Dois blocos com pensamentos concretos — Brasília

Quando Niemeyer foi convidado por Juscelino Kubitschek para desenhar os edifícios de Brasília, o arquiteto já tinha mais de meio século de planeta Terra. Deram-lhe oportunidade para construir uma nova morada para si e para milhares de brasileiros; um refúgio livre, cheio de curvas, onde o modernista poderia aproveitar os, como se diz, anos de glória. Porém, depois do exílio durante os 1960, Niemeyer jamais olharia para as traseiras brasilienses com a mesma ternura incondicional. Preferiu a França, as praias do Rio de Janeiro, o calor das belas raparigas cariocas. Vivera até aos 104 anos, a dizer adeus aos amigos, a sentir aquele vazio amargo de quem foi traído pelo filho transtornado.

Pistas e pontes a cair, patrimônio cultural da humanidade, estádio e aeroporto que custaram bilhões aos cofres públicos, rodovias esburacadas à moda superfície lunar, prédios sucateados, jardins artificiais, bibliotecas inacabadas, estantes sem livros, torre de televisão a rachar, funcionários públicos que se jogam do Congresso Nacional, cidade-automóvel que não suporta automóveis, novos (e velhos) militares a dar tiros para o alto, os ciclistas atropelados, as quadras fantasmagóricas, a W3, a L4, a L2, o calor, o barro, a terra vermelha — Brasília.

— P. R. Cunha