O tipo que escreve e o tipo que trabalha com aceleradores de partículas: afinidades

Para o Rodrigo dMart

Acho curioso que alguns familiares ainda se surpreendam quando descobrem que escrevo ficção — mesmo depois de oito anos dedicando-me (quase a tempo inteiro) às fazendas literárias. Arregalam os olhos como se de súbito eu me transformasse num alienígena inescrupuloso com ambições apocalípticas. Via de regra, preciso de adotar posturas complacentes (i.e. discreto balançar de cabeça, utilizar termos vagos tais como: sim, sim, compreendo; pois não; percebo; sei bem como é; posso imaginar etcétera) enquanto comentam que toda a gente que conheceram e que porventura mexia com esse troço literário morrera cedo demais — ou suicídio, ou abuso de drogas (alcoolismo, primordialmente), ou solidão —, e que não conseguem imaginar por que cargas de água alguém com bons discernimentos haveria de se dedicar a tarefas (e aqui transcrevo ipsis verbis) «tão absurdas, destrutivas, que não levam a nada», por quê?

À primeira vista, o CERN (anacrônimo de Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire) aparenta ser apenas um gigantesco e entediante túnel circular onde partículas estranhas colidem umas com as outras, sem propósito. Pelo menos é essa a imagem que muitos críticos utilizam quando questionam os apoios financeiros ao maior laboratório de física de partículas do mundo. Um bando de nerds a brincar de videojogo nas profundezas da fronteira Franco-Suíça, gastando dinheiro público com experiências cujo teor nem os próprios humanos que ali trabalham conseguem decifrar. 

Acontece que a ciência de partículas não é uma trilha com caminhos pré-determinados, estáticos. Um experimento leva a outros experimentos por vezes imprevisíveis, uma descoberta leva a novas descobertas. De forma que, ao tentar compreender a intricada origem do universo, os cientistas do CERN estão a desenvolver também incontáveis tecnologias que serão utilizadas em áreas como a computação e a medicina. A World Wide Web, à guisa de exemplo, foi lá inventada; além de diversos dispositivos utilizados para diagnosticar doenças, aperfeiçoamento da implementação do magnetismo, desenvolvimento de técnicas para se praticar engenharias… e não só.

Guardadas as devidas proporções, fazer literatura é como trabalhar no CERN. Lidamos com imprevisibilidades, desafios, com resultados fascinantes capazes de gerar incríveis efeitos colaterais. Tentamos descobrir como as coisas difíceis operam, como responder perguntas intricadas — somos desbravadores. Sim, é verdade, muitos morrem ao meio do caminho, ou perdem os botões, ou terminam sozinhos na cave de um sanatório. Mas os riscos valem a pena quando o que produzimos mostra-se capaz de mudar a vida de tantas pessoas. E é por isso que nos entregamos a tarefas tão absurdas, destrutivas, que (só parecem) não levar a nada.

— P. R. Cunha

Estamos em limpezas, eles diziam

Ted estacionou o automóvel perto de um enorme cipreste (Taxodium mucronatum), à esquerda da lanchonete com placa de saída em néon roxo que poderia muito bem ter servido de cenário para alguma série do David Lynch. O sol começava a desaparecer atrás das montanhas rochosas e aquela atmosfera taciturna, azul desânimo, mexia com o Ted, que lembrava-se das longas noites de copo com amigos que hoje não são mais amigos, pessoas com rostos que seriam mesmo irreconhecíveis para ele — caso as encontrasse, digamos, numa feira a comprar fatos esportivos de lycra (tipo spandex). Os altifalantes da aparelhagem da lanchonete tocavam «Can’t Help Falling in Love» do Hugo Peretti, mas na versão com voz arrastada, modorrenta, do Rei do Molejo: Elvis Presley. Ted caminhou mais alguns metros e sentia que o barulho das próprias botas Caterpillar Second Shift cor café a pisar no cascalho do estacionamento e a cacofonia voz-Elvis-like-a-river-flows-surely-to-the-sea começavam a lhe dar vontades de desistir de tudo, de voltar para o próprio automóvel, dirigir até à pensão na qual estava hospedado, assistir a algum filme do Chaplin a preto-e-branco, quem sabe ligar para uma rapariga loura que conhecera há dois anos quando andava pela região à guisa de resolver coisinhas, rapariga parecida com a Sophia Loren antes de a Sophia Loren trocar de rosto através de mutilações cirúrgicas (conhecidas pelo odioso eufemismo «procedimento estético»), rapariga que vivia em jeans e camiseta branca e que ficava apertando os botões do painel da carrinha do Ted e dizia sem parar: Ted, tens aqui uma belezinha tão gira, e o Ted nunca sabia se a rapariga estava a falar do painel ou se aquilo tinha uma qualquer conotação erótica etc. Ted chegou ao local combinado. Parou. Acendeu um cigarro. Ajeitou a aba do boné. Percebeu que, às traseiras da lanchonete, duas pessoas uniformizadas estavam a varrer restos de uma festa recém-terminada. Um homem e uma mulher que se desculpavam educadamente com quem passasse por perto — estamos em limpezas, eles diziam. Copos e pratinhos de plástico dançavam ao vento, esse tipo de panorama. A certa altura, o homem encostara o queixo na ponta do cabo da vassoura e comentara com ar filosófico: não, não sei se eu daria conta de matar o sujeito, sabe?, estou velho demais para essas coisas. E enquanto o homem falava e a mulher fingia que não escutava, o Ted quase se esquecera do motivo que o levara até àquele sítio desolador.

— P. R. Cunha

Livraria Cultura

Dou continuidade às obsessões geográficas das pessoas que escrevem (vide texto anterior) e sento-me num café de livraria, shopping mall, longe do centro da cidade, transeuntes a observar com ares filosóficos — mão no queixo, cabeça levemente inclinada etc. — as vitrines com móveis de toda a sorte. Se fechamos as pálpebras, o aroma do expresso que acabara de sair da máquina como que ganha outra vida, intensifica-se, e logo passamos a escutar também os cumprimentos de empresários, conversas entre pais e filhos, uma proposta de casamento a sério, o riso confuso da moça que não sabe se quer aceitar a proposta de casamento a sério, o som de um talher que cai ao chão, um cliente a pedir a conta, outro a pedir a torta do dia (massa integral, recheio de morango), o suspiro de uma senhora grisalha que espera, o fechar de um livro, tantos dedos que viram páginas, as batidas graves e amorfas de uma música eletrônica ao fundo, como um réquiem ao silêncio.

— P. R. Cunha

Semióticas

O emissor: eu (P. R. Cunha [personagem{?}]);

O receptor: você (leitor[a]);

A mensagem: há uma festa, um grupo está a organizar essa festa, é um grupo de amigos, você não conhece ninguém desse grupo, logo você não foi convidada para ir a essa festa; mas suponhamos que você conheça um integrante qualquer do grupo, o Jamir, por exemplo, você conhece o Jamir, o Jamir ainda não lhe convidou para a festa, mas agora, com Jamir, existe a possibilidade do convite, você poderia ir à festa se (e somente se) o Jamir lhe convidasse; é tudo uma questão de intimidade: isto é, quão intimamente você conhece Jamir para Jamir lhe convidar à festa, Jamir por um acaso lhe tem em alta conta?, ou vocês simplesmente trocaram algumas palavras soltas durante partida de xadrez no ensino médio?; suponhamos que haja intimidade, sim, você e Jamir são íntimos, Jamir lhe convida à festa, você aceita o convite, você vai à festa, Jamir, afinal, convidou-lhe, você faz parte do grupo, ou fará parte do grupo, isso porque Jamir lhe convidara, Jamir é o elo — eu, por exemplo, não fui convidado;

O contexto: feriado (Finados) chuvoso em Brasília, Distrito Federal (fujo de algumas obrigações [poder-se-ia dizer procrastinação empenhada]);

O canal: electro-sítio do P. R. Cunha;

A(s) função(ões): referencial/metalinguística/fática/conativa — também emotiva/expressiva, visto que há informações (diminutas, bem verdade) sobre o emissor etc., ou, como se diz, «falamos por falar, sem outro objetivo além de entreter a narrativa».

Oração ingênua:

E que jamais a tristeza
toque na pena leve
do servo linguístico.

— P. R. Cunha

Filosofia: tem alguma coisa no queixo dela

A porta do elevador abriu. Uma mulher estava com o rosto praticamente grudado ao espelho, como se tentasse espremer um cravo. Soava aquela trilha sonora típica de elevadores, Nelson Riddle, Percy Faith, talvez Dave Brubeck, e a mulher não se importara com a minha entrada, dissera apenas: tem alguma coisa no meu queixo, vês? Cheguei ao andar desejado e toquei a campainha. Estamos em casa de Patrick, que é professor de filosofia da Universidade de Brasília. A esposa dele, Marluce, se aproxima com uma travessa de salgadinhos (basicamente coxinhas, quibes, enroladinhos de salsicha, pastéis de ricota) e mais por educação do que por curiosidade me pergunta se teremos problemas ardilosos pela frente. Há problema ardiloso pela frente, eu respondo enquanto belisco o pastel de ricota, muitos gostam de comparar o problema com a pedra. «Certo problema é-me uma pedra», dizem. Acontece que com a pedra, eu continuo, com a pedra também é possível praticar o curling — pedra de granito + agasalho + vassourinha + calçado adequado para não escorregar na pista de gelo. O jogador de curling permite que a pedra deslize sobre o piso de gelo. A pedra, como ressaltei, é a metáfora do problema: deixe-a ir. Marluce se afasta sem dizer palavra. Claramente me acha um idiota.

— P. R. Cunha

P. R. Cunha reflete brevemente a respeito do P. R. Cunha / palavra de honra

Sou o louco da família, segundo a minha própria família; sou o estranho, o absurdo, o distante, o engraçado, temperamental, bipolar, tênue, carinhoso, explosivo. Quando não escrevo, pratico o cycling (moderado) e a vipassana meditation (em sânscrito: विपश्यन). Não creio muito nos deuses, já vi fantasma(s), acho que o meu falecido pai está a me observar — não sempre, às vezes, à noite, ou quando a casa mostra-se «vazia». Gosto de me fingir de escritor perturbado, escrevo todos os dias das oito e trinta às onze e trinta da manhã. Gosto de, como se diz, meter o bedelho nas coisas para as quais não dou a mínima. Não sou muito bom em descrever cenários, prefiro mostrar aquilo que se passa dentro da cabeça das personagens. Só no escrito é que me sinto seguro (refugiado! [imagem do exílio]), utilizo as prateleiras da minha biblioteca como muralha para o mundo. Meu escritor favorito é o W. G. Sebald. Sim, W. G. Sebald — para sugerir a imagem do intelectual outsider e pouco compreendido que também pretendo encarnar. Etcétera.

— P. R. Cunha