Ser digital — o comportamento humano como mercadoria

Cansado das barbáries terrestres,
o astrônomo vivia para o mundo da Lua.

Somos 7.6 bilhões a habitar esta errante bolota de pedra. De acordo com o portal statista.com 2.6 bilhões têm conta em alguma rede social (o Facebook, por exemplo, possui 2.23 bilhões de usuários ativos). Não é necessário recorrer a nenhuma ciência de foguete para conjecturar as possíveis direções dessa locomotiva desvairada: daqui a algumas décadas, toda a gente terá um telemóvel para chamar de seu, cada vez mais operações serão realizadas via rede web e isso faz pensar que os realizadores de filmes de zumbis não estavam assim tão distantes da realidade quando retrataram humanoides melancólicos a vagar algures com vistas a um horizonte invisível. No caso do Homo digital, fitar-se-á dispositivo de telecomunicação enquanto algoritmos (machine learning) oferecerem as devidas alternativas de: 1) consumo; 2) em quem votar nas próximas eleições; 3) por quem se apaixonar; 4) qual o trabalho mais adequado para si; 5) etc. Atualmente, a economia se mostra deveras preocupada com possíveis catástrofes naturais, com a escassez de benzina, crises hídricas. Porém, em breve, as commodities mais valiosas estarão voltadas para o «digital self». De aí, quando a ficção científica se tornar corriqueira, talvez alguém se lembre de 2018 com certa nostalgia — uma época em que ainda podíamos gozar de qualquer privacidade.

— P. R. Cunha

Quarta nota #2 — quem tem medo da gramática portuguesa (o dia em que encontrei o professor Pasquale a tirar uma selfie com o Palácio do Planalto atrás de si)

§ Muitos sentem um horror inominável quando diante da gramática portuguesa porque tratam-na como se fosse um conjunto rígido de leis e sentir-se-iam verdadeiros criminosos se infringissem tais regras quando verdade seja dita as instruções gramaticais servem para nortear e não para decapitar são acordos tácitos e se você não está a escrever para alguma banca de concurso público banca formada por verdadeiros dinossauros semânticos com voz passiva se você está portanto a anotar literaturas então permita-se um bocadinho de erro um bocadinho de escrita contínua um bocadinho de ousadia e não deixe que nem uma vírgula sequer se intrometa no meio do caminho.

§ Dirigimo-nos para a terceira década de Internet e é preciso estar mesmo muito ocupado com o ecrã do telemóvel para não perceber que o imediatismo à velocidade da luz não é lá muito a praia do Homo sapiens com cérebro analógico (20 W / 200 Hz).

§ Robô que Max adquirira tinha um metro e sessenta e cinco de altura, busto: oitenta centímetros; quadril: noventa centímetros; pernas longas, pescoço alongado, pele macia, robô atraente — Max pagara a taxa extra e a Robotpartner™ comprometera-se a entregar robô no apartamento dele num prazo de quarenta e oito horas.

§ A mesma luz que cega a alguns ilumina as trevas de outros. E a física quântica nos ensinara que as grandes coisas não costumam concordar com as pequenas coisas. Impasses da realidade contemporânea.

§ «Quando nosso ódio é intenso de mais, põe-nos abaixo de aqueles a quem odiamos», um notável disse isso, no moderno século XVII.

§ Entregar-se ao small talk sobre os motivos de se fazer arte enquanto bebe café Colômbia com arábica de colheita tardia, intensidade seis, acompanhado de cocoa-70% e sentir-se vivo e útil e sem culpas.

— P. R. Cunha

Mobilidades (modelos transitórios)*

Pelos vistos, toda a gente tem um amigo ou uma amiga que já dissera: o telemóvel está a arruinar-nos. 

Camila e Martin estão sentados nalgum café, conversam a respeito de miudezas e comem o croissant misto; não têm telemóvel. À mesa ao lado estão Lúcia e James que nunca se olham, porque atentos ao ecrã luminoso do próprio mobile. Camila e Martin mostram-se agora incomodados, porque perceberam que praticamente todos os frequentadores do café utilizam o telemóvel da forma mais natural e despreocupada possível, como se em universos paralelos. 

Paradoxalmente, Camila e Martin ao cultivar um encontro humano sentem-se desumanos, inadequados, desconectados, deslocados — assim por diante.

Elon Musk há muito defende a ideia de que os telemóveis se tornaram uma espécie de prótese essencial para o Homo sapiens. Fulano esquece o aparelho em casa e o cérebro entra em parafuso como se estivesse a ter abstinência de cocaína. Aliás, uma ressonância magnética mostraria que a estrutura cerebral de um viciado em drogas e a de um viciado em telemóvel possuem mais semelhanças do que gostaríamos de acreditar.

Certa senhora de noventa e um anos observa os netos a brincar com os respectivos telemóveis durante o almoço e lembra que com o rádio e com a televisão acontecera a mesma coisa. Os meios de comunicação a invadir a privacidade da família, diz a vovó, não se pode mais fazer as refeições em paz.

Uma simpática analogia compara os telemóveis às enciclopédias de outrora. Como aquela propaganda de telefonia que diz: estás a carregar um mundo de possibilidades nas mãos, nunca foste tão inteligente, aproveita. 

Mas há quem ainda prefira comparar o telemóvel com o urânio. A saber: se pouco enriquecido (2% a 4%), o urânio proporciona excelente alternativa energética; mas se altamente enriquecido (90% a 99%), então teremos de lidar com bombas atômicas capazes de destruir rapidamente a humanidade.

— P. R. Cunha


*Como publicado na imprensa em julho de 2018.