Livraria Cultura

Dou continuidade às obsessões geográficas das pessoas que escrevem (vide texto anterior) e sento-me num café de livraria, shopping mall, longe do centro da cidade, transeuntes a observar com ares filosóficos — mão no queixo, cabeça levemente inclinada etc. — as vitrines com móveis de toda a sorte. Se fechamos as pálpebras, o aroma do expresso que acabara de sair da máquina como que ganha outra vida, intensifica-se, e logo passamos a escutar também os cumprimentos de empresários, conversas entre pais e filhos, uma proposta de casamento a sério, o riso confuso da moça que não sabe se quer aceitar a proposta de casamento a sério, o som de um talher que cai ao chão, um cliente a pedir a conta, outro a pedir a torta do dia (massa integral, recheio de morango), o suspiro de uma senhora grisalha que espera, o fechar de um livro, tantos dedos que viram páginas, as batidas graves e amorfas de uma música eletrônica ao fundo, como um réquiem ao silêncio.

— P. R. Cunha

Semióticas

O emissor: eu (P. R. Cunha [personagem{?}]);

O receptor: você (leitor[a]);

A mensagem: há uma festa, um grupo está a organizar essa festa, é um grupo de amigos, você não conhece ninguém desse grupo, logo você não foi convidada para ir a essa festa; mas suponhamos que você conheça um integrante qualquer do grupo, o Jamir, por exemplo, você conhece o Jamir, o Jamir ainda não lhe convidou para a festa, mas agora, com Jamir, existe a possibilidade do convite, você poderia ir à festa se (e somente se) o Jamir lhe convidasse; é tudo uma questão de intimidade: isto é, quão intimamente você conhece Jamir para Jamir lhe convidar à festa, Jamir por um acaso lhe tem em alta conta?, ou vocês simplesmente trocaram algumas palavras soltas durante partida de xadrez no ensino médio?; suponhamos que haja intimidade, sim, você e Jamir são íntimos, Jamir lhe convida à festa, você aceita o convite, você vai à festa, Jamir, afinal, convidou-lhe, você faz parte do grupo, ou fará parte do grupo, isso porque Jamir lhe convidara, Jamir é o elo — eu, por exemplo, não fui convidado;

O contexto: feriado (Finados) chuvoso em Brasília, Distrito Federal (fujo de algumas obrigações [poder-se-ia dizer procrastinação empenhada]);

O canal: electro-sítio do P. R. Cunha;

A(s) função(ões): referencial/metalinguística/fática/conativa — também emotiva/expressiva, visto que há informações (diminutas, bem verdade) sobre o emissor etc., ou, como se diz, «falamos por falar, sem outro objetivo além de entreter a narrativa».

Oração ingênua:

E que jamais a tristeza
toque na pena leve
do servo linguístico.

— P. R. Cunha

Filosofia: tem alguma coisa no queixo dela

A porta do elevador abriu. Uma mulher estava com o rosto praticamente grudado ao espelho, como se tentasse espremer um cravo. Soava aquela trilha sonora típica de elevadores, Nelson Riddle, Percy Faith, talvez Dave Brubeck, e a mulher não se importara com a minha entrada, dissera apenas: tem alguma coisa no meu queixo, vês? Cheguei ao andar desejado e toquei a campainha. Estamos em casa de Patrick, que é professor de filosofia da Universidade de Brasília. A esposa dele, Marluce, se aproxima com uma travessa de salgadinhos (basicamente coxinhas, quibes, enroladinhos de salsicha, pastéis de ricota) e mais por educação do que por curiosidade me pergunta se teremos problemas ardilosos pela frente. Há problema ardiloso pela frente, eu respondo enquanto belisco o pastel de ricota, muitos gostam de comparar o problema com a pedra. «Certo problema é-me uma pedra», dizem. Acontece que com a pedra, eu continuo, com a pedra também é possível praticar o curling — pedra de granito + agasalho + vassourinha + calçado adequado para não escorregar na pista de gelo. O jogador de curling permite que a pedra deslize sobre o piso de gelo. A pedra, como ressaltei, é a metáfora do problema: deixe-a ir. Marluce se afasta sem dizer palavra. Claramente me acha um idiota.

— P. R. Cunha

P. R. Cunha reflete brevemente a respeito do P. R. Cunha / palavra de honra

Sou o louco da família, segundo a minha própria família; sou o estranho, o absurdo, o distante, o engraçado, temperamental, bipolar, tênue, carinhoso, explosivo. Quando não escrevo, pratico o cycling (moderado) e a vipassana meditation (em sânscrito: विपश्यन). Não creio muito nos deuses, já vi fantasma(s), acho que o meu falecido pai está a me observar — não sempre, às vezes, à noite, ou quando a casa mostra-se «vazia». Gosto de me fingir de escritor perturbado, escrevo todos os dias das oito e trinta às onze e trinta da manhã. Gosto de, como se diz, meter o bedelho nas coisas para as quais não dou a mínima. Não sou muito bom em descrever cenários, prefiro mostrar aquilo que se passa dentro da cabeça das personagens. Só no escrito é que me sinto seguro (refugiado! [imagem do exílio]), utilizo as prateleiras da minha biblioteca como muralha para o mundo. Meu escritor favorito é o W. G. Sebald. Sim, W. G. Sebald — para sugerir a imagem do intelectual outsider e pouco compreendido que também pretendo encarnar. Etcétera.

— P. R. Cunha

Ser digital — o comportamento humano como mercadoria

Cansado das barbáries terrestres,
o astrônomo vivia para o mundo da Lua.

Somos 7.6 bilhões a habitar esta errante bolota de pedra. De acordo com o portal statista.com 2.6 bilhões têm conta em alguma rede social (o Facebook, por exemplo, possui 2.23 bilhões de usuários ativos). Não é necessário recorrer a nenhuma ciência de foguete para conjecturar as possíveis direções dessa locomotiva desvairada: daqui a algumas décadas, toda a gente terá um telemóvel para chamar de seu, cada vez mais operações serão realizadas via rede web e isso faz pensar que os realizadores de filmes de zumbis não estavam assim tão distantes da realidade quando retrataram humanoides melancólicos a vagar algures com vistas a um horizonte invisível. No caso do Homo digital, fitar-se-á dispositivo de telecomunicação enquanto algoritmos (machine learning) oferecerem as devidas alternativas de: 1) consumo; 2) em quem votar nas próximas eleições; 3) por quem se apaixonar; 4) qual o trabalho mais adequado para si; 5) etc. Atualmente, a economia se mostra deveras preocupada com possíveis catástrofes naturais, com a escassez de benzina, crises hídricas. Porém, em breve, as commodities mais valiosas estarão voltadas para o «digital self». De aí, quando a ficção científica se tornar corriqueira, talvez alguém se lembre de 2018 com certa nostalgia — uma época em que ainda podíamos gozar de qualquer privacidade.

— P. R. Cunha

Quarta nota #2 — quem tem medo da gramática portuguesa (o dia em que encontrei o professor Pasquale a tirar uma selfie com o Palácio do Planalto atrás de si)

§ Muitos sentem um horror inominável quando diante da gramática portuguesa porque tratam-na como se fosse um conjunto rígido de leis e sentir-se-iam verdadeiros criminosos se infringissem tais regras quando verdade seja dita as instruções gramaticais servem para nortear e não para decapitar são acordos tácitos e se você não está a escrever para alguma banca de concurso público banca formada por verdadeiros dinossauros semânticos com voz passiva se você está portanto a anotar literaturas então permita-se um bocadinho de erro um bocadinho de escrita contínua um bocadinho de ousadia e não deixe que nem uma vírgula sequer se intrometa no meio do caminho.

§ Dirigimo-nos para a terceira década de Internet e é preciso estar mesmo muito ocupado com o ecrã do telemóvel para não perceber que o imediatismo à velocidade da luz não é lá muito a praia do Homo sapiens com cérebro analógico (20 W / 200 Hz).

§ Robô que Max adquirira tinha um metro e sessenta e cinco de altura, busto: oitenta centímetros; quadril: noventa centímetros; pernas longas, pescoço alongado, pele macia, robô atraente — Max pagara a taxa extra e a Robotpartner™ comprometera-se a entregar robô no apartamento dele num prazo de quarenta e oito horas.

§ A mesma luz que cega a alguns ilumina as trevas de outros. E a física quântica nos ensinara que as grandes coisas não costumam concordar com as pequenas coisas. Impasses da realidade contemporânea.

§ «Quando nosso ódio é intenso de mais, põe-nos abaixo de aqueles a quem odiamos», um notável disse isso, no moderno século XVII.

§ Entregar-se ao small talk sobre os motivos de se fazer arte enquanto bebe café Colômbia com arábica de colheita tardia, intensidade seis, acompanhado de cocoa-70% e sentir-se vivo e útil e sem culpas.

— P. R. Cunha