Sr. Anselmo – parte 9

Franz Kafka costumava dizer: «Tudo o que não é literatura me aborrece» — alfinetada direta nos meios de comunicação da primeira metade do século vinte. Jornais repletos de terror, iminências de guerras, manipulações, totalitarismos, pânico, desassossego, mortes. O sr. Anselmo está agora a assistir ao noticiário e chega-lhe à cabeça a ideia de que as coisas não mudaram muito desde os tempos de Kafka. Depois de desligar a TV, ele precisa da desintoxicação da praxe, do abrigo luminoso da literatura. O sr. Anselmo senta-se à mesa para folhear romances. Reflete sobre os paradoxos do sistema informacional contemporâneo. O jornalista mente sem escrúpulos enquanto tenta convencer a todos que está a falar da realidade. O romancista fala de realidades enquanto brinca de dizer mentirinhas e não pretende convencer a ninguém. Uma questão de honestidade, diz para consigo o sr. Anselmo, cujo escritor predileto continua a ser Franz Kafka.

— P. R. Cunha

Domingo paternal

Para Evandro de Oliveira Cunha, meu pai

Os semióticos fazem-no pensar/refletir a respeito das gavetas. Quando jornalista: pavor da palavra «gaveta» (s. f., cada uma das caixas corrediças que se embebem nos móveis e servem para encerrar objetos). O editor a dizer: o teu texto está certinho, ótimo, mas não encaixa nas próximas edições; teremos (e quem além dele teria esse poder?), sim, teremos de colocá-lo na gaveta. À espera, o limbo, purgatório. Depois, já escritor (ou a dizer-se um): a gaveta das acumulações, das empreitadas experimentais, os desencaixados (também uma espécie de purgatório, a antecâmara do lixo — o querer jogar fora, o medo de se arrepender depois). Ou mesmo aquela outra gaveta, mais branda, mais otimista, onde ele coloca o material de pesquisa, as anotações para o próximo romance a ser escrito.

— P. R. Cunha