O mosquito

O mosquito fica a observar o animal humano a agir feito um louco. O mosquito não tem pressa, poder-se-ia dizer que o espetáculo (i.e.: ver o animal humano em busca de objetivos supostamente grandiosos, dos segredos do Universo em expansão, de status, de fama, de dinheiros, de entretenimentos, de analgésicos contra os absurdos existenciais [livros, cursos profissionalizantes, futebol, cinema, séries Netflix, comida]), poder-se-ia dizer, portanto, que o espetáculo agrada aos sentidos do inseto, mas daí já seria extrapolar os limites do bom senso; afinal, o mosquito é apenas um mosquito. A verdade é que numa altura o animal humano está de pé a realizar todas essas tarefas, e numa outra o insignificante mosquito decide-se ir até ao animal humano para lhe transmitir dengue, zika, malária, febre oropouche e não só. Daí o animal humano não fica mais de pé, não mesmo.

— P. R. Cunha

Robô

Para o amigo olivarui

O robô não sente dor
não faz greve
não se rebela
não precisa do horário de almoço
não engravida
não sofre acidente de trabalho
não exige indenização
não tem problema cardíaco
não bebe demasiadamente
não escreve poesia
não sangra
não chora
não mente
não sente —
o robô há muito
já nos roubou.

— P. R. Cunha