Sr. Safranski

Uma vez eu olhei para a Rita e disse: Rita, estou entediado, gostava que fizéssemos alguma coisa, algum bem para a humanidade, sei lá, nós nunca fizemos bem nenhum à humanidade, raramente saímos desta casa etc. Naquela altura, estávamos casados há quinze anos. Rita me perguntou: e que tipo de bem pretendes fazer, bonitão? O «bonitão» foi um sarcasmo completamente desnecessário da parte da Rita, que gosta imenso de mexer com a minha autoestima, como naquela vez em que ela quase juntou o polegar com o indicador quando uma amiga perguntara a ela o tamanho do meu pênis. Parece-me claro que o meu pênis não é desse tamaninho, eu disse. As duas riram-se. Mas daí a Rita me questionara sobre que tipo de bem eu tinha na cabeça, e a verdade é que não tinha mesmo nenhum bem na cabeça, assim, nenhum de forma específica. Até que me senti pressionado pelo olhar da Rita, olhar inquisidor, malévolo, penetrante. Dois jamelões negros à espera do meu plano, da minha ideia de «bem para a humanidade». O Francisco não faz a ideia, né?, do tipo de bem que quer exercer, ela me disse. E como eu já estava mesmo por aqui, farto daqueles jamelões do diabo, disse que tinha exatamente a ideia, que sempre a tive, e essa ideia era… ir ao Centro de Atendimento ao Idoso (CAI, numa das siglas mais indecorosas que há por aí), cuidar de alguns velhinhos, depois sair do CAI um sujeito melhor, com a sensação de que, afinal, não sou assim tão egoísta como os meus amigos da faculdade de engenharia costumavam dizer. Ir, portanto, ao CAI, eu disse à Rita, vamos ir ao CAI e cuidar dos idosos. A Rita começou a segurar a perna direita, e parecia que ia começar a chorar, ela gritava enquanto dizia: é melhor ires sozinho, Frans, estou cá com uma dorzinha com a qual não estou podendo. Ela sempre faz isso, pensei, esse teatro ridículo — dor nas juntas, trombose, aneurisma, pedra nos rins, cancro, já escutei de tudo. Acontece que eu estava realmente disposto a cuidar de um ancião, de repente até ouvir algumas anedotas dos outros tempos, percebem?, aprender com a experiência alheia. Quando cheguei ao CAI disse para a recepcionista que queria cuidar de idosos. Ela disse: idosos, de qual idoso o senhor quer cuidar? Eu disse: ora, qualquer um que esteja a se sentir solitário, abandonado, que queira conversar, qualquer um mesmo, não tenho preferência, quero fazer o bem. A recepcionista ficou me olhando com uma terrível cara de paisagem medieval. Ela tirou o telefone do gancho, discou uns números e de vez em quando virava-se para mim enquanto balbuciava com alguém do outro lado da linha. Comecei a refletir que aquilo tudo devia soar muito estranho para a recepcionista do CAI, alguém aparece como que do nada, pede para cuidar de um idoso, qualquer idoso. Muito suspeito. Ela colocou o telefone no gancho e disse que hoje eu podia cuidar do sr. Safranski. Pensei com os meus botões: Safranski!, com um nome desses, deve ter muita história. Eu disse: cuidarei do sr. Safranski. A recepcionista do CAI mostrou-me um formulário e apontava com os dedos — endereço, identidade, ocupação, depois assine aqui, e aqui, e aqui também. Confesso que aquela burocracia toda estava me dando nos nervos, mas racionalizei: se tenho de preencher esse formulário, é porque o sr. Safranski deve mesmo ser gente importante. Entreguei para a recepcionista a folha com os meus dados. Ela chamou um dos voluntários do CAI, certo jovem com calça jeans rasgada que levou-me até ao quarto do sr. Safranski. O velho estava deitado, sem mexer um músculo, nem mesmo as pálpebras, a televisão num volume perturbador. Antes de o voluntário do CAI se retirar, perguntei a ele se o sr. Safranski não estaria morto. O voluntário deu uma rápida olhada para dentro do quarto, como se averiguasse se o banheiro público estava ocupado, e disse: não, o sr. Safranski ainda vive. Aproximei-me da cama dele e disse: sr. Safranski, eu me chamo Francisco, estou aqui para cuidar do senhor. O velho continuava sem se mexer. Sr. Safranski?, eu disse. E nada. Decidi esticar o braço para encostar no velho e ele desviou a minha mão quando estava prestes a tocá-lo: não me toque!, ele gritou, não me toque!, não me toque! É claro que fiquei assustadíssimo. Afastei-me e perguntei se ele precisava de alguma coisa. O sr. Safranski disse que só estava ali porque os filhos dele tinham ido embora para a Argentina. Eu disse: puxa vida, eu sinto muito. Sente porra nenhuma, ele disse. Velho mal-criado, pensei, como pode? Não precisa me tratar com tanto azedume, eu disse. Não pedi para que viesse, ele disse. Bom, isto é certinho, ele não pediu para que eu viesse. Os meus filhos me abandonaram, ele disse novamente, foram morar para o Uruguai. Uruguai?, perguntei. É, Uruguai, ele disse. Ficamos a assistir à televisão sem trocar palavra. Às vezes o sr. Safranski fazia que ia se levantar da cama, desistia, e dizia: meus filhos, aqueles idiotas, me abandonaram, foram morar em Inglaterra. Era sempre um país diferente. No fim da tarde, outro voluntário do CAI bateu à porta e falou que o horário de visitação havia terminado. Tentei me despedir do sr. Safranski com um abraço. Mas ele fez uns gestos esquisitos com as mãos, como se afastasse uns mosquitos invisíveis: só quero que diga para os meus filhos que amanhã não pretendo receber visitas… Sr. Safranski.

— P. R. Cunha