Orlando não acredita em fantasmas

Os quatro filhos do velho Orlando, com o pretexto de lhe dar um final de vida digno, como se diz, decidem tirá-lo de Niterói — transferi-lo, portanto, para o interior de São Paulo: Botucatu, mais especificamente. Orlando está com noventa e três anos, não tem muito tempo; ou pelo menos era essa a linha de raciocínio dos filhos (um deles, inclusive, criador de gado). O pai, que já batalhara imenso, merece um derradeiro descanso perto dos seus, mesmo que isto signifique remover as revigorantes caminhadas na areia da praia de Icaraí, atividade que há muito tornara-se hábito para o quase centenário homem oceânico. É um momento de cortar o coração quando Orlando descobre que toda aquela logística Niterói-Botucatu nada mais era do que uma oportunidade para os filhos controlarem de perto o dinheiro do velho, conter eventuais gastos, gerir os bens de maneira adequada para evitar dívidas inconvenientes quando a morte, enfim, viesse buscar a alma do progenitor. Como vingança e ato último de dignidade, Orlando decide-se permanecer vivo, sobreviver o máximo que puder — plano cujos estágios ele realmente coloca em prática com muita robustez. Já enterrara dois dos quatro filhos; ainda respira com desenvoltura, Orlando.

— P. R. Cunha

Estamos em limpezas, eles diziam

Ted estacionou o automóvel perto de um enorme cipreste (Taxodium mucronatum), à esquerda da lanchonete com placa de saída em néon roxo que poderia muito bem ter servido de cenário para alguma série do David Lynch. O sol começava a desaparecer atrás das montanhas rochosas e aquela atmosfera taciturna, azul desânimo, mexia com o Ted, que lembrava-se das longas noites de copo com amigos que hoje não são mais amigos, pessoas com rostos que seriam mesmo irreconhecíveis para ele — caso as encontrasse, digamos, numa feira a comprar fatos esportivos de lycra (tipo spandex). Os altifalantes da aparelhagem da lanchonete tocavam «Can’t Help Falling in Love» do Hugo Peretti, mas na versão com voz arrastada, modorrenta, do Rei do Molejo: Elvis Presley. Ted caminhou mais alguns metros e sentia que o barulho das próprias botas Caterpillar Second Shift cor café a pisar no cascalho do estacionamento e a cacofonia voz-Elvis-like-a-river-flows-surely-to-the-sea começavam a lhe dar vontades de desistir de tudo, de voltar para o próprio automóvel, dirigir até à pensão na qual estava hospedado, assistir a algum filme do Chaplin a preto-e-branco, quem sabe ligar para uma rapariga loura que conhecera há dois anos quando andava pela região à guisa de resolver coisinhas, rapariga parecida com a Sophia Loren antes de a Sophia Loren trocar de rosto através de mutilações cirúrgicas (conhecidas pelo odioso eufemismo «procedimento estético»), rapariga que vivia em jeans e camiseta branca e que ficava apertando os botões do painel da carrinha do Ted e dizia sem parar: Ted, tens aqui uma belezinha tão gira, e o Ted nunca sabia se a rapariga estava a falar do painel ou se aquilo tinha uma qualquer conotação erótica etc. Ted chegou ao local combinado. Parou. Acendeu um cigarro. Ajeitou a aba do boné. Percebeu que, às traseiras da lanchonete, duas pessoas uniformizadas estavam a varrer restos de uma festa recém-terminada. Um homem e uma mulher que se desculpavam educadamente com quem passasse por perto — estamos em limpezas, eles diziam. Copos e pratinhos de plástico dançavam ao vento, esse tipo de panorama. A certa altura, o homem encostara o queixo na ponta do cabo da vassoura e comentara com ar filosófico: não, não sei se eu daria conta de matar o sujeito, sabe?, estou velho demais para essas coisas. E enquanto o homem falava e a mulher fingia que não escutava, o Ted quase se esquecera do motivo que o levara até àquele sítio desolador.

— P. R. Cunha