devaneios da própria máquina de escrever (episódio #49)

[da importância de se manter um diário.] certo, você está a esperar o autocarro, ou dentro de um anfiteatro durante o intervalo do espetáculo, ou na fila da cafeteria, ou a ler os jornais no saguão do hotel — quando alguém diz algo realmente interessante, uma faísca de ideia, aquela frase de certeza é a semente de uma narrativa (um romance, se calhar). você agora apalpa todos os bolsos da calça & não encontra nada. sem caneta, sem bloco-notas. a frase, como costuma acontecer com todas as frase, desvanece, torna-se opaca, fantasmagórica, até se mostrar apenas um rastro amorfo, como um lençol após incêndio doméstico. alas! depois de ter passado por incontáveis ocasiões desse gênero, resolvi finalmente comprar um diário. um diário portátil, pode-se dizê-lo, já que sempre me dei muito bem com os cadernos que costumo preencher de maneira um bocadinho neurótica durante as leituras da praxe. mas precisava de algo que eu pudesse levar para todos os lados. não é nenhum moleskine, não tem capa de couro, não é item de colecionador. trata-se de uma cadernetinha 11 x 16 cm fabricada pela tilibra que me custara doze dinheiros em papelaria popular no centro de taguatinga, distrito federal. a primeira medida que tomei foi garantir a mim mesmo que nunca, em hipótese alguma, mostraria o diário para vivalma. pois sei que quando quero mostrar algo a alguém acabo invariavelmente me policiando: importo-me com a tipologia, deixo de escrever termos inadequados (férteis adubos do fluxo de consciência), fico com medo de rabiscar & de repente arruinar a estética da página &tc. DIÁRIO SECRETO, escrevo na primeira página, sentindo-me um ingênuo miúdo do primário. mas que assim seja. por vezes, pego-me distraído, estou debruçado para diante do bloquinho com papel cor de creme, meu banco de dados às proliferações de possibilidades, discorro a respeito do baloiço moroso dos galhos de uma sibipiruna («caesalpinia peltophoroides»), sobre a importância de se manter um diário. estou feliz.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #48)

eis o relato de um «milagre natalício». na manhã do dia 24 o meu amigo ortega telefonou-me & disse: francisco, sei que não tens sítio para ir este natal, então vou te levar à festa de uns conhecidos. quando chegamos à festa, ortega me apresentou a duas senhoritas. eu disse: nada mau, nada mau mesmo. mas há sempre qualquer coisa. um sujeito meia-idade aproximou-se & pediu ao garçom duas doses de johnnie walker, outras três de gordon’s. ele queria impressionar. as senhoritas levaram as mãos aos lábios & ao próprio coração: senhor, nós nem bebemos. meia-idade disse: são para mim. todas as doses?, perguntei. sim, todas, ele disse. a atmosfera, obviamente, ficou pesada como um búfalo, mas permanecemos ali, acho que à guisa de decoro. as doses chegaram, meia-idade colocara-as em cima da mesa, perto de uma taça de vinho cheia. ele tomou um gole de johnnie walker & disse: eu gosto mesmo é de ler filosofia, história das guerras (pausa), literatura ficcional não me agrada. daí ele começou a vomitar umas datas aleatórias, confundia voltaire com rousseau, achava que nietzsche tinha morrido durante a segunda guerra mundial, fez apologia aos combates nas trincheiras, garantiu que não se fazia mais soldado como antigamente. as moças estavam muito aborrecidas & olhavam para mim & pareciam dizer: francisco, faz alguma coisa, isto aqui está um inferno, isto aqui não dá & tals. mas eu não sabia o que fazer para livrar-nos daquele sujeito. até que o espírito natalício arquitetara o milagre. meia-idade estava prestes a começar extenso monólogo sobre a quantidade de livros que lera em 2019 quando virou-se para pegar outra dose de johnnie walker (ou de gordon’s, já não me lembro) & esbarrou o braço na taça de vinho. meia-idade gritou: merda! o vinho sujara toda a roupa branca dele. segurei as senhoritas pelo braço & disse: senhor, não se preocupe, iremos buscar ajuda imediatamente, fique bem aí onde o senhor está, não se mexa em hipótese alguma &tc. &tc.

— p. r. cunha

Tipos que descrevem

No início de cada curso de escrita criativa costumo instigar os participantes a responderem à famigerada pergunta: o que é um escritor? Não se trata de uma retórica socrática, eu realmente não sei a resposta correta — se é que há resposta correta.

Na escala mais primária, escritor seria aquela pessoa que escreve. Certo? Trata-se, porém, de uma definição deveras abrangente que só faz germinar novas indagações: os jornalistas são escritores?, e os escribas?, qual seria a diferença entre o autor Herman Melville e Bartleby, o jovem escrivão pálido?

Alguém, de certeza, sairá ofendido.

Muitos sugerem distinguir o escritor-artista daqueles que utilizam a linguagem e as palavras para fazer textos sem fins literários. Interessante segregação. É claro que haveria ainda a ardilosa tarefa de se definir o que é artístico, o que é literário. 

Gay Talese e Tom Wolfe sem dúvida não se incomodavam quando eram chamados de jornalistas, e as reportagens que escreveram superaram inúmeros romances pretensiosos que foram lançados na altura em que os dois publicavam artigos em jornais e revistas. Talese, inclusive, reuniu diversos desses textos numa coletânea chamada Writer’s life (Vida de escritor [lançado no Brasil pela Companhia das Letras]).

Os alunos do curso então começam a se perguntar se escrever é realmente um trabalho — no sentido industrial do termo. Surge a figura do flâneur, o ocioso, o dândi comum ao século XIX que fora retratado por Baudelaire como «errante solitário que perscruta, persegue, percorre o inferno urbano, vive de rendas, tem todo o tempo disponível para si».

Marcel Proust talvez seja um dos arquétipos mais emblemáticos dessa belle époque da vadiagem, e muito provavelmente porque representava a transição do antigo modus operandi (nostalgia) para as incertezas que assolavam o mundo depois da Primeira Guerra Mundial. Basta lembrar que Proust escrevera boa parte de Em busca do tempo perdido deitado na cama.

Outra figura recorrente é a do jogador. Os amadores jogam, apostam, competem, enviam os manuscritos às editoras, aos prêmios. E somente quando são publicados (e recebem pela própria criatura [ainda no contexto mercantilista]) é que podem se considerar «escritores de verdade». A analogia com o concurseiro mostra-se quase inevitável. Aquele que estuda para concursos, por mais embasamento teórico que possua, não pode ser chamado de funcionário público até que seja aprovado nos exames.

São respostas livres, despretensiosas, aleatórias, um bocadinho polêmicas. O próximo curso de escrita criativa começa esta semana — e não vejo a hora de poder apreciar novas hipóteses sobre o que é, afinal, um escritor.

— P. R. Cunha

Como guardar imagens chilenas apropriadamente

Nestes meus quase 34 anos de planeta Terra jamais cogitei a possibilidade de não levar o aparato fotográfico às viagens. Desta vez estou a fazê-lo.

(Ainda não é a viagem, mas o início, o começo despretensioso — prévias [previsões].)

Defender a ideia de que o nosso cérebro também é um mecanismo imprevisível que captura os tais momentos do tempo perdido. Caixa craniana/câmera escura registram, arquivam, revelam mensagens do passado.

Minhas últimas duas viagens: Niterói & Portugal (de Lisboa até Aveiro) — contaminado pela quantidade absurda de gentes a tirar fotografias; a mais delicada de todas as atividades predatórias, como diria Susan Sontag. A culpa, o remorso: eu, com a minha Canon, também fazia parte do grupo voyeurístico.

Ir aos concertos e não conseguir prestar atenção, porque os telemóveis luminosos e as câmeras tomaram conta de tudo.

A lente da máquina e o olho humano precisam de luz. E aqui começo as minhas reflexões propriamente ditas.

Acontece que o universo no qual vivemos possui um limite de velocidade: 299,792 km/s; a chamada velocidade da luz. Habitamos este espaço físico com regras específicas onde nada pode ultrapassar esses 299,792 km/s. 

Estamos constantemente em viagem: as informações do nosso corpo percorrem o espaço até chegar aos outros receptores.

Duas pessoas estão a um metro de distância e conversam sobre, digamos, os negócios de determinada empresa. A título ilustrativo, podemos chamá-las de Marcos e Luana. Por causa do limite de velocidade da luz, Marcos está a ver Luana com um atraso (delay) de 3,3 nanossegundos.* Pode parece um simples bate-papo comercial que supostamente ocorre no presente, mas Marcos e Luana estão sempre um bocadinho no passado. O cérebro a captar fótons espectrais.

*0.000000003 (em segundos).

Tudo o que vemos em redor é como foi, não como é. O agora absoluto, para a luz, não existe. Vivemos a observar atrasos, à espera de um presente que nunca chega.

Os corpos celestes podem esclarecer. A Lua brilhosa que aparece elegante numa noite sem nuvens está a cerca de 380 mil quilômetros de distância — de forma que a luz demora quase dois segundos para chegar até nós. O Sol, a 149.6 milhões de quilômetros, ilumina a nossa atmosfera com oito minutos de atraso.

Ao que tudo indica, mandaremos humanos para Marte — 227.9 milhões de quilômetros da Terra. E aqui o arranjo torna-se um tanto macabro. Se algum astronauta morrer em solo marciano, os terráqueos só saberiam 14 minutos depois.

Agora, voltemos às comparações olho-humano/lente-fotográfica; captação de luz, de imagens, das informações que se mostram atrasadas. O fotógrafo que mira a própria câmera a fim de preservar a história, o acontecimento. Viu algo que lhe interessou imenso, apertou o botão. Crê conservar uma cena que de outra forma desapareceria. 

Armazenamento de memórias, falhas. Uma fotografia minha em que estou a brincar no parquinho com os meus irmãos (1988), o papel está a perder a cor, as bordas dilaceram-se. Se imagem digital, a instabilidade dos servidores eletrônicos — hoje, estão a operar, amanhã, não se sabe ao certo (quedas repentinas do sistema de grandes corporações [motivos desconhecidos], dados irrecuperáveis). O cérebro humano que também se deteriora (Alzheimer).

Tudo se perde.

Existir num passado constante e a angústia de não conseguir capturá-lo adequadamente. A fotografia como extensão da incapacidade cerebral de manter-nos ao presente, a fotografia (Sontag, de novo) como criação de um mundo em duplicata, de uma realidade de segundo grau. Uma busca dramática para interceptar a velocidade da luz.

No cenário vertiginoso de um agora ausente, tirar a câmera da mochila e apontá-la outra vez para o que já foi. Eis a sina de quem se apaixona por fantasmas. 

— P. R. Cunha


Processed with RNI Films. Preset 'Agfa Optima 200 Faded'

Metaimagem, constrangimento: câmera apontada para outra.

Realidade paralela

Um coveiro de Niterói que durante mais de quarenta anos enterrou os mortos da cidade e era conhecido por toda a gente como «Raimundo, aquele que enterra os nossos mortos» faleceu de forma súbita na noite passada enquanto lia, segundo testemunhas, o romance Paraquedas – um ensaio filosófico de P. R. Cunha. Certo colega de profissão, que fora escalado pelo cemitério para preparar a cova do notável coveiro apreciador de literaturas, dissera aos repórteres que poucas vezes sentiu-se tão perturbado: amanhã, este coveiro enterrará um amigo coveiro, dor terrível. Autoridades locais investigam o caso e não descartam a possibilidade de proibir as vendas do supracitado romance até que os detalhes sejam devidamente esclarecidos. Raimundo deixa uma viúva inconsolável e duas filhas.

— P. R. Cunha

Paraquedas sente-se em casa quando em Portugal

Dulce Delgado, editora do blogue Discretamente, compartilha impressões a respeito de Paraquedas – um ensaio filosófico.

* * *

Quando pego num livro com o objectivo de o ler, antes de absorver o seu conteúdo, gosto de o manusear, ver a capa, o tipo de letra, se preciso de fazer esforço demais para o manter aberto, etc., etc., ou seja, gosto de saber se o meu corpo e sentidos apreciam aquele «objecto» que tenho entre mãos. Pode parecer absurdo, mas já me recusei a ler livros porque o meu «corpo» disse de imediato não…

A chegada do Paraquedas pelo correio levou também a esse primeiro ritual. Perante o seu manuseio os sentidos disseram que sim. O olhar gostou da capa e da sua textura assim como do tamanho da letra, e as mãos sentiram que ele era fácil de abrir e de estar connosco sem exigir esforço.

Chegaram as férias e ele foi na bagagem, a par de outro que estava ainda a terminar. Os momentos de sossego não foram muitos, verdade seja dita, pelo que só em casa, nesta última semana de umas férias que hoje terminam… o Paraquedas foi lido.

Onde quer que a tia Laura esteja (ou estará), ela sabe (ou saberá) que o amor de alguém que a adorou ficou ternamente guardado neste «mausoléu rectangular», narrado como uma viagem onde o tempo não existe, pois o passado se mistura com o presente, e todos serão futuro no coração do livro.

Mas ao lado desse amor também está a dor, uma dor dura que só o nosso escritor saberá quantificar, porque entre a realidade e a ficção existe sempre uma incógnita. O meu «fiel de balança» inclina-se mais para um dos lados, sendo certo que em cada leitor ele terá uma posição diferente. Mas isso não é realmente importante.

Achei fabulosa a leitura sobre o jogo de xadrez e o xadrez que é esta vida. Os dois lados de um só lado. As lutas interiores e a forma de as domar, contornar, equilibrar. E a relação entre o xadrez, a escrita e o modo de estar. Sejam realidade ou ficção.

Se um livro é como um filho, este vai seguramente crescer e caminhar. Porque o nosso escritor sabe escrever muito bem; porque tem profundos conhecimentos que partilha de uma forma simples e que nos agarra; e principalmente porque uma parte dele nos olha em cada página, seja nas dúvidas, nos medos ou nas verdades que são também de todos nós.

A partir de agora, qualquer leitura que faça de algo da sua autoria, seja no blogue ou em futuras edições, será com um novo olhar e com a certeza consolidada que este ainda jovem ser humano, a par dos seus conhecimentos, sensibilidade, eternas inquietações e tantas outras coisas que o constroem, tem muito potencial e um futuro certo na literatura.

Assim ele acredite em si e nas suas capacidades neste jogo de xadrez que é a Vida.

— Dulce Delgado


Paraquedas – um ensaio filosófico de P. R. Cunha está disponível na Lojinha deste sítio web. Se moras na Europa podes encomendar o livro à UA Editora.