Estão a esquartejar a cultura brasileira

Dados divulgados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil demonstram que o brasileiro lê 2,43 livros por ano. À guisa de contraste, os franceses leem 21. Esses números, obviamente, contêm distorções — são médias. Há quem leia 50 livros, outros podem ler apenas um, muitos sequer chegam à folha de rosto. Sugiro, porém, que no decorrer desta breve digressão mantenhamos o resultado «brasileiro lê 2,43 livros por ano» em mente.

Os ditadores do século 20 compreenderam sobremaneira a força (e o «perigo») de uma sociedade instruída, que aprecia a leitura, que mantém ativos os próprios hábitos intelectuais. Não à toa queimaram livros. A fogueira nazista com obras consideradas perniciosas é um emblema desse tipo de paranoia. 

No romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, as personagens precisam de memorizar tudo que conseguem ler porque «a mente está a ser editada pelas forças armadas, os livros se transformaram em cinzas» — a história, como sabemos, é controlada pelos interesses dos vencedores.

Agosto de 2019. Durante a 19ª edição da Bienal do Livro do Rio, fiscais da prefeitura carioca saíram à caça de obras consideradas impróprias. Impróprias? Segundo o prefeito Marcelo Crivella o conceito é bem simples: tudo aquilo que não se adequa aos valores evangélicos. (Verdadeiro duche de água fria àqueles que ainda acreditavam no conceito de Estado laico, imparcial às questões religiosas, no qual o Brasil, teórica e constitucionalmente, deveria estar inserido.)

Por fim, o Supremo Tribunal Federal ofereceu um facho de alívio ao ratificar a liberdade de discurso, e que a Bienal funcionasse sem o risco de «censura genérica».

A outra frente que ameaça o acesso aos livros nestes solos tropicais: os pedidos de recuperação judicial de diversas livrarias brasileiras que andam às bermas da falência. Letárgico processo que deve se alastrar por tempo indeterminado, mas que já deixou marcas de selvageria. Em Brasília, por exemplo, quem passa pela Livraria Cultura do shopping Iguatemi percebe que a loja fôra decapitada, ou pior, esquartejada por uma grande rede de produtos informáticos. 

Um novo horizonte de computadores, smartwatches, telemóveis, gizmo…

Como se os livros não conseguissem mais sobreviver sozinhos por aqui, como se estivessem queimando num outro tipo de fogueira — sem chamas, porém tão devastadora quanto as labaredas que ardem a 451 graus Fahrenheit, a temperatura na qual o papel do livro pega fogo.

— P. R. Cunha


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O autor deste blogue esconde-se atrás da figura de Ray Bradbury.

Adolf Hitler — uma tragédia anunciada

Durante os intervalos das aulas do curso de filosofia expus para os meus professores algumas hipóteses que explicariam (ou pelo menos tentariam explicar) a ascensão de Hitler ao poder, como ele se tornou possível. O objetivo era apenas comentar brevemente sobre determinados pontos que amiúde norteiam as minhas reflexões a respeito daquilo a que W. G. Sebald chamara de História natural da destruição. No entanto, como da praxe, devo ter me agitado mais do que o necessário, de forma que finalmente tiveram de sugerir que eu escrevesse e publicasse este «artigo». O texto que se segue é o resultado de uma empreitada filosófica que pretende ser sintética e objetiva.

 

I

Teorias conspiratórias à parte, aceita-se que no dia 30 de abril de 1945, ciente da aproximação do Exército Vermelho, Adolf Hitler cometera suicídio no próprio bunker em Berlim. Envenenamento por cianeto e tiro de pistola na cabeça. Meses depois, a Segunda Guerra terminaria e a comunidade internacional ver-se-ia diante de um macabro impasse: o que fazer com as autoridades nazis que sobreviveram?

Após ardilosas negociações — principalmente para conter os ânimos de diplomatas russos que exigiam medidas drásticas a fim de vingar a morte de mais de 20 milhões de soldados e civis soviéticos (de longe a nação que mais sofrera baixas durante os combates) —, os Aliados chegaram ao histórico consenso: organizariam uma série de encontros jurídicos para decidir as punições adequadas àqueles que durante anos comandaram a burocracia nazista.

Que começassem os Julgamentos de Nuremberg.

Um dos proeminentes membros do partido nazi que na altura estavam a ser julgados pelo Tribunal Militar Internacional foi Albert Speer, arquiteto-chefe do III Reich e depois nomeado ministro do Armamento. Ao dizer as últimas palavras antes de a sentença ser anunciada, Speer questionou-se de forma um tanto cínica como uma nação tão avançada, culta e sofisticada como a Alemanha pôde cair nas armadilhas diabólicas de Adolf Hitler.

 

II

Vinte e seis anos antes de Nuremberg, a derrota na Primeira Guerra Mundial transformara a Alemanha numa panela de pressão imprevisível. Os termos impostos pelos vencedores no Tratado de Versalhes mostraram-se duríssimos para os interesses políticos e sociais alemães. É possível, inclusive, conjecturar se justamente o fato de a Alemanha ser uma nação culta, civilizada e sofisticada não teria acentuado ainda mais o revanchismo daqueles que, como Hitler, participaram do conflito e sentiram-se absolutamente humilhados com a forma que foram tratados depois.

Poder-se-ia observar também que essas características culturais que começavam a traçar os esboços do nacionalismo paranoico à moda Mussolini em Itália eram (e são) construções artificiais, mutáveis, narrativas criadas para manter certa coerência e justificar a arbitrariedade de fronteiras imaginárias. Vale lembrar que o Estado moderno como é conhecido atualmente só começou a surgir na segunda metade do século XV e passaria ainda por inúmeras transformações durante os séculos seguintes. Não seria exagero dizer que o orgulho ferido dos alemães depois de novembro de 1918 era, em muitos aspectos, baseado em ficções — literatura.

O problema de se misturar conto de fadas com política é que a fantasia pode se mostrar instável quando as condições reais não forem assim tão favoráveis. Num contexto de sobrevivência natural, o muro de papel construído com identidades arbitrárias (hinos, bandeiras, leis, mitos formadores) é o primeiro a ruir, expondo as entranhas de uma sociedade que se sentirá perdida sem o amparo da bússola cultural. Foi o que aconteceu com a Alemanha no século XX; duas vezes.

 

III

A tradição alemã, e aqui cito Karl Jaspers, demonstra que o povo germânico foi educado, durante longos períodos, a ser obediente, a ter uma índole dinástica, a ser indiferente e irresponsável diante da realidade política. A Alemanha seria um país que se acostumara com a autoridade, onde as pessoas, via de regra, fazem aquilo que lhes ordenam sem criar confusão.

Gustave Gilbert, que trabalhou como psicólogo dos prisioneiros durante o Julgamento de Nuremberg, escrevera ainda que os alemão sempre obedeceram aos pais, aos professores, aos clérigos, aos superiores. Desenvolveram-se para não questionar figuras de liderança.

Quando nas décadas de 1920 e 1930 a panela política enfim explode, os alemães se deparam com um Estado tampão chamado República de Weimar, quebrado economicamente, sem qualquer perspectiva de melhora — um povo à procura de bodes expiatórios para explicar como um país tão avançado, culto e sofisticado como aquele pôde cair naquele abismo surreal.

 

IV

Em 23 de março de 1933, a República de Weimar é dissolvida e os alemães exigem um novo líder, um salvador à moda antiga, alguém para acertar as contas. É crucial ressaltar isto: por mais carismático e persuasivo que Hitler fosse, ele só foi possível porque os alemães queriam, precisavam de um herói. E, assim como Napoleão, Hitler aproveitou-se do caos instaurado, compreendeu o que as massas desejavam ouvir. Ofereceu-lhes o plano perfeito, a realidade que aspiravam.

Portanto, à medida que Hitler e o partido nazi começaram a destruir todas as instituições democráticas com o pretexto de «recolocar a Alemanha no protagonismo que ela sempre mereceu», muitos alemães (e aqui encontra-se certo cabimento nas generalizações tradicionais) acharam perfeitamente normal acreditar e apoiar de forma irrestrita os mandamentos que o Führer pregava.

 

V

Outro fator foi preponderante não só para o estabelecimento da ideologia nazi, como também para a manutenção de Hitler no poder por mais de uma década. Curiosamente, um dos primeiros a denunciá-lo foi o próprio Speer, durante o Julgamento de Nuremberg: a manipulação estratégica das comunicações modernas. 

Com a popularização do rádio, por exemplo, o líder não precisava mais de enviar ordens que demoravam dias para chegar até aos subordinados, que teriam então de repassar a mensagem sem a força e o carisma necessários. Hitler falava diretamente com o eleitorado, entrava na intimidade dos lares alemães, conversava com pais, filhos, avós, tios de uma forma até então inimaginável.

Hoje em dia muitos já se acostumaram com a onipresença das mídias, com as mensagens instantâneas, informações a um clique de distância, mas na década de 1930 escutar a voz de alguém que não estava na mesma sala, ou sequer na mesma cidade, era ainda qualquer coisa de fantástico. O rádio e os filmes produzidos pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels tornaram Hitler ainda mais místico, mágico, venerável: uma entidade sobrenatural. 

O palco estava armado para que o Führer saciasse a vontade do povo que o idolatrava.

 

VI

Alemanha com raízes belicosas, pormenores geográficos que geravam necessidade de se manter militarmente forte a todo o instante, a vontade de se ter um líder para proteger as fronteiras dos invasores (um pouco como aconteceu/acontece com a Rússia), crises econômicas, propaganda falsa e paranoica, a tentativa de se encontrar um substituto divino diante da impotência religiosa, a busca por soluções precipitadas, ilusórias. Uma nação ressentida, diplomaticamente humilhada, um desastre anunciado.

Procurei apresentar o panorama instável que preparou o caminho de Hitler ao poder. A discussão, porém, é uma colcha de retalhos que não dá qualquer sinal de encolhimento. Melhor que seja assim. O nazismo e as peculiaridades do contexto no qual ele estava inserido não podem ser esquecidos; principalmente se levarmos em conta a conjuntura política contemporânea.

— P. R. Cunha


Referências bibliográficas

BESSEL, Richard. Alemanha, 1945, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FEST, Joachim. Conversas com Albert Speer, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

GELLATELY, Robert. Apoiando Hitler, Rio de Janeiro: Record, 2011.
JASPERS, Karl. A questão da culpa, São Paulo: Todavia, 2018.
REES, Laurence. O carisma de Adolf Hitler, São Paulo: Leya Casa da Palavra, 2013.

RYBACK, Timothy W. A biblioteca esquecida de Hitler, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.