Período de gestação (é hora de diminuir a temperatura do forno, o bolo literário [pelos vistos] formou-se)

Ambíguas sensações invadem-me nesta altura em que posso, finalmente, pronunciar a frase que costuma inquietar 200 em cada dez escritores: terminei de escrever o livro.

Se por um lado o alívio e as inúmeras possibilidades deixam-me extasiado (e [para ser sincero] muito orgulhoso/vaidoso)… fica também um vazio difícil de preencher — como quando temos que dizer adeus a quem amamos imenso, ou, mais especificamente, aquilo que os pais devem sentir ao olhar nos olhos dos filhos que irão estudar algures por tempo indeterminado (talvez para sempre).

A senhora Madison reclamava com toda a gente sobre o facto de não suportar mais os caprichos do senhor Madison, que o velho e rabugento Madison causava-lhe uma ojeriza incontornável. Porém, quando o senhor Madison morreu, a senhora Madison caíra numa profunda depressão, chorava de saudades todas as noites antes de dormir, ao virar-se para o lado da cama em que o senhor Madison deveria estar.

De uma forma grotesca, insensível, metaforicamente preguiçosa: o escritor é bem a senhora Madison, e o livro que ele escreve é o senhor Madison.

Tarefa absurda, que numa altura parece nos consumir (ah!, o doce ardil da terceira pessoa do plural), que nos coloca diante de neuroses, tira o nosso sono, mas insistimos, e lá estamos novamente debruçados sobre o caderninho, ou sobre o teclado do computador, a escrever o nosso maldito/bendito livrinho.

Num rito de passagem que já se tornou hábito, compartilho convosco o que esta segunda batalha literária ensinou-me, ou simplesmente os desafios que ela veio a reforçar ainda mais. Eis:

• Seu livro nunca será escrito se você fugir dele;

• Não seja cobarde, assuma as responsabilidades da empreitada livresca (dedicação, disciplina, comprometimentos, sacrifícios etc.) de boa-vontade. Cada dia é uma incógnita, uma luta contra as mazelas da preguiça e da insegurança (a obra é boa?, estou a perder o meu tempo com este troço?, alguém além de mamã vai ler isto aqui?, e assim por diante…);

• Trabalhar sem amaldiçoar excessivamente a literatura é vital para a continuidade do livro;

• Os livros que mais valem a pena (penso por alto: Moby Dick [Melville]; Ulysses [James Joyce]; Extinção [Bernhard]; Os anéis de Saturno [Sebald]; A piada infinita [DFW]; Os ensaios [Montaigne]; A vida e opiniões de Tristram Shandy [Sterne]) são também os livros mais difíceis de escrever, obras trabalhosas que precisam de tempo. Portanto, tenha paciência;

• Lembre-se de que as diversas espécies de pessoas escritoras que habitam este planeta também estão à procura de editoras, também querem ganhar os prêmios literários, também querem ser lidas. A melhor arma contra o desânimo editorial é ser um bocado persistente;

• Comece a escrever o livro hoje. Agora. Se calhar, pare de ler imediatamente este texto disparatado e vá (ou melhor, corra!) até à escrivaninha; escreva!;

• Pare de viver em um mundo de sonhos, romantizações, fantasias, deslumbramentos. Não sei se ficou claro: mas o seu livro não se escreverá sozinho. Enquanto você fica por aí gabando-se, a dizer que é um escritor talentoso e promissor, enquanto você ilude a si mesmo, o livro encontra-se hibernado e inutilizado. Fale menos (de preferência, não fale nada), escreva mais;

• Estabeleça para si um cronograma saudável e realista. Trabalho, leituras, pesquisas apropriadas, atividade física, alimente as necessidades do seu coração (isto é: não negligencie cônjuges, familiares, amigos);

• Em excesso, você se torna «bêbado» pela literatura — acúmulo de substâncias fatigantes. Com um adequado descanso as toxinas são eliminadas, tornando-o (kudos!) sóbrio outra vez;

• A procrastinação já derrotou muitos escritores magníficos, escritores que acreditaram ingenuamente que a Providência (chame-a como preferir) estaria à disposição a tempo inteiro, bastaria uma tarde soalheira, quando desse na telha do escritor, para simplesmente escrever o maior romance de todos os tempos. É chato dizê-lo, mas, a despeito dos mitos que enaltecem escritores iluminados, isto nunca acontece. Não seja um dependente de astros, cartomantes, alienígenas, horóscopo chinês, ferraduras da sorte, figas, amuletos egípcios ou coisas desta natureza mística. Não deixe para depois o que você pode escrever imediatamente;

• Um certo sentimento de urgência, quando bem dosado, pode fazer maravilhas;

• Afinal, a vida é curta — curtíssima.

— P. R. Cunha

Breves apontamentos à guisa de distração (i.e.: sair da cave para um merecido respiro/é domingo, sinto saudades de «bloguear»/[old habits die hard])

O facto de eu não conseguir escrever nada de muito substancial enquanto trabalho num livro inquieta-me desde os primórdios da fazenda de Paraquedas – um ensaio filosófico. É como se o livro se transformasse num buraco negro, numa estrela supergigante a sugar toda a minha (sic) criatividade. Ou, numa analogia mais mundana: o livro no qual estou trabalhando é bem o epicentro de um terramoto. Todas as ideias que tenho são transformadas e armazenadas para servirem à narrativa, ao manuscrito. A ser franco, nesta minha segunda tentativa de escrever um romance a solo tenho lidado com essa exclusividade encefálica com posturas menos belicosas. Aceito/compreendo que é assim que funciono, está na minha natureza e pronto. Tudo que penso, falo, reflito, pondero, sonho, sofro, gosto, amo, odeio acaba nas páginas da minha próxima obra. O livro é lá uma amante um bocado exigente, digo-vos isto sem receios. Mas se isto é bom ou mau, não vem ao caso agora. O importante é que eu consiga terminar o enredo de maneira satisfatória, e depois revisar o primeiro esboço, procurar as lacunas, preencher tais lacunas, tornar as personagens mais plausíveis etc. etc. Acontece de às vezes a imaginação manifestar-se em frequências pouco compreensíveis — pelo menos a mim. E vejo-me às traseiras da minha casa molhando as plantinhas, a colocar abruptamente o regador no chão, tirar do bolso das calças um bloco-notas e escrever umas coisas bem aleatórias como este epitáfio de mentirinha:

Aqui jaz P. R. Cunha
Que em vida sofria insônia
agora dorme
Tranquila
mente

Ou quiçá esta cena que esbocei ontem à noite, depois de uma tumultuosa partida de xadrez, de uma humilhante derrota para o Computer Level 9, e que só consigo imaginar (muito pretensiosamente) o Werner Herzog colocando-na, como se diz, «em prática»:

Um homem está parado com lanterna na mão. Vemos apenas a luminosidade da lanterna e uma silhueta atrás, porque o local está escuro, sombrio — talvez uma caverna. Eventualmente, o homem aponta a lanterna para um sítio específico, mas a câmera continua a enquadrar apenas o homem. Depois ele aponta a lanterna para o próprio rosto e vemos uma fisionomia aterrorizada. O homem está suando imenso, tenta mover-se mas não consegue. Ele volta a apontar a lanterna para o mesmo sítio ao qual apontara antes. Agora escutamos um outro barulho, um barulho de respiração, de algo ofegante, como se ali houvesse um animal monstruoso pacientemente à espera do último suspiro do homem para enfim começar a agir. Mas a câmera nunca se move para vermos quem (ou o quê?) estaria àquele sítio.

Acho que quando estou a trabalhar em algo a sério — quando desejo que a obra cresça bem-nutrida e tenha lá as melhores das intenções — é provável que esta atenção incondicional ao livro seja mesmo a melhor providência. O resto é apenas vestígio; sobras de um banquete altruísta oferecido por divagações errantes.

P. S.: gosto também das promessas disparatadas que fazemos quando estamos a escrever literatura — tais como «deixarei a barba e os cabelos crescerem até ao dia em que finalmente terminar o livro» etc.; extravagâncias que colocam a minha futura esposa num indigesto estado de negação.

— P. R. Cunha

uma forma literária de dizer-vos «até breve» porque à fazenda de um livro que consome-me imenso tempo

prframe

quando sentes a fisgada ácida do ansiolítico a tocar-te a ponta da tua língua sabes direitinho que tudo ficará bem precisas do ansiolítico para sobreviver porque possuis as neuroses os pavores estás rodeado de máquinas basicamente máquinas de sumo e de sandes e de bebidas açucaradas e de chocolates tipo m&m’s e skittles e máquinas de café com chávenas assinadas por algum artista hipster que vive para os himalaias as cápsulas de café com tampa de alumínio a agulha da máquina de café nespresso que perfura essa tampa de alumínio e a nespresso começa a atritar a grasnar a rosnar e a cuspir o café tudo muito techno erótico uma nespresso cor de laranja com as superfícies laterais removíveis ao passo que o dono da nespresso pode lá alterar as superfícies laterais de acordo com o próprio humor e a nespresso da sala de espera do psiquiatra tem a cor de laranja talvez para animar um tanto a digamos assim diretamente sem pudores a clientela cor de laranja para animar a clientela e podes perceber que a terapiacromovisual dá resultados pelo menos se levares em conta a dama que se dirige à nespresso com postura de pessoa normal e por isso mesmo sem parecer absolutamente com uma pessoa normal vai até à nespresso beberica o café com muito apreço como se fosse a lady di princesa de gales com aquele dedinho perturbador dedinho voltado para cima dedinho erguido beberica o café nespresso cápsulas com sabores exóticos e sentes vontade dizer ei lady di aqui somos todos doidinhos não precisa de fazer pose tome o café que nem doida quer enganar a quem máquinas de toda a sorte como tu estavas a falar máquinas de guloseimas máquinas de morte mas também máquinas de literatura como as que serão instaladas em canary wharf londres com histórias curtas que podem ser lidas entre as estações do metropolitano e tratar deste assunto causa-te um certo entusiamo é irresistível o passageiro dirige-se às máquinas de literatura produzidas pela francesa short édition escolhe entre uma trinca de opções que são estas histórias que podem ser lidas em um minuto ou histórias que podem ser lidas em três minutos ou histórias que podem ser lidas em cinco minutos a depender do trajeto percorrido pelo supracitado passageiro pressiona uns botões e voilà sai um papel simpático com contos de nomes consagrados das letras britânicas como virginia woolf charles dickens lewis carroll e nomes mais contemporâneos como anthony horowitz que anda de metropolitano todos os dias e vê toda a gente com o olhar colado às apps aos jogos aos tweets às fotografias no instagram de pessoas que se retratam felizes mas por dentro são terrivelmente solitárias e que a ideia das máquinas de literatura é usar o tempo que se passa dentro do metropolitano em algo que seja entretido e que pode sair em formatos miúdos como a própria literatura e agora para seres franco connosco dizes que estás a sentir uma branda melancolia pois não consegues imaginar uma máquina dessas chegando ao brasil talvez nem nos próximos duzentos anos mas quando tu sentes a fisgadinha do ansiolítico nada importa perguntas o que é arte e perguntas isto porque pintaste um quadro rigorosamente despropositado e ninguém gostara da coisa até que compraste uma moldura e colocaras a pintura dentro do compartimento da moldura e de súbito começaram a elogiar o teu trabalho como ocorrera no caso de mark wallinger que selecionara um cavalo que participou em competições e simplesmente nomeou-o desta forma uma verdadeira obra de arte nomear o cavalo dar a conhecer a sua existência sem mais e o cavalo torna-se uma obra de arte da mesma maneira que a tua pintura sobre colagem de jornais velhos tornara-se um bocado mais arte depois de colocada dentro do compartimento da moldura pois muitos estão acostumados a ir a museus e às galerias famosas e é bem desse jeitinho ou seja dentro de molduras que eles apreciam ou melhor que eles consomem arte o lixo que vira arte se dentro do compartimento da moldura ou se uma galeria de arte diz isto é arte então toda a gente acredita porque afinal é papel da galeria de arte indicar o que é arte e o que não é arte do contrário falaríamos todos um incompreensível idioleto que nada mais é do que a variação de uma língua única a um indivíduo e se quiseres ser ousado podes também adotar neologismos tipo arteoleto artolecto artlecto ou coisa assim mas é hora de prestares atenção ao psiquiatra à ida ao psiquiatra que envolve escutar o barulho do ar condicionado aparelho que faz um barulho mais ou menos assim trrrrrrruuuuuuummmmmmmm envolve esperar à sala de espera esperar mais do que imaginastes suponhamos que tu tenhas uma consulta marcada para as quinze horas então é melhor teres paciência porque serás atendido às 16h não necessariamente em ponto e ficarás sentadinho no sofá de espera e quem sabe tens contigo um livro ou um pedacinho de papel e começas a anotar freneticamente uma caralhada de pensamentos avulsos e anota isto logo anota isto para não esqueceres e tu anotas tudo barulho do ar condicionado trummmsmmsmsmsmmss o outro paciente que espera contigo à sala de espera um homem à volta de 45 idades talvez mais digamos cinquenta e tal homem com cinquenta e tal anos que não aceita a idade que tem e veste-se à moda jovem abandonado por mamã com camisa desabotoada calças de ganga estrategicamente rasgadas nos lugares certos por mãos habilidosas made in taiwan adidas branco com cadarços brancos meias brancas cano soquete também conhecidas como meias invisíveis passa uma série netflix na televisão da sala de espera do psiquiatra uma série sobre pescadores ariscos anota tudo isto anota antes que esqueças truuuuummmmmmss faz o ar condicionado e o psiquiatra abre a porta e chama o teu nome e tu entras ao consultório do psiquiatra e ele cordialmente pede para que tu te sentas e tu sentas direitinho com as mãos guardadas sobre os joelhos e tu não consegues evitar tu olhas para o banco ao lado do teu e a almofada do banco tem ainda o formato da bunda do paciente anterior e aquilo constitui para ti um verdadeiro motivo de risota e começas então a duvidar da tua maturidade se tens mesmo a maturidade para ires falar ao psiquiatra falar que sentes isto sentes aquilo mas fazes tudo para ter contigo o teu ansiolítico de forma que não dás as risadas e sentes a boa expectativa ao estilo oba sairei daqui com a minha receita medicamentosa mais um mês sob controle sem causar danos e ou magoar as pessoas que amo tanto controladinho receita medicamentosa ires à farmácia ires à drogaria ao mercado das drogas lícitas das drogas socialmente permitidas das drogas cujos conteúdos não irão colocar-te dentro de cárceres nem nada dessa natureza drogas que até mesmo as autoridades da lei compram sem serem incomodadas ires à drogaria portanto e comprares o ansiolítico 28 pílulas do ansiolítico que te mantêm à superfície por vinte e oito dias e tu sentes a vontade de perguntar ao teu psiquiatra se ele poderia ser bondoso e receitar de repente como quem não quer nada receitar-te umas tantas cartelas com 52 pílulas 544 pílulas mil pílulas edição deluxe do ansiolítico ao passo que tu terias não 28 dias de superfície mas sim mil dias de superfície mil dias sob controle aproximadamente três anos de bons comportamentos fisgada do ansiolítico na língua na ponta da língua para seres sempre mais exato ponta da língua como um ritual o ritual do ansiolítico consiste em deixá-lo na ponta da língua o máximo de tempo que conseguires justamente para prolongares a fisgada depois bebes a água de maneira normal como sempre fizeste quantidade certa de água à guisa de evitares que a pílula fique presa no meio da tua garganta causando-te preocupações desnecessárias pois podes imaginar como seria morrer engasgado com um comprimido de ansiolítico no meio da garganta assim ó e apontas o dedo para a garganta chegas mesmo a colocar o dedo dentro da garganta sentindo um refluxo enjoativo como se fosses vomitar a sério então tu sais do psiquiatra com a receita habitual à caixa da praxe 28 pílulas e sentes uma fome terrível de forma que agora estás numa praça de alimentação de um shopping mall à espera de um alimento levemente nutritivo e notas que uma funcionária sai da loja de vender móveis dirige-se ao corredor das toaletes dos aposentos sanitários das casas de banho enquanto ela olha fixamente para o relógio de pulso e agora ficas a refletir no que estaria a pensar a funcionária da loja de vender móveis num encontro num amante na filha com problemas na escola ou no horário de chegada do voo da avó que vem de longe e sempre que vem de longe a vovó reclama da falta de espaço destes assentos modernosos das aeronaves modernosas e via de regra a vovó entra numa espiral nostálgica a dizer que nos meus tempos ela diz nos meus tempos as companhias aéreas ofereciam verdadeiras refeições e os talheres eram de metal e as taças eram de vidro de verdade e as hospedeiras de bordo davam os devidos bons-dias e os hospedeiros de bordo davam as devidas boas-noites e que as velhas d’aquele tempo não morriam de tromboembolia pulmonar porque os assentos eram espaçados mas os assentos atuais ela diz são verdadeiros assassinos tão grudados tão absolutamente colados uns nos outros que a impressão diz a vovó para a neta no caso a funcionária da loja que vende móveis a impressão diz a vovó é que as viagens aéreas tornaram-se tão irritantes quanto as viagens rodoviárias talvez ainda mais irritantes porque a pessoa que compra um bilhete de avião acha que está a pagar pelo conforto mas não está a pagar por conforto nenhum diz a vovó talvez até esteja a pagar pela própria morte tromboembólica e que os aviões não seriam outra coisa senão autocarros alados mas são tantas as possibilidades que tu perdes o interesse pela funcionária da loja de vender móveis deixas que ela possa ir sossegadinha à casa de banho e ficas a esperar o teu alimento acontece que tens uma curiosidade insaciável dentro desta tua cabeça estranha e ficas a olhar agora para a moça da mesa ao lado que não tira os olhos do telemóvel nem quando o garçom lhe traz a sande de guacamole e ela meio que come toda inclinada com uma das mãos segurando a sande de guacamole e a outra mão segurando o telemóvel e reclama consigo mesma quando uns bocadinhos de guacamole caem em cima do ecrã do telemóvel e o garçom se ri todo como se dissesse bem feito de aí chega a tua refeição comes a tua refeição utilizando métodos mindfulness total atenção à refeição tomas o sumo de amora e logo estarás preso num engarrafamento muitos carros que quase não saem do mesmo sítio e brasília doesn’t give a goddamn fuck e colocas umas músicas do tempo em que moraste em são petersburgo aproveitas que o trânsito não anda abres a app do spotify e estás escutando o álbum guns tonight da banda superfamily e sentes saudades da rússia sentes saudades dos teus 24 anos quando a mamã e o papá achavam que tu serias enorme mas agora estás preso num engarrafamento e o motorista à direita tira pêlo do nariz uma meleca do nariz e a motorista da esquerda manuseia o próprio telemóvel chorando e tu aumentas o volume e te apetece fechar os olhos apenas escutar superfamily quando chegas a casa vais direto para o banho um merecido banho e de súbito começas a rir parece um louco rindo sem parar enquanto analisas o frasco do shampoo que a tua namorada comprara e não queres fazer má propaganda do shampoo porque a tua namorada tem uns cabelos maravilhosos e acreditas que o shampoo seja um dos responsáveis pelos cabelos maravilhosos da tua namorada mas não consegues manter a seriedade diante do excesso de adjetivos disparatados que a embalagem do shampoo elseve óleo extraordinário da l’oréal paris oferece a começar pelo micro-óleos de flores preciosas o que seriam 1) micro-óleos e 2) flores preciosas e logo abaixo inovação leveza infinita suavidade infinita brilho excepcional vitalidade deslumbrante ao leres estas piadas começas a imaginar uns cabelos com suavidade e leveza infinitas começas a imaginar o fim do cosmos o fim do universo o fim de tudo e mesmo assim uns cabelos que continuam com suavidade e leveza infinitas e agora tu queres ajudar os publicitários de l’oréal tu queres definir a palavra infinito isto elseve-oleo-extraordinario-loreal-paris-kit-D_NQ_NP_677505-MLB25036260328_092016-Fé que não tem nem pode ter limites ou fronteiras no tempo ou no espaço em extensão ou magnitude ilimitado infindável desmesurável e por mais que os cabelos da tua namorada sejam realmente magníficos por mais que sejam cabelos muito muito muito bonitos eles estão longe de terem essas características infinitas e ainda bem porque do contrário acharias o cabelo dela e de outras gentes que utilizassem o shampoo elseve da l’oréal paris algo muito assustador de qualquer forma decides arriscar e passas o shampoo elseve da l’oréal paris no teu próprio couro cabeludo para veres o que acontece sentes uma suavidade porém nada de suavidade infinita e também uma leveza mas não é uma leveza infinita um brilho talvez mas bem longe de excepcional e tudo o que queres e ficar sentadinho ao computador com as tuas neuroses com as tuas manias de grandeza obsessões queres registrar os acontecimentos do teu dia e depois quem sabe dar continuidade à leitura do yukio mishima antes de dormires.

— p. r. cunha

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha

Sra. Carmen & Grand Hotel Abyss (sobre escrever livros estranhos)

Na época eu estava a passar por dificuldades financeiras, como facilmente se compreende, e a sra. Carmen ficou sabendo e me disse assim: posso te ajudar, criatura, mas com uma condição. A sra. Carmen, para quem não sabe, tem noventa e seis anos, dama grisalha, capciosa, imenso apetite sexual. Precisas apenas de permanecer um tempinho comigo, todos os dias, ela explicou, coisa de duas ou três horas, à sala do meu apartamento, eu te observo, podes ler também se quiseres. Mas, sra. Carmen… — eu disse. E a sra. Carmen fez «Shhhhh!, Shhhhh!!!!, Shhhhh!!!!!», é pegar ou largar. Eu peguei. Durante dois meses fui todos os dias (menos aos domingos) ao apartamento da centenária, carregava meus livros, escrevia enquanto ela ficava a me olhar e a dizer: menino bonito, rapaz agradável, pedaço de mau caminho, pão. Por vezes a sra. Carmen pegava no sono de um jeito engraçado, toda oblíqua na poltrona verde e eu bem achava que ela tinha batido as botas. Aquilo me dava nos nervos, falo a sério. Eu então me aproximava de mansinho e ficava a esperar que a barriga dela fizesse algum movimento. Vai, barriga, move. E se a coisa demorasse a se mover eu balançava os ombros da sra. Carmen: ei, sra. Carmen, está a dormir? Ela se estremecia e os lábios respondiam com um sorriso maroto: ai, meu pãozinho, menino bonito, podes beijar-me se quiseres.

(…)

O Stuart Jeffries contou-me que havia um desentendimento entre os filósofos György Lukács e Theodor Adorno. Lukács dizia que a Escola de Frankfurt — da qual Adorno fazia parte — não dava conta de mudar na prática aquilo que criticava em teorias. Os membros desse movimento, escreve Lukács, fixaram residência no Grande Hotel Abismo: bela morada equipada com todo o conforto, à beira de um precipício, o da vacuidade, da absurdidade.

Quando começo a escrever um livro estranho, acho que também me escondo num desses hotéis, para refletir sobre os sofrimentos do mundo a uma distância segura. E isso deve fazer o esqueleto do sr. Lukács se remoer todo, a sete palmos abaixo de terra.

— P. R. Cunha

A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Então você investiu dinheiros numa obra literária — chegou em casa, sentou-se à escrivaninha e começara a folhear o livro. Alas!, trata-se de uma narrativa horrorosa, ilegível. Você, naturalmente, está agora a se sentir um bocado lesado e diz para consigo mesmo: que assim não fica, preciso de reclamar com o autor, gângster, salafrário, bandido etc.

Mas como fazê-lo?

A verdade é que quando o escritor escreve algo ruim ele acaba descobrindo de um modo ou de outro. Percebe quando se dá mudança de atenção, descobre pelo jeito diferente que dele se afastam, por se evitar comentário, pelo rosto choroso da mamã que arranca os cabelos a pensar: e o gajo largara tudo para escrever e ainda me escreve isso —, ou mesmo pelo modo indiferente da suposta pessoa amada que não consegue esconder ojeriza.

Noutros termos, quer se diga claramente ao escritor ou não, ele tomará conhecimento de alguma forma. Ao passo que saber compartilhar uma crítica com um literato (i.e.: o senhor vai me desculpar, mas o seu livro é terrível, odiei-o) é sem dúvida uma verdadeira arte.

Respire fundo, acalme-se: comunicar a notícia de maneira branda e gentil faz com que o escritor continue depositando esforços para quem sabe um dia aprender o próprio ofício adequadamente.

Quanto mais simples o modo de se expressar, mais fácil é para ele ponderar depois. Alguns apreciam quando recebem a crítica na intimidade do próprio gabinete, através de carta convencional e/ou electro-carta. Mostre que você possui um coração e evite, portanto, recorrer de imediato às redes sociais ou aos tabloides irascíveis — isso magoaria imenso o sentimento alheio. 


Post scriptum: não se surpreenda, no entanto, se mesmo depois de tanto zelo receber respostas belicosas do escriba, tais como: Tu que não compreendes patavina de literatura; Eu cá sou o melhor escritor do mundo, não te devo um vintém; Nunca escrevi para leitores d’esta geração, minha obra é para aqueles do futuro; e assim por diante.

— P. R. Cunha