Armadilhas literárias

Está o escritor presente em tudo o que escreve? As histórias, ou melhor, estórias que ele publica são autobiográficas? É legítimo fazer-lhe aquelas perguntas que tanto inquietam Orhan Pamuk — a saber: isto que o senhor escreveu realmente ocorrera?, o senhor passara por todas essas coisas? Diversos estudos psicológicos procuram compreender os pormenores do discurso daqueles que contam mentiras; se é ou não possível acreditar numa mentira caso essa mentira seja repetida inúmeras vezes etc. Noutros termos mais literários: pode o escritor confundir-se com a própria ficção? Neurocientistas apontam que a memória é traiçoeira. Mesmo se o emissor, com as melhores das intenções, garantir que está a falar a verdade, essa verdade pode se mostrar bem distinta dos acontecimentos ocorridos. Recordamos de forma equivocada e parece claro que essa sinuosa via neurológica levar-nos-ia a paradoxos absurdos nos quais a Verdade (com V maiúsculo) é apenas uma concepção artística. Ao passo que deveria de existir uma espécie de acordo tácito entre aquele que descreve e aquele que lê. Se o autor se identifica como escritor de ficção, voilà, os leitores deveriam apreciá-lo como tal. Mesmo que a verdade lhe sirva de alimento criativo, o que ele está a contar são representações (ilustrações, se preferir). Os envolvidos que não levarem esse acordo em alta conta correm o risco de caírem naquele obscuro vale descrito por Henry James — onde o observador se vê também como um estranho e perdido personagem.

— P. R. Cunha

Versos satíricos (uma réplica)

Num determinado encontro de escritores brasilienses — que ocorrera no Setor Comercial Sul e ao qual (felizmente?) não compareci — fui, segundo fontes críveis, citado por um dos participantes que utilizara de tais palavras para descrever a minha postura literária: «P. R. Cunha é um tipo completamente alheado do mundo, que não consegue compreender que o Brasil está a passar por um momento de exceção, e que não trata, pelo menos no seu blogue, das coisas que realmente importam» etc.

Não sou um sujeito belicoso. Poderia apenas desculpar-me e dizer ao supracitado vivente que há vários sítios mais calorosos do que este em que costumo me expressar sem pretensões homéricas, e que se as coisas que realmente importam estão alhures, pois fique então com alhures. Mas talvez seja altura de, como se diz, colocar os pingos nos is.

Quais são as intenções deste espaço eletrônico, o que o autor pretende com o blogue?

Como já comentei inúmeras vezes: um médico pratica a medicina, um professor ensina, um pesquisador pesquisa, e um escritor… bem, um escritor escreve. E se o escritor levar a sério a empreitada, ele vai escrever praticamente todos os dias. Mesmo que não escreva no papel, pode estar a fazê-lo mentalmente — enquanto passeia com uma adorável companhia, está também a tomar notas abstratas dentro da própria cabeça para uma breve posteridade.

Há os livros que precisam de ser escritos, e revisados, e editados, e enviados aos prêmios literários. E há aquela descompromissada produção que acontece nos interlúdios da fazenda livresca; tudo aquilo que não é aproveitado no livro, ou que não tem nada que ver com o tema do livro. É esse material que costumo publicar aqui no blogue.

Nunca sei se realmente valerá a pena disponibilizá-lo. Faço-o, porém, para que o excedente não se perca dentro das gavetas da minha escrivaninha. E, afinal, mostro-me aqui sem os filtros da praxe, sem ambições, vivendo num brando isolamento, liberto de sugestões e influências selváticas. Em tais medidas, corro o risco de não ser lido, ou mesmo de ser acusado de «não tratar das coisas que realmente importam».

No entanto, como diria um antigo, se este raciocínio intimidasse a todos, imaginem o que se teria perdido. Porque por vezes acontece de voltarmos com as melhores experiências justamente daquelas caminhadas para as quais não dávamos a mínima.

A verdade é que a World Wide Web é lá uma feira onde se encontra mesmo de tudo. Se as maçãs desta tenda estão podres, o ilustre leitor pode (e deve) procurar mercadorias mais apetitosas noutras barraquinhas. Porque nunca lhe faltará sumo mais intrigante, ou vendedores com verve à manifesto. 

— P. R. Cunha