A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Então você investiu dinheiros numa obra literária — chegou em casa, sentou-se à escrivaninha e começara a folhear o livro. Alas!, trata-se de uma narrativa horrorosa, ilegível. Você, naturalmente, está agora a se sentir um bocado lesado e diz para consigo mesmo: que assim não fica, preciso de reclamar com o autor, gângster, salafrário, bandido etc.

Mas como fazê-lo?

A verdade é que quando o escritor escreve algo ruim ele acaba descobrindo de um modo ou de outro. Percebe quando se dá mudança de atenção, descobre pelo jeito diferente que dele se afastam, por se evitar comentário, pelo rosto choroso da mamã que arranca os cabelos a pensar: e o gajo largara tudo para escrever e ainda me escreve isso —, ou mesmo pelo modo indiferente da suposta pessoa amada que não consegue esconder ojeriza.

Noutros termos, quer se diga claramente ao escritor ou não, ele tomará conhecimento de alguma forma. Ao passo que saber compartilhar uma crítica com um literato (i.e.: o senhor vai me desculpar, mas o seu livro é terrível, odiei-o) é sem dúvida uma verdadeira arte.

Respire fundo, acalme-se: comunicar a notícia de maneira branda e gentil faz com que o escritor continue depositando esforços para quem sabe um dia aprender o próprio ofício adequadamente.

Quanto mais simples o modo de se expressar, mais fácil é para ele ponderar depois. Alguns apreciam quando recebem a crítica na intimidade do próprio gabinete, através de carta convencional e/ou electro-carta. Mostre que você possui um coração e evite, portanto, recorrer de imediato às redes sociais ou aos tabloides irascíveis — isso magoaria imenso o sentimento alheio. 


Post scriptum: não se surpreenda, no entanto, se mesmo depois de tanto zelo receber respostas belicosas do escriba, tais como: Tu que não compreendes patavina de literatura; Eu cá sou o melhor escritor do mundo, não te devo um vintém; Nunca escrevi para leitores d’esta geração, minha obra é para aqueles do futuro; e assim por diante.

— P. R. Cunha

Perambular com paciência

No Natal de 1956, o escritor suíço Robert Walser sai para dar um passeio e horas depois é encontrado sobre a neve: morreu como vivera — a caminhar para nenhures.

A história do mundo demonstra que a caminhada é mesmo uma das atividades prediletas dos literatos. O flâneur, como certa vez escrevera João do Rio, cujos apontamentos são guardados na placa sensível do cérebro; as cenas vibram-lhe no cortical. É ter lá o vírus da observação.

Gostar de caminhar, ir por aí, de manhã, de dia, à noite, durante um nevão, ou sob um sol escaldante, porque a arte de flanar remete ao passeio aleatório da vida. Há alegria também nestas imprecisões.

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Tardinha para o Atlântico

E ninguém há-de entender mais nada — nem o Rio, nem Brasília, nem a Tristeza, nem Eu, nem Niterói.

Um eterno colocar-se em buracos, poços, situações humilhantes, menosprezar-se, fracassar, para depois escrever, sim, sempre a escrita, a ver se ela lhe tira desses abismos; sempre foi assim, desde pequeno. Passar a vida inteira sobre os papeis, com uma caneta queixosa, satisfazendo a própria demanda por literaturas. Fluxo inesgotável de ideias. Onde colocar todas elas? Como organizá-las em arquivos cerebrais? 

Sem inclinações para o comércio, disseram-no, muito menos para o trabalho braçal, coloca-se a serviço da única atividade capaz de absorver as ambições de uma consciência brandamente alienada: fábrica de livros, fábrica de estórias.

Ou colisão aleatória de diferentes palavras. Surge um texto. E com mutação gramatical espontânea, produz-se universo de incertezas, mentiras, não-ditos. Há pessoas que chamam a isto Escritor —— ou Deus.

[À deriva para sudeste]
Pois que tenho no
interior um oceano
muito mais agitado

Suave, o som da maré. Então, aos poucos, com a força cumulativa de uma extinção em massa, todo aquele sentimento chegou ao fim. O que parecia mútuo, revelou-se frágil, inconstante. E o que parecia para sempre, foi apenas um por-enquanto. Etc.

Na rua, o choro de um bebezinho que ainda não fala. ————— O que sentirá?

— P. R. Cunha

Dias / três

É do Harold Pinter que eu gosto mais, sabes?, ela disse. Fala de mim um bocadinho — também gosto do jeito que tu escreves.

*

A viagem é um efeito Doppler: alastra-se. Início, difuso; fim, incerto. Quantas vezes não precisei de prolongados distanciamentos à guisa de digerir metrópole alienígena?

*

Fotografia
escrever —
à luz.

*

Niterói é uma cidadela nostálgica, casa das férias, da meninice. Lembranças que ficaram muito para trás no passado. Niterói nunca foi minha, sempre foi dos meus pais, do meu irmão mais velho. Ela não se incomoda, recebe-me com carinho, acolhe-me com esmero. Niterói por vezes é ausência, é saudade, que dói, destrói, corrói. Niterói.

*

E só havia mais uma pessoa no Icaraí Café — ela. De manhãzinha, passeio no Campo de São Bento; fiquei um bocado parado ao sol, a pensar em qualquer coisa, ao que minha pele possui agora aquele curioso tom vermelho-molho-de-tomate-aguado. Ela olhou para a chávena de café, e depois para mim, daí olhei para ela, e ela olhou para a chávena de café, e assim por diante. Não nos movemos. Apenas olhos, chávenas de café, vermelho-molho-de-tomate. Até que os passos afastaram-se, e então silêncio. Como se ela nunca lá tivesse estado.

*

Daqui às vezes ouve-se o Atlântico. Mas é precisa muita atenção, porque ondas preguiçosas:

Ao mar
os rapazes
esperam
as moças
esperarem
as senhoras
e os senhores
à espera
da velhice
passar.


Texto e fotografia: P. R. Cunha (instagram.com/pierre_cunha)

Escrever, por vezes, é considerado um jogo de sorte ou infortúnio. O escritor, sem saber muito bem o que faz, tanto pode acertar como errar. Geralmente, ninguém pede contas dos erros que ele comete. Apenas deixam de lê-lo.

Pousada em Niterói. Grande cama ao centro. Varanda. Vista para um prédio à moda Stalin-URSS. Motocicletas buzinam na rua. Móveis modernos e escassos. Uma escrivaninha. Frigobar. Outono: Dia. ——— Um homem quando vem para Niterói é para aproveitar o que é bom e comer do superior. A destreza desta casa hospedeira encontra-se no seu excelente café da manhã, que é tomado perto de uma montanhosa reserva ecológica. Degusta-se o croissant com geleia de amora e os miquinhos vêm de longe a ver se capturam uma qualquer migalha. Esses simpáticos primatas sem dúvida trazem variedades ao petit déjeuner e impedem que esmoreça o meu apetite.

*

Primeiras caminhadas pelas ruas do município. Gosto de dar grandes passeios. Dedo no gatilho da câmera. Coisas dessas.

*

Bibi Lanches, rua Mariz e Barros. Mesa para quatro pessoas. Rapaz de vinte e poucos anos sentado à esquerda da mesa devora sanduíche de mortadela. Um sujeito de quase cinquenta anos, provavelmente o pai do rapaz, está sentado no canto direito e toma suco de acerola. O sujeito de quase cinquenta anos, vamos chamá-lo de Pai, ao falar, fá-lo diretamente para o rapaz, ou seja: Filho. O Filho nunca olha para o Pai — parece não estar muito interessado. O Filho mastiga o sanduíche de mortadela como se não se alimentasse há dias. O Pai ri. Tento escutar, para perceber a piada:

[…] e você vê como são as coisas, o Geraldo, talvez não se lembre dele, o Gera, de Santa Rosa, lembra?, caiu do sétimo andar. Estava consertando as persianas, algo assim, e despencou (gole no suco de acerola). E sobreviveu, ficou não sei quantos dias no hospital. Também pudera. Todo quebrado. Até que o médico, ou a enfermeira, não sei, alguém disse que ele estava para obter alta. (Outro gole no suco de acerola, o Pai levanta a mão, o garçom olha, o Pai depois aponta para o suco e faz mímica: está doce, o suco está doce.) A esposa do Gera, a Célia, você lembra dessa gente?, a Célia parece que levou uma maçã para comemorar. Uma maçã! O Gera mastigou a maçã, olha que história mais doida (ria-se), o Gera mastigou a maçã, veja bem, o sujeito que caiu do sétimo andar e sobrevivera, ele mastigou a maçã, engasgou com o diabo do caroço e morreu. Engasgado. O Gera. Você lembra? Geraldo, de Santa Rosa. Impressionante uma coisa dessa, inacreditável […]

*

Às vezes o Filho olhava para o Pai, mas definitivamente não dava a mínima. Às vezes eu também não dava a mínima para o meu pai — papai falava, falava, falava e eu não o escutava. E hoje, nesta cidade em que cada esquina me faz lembrar dele, sinto uma falta terrível dessas oportunidades perdidas. Daria qualquer coisa para poder escutá-lo novamente, a falar, a falar, a falar…

*

À tardinha, lanche com vovó na rua Moreira César. Não sou eu que bebo a bebida, é a bebida que me bebe — de um funcionário do café.

*

Se vivo numa pousada em Niterói, posso, quando à noite voltar para o quarto, fazer desenhos e esboços como se tivesse estado sabe Deus onde. Aqui, portanto, pratico a arte de viver no estrangeiro (porque a quase dois mil quilômetros de casa).

*

Segundo clichê. De alguma forma convenci-me (novamente) de que o Instagram faz-se necessário — banco de dados das minhas andanças niteroienses: instagram.com/pierre_cunha

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Texto e fotografia: P. R. Cunha (instagram.com/pierre_cunha)

Prelúdios

Brasília, abril de 2018. O Viajante está sentado à mesa do Clandestino Café e Música, escreve uma peça de teatro para a amiga galega Marina López Fernández. Há tempos que ele está preparado para uma grande viagem, mas ainda não havia chegado a altura de ir-se. O Viajante leva a chávena até aos lábios e sopra a superfície do café — a bebida ondulada o faz lembrar do oceano, da sua paixão pelo Atlântico. Aos poucos o efeito da cafeína enche os abismos do Viajante, os abismos entre aquilo que ele é e o que ele ainda gostava de ser. O Viajante poisa a chávena sobre a mesa e, como agora sabemos, decide que chegara a altura de ir-se. Vai viajar, portanto, o Viajante.

*

Brasília, maio de 2018. A viagem inicia-se num aeroporto. O Viajante contempla demoradamente os transeuntes que vão-e-vêm; pressente de certo modo o seu próprio destino — afinal, também ele está a ir-e-vir. Observa os passageiros desembarcarem, cumprimentam os familiares com grande euforia, como se chegassem de outro planeta e tivessem sobrevivido a grandes atentados terroristas. O Viajante olha então para o ecrã com os horários dos voos e percebe que esses mesmos passageiros acabaram de chegar de Goiânia — ou seja, estavam a meros 200 km de distância, 43 minutos de viagem. Perante tal cena, reflete-se sobre o que costuma acontecer nos aeroportos: a pessoa, ele diz consigo mesmo, a pessoa está a viver a própria vida alhures, decide que quer viajar, vai para o aeroporto e viaja. Dias depois, continua o Viajante para consigo, dias depois ela volta para casa sem saber por que diabos viajou, e continua a viver a própria existência, e a esperar. Estamos sempre esperando, no aeroporto, noutros cantos, na vida. Umas viagens a mais, umas viagens a menos, não fazem qualquer diferença para algumas pessoas, pensa o Viajante. Desta vez, sem sussurrar palavra.

» Versos à janelinha

1.
Brasília —
avião de concreto
vista de um avião de aço

2.
Passageiro desafinado
a cantarolar Jobim
vontade de bater no passageiro.

3.
Aqui do alto
as nuvens tão pesadas
— quanto o meu coração

4.
Adeus
Brasília
você nem liga.


Texto e fotografia: P. R. Cunha