Semióticas

O emissor: eu (P. R. Cunha [personagem{?}]);

O receptor: você (leitor[a]);

A mensagem: há uma festa, um grupo está a organizar essa festa, é um grupo de amigos, você não conhece ninguém desse grupo, logo você não foi convidada para ir a essa festa; mas suponhamos que você conheça um integrante qualquer do grupo, o Jamir, por exemplo, você conhece o Jamir, o Jamir ainda não lhe convidou para a festa, mas agora, com Jamir, existe a possibilidade do convite, você poderia ir à festa se (e somente se) o Jamir lhe convidasse; é tudo uma questão de intimidade: isto é, quão intimamente você conhece Jamir para Jamir lhe convidar à festa, Jamir por um acaso lhe tem em alta conta?, ou vocês simplesmente trocaram algumas palavras soltas durante partida de xadrez no ensino médio?; suponhamos que haja intimidade, sim, você e Jamir são íntimos, Jamir lhe convida à festa, você aceita o convite, você vai à festa, Jamir, afinal, convidou-lhe, você faz parte do grupo, ou fará parte do grupo, isso porque Jamir lhe convidara, Jamir é o elo — eu, por exemplo, não fui convidado;

O contexto: feriado (Finados) chuvoso em Brasília, Distrito Federal (fujo de algumas obrigações [poder-se-ia dizer procrastinação empenhada]);

O canal: electro-sítio do P. R. Cunha;

A(s) função(ões): referencial/metalinguística/fática/conativa — também emotiva/expressiva, visto que há informações (diminutas, bem verdade) sobre o emissor etc., ou, como se diz, «falamos por falar, sem outro objetivo além de entreter a narrativa».

Oração ingênua:

E que jamais a tristeza
toque na pena leve
do servo linguístico.

— P. R. Cunha

Irmandade de Escritores de Brasília

Segundo a lenda, o brasão da Irmandade de Escritores de Brasília era uma coruja — a simbolizar mistério, sabedoria, conhecimento intuitivo. Ave de rapina, soberana da noite, cujos olhos enxergam através da escuridão. O desenho é estranho. Parece mais um rabisco feito por escolar indisposto. Escritor que quisesse entrar para a irmandade precisava de obedecer regras disparatadas, tais como: nunca segurar a chávena de café com a mão esquerda, jamais subir ao mirante da Torre de TV, não comprar chocolates suíços, fazer oração ao petróleo antes de dormir (oh, benzina, que move o meu automóvel com destreza…). O presidente da irmandade ficava a descansar numa cave com endereço desconhecido; realizava apenas uma breve aparição por volta do dia 21 de junho, época em que, como sabemos, marca o início do inverno no hemisfério sul. Durante o evento, que durava cerca de quinze minutos, o presidente sentava atrás de uma cortina branca e os participantes só podiam observar a silhueta do excêntrico conviva, como se fantasma escondido atrás dos lençóis. De acordo com testemunhas, ele dizia com voz calma e resoluta: não ser devedor de alguém, não se comprometer com nada, sem promessas, sem favores, a sua responsabilidade com o leitor termina assim que a última frase é escrita.

— P. R. Cunha

Pergunta # 4 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] Percebe-se de imediato que a sua escrita navega naquele vasto oceano a que costumam chamar de autoficção. Como você lida com a expectativa dos leitores em relação a isso?

[P. R.] Outro dia a minha avó leu trechos dum manuscrito em que estou a trabalhar e ficou assustadíssima: não sabia que meu neto era lá um rapaz tão sorumbático; céus!, quanto pessimismo. Ou mesmo este amigo com quem mantenho pouco contato. Mandou-me um e-correio repleto de azedume que falava mais ou menos o seguinte: não me lembro de você me pedir autorização para escrever sobre a minha vida privada num livro filosófico tão ruim. Ilusório aspecto documental. Meu gênero sempre foi a mentira. Eu reinvento tudo. Por isso tive de largar o jornalismo, aquela postura terrível de imparcialidade diante dos fatos. Veja bem: largo o jornalismo para finalmente poder contar as minhas mentiras em paz e toda a gente a ler-me como se eu fosse um repórter de economia… Há qualquer coisa de irônico nisso. Mas me parece inevitável que seja assim, uma vez que esses seres humanos me conhecem, e costumo escrever em primeira pessoa, o capcioso «eu». Não estou com isto a sugerir que não há nada de autobiográfico. Mas achar que tudo é um espelho da vida real (o que quer que isso signifique) é de uma tremenda ingenuidade. Percebi também que de pouco adianta dizer que são narrativas ficcionais. O sujeito sorri com ares de conspiração, como se dissesse: ah, meu amigo, a mim você não engana. Desconfio que nunca mudarão de ideia. E isso já não me dá cabo da cabeça. Há muito que deixei de me inquietar com esses pormenores — era o que eu estava querendo dizer desde o princípio, mas não o disse porque se o fizesse você teria ficado um bocado aborrecido com a brevidade da resposta.