Grande piscina vazia

Total ausência de instrumentos convencionais. Nada plugado. Softwares, hardwares. Sentar para fazer música apenas quando surgir qualquer inspiração — difícil de definir «inspiração». Força motriz que impele/empurra/impulsiona. Motivo(s). Cansado de todas os trejeitos de músico: o músico perturbado, o músico avant-garde, o músico com a guitarra nos ombros a fazer pose de músico com a guitarra nos ombros, o músico que tem algo a contar, o músico que não tem nada a contar. Mexer nos teclados, perceber os sons que saem ao mexer nos teclados. Registros, consequências. Algo aproximadamente orgânico realizado numa máquina inorgânica. Contradizer-se, fechar-se, abrir-se. Distanciamentos. Música sem assinatura humana. O homem (i.e.: «eu») programa a música, a música segue por si mesma. Loopings, repetições, monotonias. Fumar um atabacado durante a gravação. Sentir o sabor do atabacado. Colagens. Recomeços. Inícios falsos. Falsos finais. Ser-não-ser músico. Músico falso. Músico ciborgue. Samples, recortes. Atmosferas. Neve. Emoções modernas. O vazio. A destruição. Amnésias. Ambient techno. Sem linguagem pré-definida. Reverberações, ecos. Beijar a Jessy antes de publicar a grande piscina vazia. Alienação: fuga, esconderijo. Refúgios.

— P. R. Cunha