Sr. Anselmo – parte 14

Não há objetivo, diz o sr. Anselmo, nem propósito, tu não estás em jornada nenhuma. Há travesseiros, confortos artificiais, buscas pelo entretenimento sintético. Há fugas, explica o sr. Anselmo. E cada organização antropocêntrica criou/cria/criará para si ilusões de estabilidade, fantasias de permanência: Sócrates, Pedro I da Rússia, o Iluminismo, as bombas, Alexandre, Platão, o terremoto de Lisboa, o Muro de Berlim, Nero, as Torres Gêmeas, os incas, Sêneca, os maias, toda a filosofia grega, toda a filosofia romana, os sumérios, a astronomia grega, o Império Romano, a biblioteca de Alexandria, Napoleão, os Habsburgo, a queda de Constantinopla, os Romanov, o Império Austro-Húngaro, Schopenhauer, a Revolução Francesa, Sputnik, Hitler, os invernos, Newton, Homero, a Revolução Russa, o Albert Camus, Mussolini, Apollo 13, Lênin, Tutancâmon, os medievais, o Sebald, Gutenberg, Galileu Galilei, Thomas Bernhard, os babilônicos, Cioran, os outonos, Einstein, as grandes guerras mundiais, Montaigne, o Enuma Elish, o Gavrilo Princip, a Dinastia Sung, Nietzsche, o Canato Turco Ocidental, os verões, Gilgamesh, o Império Otomano, a Dinastia Yuan, o Califado Omíada, o Império do Grande Qing, a peste bubônica, a gripe espanhola, o Salazar, o Francisco Franco, o Hermann Göring, a Comuna de Paris, o arquiduque Francisco Ferdinando. Todos passaram, insiste o sr. Anselmo, tudo ruínas, miragens. Tudo desaparece.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #31)

TEMA DA ÚLTIMA AULA DE ESCRITA CRIATIVA DE 2019

[SUGESTÃO DOS ALUNOS]

quando tu escreves ficção, tu estás a contar mentirinhas. sim, é um jogo. um jogo em que tu farás de tudo para esconder as costuras da tua trama & não aborrecer os leitores — que não querem lembrar que estão imersos em ilusões. portanto, tens de ser convincente. & também por se tratar de um jogo, o escritor de ficção tem a liberdade de soar/agir de maneira, digamos, excêntrica. tu crias mundos paralelos, percebes?, personagens, sentimentos, caos, ordem, és tipo um deus pagão sem ambições evangelistas. o próprio escritor se (re)cria. sempre antes de começar qualquer narrativa gosto de imaginar uma versão otimizada de mim mesmo. uma espécie de escritor sob efeito de esteróides literários, se preferires. o meu duplo é muito melhor do que eu, escreve muito melhor do que eu, é sociável, toca guitarra numa banda islandesa de post-rock, ele sempre tem muitas ideias, sabe colocá-las em prática, o meu duplo já publicou várias obras, sabe lidar com a pressão editorial, participa da feira do livro, conversa com os leitores sem magoá-los. enfim, acho que pegaste a essência, certo? acontece que, para a coisa toda funcionar, o doppelgänger precisa mesmo de ser inatingível. ele é um eu-hipotético-ideal-übermenschizado, uma direção. um foco. a escrita acontece enquanto tento me aproximar desse espelho encantador cuja desenvoltura me inquieta & me perturba & me fascina ao mesmo tempo.

— p. r. cunha