quebrando, gritos, xingavam-se os dois, ela o chamava disso, ele a chamava daquilo, os móveis caíam, cadeiras, mesas, sei lá. Daí que na semana passada ele sofreu acidente bastante sério, foi atropelado por um autocarro. Os médicos tiveram de sedá-lo, não havia outra alternativa, coma induzido (droga barbitúrica), esse tipo de jazz, ele não saía da maca do hospital, com aqueles aparelhos fazendo ruídos de morte, sabes?, e ela chorava ao lado dele: me perdoa, querido, estou tão arrependida, me perdoa, me perdoa. Talvez ele escutasse. Nunca se sabe.

— P. R. Cunha

Camus para crianças

Para o Danillo Fernandes

O pequeno Herbert me disse que só há dois problemas filosóficos verdadeiramente sérios: 1) se um dia ele conseguirá alcançar — e ultrapassar — a idade do melhor amigo dele que tem oito anos (Herbert tem sete); e 2) demonstrar por que cargas um balão vazio dentro da piscina enche-se de água enquanto a cabeça humana não se enche de água (apesar de todos os buraquinhos [olhos, ouvidos, nariz, boca]). Perguntei ao Herbert se por um acaso não estaria a ler Albert Camus numa daquelas versões simplificadas para crianças e ele me garantiu que nunca tinha ouvido falar nesse tal de «Alberto Kamú», se era algum jogador de futebol ou coisa assim. Camus, eu disse, O mito de Sísifo, o absurdo, a condição humana… Herbert continuou a balançar a cabeça de um lado para o outro: não fazia mesmo a ideia.

— P. R. Cunha

O sábio implicante

Lembro-me de ler entrevista em que o Philip Roth reclamava que quando não estava a escrever, quando não estava a trabalhar nos próprios livros ele caía em depressão, ficava doente da cabeça, nada lhe fazia muito sentido. E enquanto eu lia (na biblioteca da Universidade de Brasília, se a memória não me atraiçoa) não pude deixar de achar certa graça: o Philip Roth está ranzinza pacas, onde já se viu. Acontece que, como se diz, o tempo é a melhor escola. Hoje, dez anos depois, se fico longe das minhas narrativas, se começo a perceber que não conseguirei me dedicar à escrita e à leitura, nenhuma perspectiva de poder sentar-me sozinho num canto — mesmo que por apenas algumas horinhas — caio em depressão, fico doente da cabeça, nada me faz muito sentido. Trata-se de uma balança deveras delicada: sair em busca de novos motes, viajar, divertir-se; depois, ter a ocasião para o respiro, para editar-se, pôr-se ao papel. E quando as galáxias se alinham adequadamente, céus!, tudo se mostra muito bem, obrigado.

— P. R. Cunha

Comboios

Estou à estação e escuto o apito do comboio. Preciso de pegar o comboio, porque do contrário chegar-me-ei atrasado. E quando chego atrasado toda a gente fica com as raivas: ora!, chegaste novamente atrasado, é bem típico de tua parte etc. Acontece que começo a aperceber que o comboio não vai parar. Ele apita, mas não desacelera. Eu tenho então de correr. Eu corro, canso-me à beça, estou completamente encharcado de suor quando pulo no comboio e tento me segurar nas ferragens do último vagão. Às vezes não consigo agarrar-me direitinho e caio. E o comboio vai-se embora.

— P. R. Cunha