Dançarinas

A professora de balé amava todas as alunas como se fossem da família, mas quando chegava em casa tratava a própria filha pequena com brutal agressividade que a menina não teve outra alternativa a não ser fugir, esperar alguns anos até se tornar irreconhecível, matricular-se na turma de balé da mãe e enfim sentir como era ser amada pela professora.

— P. R. Cunha 

Sem titubear

Em 14 de junho um maratonista de Petrópolis saiu para praticar os exercícios noturnos. No meio do percurso ele notou que uma mulher subia na balaustrada do famoso mirante à beira do precipício. O maratonista correu para segurá-la, os dois se sentaram num banco de madeira e ele disse: sei que não é da minha conta, mas por que cargas você queria pular? A mulher respondeu que talvez fosse melhor não dizê-lo, pois temia que o relato fosse «contagioso», que de alguma forma «influenciasse» outras pessoas a fazer o mesmo que ela estava prestes a fazer (ou seja: pular do mirante à beira do precipício). O maratonista garantiu-lhe que não haveria problema, que já escutara de tudo nesta vida, que era um sujeito calejado, etc., ao que a mulher começou a contar os motivos nos mínimos detalhes. A história era de facto tão perturbadora que o maratonista, sem titubear, atirou-se ao precipício antes mesmo de a mulher terminá-la.

— P. R. Cunha

Castelo de areia

A mãe, o pai e o filho estão na praia. É uma daquelas manhãs de verão em que a linha do horizonte se perde entre os contrastes verde-mar-azul-celeste. O filho brinca perto das espreguiçadeiras do papai e da mamãe, faz castelinho com as pás de plástico que ganhara de Natal de um tio que trabalha no circo. O menino olha para as ondas, sorri e as bochechas arredondadas alargam a faixa branca de protetor solar que a mãe passara no rosto dele. Pouco mais adiante, adolescentes lançam o frisbee; vendedor de picolés cantarola os sabores dos sorvetes. A mãe segura na mão do pai: nós nunca vamos morrer, ela diz. O pai ajeita os óculos escuros enquanto levanta o braço esquerdo para comprar cerveja e de repente algo acontece. A mãe sente um calafrio, uma nuvem errante cobre parcialmente o sol, sopra um vento gelado, ela se recolhe dentro da toalha, os gritos dos banhistas desvanecem, o frisbee como que fica suspenso no ar, o vendedor de picolés não cantarola mais. Sinistro presságio. A mãe não saberia explicar melhor. Ela olha para os dedos do marido que em câmera lenta abrem a latinha de cerveja, a lata faz um barulho irritante, então a mãe compreende o que está a acontecer, ela vira para procurar o filho, porém o menino não está mais ali, apenas as pás de plástico e um castelo de areia pela metade.

— P. R. Cunha

A solitária condição do girassol da sra. Menezes

A sra. Menezes gosta de regar o próprio girassol às 2h16 da madrugada, não é bem um horário muito convencional para cuidar da planta, ela sabe disso, mas não se importa, sai para as traseiras da casa às 2h16 da madrugada vestida com uma daquelas indumentárias noturnas que as mulheres de outros tempos costumavam utilizar, cuida do girassol, e enquanto a sra. Menezes molha o girassol ela pensa no marido, que morreu num «acidente» de motocicleta há pouco mais de 18 anos.

— P. R. Cunha

Cientista de Thüringen

Em janeiro de 1946, quatro meses depois do armistício, um cientista alemão de Thüringen desembarcou nos Estados Unidos para participar do novo programa de montagem de foguetes do governo Harry S. Truman. Aos poucos — afinal, estes dados são difíceis de esconder —, os colegas americanos do cientista descobriram que ele não só era membro honorário do partido Nazi como também escrevera diversos livros nos quais vociferava as próprias inclinações xenofóbicas, racistas, antissemitas, além de odes que enalteciam as conquistas de Hitler. Mas como o cientista de Thüringen sabia construir foguetes, e os fazia com impecável precisão, resolveram deixá-lo em paz, estava tudo bem.

— P. R. Cunha

Só não venha me dizer que Jean Baudrillard equivocara-se

Brandamente bêbado (mojito & dry martini) no banco de trás do Volkswagen; assisto a um vídeo de 2018 no YouTube versão telemóvel em que jovem palestrante — muito zangado — denuncia «o abusivo sistema capitalista no qual vivemos», «a agressividade de todos, absolutamente todos os meios de produção», «o trabalho escravo e desumano nas fábricas das grandes corporações», «o gigantesco abismo entre países desenvolvidos e países do terceiro mundo». Não pude deixar de notar também que o furioso argumentador usava camiseta Nike, par de tênis Adidas, e o relógio (imenso, por sinal) era um Rolex.

— P. R. Cunha

Mecânicas da natureza

Em física quântica, animal humano pode ser reduzido a um mero conjunto de átomos — isto se não o conhecemos de facto, durante aquela impessoal etapa corpo/manequim-à-distância. Acontece, no entanto, de animal humano conseguir se expressar: escreve, fala, dança, toca canções, pinta paisagens etc. De aí utilizam-se rótulos para adjetivá-lo, e o que era apenas um aglomerado ambulante de partículas subatômicas passa a ser um tipo raivoso, encantador, feminista, calmo, brucutu, carinhoso, machista, tenebroso, sutil, perverso, maltrapilho, galante, desengonçado, talentoso, medíocre… Até à altura em que a «entidade» morre, e os átomos dispersam-se novamente.

— P. R. Cunha

Efeito(s) óptico(s)

¶ Havia na cabana um escritor que, dizia-se, também conversava com Musa imaginária, e sempre que lhe surgia qualquer ideia de literatura ele gritava: tu és a minha galinha dos ovos de ouro! Como que por coincidência, certo dia passava perto dessa mesma cabana um ladrão de galinhas que escutara os gritos do escritor — e sem pensar duas vezes correu até ao galinheiro para tomar posse dos tais ovos de ouro. Escusado dizer que a empreitada do ladrão de galinhas não lograra êxito. 

¶ Falamos sobre «a luz tão característica da Lua» quando, em verdade, deveríamos tratá-la da maneira que lhe convém: um espelho, ou reflexo lunático. Mas nunca é romântico dizer que a bola noturna só se faz prateada por conta dos raios emitidos pela estrela solar. E que, assim, os poetas têm de lidar com miragens celestiais.

comet

¶ Até mesmo o melancólico notívago — cuja mente está sombreada pelas nuvens de anedonia — perde parte da própria amargura quando os pensamentos retornam à calda de um cometa, este fugidio visitante de pedra e gelo.

— P. R. Cunha

Abismos do inferno

Pequeno homem velho
descalço e curvado
caminha sobre as terras
d’um deserto escaldante
ele então encontra
esta mulher que cobre
o rosto para se proteger
do vento granulado
a mulher lhe diz:
para além desta
montanha de areia
há outra montanha de areia
e depois mais outra
montanha de areia
e mais outra
e mais outra
infinitamente
ao que homem velho
balança a cabeça grisalha
resignado
como quem entendesse
a mensagem
e segue a caminhar
sobre o solo de fogo
do deserto sem fim.

— P. R. Cunha

Vão encontrá-lo algures

A viagem elaborada durante certa inquietação/irritação ao lugar onde se está agora. Aquele que faz as malas para fugir (e o verbo não seria outro), que quer se ver livre dos vícios geográficos da própria morada. «Vou de viagem porque não aguento mais este prédio, estas ruas, este céu, ou mesmo a cara de Fulano(a)», diz-se. De aí a ojeriza que o viajante pode sentir por aqueles que não querem trocar de sítio, por aqueles que se sentem confortáveis no quarto de sempre. Viajante que não admite, ou melhor, que não aceita que o espaço que tanto lhe oprime possa ser um canto confortável para almas menos irascíveis etc.

— P. R. Cunha