Este desejo louco de fazer haikus enquanto seguro um martelo

Casa vazia, relativo silêncio, atmosfera aprazível — aproveitar enquanto não vêm ruídos, humanos, livros guardados (por enquanto), uma folha de papel, lápis à moda antiga, o relógio da parede que não deixa esquecer que o tempo é um maratonista de longas distâncias.

1.
menino
à janela ——
chora a chuva

2.
leitura de um romance
o nada finlandês
autocarro atrasado

3.
arvores abatidas
perfume de benzina
(outro) inverno em Brasília

— P. R. Cunha

Observações pouco específicas e um tanto desinteressadas sobre viajar

O autor ainda desconhece o propósito destas notas; teme, entretanto, que as viagens estejam a se transformar em meros deslocamentos inconvenientes — tal como o maníaco citado por Baudelaire que substituía móveis sólidos e jardins verdadeiros por cenários pintados em tela e montados em caixilhos.

Determinadas jornadas, por algum motivo, produzem emoções diferentes no teu coração — e se estás a ler o relato de algum fidalgo que passara por epifanias parecidas, logo deixas de ser um mero leitor-espectador para juntar-te ao viajante, ao caminho, à estrada. Um amplo e sensível diálogo do fidalgo connosco, com a vida. Perguntas-lhe «por onde anda, por onde andou, para onde vai». Se achas realmente simpático o relato, logo percebes aquela aprazível atmosfera que toda a gente que numa altura esteve na poltrona de um comboio com a janela aberta — o vento fresco a limpar o rosto —, que toda a gente que já ouvira as profundas badaladas dos sinos de certa aldeia portuguesa irá prontamente entender. O viajante pode estar a contar verdades, ou a transformar o que vira em auto-retrato ficcional; entrelaça a realidade vivida com as composições fantásticas da literatura. Viajante está a observar a rua desde um café estrangeiro e pensa com afinco sobre as possibilidades desta cena, o potencial narrativo desta cena: um passarinho canta, um trompetista aveirense que limpa o instrumento com ternura, o balé moroso de árvores retorcidas pelo Pai Inverno. O viajante não precisa de ser um homem triste, tímido, um bocadinho atormentado, solitário — embora amiúde o seja. Lá está ele com os cabelos desgrenhados à Einstein, a fotografar qualquer coisa na praça central, a vivenciar, a lutar contra o esquecimento. Bem podia ser um brasileiro de trinta e poucos anos, um metro e setenta de altura, um tipo aluado que acabara de sair da estação de comboio com o mapa da cidade de Lisboa para o bolso do sobretudo preto, a calcular a melhor rota até ao Hotel Continental — se pego está ou aquela avenida, ele diz consigo, talvez poupasse uns dez minutos, evitaria atravessar o Chiado que a esta hora com toda a certeza está engarrafado —, o viajante a devorar uma sanduíche de manteiga com o pão mole, a dar golinhos esporádicos no Sumol de laranja. Ele respira fundo o ar lisboeta, glaciar, e pensa se outros também sentiriam a mesma espécie de comoção que ele está a sentir diante da capital portuguesa, aquele tipo de arrepio involuntário que por vezes sentimos quando nos deparamos com o bater de asas de um colibri. 

— P. R. Cunha

Irmandade de Escritores de Brasília

Segundo a lenda, o brasão da Irmandade de Escritores de Brasília era uma coruja — a simbolizar mistério, sabedoria, conhecimento intuitivo. Ave de rapina, soberana da noite, cujos olhos enxergam através da escuridão. O desenho é estranho. Parece mais um rabisco feito por escolar indisposto. Escritor que quisesse entrar para a irmandade precisava de obedecer regras disparatadas, tais como: nunca segurar a chávena de café com a mão esquerda, jamais subir ao mirante da Torre de TV, não comprar chocolates suíços, fazer oração ao petróleo antes de dormir (oh, benzina, que move o meu automóvel com destreza…). O presidente da irmandade ficava a descansar numa cave com endereço desconhecido; realizava apenas uma breve aparição por volta do dia 21 de junho, época em que, como sabemos, marca o início do inverno no hemisfério sul. Durante o evento, que durava cerca de quinze minutos, o presidente sentava atrás de uma cortina branca e os participantes só podiam observar a silhueta do excêntrico conviva, como se fantasma escondido atrás dos lençóis. De acordo com testemunhas, ele dizia com voz calma e resoluta: não ser devedor de alguém, não se comprometer com nada, sem promessas, sem favores, a sua responsabilidade com o leitor termina assim que a última frase é escrita.

— P. R. Cunha