Se me permitem fazer referência a experiências pessoais

Parado
Diante da minha biblioteca
Quase aprendo a me calar

A minha biblioteca é um organismo vivo. Quem também cultiva uma sabe do que estou falando. Os livros que possuo dizem mais sobre a minha personalidade do que qualquer voz humana. Biblioteca — coisa curiosa, holograma das próprias aspirações. A seção de história alimenta a memória, não me deixa esquecer. A prateleira de filosofia (com Nietzsche, Adorno, Montaigne, Sêneca, Platão, Benjamin, Horkheimer, Heidegger [e não só]) traduz os pensamentos. Enquanto os romances — de Flaubert a McEwan — tratam das mazelas emotivas. Cabeça, coração, e alma. Há também os livros pelos quais um dia me apaixonei imenso, até pedir o divórcio, colocá-los numa caixa e doá-los. Livros, portanto, que fazem e desfazem, que ensinam sobre a transitoriedade de tudo. Livros de folhas, ao mesmo tempo resistentes e tão fáceis de rasgar.

— P. R. Cunha

Adolf Hitler — uma tragédia anunciada

Durante os intervalos das aulas do curso de filosofia expus para os meus professores algumas hipóteses que explicariam (ou pelo menos tentariam explicar) a ascensão de Hitler ao poder, como ele se tornou possível. O objetivo era apenas comentar brevemente sobre determinados pontos que amiúde norteiam as minhas reflexões a respeito daquilo a que W. G. Sebald chamara de História natural da destruição. No entanto, como da praxe, devo ter me agitado mais do que o necessário, de forma que finalmente tiveram de sugerir que eu escrevesse e publicasse este «artigo». O texto que se segue é o resultado de uma empreitada filosófica que pretende ser sintética e objetiva.

 

I

Teorias conspiratórias à parte, aceita-se que no dia 30 de abril de 1945, ciente da aproximação do Exército Vermelho, Adolf Hitler cometera suicídio no próprio bunker em Berlim. Envenenamento por cianeto e tiro de pistola na cabeça. Meses depois, a Segunda Guerra terminaria e a comunidade internacional ver-se-ia diante de um macabro impasse: o que fazer com as autoridades nazis que sobreviveram?

Após ardilosas negociações — principalmente para conter os ânimos de diplomatas russos que exigiam medidas drásticas a fim de vingar a morte de mais de 20 milhões de soldados e civis soviéticos (de longe a nação que mais sofrera baixas durante os combates) —, os Aliados chegaram ao histórico consenso: organizariam uma série de encontros jurídicos para decidir as punições adequadas àqueles que durante anos comandaram a burocracia nazista.

Que começassem os Julgamentos de Nuremberg.

Um dos proeminentes membros do partido nazi que na altura estavam a ser julgados pelo Tribunal Militar Internacional foi Albert Speer, arquiteto-chefe do III Reich e depois nomeado ministro do Armamento. Ao dizer as últimas palavras antes de a sentença ser anunciada, Speer questionou-se de forma um tanto cínica como uma nação tão avançada, culta e sofisticada como a Alemanha pôde cair nas armadilhas diabólicas de Adolf Hitler.

 

II

Vinte e seis anos antes de Nuremberg, a derrota na Primeira Guerra Mundial transformara a Alemanha numa panela de pressão imprevisível. Os termos impostos pelos vencedores no Tratado de Versalhes mostraram-se duríssimos para os interesses políticos e sociais alemães. É possível, inclusive, conjecturar se justamente o fato de a Alemanha ser uma nação culta, civilizada e sofisticada não teria acentuado ainda mais o revanchismo daqueles que, como Hitler, participaram do conflito e sentiram-se absolutamente humilhados com a forma que foram tratados depois.

Poder-se-ia observar também que essas características culturais que começavam a traçar os esboços do nacionalismo paranoico à moda Mussolini em Itália eram (e são) construções artificiais, mutáveis, narrativas criadas para manter certa coerência e justificar a arbitrariedade de fronteiras imaginárias. Vale lembrar que o Estado moderno como é conhecido atualmente só começou a surgir na segunda metade do século XV e passaria ainda por inúmeras transformações durante os séculos seguintes. Não seria exagero dizer que o orgulho ferido dos alemães depois de novembro de 1918 era, em muitos aspectos, baseado em ficções — literatura.

O problema de se misturar conto de fadas com política é que a fantasia pode se mostrar instável quando as condições reais não forem assim tão favoráveis. Num contexto de sobrevivência natural, o muro de papel construído com identidades arbitrárias (hinos, bandeiras, leis, mitos formadores) é o primeiro a ruir, expondo as entranhas de uma sociedade que se sentirá perdida sem o amparo da bússola cultural. Foi o que aconteceu com a Alemanha no século XX; duas vezes.

 

III

A tradição alemã, e aqui cito Karl Jaspers, demonstra que o povo germânico foi educado, durante longos períodos, a ser obediente, a ter uma índole dinástica, a ser indiferente e irresponsável diante da realidade política. A Alemanha seria um país que se acostumara com a autoridade, onde as pessoas, via de regra, fazem aquilo que lhes ordenam sem criar confusão.

Gustave Gilbert, que trabalhou como psicólogo dos prisioneiros durante o Julgamento de Nuremberg, escrevera ainda que os alemão sempre obedeceram aos pais, aos professores, aos clérigos, aos superiores. Desenvolveram-se para não questionar figuras de liderança.

Quando nas décadas de 1920 e 1930 a panela política enfim explode, os alemães se deparam com um Estado tampão chamado República de Weimar, quebrado economicamente, sem qualquer perspectiva de melhora — um povo à procura de bodes expiatórios para explicar como um país tão avançado, culto e sofisticado como aquele pôde cair naquele abismo surreal.

 

IV

Em 23 de março de 1933, a República de Weimar é dissolvida e os alemães exigem um novo líder, um salvador à moda antiga, alguém para acertar as contas. É crucial ressaltar isto: por mais carismático e persuasivo que Hitler fosse, ele só foi possível porque os alemães queriam, precisavam de um herói. E, assim como Napoleão, Hitler aproveitou-se do caos instaurado, compreendeu o que as massas desejavam ouvir. Ofereceu-lhes o plano perfeito, a realidade que aspiravam.

Portanto, à medida que Hitler e o partido nazi começaram a destruir todas as instituições democráticas com o pretexto de «recolocar a Alemanha no protagonismo que ela sempre mereceu», muitos alemães (e aqui encontra-se certo cabimento nas generalizações tradicionais) acharam perfeitamente normal acreditar e apoiar de forma irrestrita os mandamentos que o Führer pregava.

 

V

Outro fator foi preponderante não só para o estabelecimento da ideologia nazi, como também para a manutenção de Hitler no poder por mais de uma década. Curiosamente, um dos primeiros a denunciá-lo foi o próprio Speer, durante o Julgamento de Nuremberg: a manipulação estratégica das comunicações modernas. 

Com a popularização do rádio, por exemplo, o líder não precisava mais de enviar ordens que demoravam dias para chegar até aos subordinados, que teriam então de repassar a mensagem sem a força e o carisma necessários. Hitler falava diretamente com o eleitorado, entrava na intimidade dos lares alemães, conversava com pais, filhos, avós, tios de uma forma até então inimaginável.

Hoje em dia muitos já se acostumaram com a onipresença das mídias, com as mensagens instantâneas, informações a um clique de distância, mas na década de 1930 escutar a voz de alguém que não estava na mesma sala, ou sequer na mesma cidade, era ainda qualquer coisa de fantástico. O rádio e os filmes produzidos pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels tornaram Hitler ainda mais místico, mágico, venerável: uma entidade sobrenatural. 

O palco estava armado para que o Führer saciasse a vontade do povo que o idolatrava.

 

VI

Alemanha com raízes belicosas, pormenores geográficos que geravam necessidade de se manter militarmente forte a todo o instante, a vontade de se ter um líder para proteger as fronteiras dos invasores (um pouco como aconteceu/acontece com a Rússia), crises econômicas, propaganda falsa e paranoica, a tentativa de se encontrar um substituto divino diante da impotência religiosa, a busca por soluções precipitadas, ilusórias. Uma nação ressentida, diplomaticamente humilhada, um desastre anunciado.

Procurei apresentar o panorama instável que preparou o caminho de Hitler ao poder. A discussão, porém, é uma colcha de retalhos que não dá qualquer sinal de encolhimento. Melhor que seja assim. O nazismo e as peculiaridades do contexto no qual ele estava inserido não podem ser esquecidos; principalmente se levarmos em conta a conjuntura política contemporânea.

— P. R. Cunha


Referências bibliográficas

BESSEL, Richard. Alemanha, 1945, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FEST, Joachim. Conversas com Albert Speer, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

GELLATELY, Robert. Apoiando Hitler, Rio de Janeiro: Record, 2011.
JASPERS, Karl. A questão da culpa, São Paulo: Todavia, 2018.
REES, Laurence. O carisma de Adolf Hitler, São Paulo: Leya Casa da Palavra, 2013.

RYBACK, Timothy W. A biblioteca esquecida de Hitler, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


Caderno de viagem: Évora entre ossos e feridos

Grosso-modo, estás a viver uma vida boazinha, és feliz, e as coisas amiúde correm-te apropriadamente. Até que chega a morte, a perda, um desastre e não te mostras de forma alguma preparado para o que vem a seguir.

A velha dicotomia de sempre: vida & morte, deusas imprevisíveis que lutam entre si, mas também, ao fim e ao cabo, dependem uma da outra.

Estás em conflito contigo mesmo porque passaras a tua existência em casulos hermeticamente fechados, protegido do mundo, sem lidar com a possibilidade, como se costuma dizer algures, da finitude. Nessa tua morada, ninguém morria, ninguém morreria. Era tudo calmo, era tudo certo.

(O viajante que acaba invariavelmente por utilizar elementos da própria biografia em seus relatos de viagem.)

A bandeira de Évora.

A bandeira de Évora é qualquer coisa curiosa. De longe, a trepidar ao sabor do vento alentejano, parece uma bandeira como tantas outras, com formas triangulares amarelas e vermelhas a preencher a superfície do pano. Mas se chegares perto, perceberás um brasão assustador adornado com motivos medievais. Dentro do escudo dourado, certo cavaleiro com armadura metálica ergue espada ensanguentada — é Geraldo Geraldes, o Geraldo sem Pavor, galopando um saudável cavalo negro.

Triunfante, o animal salta a cabeça de duas vítimas decapitadas, e daí compreendes a origem do sangue que escorre pela espada do supracitado cavaleiro: vem dum homem e duma mulher; mouros. A faixa branca a contornar o escudo que diz MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE ÉVORA parece querer justificar o assassínio cometido por Geraldo Geraldes.

Esta bandeira causa-te um inverno na espinha.

Dada a tua tendência natural para o inconcebível, decides agora visitar a Igreja de São Francisco, cujos limites, contaram-te, abrigam convento, museu, coleções diversas (presépios Canha da Silva), órgão setecentista, sala régia, sala dos castros, etc., além da Capela dos Ossos — construída no século XVII com o «propósito de provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana».

O céu matutino, azul e completamente sem nuvens de Évora contrastava com o vento glaciar que cortava-te a alma. Sentes aquela estranha sensação de estares a ser observado por algo ou alguém.

À entrada da Capela dos Ossos, com duas colunas ao estilo romano, podes ler a famosa inscrição:

NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS 

De início, ficas perturbado com a visão das paredes interiores — repletas de crânios, de toda a sorte de ossos humanos. Ossos que não estavam ali para brincar, isso era certinho. Mas, tal e qual ocorre com o noticiário moderno (quanto mais atrocidades alguém lê, menos escandalizado fica), a capela macabra aos poucos torna-se um bocadinho mais aprazível até que finalmente chega a altura de poder colocar o visitante no seu devido posto.

Aqueles restos de pessoas que um dia foram não te deixam esquecer de que tu também irás, cedo ou tarde, ter aquele mesmíssimo fim: transformar-te-á num mero amontoado de osteócitos, osteoblastos e osteoclastos. Serás também caveira, esqueleto.

Poema sobre a existência
(Este soneto do Padre António da Ascensão Teles pode ser lido no interior da capela.)

Aonde vais, caminhante, acelerado? 
Pára…não prossigas mais avante; 
Negócio, não tens mais importante, 
Do que este, à tua vista apresentado. 
Recorda quantos desta vida tem passado, 
Reflecte em que terás fim semelhante, 
Que para meditar causa é bastante 
Terem todos mais nisto parado. 
Pondera, que influído d’essa sorte, 
Entre negociações do mundo tantas, 
Tão pouco consideras na morte; 
Porém, se os olhos aqui levantas, 
Pára…porque em negócio deste porte, 
Quanto mais tu parares, mais adiantas.

(…)

Ouviste dizer que algumas pessoas não se aguentam nem cinco minutinhos dentro da Capela dos Ossos; não dão conta de olhar para aquele espelho cadavérico. Fogem. Mas aquela decoração esquelética causara-te outra coisa. Tens, mais do que jamais tiveras, a certeza de que o derradeiro suspiro chegará, e queres aproveitar o interlúdio da melhor maneira possível.

Refletes também a respeito dos donos daqueles ossos, se um dia teriam imaginado que um escritor brasileiro nos seus trintas, a levar uma vida algo dissipada, escreveria sobre aquela estranha morada, quatro século mais tarde.

Ficas ali dentro, em absoluto silêncio, a observar os rostos sem pele até serem horas de ir para outros sítios da Igreja de São Francisco, porque nesta vida não se pode atrasar. Poderás dormir imenso quando morreres.

Segues para a frente.

Estás em Évora, afinal.

— P. R. Cunha


O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha já se encontra disponível à lojinha do sítio web. Para mais informações, aperta aqui.

O manipulador de vidas

Vladimir Nabokov está a observar uma antiga fotografia de família e percebe que para um canto escuro encontra-se um carrinho de bebê vazio. O ano é 1899 e o carrinho foi um presente de alguma tia para o bebê Nabokov, que nascerá em abril. A presença daquele carrinho o inquieta muitíssimo. As outras pessoas retratadas sorriem de maneira despreocupada, não ligam para o carrinho vazio, não se importam com a ausência de Nabokov. Perturba-o não a morte — os milhares e milhares de anos em que tudo se passará sem ele —, mas sim os invernos em que a família viveu sem se dar conta do fato de que um dia ele iria existir. É de se perder os parafusos, dizia o Nabokov, cuja obra está repleta de memória e de como utilizá-la para alastrar-se no tempo. Estudamos o Império Romano e de súbito somos transportados para o longe, não estamos mais presos a estes setenta/oitenta anos de planeta. Regressamos aos gregos porque os filósofos de Atenas nos confortam ao mostrar que é possível desacelerar o comboio cronológico se dedicarmo-nos à contemplação, aos pensamentos, às intempéries que guardamos, como se diz, no lado esquerdo do peito. Fugir, portanto, desta cadeia temporária dentro da qual a nossa existência orgânica se mostra enjaulada até chegar a hora do suspiro derradeiro. Nabokov e tantos outros escritores que já lá pensaram um bom bocado, entraram em contato com a falta de sentido de todas as coisas e à laia de autodefesa (re)criaram para si outras possibilidades. Tentativa de multiplicar-se, sem dúvida — porque uma só vida nunca bastou. Veja o caso do rapazote contemporâneo que está sentado ao ecrã a perder-se num qualquer videojogo e quando se morre há sempre uma nova chance, reinícios. Capcioso, o videojogo. Sabemos muito bem que nada se passa dessa maneira quando nos deparamos com a realidade. O automóvel despenca do desfiladeiro, ninguém sobrevive, não há segunda chance. Mas de alguma forma conforta pensar que pelo menos preencheram o carrinho de bebê, o bebê cresceu, cá se distraiu, o bebê morreu.

— P. R. Cunha