O que é o neo-fascismo brasileiro?

Em um texto anterior escrevi que o personagem Pasternak vivia com uma frase de Karl Marx a lhe martelar a cabeça: que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. O passado é um oráculo capcioso, exprime-se em falsos cognatos. Deve-se analisá-lo cautelosamente com óculos contemporâneos a ver se é possível descortinar, um bocadinho que seja, a nebulosa cortina do futuro.

Numa coluna publicada no jornal inglês Tribune em 24 de março de 1944, George Orwell questionou-se sobre uma das perguntas mais importantes da época: afinal, o que é fascismo? Orwell nos conta que ouvira a palavra ser aplicada a agricultores, a lojistas, ao castigo corporal, à caça à raposa, às torturas, a Kipling, Gandhi, à astrologia, às mulheres, aos cães e «a não-sei-mais-o-quê».

O autor de 1984 mostrava-se interessado nos sentidos ocultos do termo. Sabia que aqueles que lançavam a palavra «fascista» em todas as direções estavam agregando a ela alguma medida de significado emocional, o que dificultava a tarefa de achar uma definição clara e aceita por todos. O que parecia bastante óbvio, porém, era que o fascismo da Segunda Guerra Mundial era algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista, antiliberal — troglodita. E que tudo isso encontrava-se inserido em sistemas políticos e econômicos de nações ditas civilizadas.

Ter esses conceitos em mente pode ser decisivo para compreender (e debater) a situação delicada em que se encontra a democracia brasileira, prestes a colocar um neo-fascista à poltrona mais importante do país. De forma que é a nossa vez de perguntar: o que é um neo-fascista?

O neo-fascista, a meu ver, seria um ator medíocre que, quando as circunstâncias do teatro político permitem, consegue lá o papel de protagonista. Lembra, assim, um Hitler com maquiagem de palhaço a explorar a crise generalizada com ideias de «vencê-la pelo uso da força». 

O neo-fascista precisa, portanto, de um palco e — pelo menos nos primeiros atos — de uma plateia amedrontada disposta a pagar pela tragédia. O público começa a escolher bodes expiatórios para o ressentimento e a miséria social; o público se sente injustiçado. O monólogo do ator medíocre explora essas angústias com a construção de adversários terríveis que precisam ser combatidos a qualquer custo. É um ódio quase paranoico. Prenúncio de desastres.

O resultado destas eleições será o reflexo desse teatro do absurdo: clima de medo, de privação, de insegurança, perda de prestígio — além de uma profunda crise de legitimidade do Estado. Exatamente como ocorrera na Alemanha dos anos 1930. E se a história ainda pode nos ensinar alguma coisa: nunca é de mais ressaltar que Adolf Hitler chegara às altas esferas do poder alemão não através de golpe, mas através do voto democrático ao partido nazi.

— P. R. Cunha

Pasternak: notas provisórias

Personagem chamado Pasternak — como o poeta/novelista/tradutor russo; motivo: o pai vivera para a União Soviética nos anos 1960. As cinco etapas do luto (luto que por vezes é desencadeado por: morte de parente/amigo, decepção amorosa, inadequações sociais [a definir]): negação, raiva, barganha, período melancólico, aceitação. Pasternak não admite, Pasternak furioso, controla-se, tenta mudar de ideia («e se eu [Pasternak] pudesse consertar as coisas» etc.), tristeza de Pasternak, depois de tantas batalhas, eis a resignação, o cansaço. Frase a martelar a cabeça deste excêntrico personagem: História se repete; a primeira vez como tragédia e depois como farsa. A frase, muito atual diga-se de passagem, é do Karl Marx. Tentativa de fuga, mas as pernas de Pasternak não se movem (figurativo/paralisia/eterno exilado/assim por diante). Pois observai o mundo e vereis que na mor parte os humanos não têm para onde ir. Manter a linguagem rebuscada numa espécie de jaula, aterrada; Pasternak não é 1) pedante; 2) estimado por seus bens; 3) muito menos julga a própria felicidade na medida da riqueza. Período antes do luto/melancolia, características gerais — até àquele momento Pasternak fora senhor de seus demônios, capaz de direcioná-los de acordo com seus caprichos, mas lá no fundo, como já escreveram numa importante obra filosófica, no mais recôndito de seu coração (a figura romântica do coração como casa dos nossos sentimentos), havia um poço infinito (bonita imagem: poço infinito, poço profundo), poço que reagia completamente alheio às vontades de Pasternak, fora de seu controle, e a tampa desse poço acabara de ser aberta. Pasternak não se reconhece.

— P. R. Cunha