Breves apontamentos à guisa de distração (i.e.: sair da cave para um merecido respiro/é domingo, sinto saudades de «bloguear»/[old habits die hard])

O facto de eu não conseguir escrever nada de muito substancial enquanto trabalho num livro inquieta-me desde os primórdios da fazenda de Paraquedas – um ensaio filosófico. É como se o livro se transformasse num buraco negro, numa estrela supergigante a sugar toda a minha (sic) criatividade. Ou, numa analogia mais mundana: o livro no qual estou trabalhando é bem o epicentro de um terramoto. Todas as ideias que tenho são transformadas e armazenadas para servirem à narrativa, ao manuscrito. A ser franco, nesta minha segunda tentativa de escrever um romance a solo tenho lidado com essa exclusividade encefálica com posturas menos belicosas. Aceito/compreendo que é assim que funciono, está na minha natureza e pronto. Tudo que penso, falo, reflito, pondero, sonho, sofro, gosto, amo, odeio acaba nas páginas da minha próxima obra. O livro é lá uma amante um bocado exigente, digo-vos isto sem receios. Mas se isto é bom ou mau, não vem ao caso agora. O importante é que eu consiga terminar o enredo de maneira satisfatória, e depois revisar o primeiro esboço, procurar as lacunas, preencher tais lacunas, tornar as personagens mais plausíveis etc. etc. Acontece de às vezes a imaginação manifestar-se em frequências pouco compreensíveis — pelo menos a mim. E vejo-me às traseiras da minha casa molhando as plantinhas, a colocar abruptamente o regador no chão, tirar do bolso das calças um bloco-notas e escrever umas coisas bem aleatórias como este epitáfio de mentirinha:

Aqui jaz P. R. Cunha
Que em vida sofria insônia
agora dorme
Tranquila
mente

Ou quiçá esta cena que esbocei ontem à noite, depois de uma tumultuosa partida de xadrez, de uma humilhante derrota para o Computer Level 9, e que só consigo imaginar (muito pretensiosamente) o Werner Herzog colocando-na, como se diz, «em prática»:

Um homem está parado com lanterna na mão. Vemos apenas a luminosidade da lanterna e uma silhueta atrás, porque o local está escuro, sombrio — talvez uma caverna. Eventualmente, o homem aponta a lanterna para um sítio específico, mas a câmera continua a enquadrar apenas o homem. Depois ele aponta a lanterna para o próprio rosto e vemos uma fisionomia aterrorizada. O homem está suando imenso, tenta mover-se mas não consegue. Ele volta a apontar a lanterna para o mesmo sítio ao qual apontara antes. Agora escutamos um outro barulho, um barulho de respiração, de algo ofegante, como se ali houvesse um animal monstruoso pacientemente à espera do último suspiro do homem para enfim começar a agir. Mas a câmera nunca se move para vermos quem (ou o quê?) estaria àquele sítio.

Acho que quando estou a trabalhar em algo a sério — quando desejo que a obra cresça bem-nutrida e tenha lá as melhores das intenções — é provável que esta atenção incondicional ao livro seja mesmo a melhor providência. O resto é apenas vestígio; sobras de um banquete altruísta oferecido por divagações errantes.

P. S.: gosto também das promessas disparatadas que fazemos quando estamos a escrever literatura — tais como «deixarei a barba e os cabelos crescerem até ao dia em que finalmente terminar o livro» etc.; extravagâncias que colocam a minha futura esposa num indigesto estado de negação.

— P. R. Cunha

Admitir que a literatura modifica a fisionomia de quem escreve

O que faz um ser humano com bom discernimento, ser humano aparentemente saudável abandonar as férias para se esconder num quarto discreto & escrever, escrever como se disso dependesse o funcionamento do Cosmos, o futuro da física quântica? Temperamento irregular, desconforto com a inércia (a clássica imagem das férias: pernas para o ar, sem fazer nada, ver o tempo passar &tc.), necessidade de endorfina (liberada enquanto se escreve), saudades do trabalho intelectual, preocupações mundanas, amor, hábito — todos podem contribuir. Uma ideia aflitiva, esse corpo estrangeiro, como citara Starobinski nalgum relato, ideia da qual o sujeito não consegue se livrar, ideia persistente.

És lá um viciado em letras, ponto. 

Outras influências benéficas para ajudá-lo no tratamento (efeitos [por vezes] temporários): música, teatro, banho de sol, banho de mar, banho gelado, filmes com a namorada, jogos, viagens, pedalar a bicicleta, entregar-se aos prazeres culinários.

Fazer promessas e não cumpri-las. Prometer: vou sair em férias, dez dias de férias, e depois não sair em férias coisa nenhuma, brincar com as expectativas dos receptores, sair em férias mais tarde, quando ninguém estiver esperando, quando todos estarão a dizer: este aí não precisa de férias, este aí até que está bem descansadinho.

Não que alguém dê a mínima para as suas férias…

Ao gosto do dia: estado maníaco (euforia, ápice), estado de depressão (vale, reino das trevas [reino das sombras]) — intervalos lúcidos. Sentir-se num carrinho desgovernado de uma montanha-russa que há anos não recebe vistoria, dar-se conta de que a trava de segurança desse carrinho não funciona. Há um looping adiante.

Nenhum escritor gosta de permanecer inativo. Nada de ficar deitado na cama. Manter-se em movimento, praticar exercícios das faculdades intelectuais & afetivas (grifo meu). 

É possível tirar férias quando o nosso trabalho já meio que se assemelha às férias? 

— P. R. Cunha