Porque é óbvio que nem toda a gente vive da mesma maneira

Ele andava de um jeito engraçado, como se estivesse prestes a levitar, ela segurava o braço direito dele com suavidade, ternura. Eles tinham acabado de tomar sorvete & depois de ela tanto insistir ele finalmente aceitou levá-la para conhecer o apartamento em que ele morava há quase um ano. Eles pararam à portaria, ele a abraçou & disse: passo importante, este. Ela sorrira. Ele ajeitou os cabelos dela. Entraram no elevador, ele tirou as chaves do bolso da calça. Antes de destravar a fechadura do apartamento ele olhou para ela: tens a certeza de que queres mesmo fazer isto? Ela consentira com a cabeça, os olhinhos a brilhar. Ele então abriu a porta & como se fosse um guia turístico explicando as peças de um museu estranho começou a mostrar todos aqueles livros jogados, centenas, milhares de livros, no chão, nas prateleiras de madeira clara, sobre o sofá de três lugares perto da escrivaninha — também amarrotada de livros —, livros em cima do fogão, livros em cima da pia, livros na cama, centenas e milhares de livros, é importante repetir, Francisco de Moraes, Le Carré, Virginia Woolf, Pinker, Ballard, Starobinski, Horgan, Panek, Austen, Kafka, Mendes Campos, Cheever, Plath, Camus, Baudelaire, Beauvoir, Harari, Eco, Melville, Begley, Haroldo de Campos, &tc. &tc. &tc., livros em cima do rádio, livros dentro do banheiro, livros, em suma, para tudo quanto é lado, & parecia que ele tinha sempre uma anedota a fazer sobre esses livros, ou uma história edificante sobre esses livros, ou uma lembrança que determinada coleção oitocentista lhe trazia, & quando ele finalmente parou para respirar, como se diz, quando ele percebeu que desde que começou a falar sobre esses livros todos não dera a mínima atenção para ela, quando ele decidiu olhar para ela, portanto, ela que ficara em absoluto silêncio durante as explicações dele sobre todos esses livros, quando ele finalmente se voltou para observá-la, ele definitivamente não estava nem um pouco preparado para o que viu.

— P. R. Cunha

Trégua passageira

Dois primos que durante anos competiram entre si, não só porque tinham lá praticamente a mesma idade, mas também porque eram em tudo muito diferentes — um se mostrava inclinado às contemplações literárias, sábio catedrático, pós-doutorado nisto e naquilo; enquanto o outro era preguiçoso, passava grande parte do tempo em festas duvidosas, jamais frequentara universidade. Numa palavra: um era feio e intelectual, enquanto o outro não tinha nada para a cabeça mas era lá um bocado atraente para as damas. Aconteceu de os primos terem se envolvido na semana passada em um bizarro desastre perto da rodoviária, quando dois autocarros se chocaram depois que os respectivos condutores de súbito, como se costuma dizer, perderam os nervos. De acordo com os noticiários, um dos primos, o intelectual, estaria a caminho de um seminário sobre o papel da morte nas obras de Schubert e Kafka, ao passo que o outro primo, o galanteador, estaria a voltar de uma bebedeira que terminara pouco antes das sete da manhã. Segundo o laudo policial, cujas folhas estou a analisar neste exato momento, os dois primos, assim como outros nove passageiros, foram decapitados pelas ferragens. Não se sabe, no entanto, se ferragens pertencentes ao primeiro o ao segundo autocarro, tamanha a violência da colisão.

— P. R. Cunha