Fragmentos de um romance inacabável (parte III) – hipermodernismos

A vida começa então a acontecer quando o Escritor se compromete a escrever o livro. Ele se torna um aspirador de ideias. E a própria vida é nada mais do que um repositório de situações as quais o Escritor deve remanejar para colocá-las no romance. Quando o Escritor está escrevendo, ele está a viver. Ele quer que o livro dure para a vida inteira. É o seu propósito.

Em criança o Escritor debruçava-se sobre a janela do quarto dos pais e observava um andarilho que sempre fazia caminhadas depois do almoço. A certeza daqueles passeios acalmava o coração do jovem Escritor. Uma rotina estabelecida: almoçar, quarto dos pais, janela, caminhadas do andarilho. Mas um dia o andarilho não apareceu, o andarilho foi descansar, explica a mãe ao menino, o andarilho está morto. Receio de mudanças e assim por diante.

As tragédias do presente abastecem os temores do amanhã. Conviver com a imprevisibilidade. Antes, controlava-se tudo; hoje — nada se controla. Admissão de impotência: eu, diz o Escritor consigo mesmo, eu nunca poderei saber o suficiente para ser capaz de prever o que quer que seja, muito menos controlar o que quer que seja. Passageiro, és um reles passageiro de um comboio que vai descarrilhar a qualquer momento. Ver hipermodernismos. 

A necessidade, porém, do Escritor de se ter uma previsão a respeito do futuro, profundo desejo de controlar, ou melhor, domesticar esse futuro. E grande relutância: não, não aceito os altos níveis de imprevisibilidade, não foi assim que fui criado etcétera.

Mas antes ele tem de saber se o leitor o quer. E quando olhamos com maior atenção, damo-nos conta que o Escritor segura um copinho de uísque na mão esquerda.

— P. R. Cunha