Abismos do inferno

Pequeno homem velho
descalço e curvado
caminha sobre as terras
d’um deserto escaldante
ele então encontra
esta mulher que cobre
o rosto para se proteger
do vento granulado
a mulher lhe diz:
para além desta
montanha de areia
há outra montanha de areia
e depois mais outra
montanha de areia
e mais outra
e mais outra
infinitamente
ao que homem velho
balança a cabeça grisalha
resignado
como quem entendesse
a mensagem
e segue a caminhar
sobre o solo de fogo
do deserto sem fim.

— P. R. Cunha

Antídotos literários / confissão

Uma amiga geóloga certa vez me disse que quando não estava a estudar as alterações da crosta terrestre, quando não estava, portanto, a praticar a própria geologia, ela tinha febre, sofria de tristezas, comportamentos irascíveis, neuroses prontas para atacá-la. O mesmo parecia ocorrer quando papai não exercia a medicina: tornava-se taciturno, atormentado, lembrava-se de que era apenas um homem, incontáveis adversidades o afligiam, comia pouco, falava pouco. No meu caso cheguei à conclusão de que só sei escrever — e com isso não estou a colocar juízo de valor na empreitada (isto é: se bom ou mau escritor). Há muitos seres humanos que possuem carteira de motorista mas não dirigem os automóveis com destreza; o mesmo ocorre em toda a parte, com todas as profissões. Se levarmos em consideração os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sobre a expectativa de vida do homem brasileiro — 75,8 anos —, estou a caminhar para a metade da minha existência e sinto-me satisfeito por já ter chegado à conclusão de que só sei escrever, escrever todos os dias, e praticar também todas as outras atividades que orbitam a escrita: ler, contemplar, ouvir, pesquisar etc. etc. Se passo um dia sem escrever fico meio louco, imprudente, fraco, desgovernado, acato todas as perturbações neurológicas, apetite incorrigível, soterrado em melancolia, pouco saudável, péssima constituição, olheiras, alma (ou isso a que chamam de alma) gélida, intemperanças diversas — as dores e as mazelas e as consequências e o tempo de recuperação aumentam à medida que os dias se passam e não me sento para escrever —, frenesi, letargia, memória fraca, pouca imaginação/razão corrompida, como diria um antigo, insônia, delírios, e a escrita parece ser o único remédio, a escrita como conforto, subterfúgio, escrita-abrigo. Numa palavra: se não escrevo, vivo morto etc.

— P. R. Cunha