Sábado noturno

Alonso Rivera ergueu o dedo em riste para o barista, que de má vontade levantara-se da cadeira de onde assistia à final do torneio futebolístico. Quase sem tirar os olhos da televisão, o barista encheu o copo de Alonso Rivera e da rapariga que estava ao lado dele. Depois fechou a garrafa de uísque, afundou-se novamente na cadeira. A rapariga era no mínimo uns vinte anos mais nova do que Alonso Rivera, facto que não passara despercebido para os outros sentados à bancada, que vez ou outra cochichavam entre si qualquer coisa maliciosa a respeito. Os dois — Alonso Rivera e rapariga — pareciam não se incomodar. Bebiam o uísque, conversavam sobre jazz, literatura latino-americana, ele tocava suavemente nas costas das mãos dela, ela sorria, ele contava mentiras, ela ajeitava os cabelos e fingia que acreditava. Só aquela noite, pensou Alonso Rivera enquanto levava o último gole do líquido escuro à boca, só mais uma noite. E cada um finalmente partiria para o seu lado, sem se tornar a ver.

— P. R. Cunha

Tudo acaba

Um assim chamado amigo de juventude, e que sempre foi um grande admirador de jazz, muito provavelmente o maior colecionador de discos de jazz de Brasília, tendo inclusive participado de diversas palestras sobre Charlie Parker, Cannonball Adderley, Billie Holiday, Sarah Vaughan, Etta James, Duke Ellington, Chet Baker, Stan Getz, Buddy Rich, etc., esse amigo de juventude, portanto, decidira conhecer pessoalmente aquele que é considerado o maior baterista de jazz do Brasil, um baterista sem dúvida muito talentoso. Comentei com esse amigo de juventude que ele estava prestes a cometer um grande equívoco, que não deveria ir lá conhecer o baterista, que deixasse o baterista tocar a bateria, e que ele apenas se contentasse em ouvir o baterista tocar a bateria, que isso já seria o bastante. De longe você gosta do baterista, admira o baterista, eu disse a esse meu amigo de juventude, mas de perto você não gosta do baterista, evidentemente, porque quanto mais nos aproximamos daqueles que admiramos, mais os odiamos, é tudo afinal simples como isso. A verdade é que ninguém muda, e meu amigo de juventude, a despeito de minhas recomendações, foi lá ter com o maior baterista de jazz do Brasil, ou seja, não seguiu os meus conselhos, e naturalmente se decepcionara imenso. Disse-me que tão logo apertara a mão do baterista percebera que estava tudo acabado, e se dera conta de que, daí em diante, nunca mais conseguiria ouvir os tambores desse baterista, o maior do Brasil, como já salientei diversas vezes.

— P. R. Cunha