As vozes de uma família que já não existe + contexto da fazenda literária (intimidade[s])

Ao folhear um velho álbum com retratos dos meus familiares, escreve Batista, verifico que muitos foram figuras distintas: médicos, administradores, arquitetos, políticos, advogados. A grande maioria morrera cedo demais, como se diz vulgarmente. Aqueles que pregavam o comedimento, morreram de alcoolismo; os que pediam paciência e prudência, morreram numa autoestrada, excesso de velocidade; aqueles que diziam: não fume, isto vai lhe matar!, morreram de cancro de pulmão porque fumavam quatro maços de cigarro por dia. Em criança, continua Batista, em criança não nos damos conta dessas contradições. Os adultos eram os meus heróis. Acontece que também crescemos, amadurecemos, lemos um bocadinho, e aos poucos a coisa toda começa a nos dar nos nervos, percebemos que aqueles a quem escutávamos com tamanha devoção em busca de ensinamentos eram tão humanos e tão falhados como qualquer outro. Um deles chegou mesmo a cometer o suicídio.


Brasília, 27 de novembro, 8h44

A chuva, a neblina, as nuvens cinzas que vêm ter comigo à janela, insônias, o chuveiro que parou de funcionar. Arrumar a mala, comprar caderninho de anotações para a viagem. Portugal, Lisboa, Aveiro. O cabelo a crescer demasiadamente, a «atmosfera intelectual», artificialidade. O violão sem a corda dó. Ir ao centro. O café literário. O café forte. A soneca vespertina. O pão com manteiga. Os livros. A calma. O desaparecer. À noite.

Processed with RNI Films. Preset 'Fuji FP 100C'

— P. R. Cunha

Livraria Cultura

Dou continuidade às obsessões geográficas das pessoas que escrevem (vide texto anterior) e sento-me num café de livraria, shopping mall, longe do centro da cidade, transeuntes a observar com ares filosóficos — mão no queixo, cabeça levemente inclinada etc. — as vitrines com móveis de toda a sorte. Se fechamos as pálpebras, o aroma do expresso que acabara de sair da máquina como que ganha outra vida, intensifica-se, e logo passamos a escutar também os cumprimentos de empresários, conversas entre pais e filhos, uma proposta de casamento a sério, o riso confuso da moça que não sabe se quer aceitar a proposta de casamento a sério, o som de um talher que cai ao chão, um cliente a pedir a conta, outro a pedir a torta do dia (massa integral, recheio de morango), o suspiro de uma senhora grisalha que espera, o fechar de um livro, tantos dedos que viram páginas, as batidas graves e amorfas de uma música eletrônica ao fundo, como um réquiem ao silêncio.

— P. R. Cunha

Lourenço — notas para um personagem invisível

O Lourenço nos ameaça com suas sátiras, palavras mordazes, estranha aparência, queixumes, frases desconcertantes, dores, esclarecimentos que (muitas vezes) não queremos esclarecer, longas divagações — e outros pormenores inamistosos.

As coisas mais necessárias na vida do Lourenço são: o papel, a caneta, a água, a máquina de escrever (de preferência uma Underwood [com alfabeto cirílico]), o gim, a vodca, os filmes do Tarkovski, os filmes do Kubrick (vide Barry Lyndon) os livros do Pynchon, teatro (aos sábados), o pão de centeio, a uva, a indumentária discreta, os beijos de uma certa donzela.

Coisas prejudiciais ao Lourenço: calor, esquecimento, fúria, ansiedade, levantar sem ter vontade de levantar, fogo, chorar de mais, poluição sonora, poluição visual, café frio, melancolia (quando prolongada), poluição atmosférica, bebida fermentada, aglomerado de seres humanos, ganhar livros do Paulo Coelho (e/ou do Augusto Cury).

Profissões já exercidas pelo Lourenço (artes, ofícios & ciências): jardineiro, eletricista, escritor, motorista de autocarro, bartender, dramaturgo, assistente técnico de telecomputadores, maquinista, telefonista, cozinheiro, copista, datilógrafo (durante uma semana), construtor, jornalista, massagista, professor de geografia, torneiro mecânico.

Parentes do Lourenço: noiva, pai, primo, prima, irmão, mãe, tia, avô, avó, sobrinha, sogra, nora, genro, sogro, irmã, cunhado, tio.

Epítetos do Lourenço (lista à parte): zangado, leitor, fofoqueiro, bandido, zarolho, fornicador, imprudente, letrista, poeta-brigão, malvado, desgostoso, tagarela, sorumbático, irrisório, sarcástico, desolado, ferido, ambulante, mesquinho, trambiqueiro, traquinas, aflito, desamparado, prevenido, trocista.

— P. R. Cunha