devaneios da própria máquina de escrever (episódio #44)

há escritores muito supersticiosos. acreditam em fantasmas, bruxas & nesse tipo de coisas. andaram a escrever uns livros magníficos, mas continuam a acreditar em tretas estranhas.

batalhar em duas frentes literárias ao mesmo tempo, ou «efeito borboleta». pequenas causas — o simples bater de uma borboleta no brasil a gerar (através de intricada cadeia de eventos) um tornado no texas. medidas/escolhas insignificantes, digamos: virar à esquerda & não à direita, podem ter consequências devastadoras na vida de quem decide virar à esquerda & não à direita. (à direita, não sabemos, poderia estar um amor perdido, uma nota de cem dinheiros, um livro do baudelaire fora de catálogo).

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diagrama da trajetória do sistema de (edward) lorenz/strange attractor, dependência sensível às condições iniciais; somatórios de erros & incertezas. dois projetos literários podem seguir o mesmo caminho até determinada altura — altura em que pequenas perturbações (i.e. um dia soalheiro dedicado aos prazeres carnais) desviam a dupla & cada um passa a seguir estradas distintas. assim:

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curiosamente, o fractal representado pela trajetória do sistema lorenz/strange attractor/dois projetos literários lembra o formato de uma borboleta. porém, nada premeditado. obra do acaso.

— p. r. cunha

Há alturas em que temos tudo à nossa disposição

Uma teoria é feita de repetições. Estudamos determinados fenômenos, dizemos: não estou a compreendê-los; tornamos a estudá-los até, quem sabe, chegarmos a um nível aceitável de incerteza(s). E pode ser que no meio do caminho o investigador descubra sítios onde nunca ninguém esteve — descobertas acidentais, portanto.

O Sol brilha porque fusões nucleares estão a acontecer dentro de si. Quanto mais luminosa uma estrela, mais reações ocorrem no próprio núcleo. Estrelas supermassivas têm vida mais curta do que as estrelas comuns pois a sua taxa de consumo de energia é muito maior. Imagem terrestre à guisa de ilustração: enorme camioneta que gasta grande quantidade de benzina, enquanto um pequenino Prius é econômico e silencioso. Vida de uma estrela = quantidade de combustível / taxa de consumo*. Massa do Sol (em massa estrelar): 1. Tempo (em anos): 10 bilhões. Tipo espectral: G2.

Casa de mamã, fechado em mim mesmo como um microcosmos que quer ser mundo por conta própria. Neste quarto de mocidade sob cujo teto li pela primeira vez o Bernhard — Árvores abatidas. Quando nos mudamos para cá, meu pai fizera questão de que a minha janela estivesse voltada para o poente. Meu menino é contemplativo, dissera. E eu tinha acabado de completar cinco anos.

O narrador deste electro-sítio pode agora permitir-se dizer, com Sebald e Jean Paul, que está contente com a sua pessoa por ter passado a juventude a lidar com o pôr-do-sol todos os dias, com o desaparecimento da luz, por ter passado a juventude num lar com muitas janelas, casa cuja recordação sempre lhe deu uma ajuda.

*Vida útil de uma estrela com massa 5 (Nick Strobel’s calculation) = 1/(5/1) elevado a (4-1) x 10 elevado a 10 anos = (1/125) x 10 elevado a 10 anos = 8 x 10 elevado a 7 anos.

— P. R. Cunha